sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A escola, essa velha e gorda vaca sagrada ( Ivan Illich)



A Escola, essa velha e gorda vaca sagrada” é o título que Iván Illich escolheu para uma de suas elaborações teóricas mais célebres, publicada em inglês em 20 de abril de 1968 na revista Saturday Review com o título “The futility of schooling in Latin America”. Em espanhol foi publicada pela primeira vez na revista mexicana Siempre na edição de 7 de agosto de 1968, com o título referido. Transcorrida uma década, foi incluída no número 1 da revista Trópicos (1979, p. 14-31).
Neste ano de 2016 em que Illich completaria 90 anos, realizamos nossa homenagem publicando este artigo com tradução para o português do professor Paulo Marques.

Sobre esse artigo Ivan Illich escreveu: “É meu primeiro esforço por identificar o sistema escolar como instrumento de colonização interna.” (IVAN ILLICH.Obras reunidas. Volumen I. México. FCE, 2006.)




´A escola, essa velha e gorda vaca sagrada´

Ivan Illich



O mito liberal e a integração social


Durante as duas últimas décadas, o conceito ´crescimento demográfico´ estevo presente em toda conversação relacionada com o desenvolvimento da América Latina. Em 1950, ao redor de 200 milhões de pessoas viviam entre México e Chile, cifra equivalente a população total dos Estados Unidos e Canadá onde só 15 milhões lograram produzir quantidade suficiente de comida para todos seus concidadãos e, ademais, para uma boa parte do mundo. Dado o nível tecnológico da América Latina, teremos 120 milhões de campesinos subjugados por uma agricultura primitiva que não lograrão abastecer sequer as necessidades de sua população total. Se damos por definitiva a eficacia dos programas de controle da natalidade e desenvolvimento da tecnologia rural, seguramente para 1985 não existirão mais de 40 milhões de agricultores que produzirão alimentos para uma população total de 340 milhões. Os 300 milhões restantes ficarão marginalizados da economia se não forem incorporados a vida urbana ou a produção industrial.

Por outra parte, durante estes últimos 20 anos os governos latinoamericanos e a ajuda técnica estrangeira aumentaram sua confiança na eficacia da escola -elementar, industrial e superior- como um instrumento de incorporação dos habitantes de bairros, ranchos e povoados, ao mundo da fábrica, do comércio, da vida pública. Se mantém a ilusão de que, pese a que se possua uma economia precária, a escola poderá produzir uma ampla classe media, com virtudes análogas as que predominam nas nações altamente industrializadas. Hoje se faz evidente que a escola não está alcançando estas metas. Sua ineficácia tem motivado um aumento das investigações tendentes a melhorar o processo de ensino que se segue nas escolas e a adaptar os planos de estudo e a administração escolar às circunstancias concretas de uma sociedade em desenvolvimento. Mas dita investigação não é suficiente; se necessita uma revisão radical.

Em vez de realizar um esforço por melhorar as escolas, lancemo-nos a analisar criticamente a ideologia que nos apresenta o sistema escolar como um dogma indiscutível de qualquer sociedade industrial. E ao efetuar a revisão não deveremos escandalizar-nos se descobrimos que possivelmente não seja a escola o meio de educação universal nas nações em vias de desenvolvimento. Pelo contrário, talvez isto sirva para deixar livre nossa imaginação e criar um cenário de futuro em que a escola resulte um anacronismo. Tal tem sido, durante 1967-1968, o tema da maior parte dos colóquios que tiveram lugar no Cidoc (Centro Intercultural de Documentação) de Cuernavaca.

O problema é difícil e inquietante. A angustiante carência de alternativas que apresenta o sistema tradicional escolar, fez com que as discussões tivessem um matiz demasiado abstrato e em alguns momentos frustrante. Sem embargo, elas nos fizeram mais conscientes da ineficácia da escola tal como funciona hoje. Chegamos a conclusão de que na América Latina a escola acentua a polarização social, concentra seus serviços -de tipo educativo e não educativo- em uma elite, e está facilitando o caminho a uma estrutura política de tipo fascista. Só pelo fato de existir, tende a fomentar um clima de violência.

Tomando em conta que a escolarização é um subsistema dentro do sistema social, durante os próximos anos nos concentraremos no Cidoc em analisá-lo não desde outro subsistema, senão desde fora do sistema social. Não existe reforma social sem signo político. Qualquer mudança real no método de admissão, no plano de estudos e na expedição de certificados e títulos, é politicamente discutível. Mas aqui propomos muito mais: o rechaço da ideologia que exige a reclusão das crianças na escola. Esta afirmação não seria essencialmente discutível se não fosse considerada politicamente subversiva.

