sábado, 30 de abril de 2016

Emma Goldman e o Primeiro de Maio



"Cheguei a cidade de Nova York no dia 15 de agosto de 1889. Eu tinha vinte anos". Assim Emma Goldman, inicia a sua autobiografia "Vivendo minha vida" , lançada pela primeira vez no Brasil no ano passado pela editora L-dopa Publicações.

Nesse fantástico livro a famosa anarquista conta sua história de 50 anos de militancia anarquista, que só terá fim com sua morte em 1940.

A biografia começa com Emma relatando  os seus  primeiros dias em Nova York. Com apenas 20 anos, a jovem que chegava da Lituania tinha seu primeiro  contato com o anarquismo  ao participar de uma palestra sobre a condenação à forca  de 5 ativistas ácratas. Eram os Mártires de Chicago, que lutavam pelas 8 horas semanais de trabalho. Esse fato dará origem ao 1 de Maio como o Dia do Trabalhador:



"Em certo domingo anunciaram  que uma oradora socialista famosa de Nova York, Johanna Greie, iria palestrar sobre o caso sendo julgado em Chicago. Na data marcada eu era a primeira no Salão(...) Logo o dirigente da sessão anunciou a oradora. Era uma mulher nos seus trinta anos, pálida e de expressão ascética, com grandes olhos luminosos. Ela falou com grande força, numa voz que vibrava com intensidade. Seus modos me venceram. Esqueci a polícia, a audiência e tudo o mais a meu respeito. Tinha a consciência apenas da frágil mulher de preto anunciando apaixonadamente as forças que estavam prestes a destruir oito vidas humanas.

A fala inteira  concernia os eventos comoventes em Chicago. Ela começou relatando o pano de fundo histórico do caso. Falou das greves trabalhistas que ocorreram por todo o país em 1886 exigindo uma carga horária  de oito horas. O centro do movimento era Chicago, e lá o conflito entre os operários e seus patrões tinha se tornado mais intenso e mais amargo. Um encontro dos empregados grevistas da companhia McCormick Harvester na cidade foi atacada pela polícia: homens e mulheres foram espancados, e diversas pessoas mortas. Para protestar contra isso um encontro de massa foi marcado na praça de Haymarket em 4 de maio. Foi conduzido por Albert Parsons, August Spies, Adolph Fischer e outros, e foi calmo e ordeiro.  Isso foi atestado por Carter Harrison, prefeito de Chicago, que havia se juntado ao encontro para ver o que estava acontecendo. O prefeito então saiu, satisfeito que tudo estava bem, e informou o Capitão do Distrito disso. O dia estava nublado, e uma leve garoa começava a cair; as pessoas se dispersavam, algumas poucas permaneciam enquanto o último dos oradores se dirigia à audiência. Foi então que o capitão Ward, acompanhado de uma grande força policial, subitamente apareceu na praça. Ele exigiu que a reunião se dispersasse naquele instante. "Esta é uma reunião ordeira", o dirigente replicou, no que a polícia caiu sobre as pessoas, espancando-as sem pena. Nisso, algo brilhou no céu e explodiu, matando um número de oficiais de polícia e ferindo mais outros. Nunca se descobriu quem foi o verdadeiro responsável, e as autoridades pouco fizeram para isso. Ao invés disso foi imediatamente ordenada a prisão de todos os oradores em Haymarket e outros anarquistas proeminentes. Toda a imprensa e a burguesia de Chicago, bem como todo o país exigiu o sangue dos prisioneiros. Uma verdadeira campanha de terror foi criada pela polícia, que recebeu apoio moral e financeiro da Associação dos Cidadãos para  prosseguir com seu plano de eliminar anarquistas. A opinião pública estava tão inflamada pelas histórias atrozes circuladas pela imprensa que, para os líderes da greve, a chance de um julgamento justo se tornou mínima. Na verdade, o julgamento se provou a pior trama para culpar inocentes da história dos Estados Unidos. O jurí foi escolhido para condenação; o promotor público anunciou abertamente que não apenas os homens presos estavam sob acusação mas que "o anarquismo estava em julgamento" e que ele deveria ser exterminado. As testemunhas foram aterrorizadas ou subornadas, com o resultado que oito homens, inocentes de um crime com o qual não tinham ligação nenhuma, foram condenados. A opiniãopública, incitada e o preconceito geral contra os anarquistas, junto à amarga oposição dos empregadores à jornada de oito horas constituíram a atmosfera que favorecia o assassinato jurídico dos anarquistas de Chicago. Cinco deles - Albert Parsons, August Spies, Louis Lingg, Adolph Fischer, e George Engel - foram sentenciados à morte por enforcamento; Michael Schwab e Samuel Fieden foram condenados à prisão perpétua; Neebe recebeu quinze anos. O sangue inocente dos mártires de Haymarket exigia vingança" . ( Emma Goldman In "Vivendo minha vida" , 2015, p. 8 -9 ) 


Em tempos de sindicatos que fazem do 1 de Maio meros  atos  em defesa de governos a memória histórica das origens desse marco da luta dos trabalhadores torna-se cada vez mais significativa .


Documentário sobre a vida de Emma Goldman ( Legendas em espanhol)


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