terça-feira, 26 de abril de 2016

José Pacheco resgata história do educador anarquista Alessandro Cerchiai


José Pacheco, educador português, um dos fundadores da Escola da Ponte, atualmente vive em São Paulo onde coordena projetos de educação



No último livro do Educador Português José Pacheco, "Aprender em Comunidade", lançado em 2014, o autor resgata a história de um importante educador anarquista, Alessandro Cerchiai, fundador da escola Germinal em São Paulo em 1902. 

O livro apresenta uma série de educadores dos quais José Pacheco escreve cartas que servem para dialogar com suas ideias e ao mesmo tempo apresentar suas breves biografias. Na apresentação que fez para o livro, Celso Vasconcellos destaca: 

'Nesta obra, o prof. José Pacheco volta a empregar o gênero textual epistolar de Para Alice, com amor. Só que, ao contrário de lá, em que se dirigia exclusivamente, e de maneira emocionante, à netinha, preparando-a para a entrada na escola, aqui são muitos os destinatários e com grande variedade de características, tanto em termos de tempo (do séc. XVI ao XXI), de espaço (atividades nos mais diversos estados brasileiros, e alguns também no exterior), de profissão (educadores, em sua maioria, mas também sociólogos, antropólogos, padres, líderes comunitários, poetas, músicos, jornalistas, juristas, médicos, etc.). Todavia, todos com uma peculiar contribuição para a construção do Aprender em comunidade, garimpada com muito rigor, precisão e paixão pelo autor. Um aspecto formal do livro que cabe destacar é que, além, propriamente, das cartas, o prof. José Pacheco nos presenteia com um relevante complemento: biografia e bibliografia (incluindo obras do destinatário, obras sobre ele e páginas da internet). Esse complemento difere um pouco do gênero textual carta, mas é de grande ajuda (até porque, devo confessar, algumas das pessoas a quem se dirige eram desconhecidas para mim também…) 

O que nos chama atenção nesta apresentação é o reconhecimento por parte do autor de que “algumas das pessoas a quem se dirige eram desconhecidas para mim…” ;

Quem está escrevendo isso é ninguém menos que Celso Vasconcellos referência da pedagogia brasileira. É um reflexo do que já falamos nesse blog a respeito daquilo que José Pacheco com propriedade chama de “pacto de silêncio” sobre a história da Educação anarquista no Brasil. Ha no Brasil ainda um enorme desconhecimento sobre essa história.



No capítulo 20 da obra, José Pacheco resgata a história do educador anarquista Alessandro Cerchiai

O livro na íntegra está disponível em PDF nesse site:

http://www.edicoessm.com.br/catolicas/assets/af_aprender-em-comunidade_miolo2.pdf

Postamos aqui o capítulo(carta) 20 do livro de José Pacheco que é dedicado ao anarquista Alessandro Cerchiai, fundador da Escola Libertária Germinal em São Paulo no ano de 1902. 



São Paulo, abril de 2013.

Amigo, Alessandro,


Amigo Alessandro, Mais de um século não foi tempo suficiente para dar corpo aos teus ideais, que eram os de Zola(1) , de Louise Michel(2), os princípios de Francisco Ferrer(3) . Crê, caro Alessandro, que, nesta segunda década do século XXI, o teu mestre catalão já não acabaria vilmente executado no morro de Montjuic, mas talvez os seus desígnios fossem frustrados por sutis modos de impedir que a humanização da escola aconteça. 

A Escola Libertária Germinal, que fundaste em 1902, na cidade de São Paulo, pouco mais durou do que a de Tolstói(4), que o czar da Rússia mandou fechar. O sonho de uma escola elementar racionalista, para ambos os sexos, ingloriamente foi encerrada em 1904. Apesar de veres malogrado o teu intento, foste o precursor dos precursores da Escola Nova. Mas, hoje, apenas emprestas o teu nome a uma rua de São Paulo, cujos moradores nem sequer sabem quem foste, ou o que fizeste.

Depois de um breve inquérito de rua, apenas um transeunte ensaiou resposta: “Alessandro? Isso é nome de jogador de futebol, não é?”. 