A Aliança para o Progresso (das classes médias)

Ha sete anos os governos americanos constituíram uma Aliança para o Progresso; ou talvez para frear o progresso, ainda que se pareça mais com uma aliança´ ao serviço do ´progresso´ das classes médias. Na maioria dos países, a Aliança impulsionou a substituição de uma elite cerrada, feudal e hereditária por outra que se diz ´meritocrática´. Esta ´nova´ elite se encontra aberta somente aos infelizes privilegiados que obtiveram um certificado escolar. Simultaneamente o proletariado marginalizado urbano (composto em parte por vendedores ambulantes, vigilantes de carros, boleiros ou lustradores de sapatos, e outros que prestam serviços menores) teve uma taxa de crescimento imensamente maior que a das massas rurais tradicionais ou a dos trabalhadores sindicalizados, sinal de que cada dia se aprofunda mais o abismo que separa a maioria marginalizada da minoria escolarizada.

A antiga e estável sociedade feudal latinoamericana está engendrando duas novas sociedades separadas, desiguais e somente presumivelmente entrelaçadas. A natureza deste distanciamento representa um fenômeno novo, qualitativamente distinto das formas tradicionais de discriminação social da América hispânica. É um processo discriminatório desde as fraldas que cresce com o desenvolvimento mesmo da escolarização. A escola é a babá encarregada de que não se interrompa o aprofundamento desse abismo. Resulta ilusório, por isso, invocar a escolarização universal como meio de eliminar a discriminação. Eu sustento que a razão fundamental da alienação crescente das maiorias marginalizadas é a aceitação progressiva do ´mito liberal´: a convicção de que as escolas são uma panaceia para a integração social.

Arraigado em uma tradição, já sólida no tempo dos enciclopedistas, o homem ocidental concebe o cidadão como um ser que ´passou pela escola´. A assistência a aula substituiu a tradicional reverencia ao padre. A conversão a nação por meio da doutrinação escolar substituiu a incorporação a colônia por meio da catequese. Com a ajuda do missionário, a colonização preparou as Repúblicas latinoamericanas para a adoção de constituições baseadas no modelo norte-americano, generalizando a convicção de que todos os cidadãos tem o direito -e portanto, a possibilidade- de entrar na sociedade através da porta da escola. O professor, missionário da escola, encontrou na América Latina mais êxito nas classes populares que em outras zonas de similar atraso industrial. O missionário da colonia havia preparado a aceitação de seu sucessor.

Talvez isto explique por quê foi fácil para as esquerdas liberais conseguir aumentar os investimentos nacionais e internacionais em escolarização. De fato, tanto os orçamentos como os investimentos privados destinados à educação tem sido aumentados rapidamente e, a falta de uma revisão radical, se prepara o terreno para um aumento ulterior totalmente desproporcional em relação com o de outros setores de interesse nacional.

É o momento de analisar a fundo a questão. O sistema escolar vem se fazer de ponte estreita pelo qual atravessa esse sistema social que se afunda dia a dia. Como única paisagem ´legítima´ para passar da massa a elite, o sistema corta qualquer outro meio de promoção do individuo e, mediante a falácia de sua gratuidade, cria no marginalizado a convicção de ser o único culpado de sua situação.

A escola: instituição antiquada

Não é paradoxo afirmar que a América Latina não necessita mais estabelecimentos escolares para universalizar a educação. Isto soa ridículo porque estamos acostumados a pensar na educação como em um produto exclusivo da escola, e porque estamos inclinados a presumir que o que funcionou nos séculos XIX e XX necessariamente dará os mesmos resultados no XXI. De fato, nenhuma das duas suposições é certa.

A América Latina necessitou tanto sistemas escolares como ferroviários. Ambos abarcaram continentes, ambos impulsionaram as nações ricas (agora já estabelecidas) a primeira época industrial, e ambos são agora relíquias inofensivas de um passado vitoriano. Nenhum desses dois sistemas convém a uma sociedade que passa diretamente da agricultura primitiva a era do jet. A América Latina não pode dar-se o luxo de manter instituições sociais obsoletas em meio do processo tecnológico contemporâneo.

Deve deixar que se desmorone o bloco do sistema educativo imperante, em vez de gastar energias em reformá-lo. Os países industrializados segundo os moldes do passado pagam um preço desorbitante por manter unido o novo e o velho. Este preço significa, em último termo, um freio a economia, a liberdade, ao desenvolvimento social e individual. Se a América Latina se empenha em imitar esta conduta, a educação, não menos que o transporte, será privilegio do ´creme e da nata´ da sociedade. A educação se identificará com um título, e a mobilidade com um automóvel. Isso é o que por desgraça está ocorrendo. Nem econômica nem politicamente podem nossos povos suportar ´a era do domínio da escola´.

