sábado, 3 de setembro de 2016

A atualidade do pensamento radical de Ivan Illich, por Paulo Marques


É impossível falarmos de Educação Libertária sem mencionar o nome de Ivan Illich(1926-2002), uma das principais referências para pensar essa forma de aprendizagem em e para a liberdade. Neste domingo, 4 de Setembro de 2016, o filósofo Ivan Illich completaria 90 anos de idade. Em função dessa data realizamos esse texto homenagem, resgatando um pouco de sua vida e destacando a atualidade de seu pensamento.

Chamamos Illich de "filósofo" não por ele ter algum certificado de especialista em filosofia, mas sim porque esse pensador, um dos mais criativos e radicais do século XX, tinha o ethos libertário que caracteriza todo filósofo. 

Illich caracterizou-se por pesquisar e colocar em questão aquilo que a sociedade moderna sequer admitia ser questionada como a escola e a industrialização. Foi nesse sentido que denominou a Escola como uma "vaca velha, gorda e sagrada". Dessacralizar e derrubar mitos foi o que marcou seu trabalho de pesquisador. Todavia sua crítica à escolarização tinha como alvo principal a sociedade industrial moderna, produtora de mercadoria. A crítica à educação escolarizada era feita no sentido de identificar essa instituição como o principal instrumento para a criação/formatação/adestramento de consumidores, que se consomem a sí e o mundo a seu redor.  Pensador à frente de seu tempo e do nosso, Ivan Illich, como todo filósofo que contraria o senso comum e as ideologias hegemônicas, esteve, e  permanece ainda hoje marginalizado nos meios acadêmicos. 

Se, no período da Educação dos Jesuítas os professores-sacerdotes eram orientados a não mencionar Sócrates para seus alunos nas aulas de Filosofia por ser considerado perigoso, nos atuais currículos de Pedagogia presenciamos o mesmo com Ivan Illich, que mesmo não sendo proibido, é ignorado, marginalizado e quase nunca estudado em profundidade. Poucos foram os que entenderam sua crítica à escolarização. No campo da pedagogia Illich foi rotulado, de forma simplificadora, junto com Bourdieu, de "crítico-reprodutivista" e como tal considerado um autor que não tinha muito a contribuir com a necessária tarefa de "transformação revolucionária da escola", desejo que irá caracterizar os pedagogos reformadores, sejam eles liberais ou marxistas. Portanto, não havia lugar para quem colocava em xeque a escolarização e sua "vaca sagrada". 


A mais recente edição brasileira do clássico "Sociedade desescolarizada" realizado pela editora Deriva, de Porto Alegre, em 2007.

Ao contrário do que se pensa Illich não foi apenas o teórico da desescolarização, mesmo sendo o autor que mais avançou nessa discussão. O que poucos compreenderam foi que Illich utilizou o processo escolarizador da educação institucionalizada como paradigma para críticar as insttituições que cumprem a função de reproduzir a sociedade de consumidores. Assim Illich analisou o fenômeno da  "escolarização" de toda a sociedade, ou seja, a "escolarização da vida". O que isso significava? Que a forma "ensino escolarizado" no qual  Escola é o instrumento por excelência,  ensina, desde a mais tenra idade que tudo é e deve ser consumido; o conhecimento, os saberes, e tudo aquilo que o ser humano necessita para viver mas que somente terá acesso se comprar dos "especialistas". Ou seja, daqueles que são legitimados, através de certificados, a vender determinado conhecimento. Assim a saúde torna-se um mercado de especialistas, como os meios de transporte, a educação, as ações sociais. Tudo é comprado e vendido. Como afirma no clássico "Sociedade Desescolarizada": Na escola, diz Illich: 

"(...) o aluno é, desse modo, "escolarizado", a confundir ensino e aprendizagem, obtenção de graus com educação, diploma com competência, fluência no falar com capacidade de dizer algo novo. Sua imaginação é "escolarizada" a aceitar serviços em vez de valor. Identifica erroneamente cuidar da saúde com tratamento médico, melhoria da vida comunitária com assistência social, segurança com proteção policial, segurança nacional com aparato militar, trabalho produtivo com concorrência desleal. Saúde, aprendizagem, dignidade, independência e faculdade criativa são definidas como sendo um pouquinho mais que o produto das instituições que dizem servir a estes fins, e sua promoção está em conceder maiores recursos para a administração de hospitais, escolas e outras instituições semelhantes" ( Illich, p.07)


Ou seja, a sociedade industrial se escolariza para que as instituições se consolidem como únicas formas de possibilidade de acesso das pessoas a tudo aquilo que  necessitam para viver. Com essa perspecttva analítica Illich atinge diretamente as bases estruturais de sustentação da sociedade produtora de mercadoria e reprodutora desse modo de vida escolarizado/institucionalizado.  