Na Germinal de 1902, os pais não apenas participavam com uma pequena mensalidade como intervinham na arrecadação de fundos e, de algum modo, na gestão do projeto. Decorrido mais de um século, os teóricos continuam a produzir teses sobre a relação escola-família, mas as famílias continuam marginais à vida nas escolas e são frágeis as estruturas de participação. 

Em novembro de 1904, lançavas um derradeiro apelo nas páginas do jornal O Amigo do Povo(5): “Pensai no futuro de vossos filhos!”. E reafirmavas as virtudes dos métodos aplicados na tua escola. Ao que parece, a população do Bom Retiro não se preocupava com a educação dos seus filhos… Nem parece que se importa, quando, no século XXI, os submete à nefasta influência de práticas sociais denunciadas ao longo de um século pródigo em práticas alternativas. 

Amigo Alessandro, existe um pacto de silêncio em torno de iniciativas como o Círculo Educativo Libertário Germinal, de São Paulo, a Universidade Popular de Ensino Livre, do Rio de Janeiro, as Escolas Modernas de São Paulo e de Bauru, todas da primeira década do século XX. Quem ouviu falar da Escola Germinal, do Ceará, da Escola Social, de Campinas, da Escola Operária, de Vila Isabel, e da Escola Moderna, de Petrópolis? As faculdades de educação não informam aos futuros professores de Porto Alegre que, em 1906, havia por lá uma escola com o nome de Elisée Reclus(6)… 

Eu sei que te custará compreender, mas, no Brasil de 2014, as escolas ostentam designações com referência a coronéis, genocidas, ditadores e torcionários. Uma professora deteve-se em frente à sua nova escola. O que a impedia de entrar? A blindagem do portão? A catraca? O carrancudo guarda? Não. Aquilo que a fez parar foi a leitura da placa, que indicava o nome da escola: o nome de quem havia torturado e ajudado a matar o seu pai, durante a ditadura. Querido Alessandro, ainda vivemos num país onde escolas celebram a morte da memória, onde pesam a herança neocolonialista e outros males sociais, perpetuados pela velha escola, reprodutora de desigualdades, analfabetismos, exclusão. 

Tal como o país, a escola está imersa numa profunda crise ética e moral, a serviço da reprodução de uma sociedade doente. Sei que será difícil acreditar, mas crê que eu li num muro de uma cidade brasileira este dístico: Colégio D. – a seleção natural. Não restam dúvidas de que, 110 anos decorridos sobre a tua tentativa de humanizar a escola, nos mantemos na proto-história da escola. E da humanidade.

NOTAS

1 Émile Zola (1840-1902) foi um escritor francês da escola naturalista, autor de Germinal (1885), romance que retrata a vida de mineiros no século XIX. 

2 A francesa Louise Michel (1830- -1905), também conhecida como Enjolras, foi professora e escritora anarquista, participou da Comuna de Paris (1871), primeira experiência revolucionária de influência anarquista da história. 

3 Francisco Ferrer (1859-1909) foi um pensador anarquista e pedagogo, criador da Escola Moderna, um projeto de educação libertária. Foi executado pelo governo espanhol, acusado de ser um dos líderes de um movimento conhecido como Semana Trágica, em Barcelona, no ano de 1909. 

4 Liev Nikolayevich Tolstói (1828- -1910), autor de Guerra e paz (1869), foi um escritor russo de grande sucesso. Também adepto do anarquismo e preocupado com a precariedade da educação no meio rural de seu país, Tolstói criou, em Yasnaya Polyana, uma escola para os filhos de camponeses. Ele mesmo produziu parte do material didático e, procurando caminhos diferentes da pedagogia da época, propunha uma educação libertária, da qual os alunos pudessem participar ativamente. 

5 Trata-se de um periódico anarquista publicado em São Paulo a partir de 1902. Comandado por diversos imigrantes anarquistas – Neno Vasco, Benjamim Mota, Ricardo Gonçalves, Oreste Ristori, Giulio Sorelli, Tobia Boni, Angelo Bandoni, Gigi Damiani e Alessandro Cerchiai –, teve forte influência no movimento operário brasileiro durante a Primeira República. 