O monopólio da escola sobre a educação

Ao falar de ´escola´ não me refiro a toda forma de educação organizada. Por ´escola´ e ´escolarização´ entendo aqui essa forma sistemática de reclusão de jovens desde os 7 aos 25 anos, e também o caráter de rito de passagem que tem a educação como a conhecemos, da qual a escola é o templo onde se realizam as progressivas iniciações. Hoje nos parece normal que a escola preencha essa função, mas esquecemos que ela, como organização com sua correspondente ideologia, não constitui um dogma eterno, senão um simples fenômeno histórico que aparece com o surgimento da a nação industrial.

O sistema escolar se impõe a todos os cidadãos durante um período que abarca de 10 a 18 anos de sua juventude com uma média de 10 meses ao ano com várias horas por dia. O local escolar é o recinto encarregado da custódia de quem sobra na rua, o lugar ou o mercado de trabalho. Quando uma sociedade se escolariza, aceita mentalmente o dogma escolar. Se lhe confere ao professor o poder de estabelecer os critérios segundo os quais os novos grupos populares deverão submeter-se a escola para que não os considere sub-educados. Tal sujeição, exercida sobre seres humanos saudáveis, produtivos e potencialmente independentes, é executada pela instituição escolar com uma eficiência só comparável a dos conventos,Kibbutzim, ou campos de concentração.

Logo de distinguir a seus graduados com um título, a escola os coloca no mercado para que divulguem seu valor. Uma vez que a educação universal é aceita como a marca de boa qualidade do ´povo escolhido do professor´, o grau de competência e adaptabilidade de seus membros passará a medir-se pela quantidade de tempo e dinheiro gasto em educá-los, e não mediante a habilidade ou instrução adquiridas fora do currículum ´certificado´.

A ideia da alfabetização universal serviu para declarar a educação como competência exclusiva da escola. Essa se transformou assim em uma vaca sagrada mais intocável que a Igreja do período colonial. Se declarou tão essencial para o bom cidadão do século XIX saber ler e escrever, como ser batizado o era no século XVII. Parece ser que junto a eletricidade se descobriu a ´lei natural´ de que as crianças devem frequentar a escola. As leis correlativas se descobrem mais facilmente nos países ricos. Em março de 1968, o Conselho Superior de Ensino da cidade de Nova York concluiu que em 1975 cem por cento dos habitantes de 22 anos teriam um mínimo de 14 anos de escolarização. Inclusive os que rechaçam o sistema social em que vivem deverão aceitar o sistema escolar. Nem a prisão salvará o novaiorquino menor de 23 anos da imposição escolar.

Se projeta uma sociedade na qual o título universitário substituirá a alfabetização. Nos Estados Unidos se considera as pessoas com menos de 14 anos de escolarização como membros subdesenvolvidos da sociedade, confinados à marginalidade. Quem se rebele contra a evolução do dogma escolar será tachado de louco o subversivo. Este último o é , efetivamente.

É necessário entender a escola monopolizadora da educação em analogia com outros sistemas educativos inventados pelas sociedades anteriores. Pensemos no processo instrutivo do aprendiz nas oficinas do grêmio medieval, na hora da doutrina como instrumento evangelizador do período colonial, ou bem pensamos nas Grandes Escolas com a qual a França burguesa soube legitimar tecnicamente o privilegio de suas elites pós-revolucionarias. Só observando este monopólio em uma perspectiva histórica é possível se fazer a pergunta se a escola convém hoje na América Latina.

Cada um dos sistemas mencionados surgiu para dar estabilidade e proteger a estrutura da sociedade que os produziu. Estados Unidos não foi a primeira nação disposta a pagar um alto preço -subvencionando inclusive seus próprios missionários- com vistas a exportar seu sistema educativo a todos os rincões da Terra, buscando em seu caso impor o The American Dream. A colonização hispana da América, com seu aparato de catequização, é um predecessor digno de se ter em conta.

A escola como mania obsessiva

É difícil desafiar a ideologia escolar em um ambiente em que todos seus membros tem uma mentalidade escolarizada. É próprio das categorias que se manejam em uma sociedade capitalista industrializada medir todo resultado como produto de instituições e instrumentos especializados. Os exércitos produzem defesa, as Igrejas produzem salvação eterna, Ford produz transporte… Por quê não conceber a educação como um produto da escola? Uma vez aceita esta divisa proveniente de uma mentalidade quantitativo-produtiva, toda educação que possa receber-se fora da escola ou da ´fábrica de educação´ dará a impressão de algo espúrio, ilegítimo e, certamente, não certificado.

A sociedade moderna tende a crer nas soluções massivas de seus problemas. Se trata de ganhar guerras com uma imensa quantidade de bombas, de mover milhões de pessoas com um sem número de carros e de educar com quantidades industriais de escolas. Os Estados Unidos é ´suficientemente´ rico para manter prontas um número de bombas muito maior do que se necessita para exterminar três vezes todas as coisas viventes; para congestionar de carros a crescente quantidade de rodovias, e para obrigar a cada criança a 16.000 horas de escolarização primaria e secundária ao preço de 1.27 dólares por hora.