Mas quem foi Ivan Illich, este pensador tão perigoso?

Ivan Illich nasceu no dia 4 de Setembro de 1926 em Viena, na Austria, membro de uma família com ascendência judia, croata e católica. Entre 1936 e 1941 viveu a maior parte do tempo com seu avô materno. De 1942 a 1946 estudou História e Teologia e Filosofia na Universidade gregoriana do Vaticano, e trabalhou como padre em Nova Yorque.

Em 1956 é  nomeado vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico, onde conhece Everet Raimer que lhe impressiona profundamente com suas críticas à instituição da Escola. Em 1961, funda o Centro Intercultural de Documentación  (CIDOC) em Cuernavaca no México, que é um  centro de investigação que dava cursos aos missionários da América do Norte. Após uma década de funcionamento o  CIDOC entra em conflito com o Vaticano, e em 1976 o centro é fechado com o consentimento daqueles que dele faziam parte. Nos dez anos de funcionamento  Illich transforma o CIDOC um centro de pesquisas sobre educação e estudos sobre os países em desenvolvimento. No Centro ele trabalhará com Paulo Freire, que irá para o CIDOC a convite do próprio Ivan Illich que era um admirador de sua obra. É a partir da crítica das instituição igreja, que Illich abandona no inicio dos anos 60, que  avançará para a análise crítica das instituições como um todo. 

A partir dos anos 1980, Illich viajará muito pela Europa e América,  em especial nos Estados Unidos, México e Alemanha. Foi nomeado professor visitante de filosofia e ciência, tecnologia e sociedade na Universidade Estadual da Pensilvânia e também professor visitante da Universidade de Bremen na Alemanha.

Seus últimos anos foram marcados pela luta contra um cancêr  na face que o levou à morte em 2002. Coerente com sua crítica à industria da medicina, utilizou tratamentos alternativos para enfrentar o cancês, que batizou de "Minha mortalidade".





Ivan Illich foi um pensador inclassificável, alguns o denominaram de "humanista radical". Mesmo que nunca tenha se auto identificado como anarquista, o conteúdo libertário de seu pensamento o tornou uma referência para os educadores e pensadores da Educação Libertária,  e os anarquistas seus maiores leitores e admiradores. 

Como afirmou Braulio Rocha em um texto recente em homenagem aos 90 anos de Illich, "Dado que sua reflexão crítica esteve voltada para diversas frentes, seus pensamento transcende às disciplinas e especialidades, dada as  suas intrincadas, variadas e complexas análises e reflexões, tecnicamente não é um filósofo, ou um historiador, nem um sociólogo nem antropólogo, nem urbanista, economista nem pedagogo, nem anarquista pacifista, ou não só isso..."  Podemos dizer que é isso tudo e um pouco mais. Foi pioneiro em pensar nas novas tecnologias como ferramentas para a aprendizagem. Anttes mesmo da massificação da internet Illich já pensava nas Teias de comunicação e aprendizagem entre pessoas interessadas nos mesmos temas.

No seu livro A Convivencialidade abordou a necessidade dos seres humanos construírem novas relações baseadas no controle das ferramentas(conhecimento, tecnologia) e não serem controladas por elas. Segundo Illich qualquer tecnologia que saia do controle humano e expanda sem limites pode voltar-se a contra os seres humanos. Ele se referia ao crescimento industrial sem limites em todas às areas. Foi um ecologista radical precursor da discussão sobre o decrescimento.

Segundo esse autor é um equivoco até hoje considerar Illich só como educador. Ou pior ainda, como um reformador da educação. Nada mais distante de suas intenções. 




A sociedade desescolarizada, escrita em 1971, é ainda hoje, a sua obra mais conhecida. No Brasil é a única que teve tradução para o português. Mesmo que Illich tenha uma significativa produção teórica relativa a diversos temas, apenas essa obra foi editada no Brasil, o que mostra o atraso e mediocridade da intelectualidade brasileira em avançar para além de suas arraigadas crenças teóricas. 

