terça-feira, 19 de julho de 2016

80 anos da Educação Libertária na Revolução Social Anarquista de 1936, por Paulo Marques


"...Pela primeira vez na minha vida, me encontrava em uma cidade onde a classe trabalhadora assumia o controle. Quase todos os edifícios, qualquer que fosse seu tamanho, estavam nas mãos dos trabalhadores e cobertos com bandeiras vermelhas e vermelhas e negras dos anarquistas...Em todas as lojas e em todos os cafés se viam letreiros que proclamavam  sua nova condição de serviços socializados, até as caixas dos sapateiros estavam pintadas de vermelho e negro...As formas servis e inclusive cerimoniosas  da linguagem haviam desaparecido. Ninguém dizia "senhor", todos se tratavam de "camaradas" e "tu" e diziam "saúde" no lugar de "bom dia". 
( George Orwel In Homenage a Cattaluña, Virus Editorial, Barcelona, 2007, p.21, tradução Paulo Marques) 




O dia 19 de julho de 1936 marca o inicio da Revolução Social Anarquista da Espanha que tem seu fim trágico em 1939 com a vitória dos fascistas de Franco. A exatos 80 anos o mundo conhecia a mais profunda experiência de autogestão societária do século XX. Mesmo sob ataque dos comunistas e dos fascistas, os anarquistas da CNT-FAI demonstraram que era possível uma vida social sem governantes e governados, sem patrões e empregados, sem comando e obediência, mas sim com auto-organização política e autogestão econômica, cooperação e apoio mútuo. Anarquia em ato. Pelo seu significado e alcance, tanto marxistas como liberais, defensores do Estado e da pseudo democracia liberal representativa, sempre tentaram manter a revolução espanhola no esquecimento. O "Curto Verão da anarquia" representou o que o ser humano é capaz, seja na construção de uma vida livre como na destruíção dessa mesma vida pelos inimigos da liberdade.


No campo da Educação Libertária os anarquistas buscaram levar a cabo o modelo de educação da Escola Moderna de Francisco Ferrer. Com a criação do órgão da Revolução  para efetivar essa proposta que foi o CENU - Consejo de la Escuela Nueva Unificada- as propostas de educação libertária tiveram como seu principal defensor Juan Puig Elias, educador anarquista que assume a Coordenação do Conselho. 

Escola Nova Povo Livre, cartaz do CENU 

A maioria dos educadores relacionados com o movimento libertário tinha como referêcia a figura de Francisco Ferrer. Este havia sido executado pela acusação de ser o responsável intelectual da insurreição conhecida como a Semana trágica, em 1909. Por sua sua influencia na educação, criando a chamada Escola Moderna já haviam sido criadas numerosas escolas racionalistas por toda a Espanha no periodo que antecede a revolução.

Podemos dizer que o sucesso imediato da autogestão, especialmente na Catalunha, se deve muito  a uma geração que foi educada nas escolas de modelo Ferrer que atendiam os filhos dos operários. Iniciada no inicio do Século XX, trinta anos depois uma geração que aprendeu sobre autogestão, liberdade, autonomia se viu diante da oportunidade de colocar em prática esse aprendizado no processo de revolução social que estoura em julho de 1936. Barcelona se constitui no centro da revolução libertára e palco da mais profunda e radical  experimentação de sociabilidade anarquista já realizada. O governo cai, os políticos desaparecem, os industriais abandonam as fábricas e os operários assumem o controle da sociedade que não pára de funcionar. A autogestão é uma realidade a partir daquele 19 de julho. Saúde, transporte, industria, serviços, educação, nada parou com a ausência dos chefes e diretores. Mostrava-se assim o quanto é desnecessário a logica do comando e obediência para o funcionamento da vida. Os anarquistas realizam, autogestionariamente aquilo que já faziam, só que agora sem um patrão. 

A educação de tipo racionalista já era uma realidade entre os anarquista do movimento operário e isso possibilitou que ficasse sob sua responsabilidade o processo educativo da revolução.  Joan Puig Elias, educador libertário, assume como Conselheiro de educação do Comitê Central de Milícias Antifascistas, que foi governo revolucionario de fato criado nos primeiros dias da revolução em Barcelona.


