segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Max Stirner, uma introdução biográfica, por Christian Ferrer*



Se chamava Johann Kaspar Schmidt, e não Max Stirner, apelido pelo qual é deficientemente recordado na história da filosofia, e comemorado, pelo contrário, entre os que tomaram partido pelas ideias anarquistas. Sem dúvida, Stirner tem sido o mais curioso de todos os teóricos associados às ideias libertárias, ideias que não tenham sido tornadas mesquinhas precisamente por personalidade extravagantes e pavorosas. Toda sua vida se resume em desordem, inconstância e má sorte uma vez que esteve vinculada ao título de seu solitário livro O Único e sua propriedade. Essa obra, que gozou de um momento de fosforescência fugaz em 1844, havia permanecido na escuridão adormecida das bibliotecas públicas que não se sabe por quê John Henry Mackay, um poeta individualista a expôs novamente a luz meio século depois de ser publicada, assim como também recompilou alguns fragmentos da biografía do autor.

Max Stirner nasceu em 1806, e foi sucessivamente órfão por parte de pai, despercebido estudante de filosofia, escultor de uma módica existência boêmia salpicada de bravatas extremistas, obrigado a cuidar de uma mãe assolada pela demência, professor de um colégio de moças, autor de um único livro, microempresário fracassado, e por fim um sobrevivente que obtinha um escasso sustento da gestão de assuntos por conta de terceiros, que foi encarcerado brevemente por causa de dívidas acumuladas, e que acabou obscuramente, sem chegar à velhice, tuberculoso e na miséria, e isso em 1856. São os dados de uma vida triste e patética. A única claridade nessa penumbra lhe abriu a publicação de seu enorme livro de quatrocentas páginas, que burlou, com certas dificuldades, a censura, mas que também lhe tirou o sustento, pois foi demitido da escola onde era professor. Logo veio o esquecimento.

O período em que Stirner escreveu seu livro – na verdade, o escasso tempo em que escreveu e pensou- transcorreu em uma taberna. Mais precisamente, em uma bodega que era propriedade do senhor Hippel e cujo nome entrou para a história por ser associado a seus frequentes clientes, um grupo de jovens filósofos radicalizados que se chamavam a si mesmos "Os Livres" e que gostavam de envolverem-se continuamente em intermináveis debates. Seus nomes: Bauer, Ruge, Marx, Engels e o próprio Stirner. Friedrich Engels parece ter sido o autor do apelido de Stirner ("testudo", homem de testa larga). Entre eles, havia uma mulher (naquela época chamavam de uma "emancipada") que seria momentaneamente esposa de Stirner. Eram boêmios, dispunham de tempo, alardeavam seu extremismo verbal e estavam fartos da influência que o fantasma de Hegel exercia sobre seus pares filósofos e sobre eles mesmos. Mais que nenhum deles, seria Stirner quem romperia de modo radical com o espectro hegeliano. Pouco tempo depois, o grupo se dispersa, em boa medida por causa do agravamento das condições políticas na Alemanha. Todo esse tempo de criatividade do hegelianismo de esquerda foi de um fósforo aceso.






A filosofia de Stirner, desenvolvida ardorosa e largamente no “Único e sua propriedade, consiste em uma defesa radical da personalidade humana enfrentando a sociedade e o Estado. A máxima de Stirner se resume na ideia de que a missão de uma pessoa consiste em chegar a ser ela mesma, em reconhecer o que lhe é próprio, assumir que não exista nada acima dessa "propriedade" e de que o que não constitui "o próprio de si mesmo" deve ser colocado em condição de tensão para tornar evidente o que é relacionado a autonomia pessoal e o que lhe é prejudicial e perigoso. A única propriedade verdadeira de uma pessoa é, então, ela mesma, mas paradoxalmente para sê-la autenticamente é preciso proceder ao seu empoderamento. Só desde esse centro de gravidade é possível vincular-se livremente com a "sociedade". Stirner chega facilmente a conclusão de que o Estado é necessariamente rival do indivìduo, de que a instituição hierárquica, por sua própria essência, é antiindividualista, contrária a vontade pessoal. A pedra de toque da autonomia reside na personalidade, no carácter, essa substancia que podemos moldar e construir como um projeto, a maneira em que uma pessoa procede a educação de si mesma. E com essa autoeducação o "Único" descobre o enorme poder que está em germe em cada pessoa singular. Este é o princípio irrevogável sobre o que constrói sua fortaleza argumentativa. O livro não é outra coisa que um "canto" à liberdade individual, escrita sob a forma de um tratado de filosofia, cuja radicalidade é inédita mas cujo campo de tensões ideológicas é próprio daquela época. O imperativo categórico individualista estava no "ar dos tempos", e Stirner o captou intuitivamente muito antes que outros. Suas ideias podem ser entendidas, ademais, como antecedentes habitualmente não reconhecidas das de Friedrich Nietzsche e do existencialismo posterior. Em suma, Stirner foi o metafísico do anarquismo, quem descobriu algo evidente mas muito difícil de assumir sem tirar as conclusões ontológicas e políticas que isso implica: que toda pessoa, em última instância, é única.