Provavelmente as nações da América Latina não sejam o suficientemente ricas para adotar estes sistemas, ainda que alguns de seus governos atuem como se o fossem. O exemplo das nações desenvolvidas faz com que os peruanos gastem uma notável porcentagem de seu orçamento em comprar bombardeiros Mirage (suponho que para exibi-los em algum desfile militar) e que os brasileiros promulguem o ideal da family car (naturalmente só para uns poucos). O mesmo exemplo consegue que absolutamente todos os governos latinoamericanos (Cuba inclusive) gastem de uma a duas quintas partes de seu orçamento em escolarizar, sem encontrar por isso oposição.

Insistamos por um momento na analogia entre o sistema escolar moderno e o carro particular. Uma economia baseada na ideia de ter um carro é já um ideal latinoamericano, pelo menos entre os que no presente formulam a política nacional. Nos últimos 20 anos, os gastos em rodovias, estacionamentos e toda essa outra classe de benefícios para os que possuem carros próprios, aumentaram quantitativamente. Estes investimentos só servem a uma minoria ínfima e, o que é pior ainda, obstaculizam a instalação de qualquer sistema alternativo, pois predeterminam a orientação de orçamentos futuros. No entanto, a proliferação de carros particulares, ademais das dificuldades nas ruas ao transito de ônibus -único meio de transporte popular sem contar o subterrâneo-, discrimina a circulação destes nas avenidas urbanas.

Criticar esses investimentos em comunicações é permissível. Todavia, quem proponha limitar radicalmente os investimentos escolares e encontrar meios mais eficazes de educação, comete um suicídio político. Os partidos de oposição podem permitir-se gestionar a necessidade de construir super-rodovias, podem opor-se a aquisição de armamentos que se oxidarão entre desfile e desfile, mas, quem em seu saudável juízo se atreve a contradizer a inquestionável ´necessidade´ de dar a todas as crianças a oportunidade de fazer seu ensino médio?

A escola: tabu intocável

A escola se tornou intocável por ser vital para a manutenção do statu quo. Serve para mitigar o potencial subversivo que deveria possuir a educação em uma sociedade alienada, já que ao ficar confinada a suas aulas só confere seus mais altos certificados a quem esteja submetido a sua iniciação e adestramento.

Em sociedades infracapitalizadas, onde a maioria não pode dar-se ao luxo de uma escolarização limitada -por mais que para os poucos que a recebem seja gratuita-, o presente sistema implica a total subordinação dessa maioria ao escolarizado prestigio da minoria. Nessa minoria dos beneficiários do monopólio escolar se encontram os líderes políticos e os técnicos de planificação, independentemente de que sejam conservadores, marxistas ou liberais. Também formam parte dela as crianças mimadas das universidades privadas e os dirigentes estudantis das greves universitárias. Todos estes grupos estão igualmente interessados na manutenção do monopólio escolar. A única divergência gira em torno a quem deve gozar do privilégio e quem não.

A escola no mundo de eletrônica

Para o ano 2000 o processo de educação formal haverá mudado, nas nações ricas e nas pobres. As escolas cessarão de dividir a vida humana em duas partes: a idade escolar para os discriminados por sua imaturidade e a idade madura para os titulados pela escola. A idade escolar durará toda vida. A medida que um individuo se faça mais maduro e capaz, se intensificará sua educação formal, convertendo esta em uma atividade de adultos, mais que de jovens. O que se entende hoje em dia por assistir a aula será então obsoleto.

Todos os sistemas sociais, especialmente as corporações industriais e administrativas, assumirão a tarefa de treinar e especializar seus membros; apresentarão uma espécie de serviço de aculturação, concentrado em uma aprendizagem relevante para o indivíduo, em vez de forçá-lo a perder tantos anos de sua vida aprendendo coisas que não utilizará jamais. A educação não será já identificada com a escolarização, e será possível o adestramento fora do monopólio escolar.

Se deixam entrever as tendencias em direção à essas metas. Em Berkeley ou na Zona Rosa do México, a nova geração pede trabalho não alienante e poder de decisão a nível de grupos pequenos onde caiba a experiencia pessoal. Em rebeldia contra o sistema que os mimou, estes jovens preferem poder ´celebrar´ a experiência de viver, a achievement ou ganhos, o deus das gerações passadas. Quer dizer, se encontram proclamando os mesmos ideais que pretendem ser normativos tanto na China como em Cuba.