Mesmo esse livro sendo o único traduzido, nos anos 70, e mais recentemente em 2007 pela editora libertária "Deriva" de Porto Alegre,  ainda é  frequentemente mal interpretado. Ao contrário do que se propagou, entre aquele tipo de pessoa que diz "Não li e não gostei", em nenhum momento Illich convida ao abandono da escola, tampouco propõe seu desaparecimento reforma ou substituição. Sua crítica contundente é direcionada para o questionamento das crenças que convalidam o processo de produção e consumo da modernidade capitalista. Crenças que são construídas eficazmente pela escola nas nossas mentes. Se a tese dos planificadores e políticos "progressistas" é que a educação obrigatória representa o melhor remédio para atenuar as desigualdades sociais, para  Illich, ao contrário, o resultado visivel é justamente o contrário do que propagam. O fato da educação estar encerrada em instituições que exigem uma série de certificados para o acesso aos diferentes graus de conhecimento tornam-se assim um processo que mais afasta e exclui as pessoas do acesso aos saberes. Para ele, essas crenças que de só há uma maneira de adquirir conhecimento, são implantadas tenazmente no nosso pensamento pela maquinaria da educação escolarizada. 

Devido a essa dificuldade de compreender o livro, um ano depois de  publicado,  Ivan Illich já advertia como algumas instituições "piedosas" e intelectuais "progressistas confundidos" se apropriavam de sua crítica a educação e ao sistema escolar. Esta apropriação consiste em propor novas formas de educaçao alternativa (com ou sem escola, na casa outtrabalho) mas sempre a serviço de otimizar a exploração pelo grande capital. Por isso Ililich afirmava: "Desde 1971, me opus a esse exorcismo do diabo pelo Belzebú"

Ou seja, para ele estava claro que a questão não era "reformar a escola", tornar "mais agradável" o instrumento que continuará cumprindo a mesma função. Para Illich de pouco serve uma "Educação Alternativa" se ela manter nos estudantes as aspirações de todo o consumidor "bem educado", qual seja o de  chegar a possuir um título universitário e um carro próprio, e de preferencia conseguir ser um empregado de uma grande corporação transnacional. Daí a urgência de pensar criticamente alternativas ao próprio conceito e prática da educação que temos. No lugar de continuar acreditando em "educações alternativas" gatopardescas (que mudam tudo para que tudo permaneça igual) deve-se buscar encontrar alternativas à educação. 




Illich não foi apenas o pensador do século XX que fez a crítica mais radical à  escolarização, mas também propôs algo novo. Uma alternativa a escolarização que partiu da ideia da aprendizagem como algo inato, como o ato de respirar, de andar,  que não necessita de nenhum intermediário para realizar-se, mas sim relações e processos que viabilizem a aprendizagem livre. Sobre essa ideia Illich aponta que, 

Um bom sistema educativo deveria ter três objetivos: 

1- Proporcionar a todos aqueles que queiram o acesso aos recursos disponíveis em qualquer momento de suas vidas; 

2- Dotar todos os queiram compartilhar o que sabem, do poder de encontrar quem queira aprender com eles; 

3- Finalmente, dar a todo aquele que queira apresentar ao público um tema de debatte, a oportunidade de dar a conhecer seu argumento. 

Para isso deveria usar a tecnologia moderna para fazer com que a livre expressão, livre reunião e a imprensa livre sejam universais e , consequentemente, plenamente educativas( Sociedade desecolarizada) 

A esse processo Illich denominou "Teias de Aprendizagem"cujos objetivos seria mostrar que aprendizagem prescinde de qualquer tipo de ensino ou instituições de encerram os saberes e os delimitam. 

Uma de suas preocupações sempre foi ser o mais claro e objetivo prossível em suas proposições:  

"Essa crítica leva muitas pessoas a perguntarem se existe outra possibilidade de aprendizagem. Paradoxalmente as mesmas pessoas, quando pressionadas a especificar como adquiriram o que sabem e valorizam, prontamente admitem que o aprenderam, as mais das vezes, fora e não dentro da escola. Seu conhecimento dos fatos, suas compreesão da vida e do trabalho lhes adveio pela amizade ou pelo amor, enquanto assistiam televisão ou liam, pelo exemplo de colegas ou por uma dissensão resultante de um encontro na rua. Ou talvez tenham aprendido o que sabem num ritual que precedeu à sua admissão num grupo de bairro; pela admissão em um hospital, no parque gráfico de um jornal, na oficina de um bombeiro ou no escritória de alguma companhia de seguros. A alternativa para nossa dependencia das escolas não é o uso dos recursos públicos para algum novo propósito que "faça" as pessoas aprenderem; é antes a criação de um nov estilo de relacionamento entre o homem e o seu meio-ambiente. Concomitantemente com a promoção desse estilo devem mudar as atitudes para com o crescimento, os instrumentos da aprendizagem, a qualidade da estrutura da vida cotidiana"(Illich, Sociedade Desescolarizada p. 72) 






