quinta-feira, 21 de abril de 2016

Entrevista sobre a 1 Jornada de Educação Libertária de Pelotas: A Educação de Anarquistas



Entre os dias 17 e 20 de maio próximo,  o Grupo de Pesquisa Educação Libertária & Anarquista-GPEL&A da UFPel realizará a 1 Jornada de Educação Libertária de Pelotas- A Educação de Anarquistas. 

O evento que contará com convidados, apresentação de trabalhos, oficinas, shows, mesas redondas, painéis será realizado na Faculdade de Educação da Ufpel e nos dois espaços de vivências autogestionárias da cidade, a Okupa 171, e a OCA. Para falar um pouco sobre essa atividade o Blog entrevistou o prof. Paulo Marques, Coordenador do Grupo de Pesquisa e um dos organizadores da Jornada. 



De onde nasceu a ideia da 1 Jornada de Educação Libertária- a Educação de Anarquistas.

Estamos trabalhando com a temática da Educação Libertária na Faculdade de Educação desde 2014; Eu como professor e os estudantes de diferentes cursos que se interessaram pelo tema, principalmente a partir da Disciplina de Fundamentos Sócio-Histórico Filosófico da Educaçao que ministro nos cursos de licenciatura, na qual estudamos às ideias e filosofias da Educação entre elas as chamadas pedagogias antiautoritárias ou Libertárias, resolvemos criar o Grupo de Estudos sobre Educação Libertária. O objetivo do grupo foi aprofundar o estudo das ideias, autores, pensamentos, história dessa proposta educacional. Como a ideia foi não só estudar a educação libertária mas realizar ao mesmo tempo um exercício de educação libertária nada melhor do que realizar em espaços de vivência baseados na autogestão. Assim optamos por fazer os encontros na Okupa 171, que é um espaço de vivência autonoma e autogestionária existente em Pelotas à seis anos e onde vivem estudantes que estão no Grupo de Estudos. A ideia foi ótima, pois esse espaço com suas atividades culturais, a Biblioteca José Saúl que funciona dentro da Okupa,  constituem a expressão concreta e prática  do que compreendemos como Educação Libertária. Realizamos no anos passado 2 ciclos de Filmes, que denominamos "Educação e(M) Liberdade". Percebemos também a necessidade de criar uma disciplina optativa sobre Educação Libertária em face da quase total ausência da contribuição do pensamento libertário para a educação nos programas das disciplinas de pedagogia. Assim criei essa optativa  no Semestre passado, sendo oferecida para estudantes de todas os cursos, também abrimos para pessoas que sequer estavam matriculadas na Faculdade e participaram como alunos ouvintes. Foi uma experiência fantástica que continuaremos nesse ano no segundo semestre. Também desde o ano passado criamos um Grupo de Pesquisa sobre o tema que está realizando a pesquisa: "Memória, teoria e prática da Educação Libertária no Rio Grande do Sul", exatamente com a ideia de resgatar a memória dessa proposta educacional que ainda permanece desconhecida na acadêmia e estudar as experiências existentes hoje, sejam elas no campo teórico como prático. Não poderia deixar de mencionar que o modelo da nossa Jornada teve como base a Jornada de Pedagogia Libertária realizada pelos companheiros da Difusão Libertária, de Recife, que também reúne estudantes e professores da Universidade Federal de Pernambuco. A Jornada deles já irá esse ano para a quart edição e é um grande sucesso a cada ano. 


Por que o tema escolhido foi “A educação de anarquistas”. Existem Educação Libertária não anarquista?