O sistema escolar, ao produzir seres infantis, consegue que estes se organizem para reagir contra o paternalismo da sociedade que insiste em mantê-los crianças declarando-os ´escolares´. Por sua dinâmica, constituem uma nova classe universal -carente de toda base de poder legítimo- ainda não reconhecida. Os ideais desta classe são de penetrante conteúdo humanista. Ideal que, por utópico, no deixa de ser sugestivo.

Toda sociedade que faz da experiência humana seu centro de desenvolvimento -e esta a sociedade que esperamos e sonhamos- necessita distinguir claramente entre o processo de instrução e a abertura da consciência de cada indivíduo, entre adestramento e desenvolvimento da imaginação criadora. A instrução é cada vez mais suscetível de planificação e programação, o que não ocorre com a compreensão. Concebamos a instrução como a quantidade de socialização programada que um individuo necessita adquirir antes de ser admitido em um novo ambiente. Prevejo um cenário de futuro em que ressurgirá a aprendizagem medieval. Cada ambiente ou cada organização proporcionará a instrução necessária a suas atividades. Isto o fazem já os sindicatos, as Igrejas, os bancos, a indústria, o exército, e não a escola. A pessoa se encontra incitada a aprender porque se trata de questões que lhe atingem pessoalmente. É o que Paulo Freire no Brasil chamou conscientização. É a única palavra aplicável.

Todavia, poderia e deveria não ser assim. A compreensão pode ser adquirida de maneira cômoda e não estruturada, fazendo com que o indivíduo vá se conhecendo mais a si mesmo através do diálogo com as pessoas de seu ambiente. O papel da escola na evolução em direção à utopia deste final de século é diametralmente oposto tanto nas nações ricas como nas nações pobres. As primeiras inverteram enormes quantidades de dinheiro em povoar suas terras de escola, ao mesmo tempo que construíram redes ferroviárias. Gastaram muito mais ainda quando descobriram que necessitavam de Universidades ademais de escolas, as quais construíram ao mesmo tempo que as rodovias. Pensam ser bastante ricas para terminar, na próxima década, o processo de povoar suas terras de Universidades construídas ao redor de um estacionamento, já que cada um de seus jovens buscará ter um automóvel próprio. São tão ricas, que o aumento quantitativo de escolas não impede a primeira vista a transformação social. Mas na minha opinião a freia, principalmente pela despersonalização do individuo que tal escolarização implica.

De tentar algo semelhante, as nações pobres sofrerão uma desastrosa quebra econômica muito antes de aproximar-se a este gênero de saturação escolar. Na América Latina é impossível lograr uma media de 12 anos de escolarização para todos os cidadãos. Segundo o último censo, não há país latinoamericano em que 27% dos alunos de um curso escolar correspondente a uma idade determinada vá mais além do sexto grau nem que 1% se gradue na Universidade. E isto ocorre a pesar de que de 18% a mais de 30% dos orçamentos oficiais sejam investidos nas escolas. Só esta consideração deveria convencer-nos da perigosa ambiguidade do mito da escolarização universal.

A imitação do sistema escolar da metrópole capitalista constitui um perigo mortal para suas colonias não menos que para suas ex colonias. 1) Nem um controle radical do crescimento da população, 2) nem o máximo aumento possível da porcentagem orçamentária dedicada a educação, 3) nem ajudas estrangeiras sem precedente, poderiam assegurar a próxima geração latinoamericana uma média de 10 anos de escolarização, muito menos um de 14. Isto pelo seguinte: 1) Em uma população jovem como a da América Latina –particularmente em suas zonas tropicais-, nem os programas mais radicais de controle da natalidade poderiam reduzir o presente nível de população das gerações jovens; 2) Não é possível aumentar arbitrariamente a porcentagem do orçamento público que se invista em escolas. As rodovias, o seguro social e o fomento industrial, são fortes competidores. Ademais, para os próximos 15 anos já podemos prever as taxas máximas de crescimento dos orçamentos; 3) se fala muito agora de que o dinheiro gasto no Vietnã poderia ser investido melhor em escolas na América Latina. E o propõe não só os idealistas que creem no mito liberal, senão também os cínicos que sabem muito bem que o monopólio escolar combate a insurgência com muito mais eficacia que o napalm. É importante observar, todavia, que um país latinoamericano que utiliza agora 25% de seu orçamento em ´escolarizar-se´, necessitaria uma ajuda estrangeira de 150% de seu orçamento total. É duvidoso que isto possa ser politicamente recomendável.