Antes de concluir este post cabe destacar a relação que Illich teve com Paulo Freire nos anos 60, periodo em que Illich conheceu a obra de Freire e tornou-se seu admirador. Foi isso que levou Illich a conseguir , através de seus contatos com alta hierarquia da Igreja católica, que Paulo Freire, então preso político da Ditadura no Brasil, fosse libertado para ir trabalhar com ele no CIDOC . Foi um trabalho de aprendizagem recíproca que chegou ao final no momento que Illich chamou de separação em função das escolhas de caminhos diferentes. Disse Illich sobre a relação com Paulo Freire: 

" (...)efetivamente separamos nossos caminhos. Freire buscou em toda sua vida encontrar melhores formas de aprender, melhores formas sobretudo de alfabetização, e eu abandonei por completo essa ideia de melhorar a educação, ou melhorar a escola, ou melhorar as formas de ensino. O que eu me dediquei a estudar no resto de minha vida foi perguntar: por quê uma sociedade tenta educar todas as pessoas de uma determinada maneira(...)."( Ivan Illich, Conversaciones con Ivan Illich) 

Iván illich e Paulo Freire participaram de inúmeros debates quando trabalharam juntos no CIDOC, Centro de Pesquisa coordenado por Illich em Cuernavaca, México nos anos 60. 

Seria impossível em apenas um post abordar toda a riqueza do pensamento de Ivan Illich, mas nosso objetivo foi realizar uma singela homenagem  a este grande pensador da educação livre  e da sociedade  de seres humanos livres. Destacar a atualidade de suas reflexões e contribuição teórica é fundamental para pensarmos as possibilidades de uma Educação Libertária para o Século XXI. Podemos dizer sem medo de errar que uma educação que se queira chamar de livre ou libertária necessáriamente terá que levar em conta as contribuições de Illich assim como suas inovadoras ideias que estão muito a frente do nosso próprio tempo. 

"Humanista radical", "anarquista", "ecologista radical", "pensador libertário", Ivan Illich, para além dos rótulos não deixa de ser mesmo  um pouco de isso tudo

Obras de Ivan Illich:

Em espanhol:

La Sociedad Desescolarizada (1971)
La convivencialidad (1973)
Energía y Equidad (1974)
Némesis Médica (1976)
El H2O y las aguas del olvido (1985)
ABC: The Alphabetization of the Popular Mind (1988)

Em inglês:

Deschooling Society (1971)
Tools for Conviviality (1973)
Energy and Equity (1974)
Medical Nemesis (1976)
Toward a History of Needs (1978)
Shadow Work (1981)
Gender (1982)
H2O and the Waters of Forgetfulness (1985)
ABC: The Alphabetization of the Popular Mind (1988)
In the Mirror of the Past (1992)
In the Vineyard of the Text: A Commentary to Hugh's Didascalicon (1993)
Ivan Illich in Conversation interviews with Cayley, David. (1992)(Toronto: Anansi Press).
The Rivers North of the Future - The Testament of Ivan Illich as told to David Cayley (2005) (Toronto: Anansi Press)
Corruption of Christianity Illich, Ivan (Author) Cayley, David (Editor) (2000)


Em português Edição Brasileira:


Sociedade desescolarizada
, Porto Alegre, Deriva, 2007.

Abaixo postamos  três videos  do prof. André Azevedo da Fonseca sobre a teoria da desescolarização de Ivan Illich  













Estte último video abaixo é um documentário sobre a Experiência da Universidad de la Tierra, que funciona desde 1999, na cidade de Oaxaca no México, baseada nas ideias de Aprendizagem livre de Ivan Illich



Re-learning Hope: A Story of Unitierra from Multi-Sense Media on Vimeo.


Iniciamos neste ano de 2017 uma experimentação de Aprendizagens Livres em um espaço ocupado e autogestionado por estudantes da UFpel desde 2014 que é a OCA.




Informações sobre o projeto:
https://www.facebook.com/Multiversidade-Autogestion%C3%A1ria-De-Aprendizagens-Livres-Da-Oca-1849082385341038/

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