Esse é um tema fundamental dos estudos sobre a Educação Libertária. Afinal o que é essa educação?, quem propõe?, quem fez?, quem faz ela?, se é que alguém a faz. Essa discussão  que motivou a ideia da Jornada e do tema. O conceito de Libertário, tanto na Europa como na América Latina sempre foi sinônimo de anarquista. A exceção é os EUA. A própria ideia e o conceito de Educação Libertária foi uma invenção dos anarquistas já no século XIX nos textos de Proudhon, Bakunin, Elisé Reclus, e posteriormente na prática de Paul Robin, um dos primeiros pedagogos anarquistas da história,; Sébastien Faure e Francisco Ferrer. Então Educação Libertária foi o nome dado pelos anarquistas a sua proposta educacional. Por isso a vinculação é profunda. Mas ao longo da história podemos ver que a discussão de uma educação livre, autogestionária, antiautoritária que são as premissas da Educação dos anarquistas não ficaram restritas a eles. Assim podemos dizer que se todo anarquista é libertário,  nem todos os libertários são anarquistas. Na Educação temos exemplos de educadores como Ivan Illich, Alexandre Neill e até de certa maneira Freinet que elaboraram ideias educacionais libertárias, no qual a liberdade e anti-autoritarismo estão no centro de suas proposições pedagógicas. Podemos agregar ainda os filósofos da chamada Filosofia da Diferença como Deleuze, Foucault inspirados em outro libertário não anarquista que é Nietzsche que tem uma enorme contribuição teórica para pensar a educação desde uma perspectiva libertária.

Bem, não é desses autores especificamente que a Jornada tratará. Mas isso não significa que não fará um diálogo com eles. Optamos por dar uma ênfase àqueles que se auto-identificaram com o pensamento político filosófico do anarquismo no campo da educação a partir do final do século XIX , século XX e atualmente e que exatamente por serem anarquistas foram historicamente perseguidos e marginalizados pelos poderes dominantes. Esses educadores anarquistas tem uma bela história não contada ainda, de construção da Educação Popular no Brasil durante a Primeira República. Foram eles que assumiram o desafio de educar os filhos dos operários e se auto-educar de forma autogestionária, sem qualquer tutela seja do Estado seja do Mercado ou da Igreja. Faziam dos seus sindicatos espaços para a educação, assim como seus jornais e revistas. Também construiram as próprias escolas. Uma história que precisa ser resgatada por sua importância.


Dentro dessa temática quais os pontos que serão abordados na Jornada.

A Jornada como eu falei é uma atividade do Grupo de Pesquisa e como tal é parte dos objetivos dessa Pesquisa, ou seja resgatar a memória daqueles e daquelas que na história ousaram criar uma proposta educacional de caráter libertário dentro do sistema autoritário que é o Estado-Nação. Os principais protagonistas dessa tarefa foram os anarquistas. 

Nesse sentido propomos quatro eixos temáticos para a Jornada: O primeiro é o eixo temático da História, onde queremos discutir o que foi feito em relação à teoria e a prática,  como e porque a historiografia oficial da Educação marginalizou a contribuição dos anarquistas para a educação, sendo eles pioneiros de muitas propostas pedagógicas que somente muito tempo depois será assimilada pelas demais correntes modernas da educação. O segundo eixo será o de Biografias, ou seja, estudos de histórias de vidas de educadores e educadoras anarquistas que durante os séculos XIX e XX realizaram experiências práticas de Educação Libertária. Muitos foram esquecidos e graças a pesquisas autodidatas, que é uma caracteristica da própria educação libertária, foi possível preservar materiais para futuras pesquisas hoje. O Terceiro eixo será voltado para as pesquisas atuais nas mais diversas áreas do conhecimento que se baseiam nos pressupostos libertários, seja a história, geografia, ciência e também temas interrelacionados como movimento social e questões de gênero. Hoje vemos um importante crescimento das pesquisas de gênero em perspectiva libertária como por exemplo as contribuições de Judith Butler e a teoria “Queer”. E o quarto eixo será sobre experiências atuais de Educação Libertária. Nesse ponto pretendemos discutir as ideias de pós escolarização, educação nômade, educação em espaços autogestionários e de vivências libertárias como nas Okupas e Bibliotecas Libertárias. Encerraremos a Jornada com uma Mesa de Experiências, reunindo diversas iniciativas existentes. 


Poderia nos adiantar quem são os convidados já confirmados?