Mais ainda. O problema não é só que a América Latina carece dos recursos necessários para aumentar suficientemente a escolarização. Ao mesmo tempo seu custo per capita aumenta: 1) com a expansão quantitativa do sistema (a tarefa da escola se faz mais difícil e custosa na medida em que penetra zonas mais distantes: as escolas não são ´mais baratas por dezena´, para o qual basta pensar que ao aumentar o número sobe também o custo administrativo e burocrático, sem aludir os lucros que extrai dali o sistema econômico dominante), 2) com taxas de permanência escolar crescente (claro que custa mais um ano na escola superior que dois ou três na fundamental), 3) com um aumento na qualidade do ensino (não custa o mesmo ensinar física utilizando um laboratório em lugar de um quadro negro), 4) com as exigências justificadas de pessoal docente (as associações de professores são, em muitos países, os sindicatos profissionais mais poderosos, um pouco análogos ao clero da colônia; mas sua agitação é justificada: em 1963, a média de seu salário em 14 países de nossa América equivalia a 60 dólares mensais).

Serão muito poucos os que poderão gozar do status simbólico e do uso do poder despótico que a escola confere. É necessário considerar estes dois elementos.


A escola como símbolo de status


Esse portentoso papelzinho chamado título ou diploma se converteu na posse mais desejada. Recompensa principalmente a quem foi capaz de suportar até o final um ritual penoso; por sua vez, representa uma iniciação ao mundo do ´executivo´. O ideal de que cada pessoa tenha seu carro e seu título produziu uma sociedade de massas tipo classe média. A medida que se vão fazendo realidade, estes ideais se transformam em mecanismos que asseguram o sistema que eles produziram. Tanto o carro como o título são símbolos dos esforços correspondentes ao período de industrialização liberal. Representam uma conquista e posse individual.

Toda sociedade necessita pagar um preço para conservar seus ritos. O Brasil tem seu carnaval, o México sua Guadalupe, alguns países sua ´revolução´. Estados Unidos tem sua graduação. Apesar de sua popularidade, os ritos são normalmente obsoletos. A sociedade tem que fazer sacrifícios para que esses ritos, deuses e igrejas hereditárias satisfaçam parte da fome do ser contemporâneo. Os ricos podem praticar ritos mais custosos e tendem a impô-los a quem queira compartilhar o jogo político, industrial e intelectual. É absurdo que o simples fato de que os Estados Unidos não possa libertar-se do custoso ritual para o título e o carro, seja argumento para universalizar esta religião na América Latina.

Como todos os países que chegam tarde a industrialização, a América Latina pode aproveitar as invenções das nações industrializadas, mas não deve deixar que estas lhe imponham o sistema social de sua tecnologia avançada porque será impossível financiá-lo. Incluo aí a endeusada escola. Não vale a pena que nossas nações provenham de automóveis e de títulos a suas burguesias assimiladas a burguesia internacional. Novos processos eliminarão ambos símbolos nos Estados Unidos muito antes de que 10% dos latinoamericanos logre obtê-los.

A escola: criadora de déspotas

A escola, que ajudou no século passado a superar o feudalismo, está se convertendo em ídolo opressor que só protege os escolarizados. Ela gradua e, consequentemente, degrada. Por força do mesmo processo, o degradado deverá voltar a submeter-se. A prioridade social se outorgará então de acordo com o nível escolar alcançado. Em toda América Latina, mais dinheiro para escolas significa mais privilégios para uns poucos a custa de muitos. Este altivo paternalismo da elite se formula inclusive entre os objetivos políticos como igualdade (gratuidade, universalidade) na oportunidade escolar. Cada nova escola estabelecida sob esta lei desonra o não escolarizado e o faz mais consciente de sua ´inferioridade´. O ritmo com o qual cresce a expectativa de escolarização é muito maior que o ritmo com o qual aumentam as escolas.

O fato é que cada ano diminui o número de clientes satisfeitos que se graduam em um nível que se considere ´satisfatório´ e aumenta o dos marcados com o estigma da deserção escolar. A estes últimos seu título de desertores os gradua para exercer no mercado dos marginalizados. A aguda pirâmide educacional assina a cada individuo seu nível de poder, prestigio e recursos, segundo o que considera apropriado para ele. O convence de que este é nem mais nem menos o que merece. A aceitação do mito escolar pelos distintos níveis da sociedade justifica ante todos os privilégios de muito poucos.

Não ha diferença entre os que justificam seu poder com base na herança e os que o fazem com base em um título. As escolas frustram a maioria, mas o fazem não só com todas as aparências de legitimidade democrática senão também de clemencia. A alguém que não esteja satisfeito com sua falta de educação se lhe aconselha ´que se supere´. O remédio da escola noturna ou a educação de adultos estão sempre disponíveis: medidas ambas ineficazes para generalizar a educação, mas sumamente eficazes para demostrar ao individuo que é culpado da discriminação que sofre. A perpetuação do mito escolar e sua expansão a novas classes da sociedade são tarefas da mesma escola. Deste modo ela assegura seu próprio porvir. No caso da escolarização não é verdade que ´algo é melhor que nada´. Poucos anos de escola inculcam uma convicção na criança: o que tem mais escolarização que ele, tem uma indiscutida autoridade sobre ele.