Cartaz da CNT em defesa da Escola Nova 

Foi no dia 27 de julho de 1936, que se constitui o Conselho da Escola Nova Unificada- CENU. O Decreto de criação afirma sua vontade de suprimir a escola confessional (então nas mãos da Igreja), a qual se acusa de ser o tipo de sistema educativo que provocou o golpe militar de Franco. Crêem em uma escola nova que impulse os principios racionalistas e a solidariedade. O CENU será o espaço de coordenação tanto da rede de escolas racionalistas patrocinadas pelos sindicatos e ateneus libertários, como as escolas públicas republicanas aderidas ao movimento da Escola Nova. O Comitê que gestiona o CENU será presidido por Joan Puig Elias, pedagogo libertário que havia sido professor da escola racionalista Natura. Entretando, haviam também escolas libertárias vinculadas a coletividades e sindicatos que não estiveram integradas ao CENU. Se praticou o laicismo e a coeducação entre os sexos. O Plano de Ensino do CENU estava dirigido para a formação profissional e a educação para o trabalho(O anarco sindicalismo espanhol, Colecttivo Solidario, Madrid, 2007, p. 254 )


Cartaz da Escola Nova Unificada 

 O espírito que impulsiona o Conselho educativo (o CENU) será o da unidade antifascista. Era este espírito de unidade o que havia criado o CCMA o Conselho de Economía, que pouco a pouco se encarregou de fomentar a autogestão nas industria e a socialização da economía. 


Juan Puig Elias, anarquista, será o responsável pelo Conselho de Educação da Comitê que assume o governo revolucionário da Catalunha e também assumirá como Presidente do  Conselho da Educação Nova Unificada- CENU, órgão responsável pela educação na Revolução Espanhola


Puig Elias defendeu essa análise ante os anarquistas, que defendían, ao menos, tentar o ensino libertário. Devido a isso recebeu rápidamente o apoio da FETE(a federação Educativa da Central sindical UGT) e do Governo da Generalitat.
Puig Elias, como educador libertário, discipulo de Ferrer, na função de Coordenador do CENU, defendeu a educação como ferramenta para conseguir uma sociedade harmônica e pacífica. Afirma assim que a Educação:


...não que fazer da criança um elemento de combate contra nada e ninguém, contra homens ou tendencias. A criança não é um meio, senão um princípio e um fim. Não aspira a dominá-lo nem a utilizá-lo a serviço de uma ideia, de um partido, de um homem ou de um regime. A criança é principio e fim. Sua alma ha de ser respeitada íntegralmente para que de a vida a plenitude de seu conteúdo, sem coações, sem deformações.
[...]se cada um de nós está convencido da bondade e superioridade de suas ideias, então não temos necessidade de deformar na alma da criança moldando-a a nosso gosto e segundo nosso critério particular. Se temos confiança em que o desenvolvimento integral de todas e cada uma das faculdades da criança se ha de conquistar como corolário o desenvolvimento integral que é a meta, não podemos sentir a necessidade de dar a criança ideias feitas e que sejam para ela como una couraça que lhe impeça de abrir novos horizontes. Somente os homens que estão convencidos da falsidade de seus ideais necessitam deformar a alma natural da criança quando todavía é terna"


A Educação Libertária assim como todas as realizações da Revolução anarquista de 1936, deixaram como legado a demonstração das possibilidades que se abrem de uma sociabilidade anárquica e libertária a partir de um processo também de educação libertária. Os trinta anos de educação nas escolas modernas de Ferrer possibilitaram a emergencia de uma geração de homens e mulheres capacitados para autogerir uma sociedade, eles provaram isso na Revolução de 1936, que os anarquistas de todo o mundo lembram hoje com muito orgulho.



Um belo filme sobre essa experiência é " Viver a utopia"





Um comentário:

  1. Edição portuguesa: https://www.wook.pt/livro/homenagem-a-catalunha-george-orwell/192380

    ResponderExcluir

As educadoras anarquistas individualistas: mulheres livres na Belle Époque, por Anne Steiner*

Nos trabalhos que reconstroem a gênese do movimento feminista apenas são citadas as figuras das mulheres anarco-individualistas do pr...