6 Trata-se de escolas criadas por anarquistas na Primeira República. Sobre elas, podem-se encontrar informações em JOMINI, Regina Celia Mazoni. Uma educação para a solidariedade: contribuição ao estudo das concepções e realizações educacionais dos anarquistas na República Velha. Campinas: Pontes, 1990.


Quem foi Alessandro Cerchiai ?


As informações sobre a vida de Alessandro Cerchiai são bastante escassas. Sabemos que nasceu em Pescia, na Itália, em 1877. Viveu na França entre 1884 e 1896, quando tomou contato com ideias anarquistas. Voltou para a Itália e lutou na Guerra Greco-Turca, em 1897, que se referia à disputa entre Grécia e Império Otomano pelo controle da ilha de Creta. 

De volta à Itália, Cerchiai se envolveu no movimento anarquista que tumultuou Milão, em 1898. Por conta dessa participação, foi detido e condenado a dois anos de prisão. Ao deixar o cárcere, Alessandro emigrou para o Brasil, onde se juntou aos imigrantes anarquistas dos bairros operários de São Paulo. 

Entre 1902 e 1904 se dedicou à Escola Libertária Germinal, que, aparentemente, encerrou as suas atividades por falta de recursos. Em 1903, fundou, com o também imigrante italiano Gigi Damiani, o jornal La Barricata. Colaborava escrevendo também para O Amigo do Povo e La Battaglia. Todos, evidentemente, jornais anarquistas que circulavam pelos bairros operários, principalmente na cidade de São Paulo. 

Ao que parece, entre 1914 e 1916, deixou a capital paulista e foi viver em Bauru, onde teria lecionado numa escola de caráter anarquista. Nesse local, ensinava sobre a ideia de solidariedade anarquista e pretendia incutir nos estudantes a relação entre liberdade e responsabilidade. 

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18), Cerchiai colaborou em jornais antifascistas da Itália e do Brasil, liderando alguns deles, como La Difesa e Il Risorgimento. Até o fim de sua vida, manteve a militância anarquista e a defesa de uma educação libertária. Alessandro Cerchiai morreu em São Paulo, no mês de outubro de 1935.




La Battaglia, 1909, ano VI, n. 225. Jornal anarquista, editado por Alessandro Cerchiai, que circulava pelos bairros operários, principalmente na cidade de São Paulo.






2 comentários:

  1. Baixei o livro e sou grato pela iniciativa da publicação. É muito estimulante a discussão de ideias através de cartas como as feitas por José Pacheco. No caso da reflexão sobre ideias pedagógicas é particularmente estimulante e bem didática. Quanto a Cherchiai, faço apenas um ligeiro acréscimo. Cherchiai tinha conquista a estima e consideração dos trabalhadores, em particular dos anarquistas, pela energia e empenho na luta libertária. No entanto ele foi atingido pela febre bolchevique na passagem da década de 1910 para a de 1920. Florentino de Carvalho faz este registro num artigo publicado em A PLEBE de 20.03.1920 com título FALÊNCIA DO ANARQUISMO?!. Neste artigo Florentino rebate Cherchiai quando ele anunciava pelos jornais que o anarquismo tinha falido mundialmente. Bom. Num pequeno registro da morte de Cherchiai em 1935, um dos redatores de A PLEBE comenta o falecimento e diz de um recente encontro com Cherchiai. Ele comenta ter Cherchiai reconhecido o erro em que caíra ao se afastar do anarquismo. O redator o convida a retomar a luta libertária, mas ele como que reconhece a besteira que fez e como que a falta de credibilidade em que ficara. Mas diz que estava, apesar de tudo, junto dos anarquistas. Não tenho agora de memória em que número de A PLEBE esteja este pequeno necrológio. Abraços e anarquias!!!!!

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    1. Que ótimas informações amigo. Acho importante resgatarmos essas histórias destes personagens que ficaram esquecidos mesmo tendo realizado ações significativas no campo da educação libertária e da luta social. Valeu pelas informações. Forte abraço libertário

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