As escolas aumentam o ingresso nacional por duas razões opostas mas igualmente exploradoras do individuo: 1) capacitam a minoria graduada para uma produção econômica maior, mas submetida sempre a mentalidade escolar, 2) esta minoria se torna tão produtiva que se faz necessário ensinar a maioria a consumir disciplinadamente (o que se ganha dando-lhe alguma escolarização). Assim a escola limita a vitalidade da maioria e da minoria, cooptando a imaginação e destruindo a espontaneidade. A escola divide a sociedade em dois grupos: a maioria disciplinadamente marginalizada por sua escolarização deficiente, e a minoria daqueles tão produtivos que o aumento previsto em seus ganhos anuais é muitíssimo maior que a média anual de ganhos dessa imensa maioria marginalizada. O ganho desta também aumenta, mas, é claro, muito mai devagar. A dinâmica da sociedade amplia o abismo que separa os dois grupos.

Qualquer mudança ou inovação na estrutura escolar ou na educação formal, segundo a conhecemos, pressupõe: 1) mudanças radicais na esfera política; 2) mudanças radicais no sistema e na organização da produção, e 3) uma transformação radical da visão que o homem tem de si como um animal que necessita escolarização. Ainda quando se propõe devastadoras reformas do sistema escolar se ignoram estes pressupostos. Por isso falham, porque se toma como base o marco social que as sustenta, ao invés de questioná-lo radicalmente.

As escolas vocacionais -consideradas como remédio ao problema da educação em massa- proveem bom exemplo da limitada visão ante o problema das reformas escolares: 1) o que é egresso de uma escola vocacional ou técnica se encontra ante o problema de encontrar emprego em uma sociedade cada vez mais automatizada em seus meios de produção; 2) o custo de operação deste tipo de escola é varias vezes mais alto que o da escola comum; 3) sua matrícula se nutre de estudantes que já estão aprovados no sexto grau, estudantes que, como já vimos, são a exceção. Pretendem educar fazendo uma imitação barata de uma fábrica dentro de um edifício escolar.

Ao invés de cifrar as esperanças nas escolas vocacionais ou técnicas, há que visualizar a transformação subvencionada da fábrica. Em relação com isto deve existir a possibilidade de: 1) tornar obrigatório o uso das fábricas em suas horas não produtivas como centro de adestramento; 2) que a gerencia empregue parte de seu tempo na planificação e supervisão de dito adestramento; 3) a reestruturação total do processo industrial para lograr um processo educativo. Se parte das rubricas orçamentárias empregadas agora no sistema escolar se reorientassem para promover o aproveitamento do potencial educativo presente no sistema industrial, os resultados poderiam ser enormes em relação com os obtidos no presente, tanto no educativo como no econômico. Ademais, se tal instrução estivesse disponível para todo aquele que a desejasse, sem tomar em consideração a idade ou se a pessoa ha de ser empregada por essa fábrica, a industria haveria começado a assumir um papel muito importante que é agora exclusivo da escola. Com isto já estaríamos bem encaminhados a terminar com a ideia equivocada de que a pessoa deve estar certificada para o emprego antes de ser empregada e, portanto, que a escolarização deve preceder o trabalho produtivo. Não há razão alguma para continuar com a tradição medieval de que os homens se preparam para a vida secular cotidiana através do encarceramento em um recinto sagrado, chame-se monastério, sinagoga ou escola.

Outro remédio que frequentemente se propõe para compensar as falhas do sistema escolar é a educação fundamental de adultos. Paulo Freire demostrou no Brasil um novo método para lograr a instrução de adultos; o grupo destes que logre interessar-se com os problemas políticos de sua comunidade pode aprender a ler e escrever em seis semanas de aulas noturnas. A eficácia deste programa se constrói em torno a determinadas palavras chave que estão carregadas de sentido político. Se entende por que dito plano tropeçou em dificuldades. Também se ha proposto que 10 meses separados de educação adulta custam tanto como um ano de educação formal na escola; e, todavia, é muito mais efetiva que a melhor das educações escolares.

Desafortunadamente, a educação de adultos se visualiza como um meio para prover ao indigente um paliativo pela escolarização que lhe falta. Havia que mudar a situação se queremos visualizar a educação como um exercício na maturidade. Deveríamos considerar uma mudança radical na duração do ano escolar, reduzindo a sessão de aulas a dois meses por ano, mas estendendo o processo educativo aos primeiros 20 o 30 anos da vida.

