sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Depoimento sobre Oficina Multiversidade em Pelotas, por Guilherme Schroder


Quando territórios prontos não bastam.
Nenhum espaço pronto antes bastaria.
O que já está, já está.
Nenhuma polaridade bastaria.
Irritantes esterilidades.
Teoria ou prática.
Aprendizagem ou ensino.
Bom ou mau.
Fazer coisas, não das prontas. Fazer mundos, não dos pólos.
Fazer sem endurecer, sem emparedar.
É preciso mesmo que dure?
O que mesmo precisamos fazer?
Por que mesmo precisamos fazer alguma coisa?
Só deixar de estar nas coisas prontas já não brilha?
É preciso alguma frequência? É preciso algum sistema?
É mesmo preciso repetir para que aconteça, para que seja válido?
E se voltar para os desejos mais pulsantes e simples?
Quais as coceiras primordiais que movem?
Desejos moventes.
E inevitabilidades.
O que tem que acontecer acontece.
Muitas coisas automáticas e pré-fabricadas acontecem também.
Algum desvio, alguma recusa.
Identificar desejos moventes. Identificar o tesão. Identificar as ganas.
Coça?
E incomodando. Incomoda. Perturba.
Mas não é coisa de resolver.
Não é de conciliação que estamos falando.
Nem qualquer forma de harmonia.
Muito menos qualquer espécie de pacificação.
Não é pelo bem, nem pelo mal. Nem pelo meio.
Qualquer palavra que cause governamento posterior.
Qualquer impositivo, imperativo. Diretivo.
Nem mesmo assembléico, consensual, diastólico.
Talvez seja mesmo pela guerra.
Nenhuma obediência.
Guerra, decomposição, criação.
Tencionamento tensão.
Tesão é que governa.
O que é inevitável que aconteça?
O que o tesão manda, implora?
Vidas pulsantes.
Desejos mobilizados, sentido imediato.
Tesão, tesão.
Inevitável tesão.
Nenhuma hora mais de aborrecimento.
Nenhum minuto mais de tédio. Ah, algum pode sim.
Mas não me ponha sentado numa cadeira.
Não discurse no meu ouvido.
Não queira cagar seus julgamentos.
Não queira me dar sermão, nem me venha com palestras.
Não me venha com chinelas!
Não quero tua condolência.
Não sou parte de fraternidade nenhuma.
Longe de mim os fraternos e os ternos.
Sem mais fingimentos e amistosos café com leite.
Não tô por uma nova igreja, nem escola, nem partido.
Não vou me associar pra vencer nenhuma eleição.
Não vou me submeter a coligação que seja.
Mas sigo pelo desejo.
Tem desesperad_s por aí que me encanta encontrar.
Viajo horas só pra caminhar junt_s.
Movemos desejos.
Levamos a sério os desejos.
Fazemos as mais loucas besteiras.
Falamos as maiores amenidades com compromissos em exponenciar desejos.
Movemos desejos junt_s.
E depois não.
Estamos alegres no silêncio em presença. Simples pausa.
E que presença pode haver em uma sala de aula?
Que presença abaixo de um palco solapado por discursos egóicos?
Sempre que chega um educador a possibilidade de tristeza é grande.
Às vezes consegue enganar, até chega a ser divertido.
Mas esta vontade de conduzir é irritante.
Tem coisas que já me dão alergia.
Muita alegria me dá alergia.
Chegou a prof, e foi tudo bem, harmônico.
E foi tudo pacífico, calmo.
Foi tudo bunitinhu, deu certo.
E que tristeza, manipulação, sedução.
A boa educação é ainda pior.
A estabilidade te mata na hora.
Toda paz conciliatória aniquila desejos.
Pois encontramos dispostos a dedicar ruídos.
Dedicar fricção.
Investir conflito. Aflito.
Combustão.
Liberando elementos na fermentação.
Não tem sintonia, harmonia, estabilidade nem conservação.
Eu não sou da paz.
Não quero conciliação. Não quero nenhuma conciliação.
As diferenças são inconciliáveis.
E ótimo. Afastamos, aproximamos.
As coisas acontecem.
Mas não me deixe conciliar.
Que submissão poderia ser maior que um concílio?
Conselho, consenso. Sai dali com uma amarra.
Toda decisão caga ordem.
Governa. Ah tá, agora tenho que fazer o que foi decidido!
A vida se prestando a criar deveres. Deveres seres.
Virem recursos, humanos.
Sejam utensílios, empregados.
Vem gente com bula hoje em dia.
O engenheiro e o deputado tocam a boiada.
Deve ser, deve, deve assim, dever, devendo.
Não é de usar, mas derreter, desontar, derrubar.
Fazer malabarismo de utilização.
Desnudar, desestabilizar. Inutilizar, inutensílios.
É preciso seguir conectado?
Quem, conexão?
Que raios de rede é esta?
Esgotado, esgotado, esgotado.
Tanta pergunta, tanta resposta.
Tá tudo ali.
Quem precisa de mim?
A múltipla impermanência me interessa.
Puta las merdas. Esse frio na barriga.
Desespero, desesperança.
Já não há mais portas que façam sair.
E não vai entrar na neura dos métodos.
Vai mesmo sem saber.
Depois é que se descobre como estava fazendo.
Inventa uma explicação e defende como se soubesse desde o início.
Se enganar bem a banca, vai.
Vai sim. Se a banca banca, vai.
É sem promessa e na sinceridade da mentira que vai.
O que pode ser mais sincero que dizer que está mentindo?
Parando de esperar, nem reposta nem objetivo.
Chega das caralhas expectativas!
Chega de intenções!
Das boas especialmente!
Pelo excesso de metas a vida se objetifica.
Cada passo com objetivo. Objeto sou, fico, faço. Pesquiso?
Objetivo, meta, sucesso, deu certo. Não quero!
Sem resultado esperados. Desesperados.
A floresta ama o que faz e faz por que é inevitável.
Mas quanta coisa ainda conseguimos evitar?
Parar de evitar o inevitável.
Toda ruptura é bem-vinda.
Chega de governamento. De si em especial.
Chega de novas lógicas.
Que força faz acontecer?
Que força faz o compromisso com a própria paixão?
Investir no desejo que pulsa e não é nem meu.
Não tornar o desejo nem a paixão uma nova meta.
Toda meta é uma merda.
A liberdade enquanto meta então...
A mim, nada que crie cobrança ou condição.
Mas mestre??
Mas prof??
Como assim?
Não quero rebanhos. Não faço questão de ninguém andando do meu lado.
Não quero apóstrofos. Nem um nem doze.
Mas mesmo assim ando junto, adoro junção.
E empolga mesmo quando nem sei porque mesmo fazemos aquilo.
A mais banal das besteiras juntas.
Brincar, que coisa besta.
Quero a falta de clareza. Deste terreno que brotam as possibilidades.
Certeza é sal na terra.
Nada brota da convicção.
Não é de garantias que estamos movendo.
Tão urgente que afasta a pressa.
Imediatos sem imediatismos.
Assim sem fazer, fazemos.
Assim sem acontecer, aconteceu.
Nem começou, mas já terminou.
Segue acontecendo sem saber.
Invisível, impalatável.
Indeglutível.
Mas também inacertável.
Multi, anti.
Versos, verbos.
Multiverbos
Antiversos.
Multiversidade cínica.
Sem vistas. Acontece e ninguém percebe.
Mas quando viu, já ninguém é mais o que era.
Nem foi o que fez.
Acontece e acontece sem querer acontecer.

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