domingo, 10 de julho de 2016

Retomar a "Anarquia em ação" de Colin Ward, por Paulo Marques



"Uma vez que se começa a olhar a sociedade humana desde um ponto de vista anarquista, se descobre que as alternativas já estão aí, nos interstícios da estrutura de poder dominante. Se se quer construir uma sociedade livre, todas as peças se mostram ao alcance das mãos"
Colin Ward - Prefacio do livro Anarquia em ação - A prática da Liberdade





O anarquista britânico Colin Ward e a proposta da anarquia como ação aqui e agora


Para muitos dos adversários do anarquismo, a ideia de uma sociedade libertária e antiautoritária é uma utopia, uma forma de relação social impossível de ser realizada na contemporaneidade, pois exigiria uma sociedade sem Estado, sem governo, sem autoridade, dominação e opressão. Alguns anarquistas também reforçam essa ideia relegando a vida anárquica a um sonho distante dependente de uma revolução que mudaria todas as relações sociais. Contrapondo-se tanto aos inimigos do anarquismo como as correntes mais utópicas do anarquismo, o anarquista britânico Colin Ward (Wanstead, 1924 – Ipswich, 2010), sustenta  a tese da anarquia como ação prática que,  segundo ele já existe em nossa realidade. 

A questão que fundamenta a hipótese de Colin Ward  é: Seria possível construir espaços de liberdade dentro de un marco social repressivo como é nossa sociedade moderna? E ele responde: Sim, a prática da autogestão, a horizontalidade, o apoio mútuo e a cooperação são perfeitamente realizáveis e se realizam na vida cotidiana. Isso, afirma o autor, é também a anarquia. Anarquia em Ação. Título de seu mais conhecido livro, lançado em 1973, e que mantém enorme atualidade. 

Colin Ward nasceu em Londres em 1924 em uma família de tradição trabalhista. Desde muito cedo, com 15 anos deixou a escola e após realizar diferentes trabalhos, incluindo o estudo da arquitetura, foi recrutado pelo exército britânico para servir na Escócia. No tempo livre que tinha, Colin dedicou-se a escutar os oradores anarquistas em Glasgow e começou a participar da comunidade libertária local. Em 1943 escreveu seu primeiro artigo para a revista anarquista londrina War Commentary. Em 1947 quando recebe baixa do exército estreitou relações com o grupo editorial Freedom Press e se integrou a redação  para trabalhar na publicação rebatizada de Freedom.

Durante os anos cinquenta, Ward colaborou de forma regular com a revista Freedom. No entanto, sentiu a necessidade de promover uma publicação com conteúdo mais reflexivo. Assim em 1961 começou a publicar a revista mensal Anarchy, que foi editada até os anos 70. Ao mesmo tempo Ward trabalhava em um escritório de arquitetura onde desenvolveu um profundo conhecimento dos problemas relacionados com planificação urbana. Na segunda metade dos anos sessenta Ward se forma como professor e inicia o trabalho com educação permanente de adultos. Após esse periodo dedicado a docencia nos anos 70 se encarregou de editar o Bulletin of Environmental Education. Foi nesse periodo que escreveu seus mais importantes livros como "Anarquia em ação" ; "Tenants Take Over"; sobre as cooperativas habitacionais;  e o amplamente conhecido " The child in the City". Nos anos 80 e 90 se interessou por história social, ocupando-se de estudar as formas criativas mediante as quais as pessoas faziam uso "não oficial" da terra e do entorno.

Ward seguiu colaborando regularmente com a imprensa anarquista ainda que, desde os anos 70 também escreveu em outras revistas dirigidas a publicos mais amplos como New Society. O último livro de Colin Ward, "Anarchism: A Short Introduction, foi publicado em 2004 pela editora da Universidade de Oxford. Depois de enfrentar uma breve enfermidade Colin Ward morreu em 2010. 

O anarquismo pragmático de Colin Ward

De forma sintética a visão de Ward se baseia em um enfoque prático do anarquismo que se baseia em três ideias relacionadas entre si: o pluralismo; o anarquismo como parte integrante do presente;  e uma marcada preocupação pela resolução de problemas. 

Colin Ward desenvolveu a ideia de anarquismo "pragmático", com o objetivo de dar vida a comunidades novas "totalmente no presente, inclusive aproveitando o complexo material de nossa vida cotidiana". 