Enquanto que outras formas de aprendizagem prática nas fábricas e cursos programados e idiomas e matemáticas devem ocupar a maior porção do que havíamos denominado como instrução, dois meses ao ano de educação formal devem considerar-se suficientes para permitir o que os gregos denominavam echóle, quer dizer, tempo de ócio para a criação. Não surpreende que nos seja quase impossível conceber mudanças sociais de tão grande alcance, como distribuir em novos padrões a função educativa das escolas. Encontramos a mesma dificuldade ao sugerir formas concretas pelas quais as funções não educativas de um sistema escolar que vá desaparecendo possam redistribuir-se. Não sabemos que fazer com aqueles a quem denominamos ´crianças´ ou ´estudantes´, e que fazemos ingressar nas escolas.

É difícil prever as consequências políticas que estas mudanças tão fundamentais possam trazer, sem mencionar as consequências no plano internacional. Como poderá coexistir uma sociedade com uma tradição de escolas comuns, com outras que tenham saído do padrão educativo tradicional e cuja industria/comércio, publicidade e participação na política é, de fato, diferente? Áreas que se desenvolverão fora do sistema universal convencional não teriam a linguagem comum nem critérios de coexistência respeitosa com os escolarizados. Dois mundos, tais como China e Estados Unidos, quase teriam que isolar-se um do outro. Um mundo que tem fé na iniciação ritual de todos seus membros através de uma ´liturgia escolar´ tem que combater qualquer sistema educativo que escape a seus cânones sagrados. Intelectualmente, resulta difícil acreditar no partido de Mao como uma instituição educativa, que possa resultar mais efetiva que as escolas convencionais de mais prestigio, pelo menos no que se refere a ensinar o que é cidadania. As guerrilhas na América Latina são outro meio educativo que é mal interpretada e se usa indevidamente a maior parte das vezes. Che Guevara, por exemplo, as via como uma última maneira de ensinar ao povo o ilegítimo que resulta o sistema político que padece. Em países escolarizados onde a radio chegou a todo o povo, não devemos menosprezar as funções educativas de grandes figuras dissidentes e carismáticas como Dom Helder Cámara no Brasil e Camilo Torres na Colombia. Fidel Castro descreveu suas primeiras arengas como sessões educativas.

A mentalidade escolarizada percebe estes processos somente como doutrinamento político. Não pode compreender o propósito educativo. A legitimação da educação pelas escolas tende a que se visualize qualquer tipo de educação fora dela como acidental, quando não como delito grave. Ainda assim, surpreende a dificuldade com que a mentalidade escolarizada pode perceber o rigor com o que as escolas inculcam o imprescindível que são e, com isso, a inevitabilidade do sistema que patrocinam. As escolas doutrinam a criança de maneira que este aceite o sistema político representado por seus professores, inclusive ante a insistência de que o ensino é apolítico.

Em última instancia, o culto a escolarização levará a violência. O estabelecimento de qualquer religião leva a isso. Ao permitir que se estenda a prédica pela escolarização universal, tem que aumentar a habilidade militar para reprimir a ´insurgência´ na América Latina. Só a força poderá controlar em última instancia as expectativas frustradas que a propagação do mito da escolarização tem desencadeado. A permanência do atual sistema escolar pode muito bem fomentar o fascismo latinoamericano. Só um fanatismo inspirado na idolatria por um sistema pode, em último termo, racionalizar a discriminação massiva que é o resultante de insistir em classificar com graus acadêmicos uma sociedade necessitada.

Ha chegado o momento de reconhecer a grande carga que as escolas supõe para as nações jovens. Ao fazê-lo poderemos libertar-nos e contemplar a mudança da estrutura social que faz as escolas necessárias. Eu não apoio uma utopia como a comuna chinesa para a América Latina. Mas sugiro que esforcemos nossa imaginação para construir cenários que permitam uma denodada reestruturação das funções educativas na industria e na política, curtos retiros educativos e intensa preparação dos pais sobre educação muito cedo. O custo das escolas não deve medir-se somente em termos políticos. As escolas, em uma economia de escassez invadida pela automatização, acentua e racionaliza a coexistência de duas sociedades: uma colonia da outra.

Uma vez que se entenda que o custo da escolarização é superior ao custo do caos, nos colocaremos a margem de um compromisso desproporcionadamente custoso. Hoje na América Latina é tão perigoso duvidar do mito da salvação social por meio da escolarização, como ha mais de cem anos o foi duvidar dos direitos divinos dos reis católicos.

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A escola, essa velha e gorda vaca sagrada: na América Latina abre um abismo de classes e prepara uma elite e com ela o fascismo.

Entrevista com I. Illich (legendada em português) enviada por um amigo do Blog



2 comentários:

  1. Talvez se interesse pelo vídeo abaixo, que é uma tradução para português de uma entrevista de Ivan Illich
    https://www.youtube.com/watch?v=feHCNEdLSDE

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