O resto da obra de Stirner são migalhas. Não escreveu quase nada mas, se excetua um livro ocasional destinado a ganhar algum dinheiro e uns poucos ensaios. Um deles é "O falso princípio de nossa educação", escrito a pedido de Marx e publicado no Rheinische Zeitung, quase na metade do Século XIX. A especificação da data não é um capricho, pois naquele periodo se premeditava a época da escolarização de massa, uma das consignas fundamentais do projeto da Ilustração. A saga da escola pública foi promovida como combate de morte contra o "flagelo do analfabetismo". Mas Stirner não acreditava que a alfabetização equivalia a educação de homens livres. Até então a educação havia consistido na formação estamental do "gosto" e das boas maneiras, ou bem na especialização de uns poucos ofícios específicos. Ou bem o modo de adquirir habilidades intelectuais aptas para gestionar as relações entre grandes senhores ou de adquirir a excelência em uma arte a partir do saber de um homem já especialista na matéria. A Ilustração, pelo contrário, pensou a educação como meio para formar cidadãos livres, emancipados da tutela religiosa e das pressões autocráticas. Mas a igualdade entre seres emancipados do "antigo regime" não é projeto de Stirner. É a "igualdade, não com os demais, senão consigo mesmo" o que lhe concernia como filósofo, e isso estava fora de questão entre os pedagogos do Século XIX, pois a ideia de unicidade nem sequer era pressentida. "As liberdades do querer", via régia da modelação do si mesmo, transcendia as filosofias da consciência. Para as duas escolas pedagógicas que Stirner crítica, a humanista e a realista, uma preocupada pela formação clássica e a outra por dotar os cidadãos de saberes cívicos e de saberes aptos para "ganhar a vida", a educação não é outra coisa que acumulação de conhecimentos, e na verdade, ainda que aparentam ser posições antagônicas, não deixam de ser equivalentes. Em troca, Stirner percebe a educação como nutrição do espírito, como um modo de personalização do saber, como meio para a formação do caráter. Quando o saber é pensado como matéria prima a ser transmutada em vontade, entendemos que a essência do conhecimento consiste em favorecer as metamorfoses do Ser. Para Stirner, o ser humano é uma crisálida perpétua.




Hoje sabemos que o projeto do humanismo está em ruínas, e que sua grandeza, mas também sua debilidade, consistiu em um imenso esforço por transformar a parte de "animalitas" dos seres humanos em um apêndice da razão. Em uma época anterior, as práticas ascéticas cristãs tentavam, com outros instrumentos pedagógicos e um centro de gravidade distinto, lograr o mesmo. De agora em diante, a pedagogia deve pensar-se a partir de seu fracasso anterior. Stirner foi um dos primeiros em assumir que a substância a ser objeto de um pensamento pedagógico era a existência mesma, a vida, e que para isso não se necessita somente liberdade de pensamento, senão liberdade de personalidade. Nos encontramos agora com a mesma disjuntiva que Max Stirner enfrentou: criação ou domesticação. Se a escolha for a primeira opção, o conhecimento é somente- e nada menos- um instrumento para abrir caminho ao mistério de si mesmo.






* Texto reproduzido em espanhol  no blog : http://anarquismoindividualista.blogspot.com.br/ e traduzido  para o português por Paulo Marques para este post.

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