Ele não acreditava que uma sociedade totalmente anarquista fosse possível, sustentava que o factível seria uma sociedade avançar nessa direção. Diz Ward "o conceito de uma sociedade livre pode parecer uma abstração, mas o de uma sociedade mais livre não é" .

E este constitui para ele, o sentido último do anarquismo: empurrar a sociedade para uma maior anarquia, em direção ao apoio mútuo e o cooperativismo e, por conseguinte, "ampliar o espao anarquista no mundo real". 

Segundo Ward, ainda que  sua realização seja rechaçada como objetivo final, a possibilidade de uma sociedade anarquista, todavia desempenha um importante papel enquanto norma para avaliar a sociedade. Sobre isso ele escreverá no artigo "Anarquismo e respeitabilidade": "sendo expulsa a ideia de uma sociedade anarquista pela porta princípal quero que ela volte a entrar de novo pela janela de trás, não como um objetivo a cumpri, senão como um critério, uma medida ou uma forma de avaliar a sociedade

Será constante em Ward o interesse nas formas de ação direta: as reivindicações para a autogestão desde baixo, os movimentos para a desescolarização, os grupos de apoio mútuo terapeuticos, os movimentos de ocupação de moradias e okupas, as cooperativas de produção e de consumo, os sindicatos autônomos, assim como as organizações comunitárias, as atividades de auto-construção ou os projetos de comércio local. 






Segundo Ward, o que os anarquistas deveriam ter em conta são "as mudanças sociais, tanto as revolucionárias como as reformistas, por meio das quais as pessoas podem ampliar sua própria autonomia, reduzindo a sujeição a autoridade externa". E o anarquismo, em todas suas formas, constitui uma afirmação da dignidade e a responsabilidade dos seres humanos.

Em aberta polêmica tanto com o estatismo próprio do pensamento comunista, como com parte do pensamento anarquista utópico, a opção de Ward se dirige a "libertar" o presente, o cotidiano. Daí que ele usa a metáfora acerca da anarquia como "semente debaixo da neve, sepultada sob o peso do Estado e da burocracia, do capitalismo e de seus despilfarros, do privilégio e de suas injustiças, do nacionalismo e de sua lealdade suicida, das religiões e de suss superstições e separações".

A anarquia, para Ward, não se refere a um estado perfeito de coisas em uma sociedade futura, senão ao método de organização social que corre paralelo ao mercado e aos métodos estatais, e que, como tal, já forma parte do funcionamento de nossa vida social. Em certa medida, nossas sociedades já solucionam problemas e se organizam para responder as necessidades utilizando a anarquia. A anarquia, portanto,  já está em ação. 



Não haverá mais Escolas 


No livro Anarquia em ação - a prática da liberdade, Colin Ward tem um capitulo dedicado à Educação, onde defende a desescolarização: Na introdução do capitulo Ward afirma: 

"O fim social da educação consiste, em última instância, em perpetuar a sociedade: é a função socializadora. A sociedade garante seu futuro educando as crianças a sua imagem e semelhança...Na sociedade governamental moderna, tal como expressa Frank Mckinnon, "o sistema educativo representa o maior instrumento do Estado Moderno para condicionar as pessoas. Matricula as crianças de cinco anos e tenta dirigir seu desenvolvimento e a maior parte do seus desenvolvimento social, físico e moral ao longo de doze ou mais anos, os mais importantes em sua formação como pessoa"

Lembra ainda  Colin a crítica de Bakunin à educação estatal: 

"Bakunin realizou a mesma comparação que fazem hoje Everett Reimer e Ivan Illich quando relacionam professores com a casta sacerdotal. Afirmou que "condições e causas simliares produzem sempre efeitos similares. Portanto, , ocorrerá o mesmo com os professores da escola, inspirados por Deus e certificados pelo Estado. Se converterão necessariamente, alguns sem sabê-lo, outros com total conhecimento de causa, em instrutores da doutrina do sacrifício do povo ao poder do Estado e ao benefício das classes privilegiadas" (pg.147)

A partir de um recorrido por pensadores como Willian Godwin , Bakunin, Illich, Colin Ward aponta as possibilidades de uma educação autogestionária, baseada na cooperação e apoio mútuo. Destaca processos como as revoltas libertária de  Maio de 1968 como demonstração dessa educação anárquica; 