Já confirmamos a presença do professor doutor Rodrigo Rosa da Silva da USP que é também um dos coordenadores da Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo que hoje é uma referência nacional em publicação de obras sobre o pensamento anarquista e libertário. Graças ao trabalho deles temos a primeira edição brasileira do livro “Escola Moderna” de Francisco Ferrer, escrita em 1909 e nunca editada no Brasil. Assim como o livro “A Colmeia” uma proposta pedagógica, de Sébastien Faure, lançada no final do ano passado. Uma edição que tivemos a satisfação de ajudar a fazer,  realizando a correção da edição brasileira de 1919. A Editora que nasceu como Biblioteca é um dos mais expressivas experiências de Educação Libertária da atualidade. Rodrigo fará o painel de abertura que abordará as experiências históricas de Educação Libertária e também participará do lançamento do Livro “A Colmeia” , ambas atividades estão marcadas para 17 de maio, as 19 no Auditória da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufpel. 



Livro "A Colmeia. Uma experiência Pedagógica, de Sebastién Faure editado pela Biblioteca terra Livre será lançado na abertura da Jornada, dia 17 de maio, as 19h no Auditório da FAURB.


Outro nome que nos orgulhará muito de sua presença será do jornalista e pesquisador autodidata João Batista Marçal que fará uma painel sobre pesquisa autodidata e história do anarquismo no Rio Grande do Sul. Marçal é  um nome de grande reconhecimento por ser o único pesquisador a publicar obras que resgatam a história dos anarquistas gaúchos. Foi graças aos livros “As primeiras Lutas Operárias no Rio Grande do Sul” de 1985 , “Anarquistas do Rio Grande do Sul” de 1992 e o “Dicionário da Esquerda Gaúcha” de 2008 que hoje é possível conhecermos a memória de muitos ativistas e educadores anarquistas do nosso Estado. 


Obra pioneira  de Marçal sobre ativistas  anarquista do Rio Grande do Sul, entre eles educadores libertários




Também contaremos com a participação do pesquisador Guilherme Schroder, que vem realizando pesquisas sobre desescolarização e educação pós-escolarizada, um tema significativo para a reflexão sobre as perspectivas atuais de uma Educação em perspectiva libertária.

Estamos ainda para confirmar a presença dos compas de recife da Difusão Libertária. 


E quanto aos locais? Onde serão as atividades?

Conforme falei a nossa ideia não é apenas estudar a Educação Libertária, mas de alguma forma buscar exercitá-la, o que é mais dificil com certeza, dado ao grau de institucionalização em que vivemos. Por isso optamos por realizar uma parte da Jornada nos espaços libertários de Pelotas, especialmente a OKUPA 171, e a OCA. Nada melhor para exercitar práticas libertárias do que espaços de vivência autogestionária. Por si só será um aprendizado conviver e conhecer formas de vida baseadas na autogestão, apoio mútuo e cooperação.
Também estamos organizando um show de encerramento que será na rua em frente a OKUPA na noite de sexta-feira, dia 20. 

Biblioteca José Saúl da Okupa 171. Seis anos de vivencia e atividades culturais libertárias na cidade de Pelotas.





OCA- Ocupação Coletiva de ArteirXs, completou seu primeiro aniversário no ano passado. Espaço libertário de arte, cultura e vida autogestionária.



Quais as expectativas para a Jornada no que diz respeito a público e objetivos?



Estamos com ótimas expectativas. A recepção da Jornada na página do Face assim como nas inscrições prévias e envio de resumos no site que criamos, superou nossas expectativas A interação com pessoas interessadas tem sido constante e isso nos deixa muito animado. Isso mostra que essa temática é bem mais interessante do que se imagina na academia, que tem pouquíssimos espaços ainda para os interessados nessa temática. 

Sobre os objetivos, como falei anteriormente, a Jornada é uma atividade do grupo de pesquisa, está direcionada para a pesquisa sobre Educação Libertária, só que de uma forma colaborativa, exercendo o que os anarquistas chamam de “Apoio Mútuo” para construir contato e relações com quem está realizando pesquisa nessa área ou quem quer vir a realizar. Por isso um dos objetivos é conhecer as pessoas, suas pesquisas, seus temas, e a partir daí estreitar relações para que possamos nos ajudar com reciprocidade. 

