sexta-feira, 8 de abril de 2016

Carta de Piotr Kropotkin a Francisco Ferrer i Guardia*


Nesta saudação a Francisco Ferrer i Guardia, Piotr Kropotkin expressa seus ideais acerca da educação anarquista, destacando os benefícios que levaria para o desenvolvimento de inteligencias livres a instalação de práticas pedagógicas propostas desde os princípios da educação racional e integral. O geógrafo russo e reconhecido teórico, faz menção a uma educação que não venha das classes acomodadas, mas que contenha o saber popular e cujo ensino seja economia de tempo.

A tradução foi retirada do Suplemento Literário, agregado mensal do periódico Solidaridad Obrera, órgão de difusão da C.N.T., que na época se encontrava no exílio em Paris. O suplemento data de novembro-dezembro de 1959, que foi um número monográfico dedicado a Francisco Ferrer i Guarda a propósito do centenário de seu nascimento e o 50° aniversario de sua execução no Castelo de Montjuic.



Sr. D. Francisco Ferrer.

Querido companheiro e amigo:

Vejo com prazer que você lança à publico L´Ecole Renové e sinto não poder dedicar a esta publicação todo o apoio que desejaria prestar-lhe.

Tudo está por ser feito na escola atual. Tudo na educação propriamente dita, quer dizer, a formação do ser moral, ou seja, o individuo ativo, cheio de iniciativa, empreendedor, valente, livre dessa timidez de pensamento que caracteriza o homem educado em nossa época, e ao mesmo tempo sociável, igualitário, de instinto comunista e capaz de sentir sua unidade com todos os homens do universo inteiro, e portanto, despojado das preocupações religiosas, estritamente individualistas, autoritárias, etc., que nos inculca a escola.

Em tudo isso, não há dúvida que a obra da Escola mais perfeita será dificultada sempre enquanto a família e a sociedade atuam em direção contrária; mas a escola há de reagir frente a esses dois fatores. E pode fazê-lo, pela influência pessoal dos que ensinam e pelo modo de ensinar. Para isto se necessitam evidentemente criar pouco a pouco novas exposições de todas as ciências concretas em lugar dos tratados metafísicos atuais, societários –“associacionistas”, me permita a palavra- em lugar de individualistas; e dos tratados “populares” feitos desde o ponto de vista do povo, em lugar do ponto de vista das classes acomodadas, que domina em toda a ciência atual e sobretudo nos livros didáticos.

A respeito da historia, e a economia social, é evidente, ninguém duvida. Mas o mesmo ocorre no que diz respeito à todas as ciências, a biologia, a fisiologia dos seres vivos em geral, a psicologia e até a respeito das ciências físicas e matemáticas. Tomemos como exemplo a astronomia: Que diferença quando é ensinada desde o ponto de vista geocêntrico, do que resulta concebido e ensinado desde o heliocêntrico, e da que será ensinada desde o ponto de vista dos infinitamente “pequenos” que recorrem os espaços, cujos choques em números infinitos produzem ao longe as harmonias celestes! Ou bem tome-se as matemáticas quando se ensina como simples deduções lógicas de signos que perdem seu sentido original e não são mais que signos tratados como entidades, e quando se ensina como expressões simplificadas de fatos que são a vida infinita e infinitamente variada da mesma natureza. Jamais esquecerei a maneira com que nosso grande matemático Tchebycheff nos ensinava na universidade de São Petersburgo o cálculo integral. Seus integrais, quando ao escrever os signos convenientes dizia: “Se tomamos, em tais limites, a soma de todas as variações infinitamente pequenas que podem sofrer as três dimensões de tal corpo físico, sob a influência de tais forças”. 


Quando falava assim seus integrais tornavam-se signos vivos de coisas vivas na natureza, enquanto que para outros professores esses mesmos signos eram matéria morta, metafísica, e careciam de todo sentido real.

Agora bem, o ensino de todas as ciências, desde as mais abstratas até as ciências sociológicas e econômicas e a psicologia e fisiologia do individuo e das multidões, exige ser reconstruída para por-se ao nível do que impõe já a mesma ciência atual.

As ciências progrediram de uma maneira imensa durante o último meio Século1 mas o ensino destas ciências não seguiram o mesmo desenvolvimento.

Marcharão ao mesmo passo, e isso, de uma parte para que a instrução não seja um obstáculo ao desenvolvimento do individuo, e também porque o ciclo da instrução necessária nesse momento se ampliou de tal modo, que com o esforço de todos é preciso elaborar os métodos que permitam a economia das forças e dos tempos necessários. 

Em outro tempo, os que se dedicavam a uma carreira de padre, de sábio ou de governante, eram os que estudavam, e não reparavam em empregar em seus estudos dez ou quinze anos. Agora todo o mundo quer estudar, deseja saber, e o produtor das riquezas, o operário, é o primeiro que o exige para si. Pois sim; pode estudar, deve saber.

Não deve ficar um só ser humano a quem o saber –não o semi/saber superficial, senão o verdadeiro saber- lhe seja negado por falta de tempo ou de meios.

Hoje, graças aos progressos inauditos do século XIX, podemos produzir todo o necessário para assegurar o bem-estar de todos. E, ao mesmo tempo, podemos dar a todos o prazer do verdadeiro saber. Mais para isso terão de reformar-se os métodos de ensino.

Na nossa escola atual, formada para fazer a aristocracia do saber, e dirigida até o presente por essa aristocracia sob a vigilância dos clérigos, o desperdício do tempo é colossal, absurdo. Nas escolas secundarias inglesas, o tempo reservado para o ensino das matemáticas são de dois anos para os exercícios sobre a transformação dos yards, perches, poles, miles, bushels e outras medidas inglesas. Em todas partes a historia na escola é tempo absolutamente perdido para aprender nomes, leis incompreensíveis para as crianças, guerras, mentiras convencionais… E para cada matéria, o desperdício de tempo alcança proporções vergonhosas.

Como última forma haveremos que recorrer ao ensino integral; ao ensino que pelo exercício da mão sobre a madeira, a pedra e os metais, fala ao cérebro e lhe ajuda a desenvolver-se. Se chegará a ensinar a todos o fundamento de todos os ofícios o mesmo que de todas as máquinas, trabalhando sobre o banco e o torno, modelando a matéria bruta, fazendo por si mesmo as partes fundamentais de todas as coisas e máquinas, o mesmo que os mecanismos e as transmissões de força a que se reduzem todas as máquinas.

Se deverá chegar a integração do trabalho manual com o trabalho cerebral que pregava já a
Internacional, e que se realiza já em algumas escolas, sobretudo nos Estados Unidos, e então se verá a imensa economia de tempo que se realizará com os jovens cérebros, desenvolvidos por sua vez pelo trabalho das mãos e do pensamento. Deste modo, enquanto se pense seriamente nisso, se conseguirá o meio de economizar o tempo em todo o ensino.

O campo do cultivo no ensino é tão extenso, que se necesita o concurso de todas as inteligencias livres das brumas do passado, inclinadas até o porvir. 

Todas encontrarão nele uma imensa tarefa a realizar.

Meus veementes desejos de êxito a L´Ecole Renové.

Saudação fraternal,


Piotr Kropotkin

1Se refere a finais do Século XIX ( N. T.)

* Tradução Português Paulo Marques


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