As revoltas estudantis de Maio de 68 recolocaram a anarquia em ação 

"Durante a revolta estudantil mundial do final dos anos sessenta, se comentava que o período revolucionário de autogestão foi a única experiência genuinamente educativa com que haviam se encontrado: "Aprendeu-se mais naquelas seis semanas que em quatro anos de aulas" (Dwight MacDonald, sobre um estudante de Columbia) ; "todos se enriqueceram com a experiência e enriqueceram a comunidade através dela"(Estudante da London Scholl of Economics)... Que deliciosa ironia, que a educação real, a autoeducação, aconteça só quando se veta ou se ignora a custosa  hierarquia acadêmica. A revolta dos estudantes conformou um microcosmos de atividade anarquista, espontânea e auto-organizada que recriou uma estrutura de poder por uma rede de grupos e individuos autônomos" ( Pg. 158). 

E completa Ward : "Os estudantes experimentaram o sentimento de libertação que nos invade quando tomamos nossas prórprias decisões e assumimos nossas prórprias responsabilidades. É uma experiência que temos que levas mais além do privilegiado mundo da educação superior, as fábricas, aos bairros, a vida cotidiana das pessoas, em todas as partes" ( pag. 159) 

Ao ler essas passagens que Ward cita lembrando as revoltas dos estudantes nos anos 60, podemos nos remeter aos atuais movimentos estudantis de ocupação de escolas iniciadas em São Paulo no ano passado e que avançaram neste ano apra outros Estados. Ali podemos identificar o mesmo que Ward. Práticas de autogestão da educação pelos próprios estudantes, apoio mútuo, cooperação, ação direta. Ou seja, anarquismo em ação. 



Anarquia em ação nas escolas ocupadas


Ainda sobre Educação Ward conclui esse capítulo afirmando sua discordancia com a posição dos professores a cerca da educação estatal obrigatória. Destaca Ward que fala da posição de quem foi professor por mais de 40 anos, sendo inclusive diretor do sindicato dos professores, o que não o impede de apontar estas questões :

"Sou autor de vários livros de textos e exdiretor de um conselho escolar. Inclusive ex secretário da sesão de um dos sindicatos do ensino.  Todavia, em cada assunto importante tenho me colocado em completo desacordo com as opiniões da profissão docente. Quando esta lutou para ampliar o limite de idade mínima para o ensino obrigatório e conseguiu, eu estava a favor de sua supressão. A profissão quer eliminar o "setor privado" na educação, enquanto eu o vejo como a única garantia de que possa levar a cabo um experimento radical genuíno...Sou muito consciente de que a opinião institucionalizada da profissão não é a mesma que dos professores individuais. Venero a educação mas não posso digerir as tremendas pretenções do setor educativo, sobretudo se comparado com seus resultados" (p; 160)

Ao concluir, Ward corrobora com o pensamento de Ivan illich ao sustentar que,

"meus  receios em relação a educação se inscrevem na mesma desconfiança que sinto a qualquer outro aspecto do Estado corporativo ocidental contemporâneo, como por exemplo, o serviço público de saúde, ou o serviço de habitação"(p.160)


Por fim, destacamos nessa breve síntese sobre essa contribuição fundamental para pensar a ação anarquista na contemporaneidade, que frente as irresistíveis tendencias da sociedade moderna, que parecem querer converter-nos em pouco mais que consumidores escravizados, este trabalho já clássico de Colin Ward nos lembra que o irresistível é únicamente aquilo a que não se opõe resistência. 

A proximidade das proposições da Anarquia em ação com as recentes práticas dos movimentos antagonistas de caráter libertário como as mobilizações dos indignados, Okupas, desescolarizações, grupos autogestionários que se multiplicam em todo o mundo com práticas horizontais de combate à hierarquias e autoridades,  fazem desse livro uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do pensamento e das práticas libertárias e um chamamento para todXs a pensar e praticar novas formas de vida. Vidas anárquicas, anarquismos em ação, práticas de liberdade.




Edição mais recente de 2013 da Editora Enclave de Libros de Madri



Infelizmente ainda não contamos com nenhuma edição em português dessa obra. Uma lacuna que precisa ser logo preenchida. 

Um comentário:

  1. Exato. Tenho interesse sobre esse autor que descobrir agora nesse blog que é muito bom e bem organizado e escrito. Peço que entrem com contato comigo para eu poder ter acesso a obra mesmo em espanhol. Por favor escrevam para ricardoliper@gmail.com

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