Será uma Jornada mais acadêmica?

É acadêmica no sentido que é direcionada para quem está fazendo pesquisa na academia, mas não só. Além de conhecer as pesquisas em andamento e os pesquisadores, o mais significativo será trocar ideias com  aqueles e aquelas que realizam na prática uma Educação Libertária, que muitas vezes não é identificada como educação nem mesmo por eles próprios. Isso é compreensível na medida em que sabemos que a educação ocidental moderna monopolizada pelo Estado só tem um único modelo, que é o modelo escolar. Qualquer experiência fora desse modelo é deslegitimado pelo Estado e também pela própria sociedade e suas instituições como a Universidade por exemplo. Por isso, discutir a Educação para além da Escola é algo que os anarquistas do passado já fizeram e os  anarquistas de hoje estão fazendo. Isso podemos verificar nas práticas realizadas nos espaços de vivências autônomas e autogestionárias, seja nos Centros de Cultura, nas Bibliotecas Libertárias, nas Okupas, nas diversas editoras libertárias, nas Comunidades de Aprendizagem etc. É sobre essas possibilidades, sobre o que os anarquistas, sempre rebeldes, realizaram no passado como Educação Libertária e o que realizam hoje que a Jornada tem seu maior interesse. 


Teria alguma informação a mais sobre a Jornada?


A Jornada como eu disse não só quer discutir a Educação Libertária, mas tentar experimentar um exercício de Educação Libertária nesses quatro dias de encontro. Para isso propomos que cada um que venha na Jornada procure exercitar a autogestão, o apoio mútuo, a solidariedade e a troca de saberes. Pois isso é a premissa da pratica da Educação Libertária. Por isso queremos que cada participante seja um construtor de sua própria participação. Não só participando dos debates mas na construção deles. A dinâmica será de Roda de Conversa, em alguns casos com um painel inicial realizado pelos convidados. No caso da apresentação de trabalhos também. 

Também, quem quiser trazer alguma alimentação que produziu para comercializar entre os participantes, algum artesanato, alguma criação sua, se quiser apresentar uma atividade cultural poderá fazer. A Jornada é gratuita. Faremos certificado para quem solicitar. A ideia não é que seja meramente um encontro “acadêmico” , de “especialistas”como os encontros tradicionais. Será um encontro de pessoas que estão estudando ou querem estudar a Educação Libertária como daqueles que querem conhecer quem está estudando e fazendo essa educação. Por isso ele se pressupõe livre e baseado na auto-organização de cada um que participe.

Maiores informações estão no site da Jornada : http://jeduliber.wix.com/educacaoanarquista

3 comentários:

  1. Linda entrevista. Só uma coisinha que tá mal, a idade da biblioteca José Saul. Ela foi fundada no final de 2007, tenho algumas fotos que dão conta de mostrar esta história e zines também, foi na época da Ocupa Tranca Rua que deu nome ao coletivo. Sofremos desalojos e tivemos que deixar os livros um pouco em cada lugar( alguns livros ficaram lá na casa onde foi a tranca rua e provavelmente estejam lá até hoje) até chegar 2009 quando ocupamos a 171 e finalmente pudemos ativar novamente a biblioteca, portanto a biblioteca tem 8 anos, é pouca diferença, mas estes dois anos foram cruciais.Ela também funcionou com o nome de "Biblioteca Cláudio Saraiva", nome de um personagem fictício a quem atribuíamos as assombrações que rolavam nas duas casas! Tenho como comprovar essas histórias. Bjs

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  2. Legal Juliana, ótimas informações que você traz. Esse é o objetivo da pesquisa e da Jornada. Manter viva a história desses espaços como as bibliotecas libertárias. Como você pode ver muitas vezes temos informações incompletas mesmo. Abração

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    1. Capaz, estamos aí para isso amores!!! A Jornada estava muito boa!!!

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