sexta-feira, 22 de abril de 2016

A origem da anarquia antes do anarquismo, por Ulises Verbenas*



O primeiro anarquista? Prometeu, o rebelde que rouba o fogo de Zeus para entregar aos seres humanos


O velho ácrata Enrique Arenas fez a seguinte reflexão: “É possível ser rebelde e não anarquista; mas não se pode ser anarquista sem ser rebelde; a partir daí que afirmamos que a rebeldia não é anarquismo”. Um silogismo muito certo que se refere a uma característica essencial da Ideia anarquista e que, no momento de pensar naquelas figuras que antecederam a forma moderna do anarquismo, nos permite compreender as formas e princípios que impulsionaram quem, nos dias de hoje, poderíamos considerar como anarquistas antes do anarquismo.

É, justamente, Max Nettlau quem faz essa reflexão acerca da relação que existe entre a rebelião e a Anarquia nos tempos pré-históricos, assinalando que na mitologia podemos encontrar a memória das rebeliões:

“São os Titãs que assaltam o Olimpo; Prometeu desafiando Zeus, as forças sombrias que na mitologia nórdica provocam o crepúsculo dos deuses, é o diabo que na mitologia cristã não cede nunca e luta a toda hora e em cada individuo contra o bom Deus, esse Lúcifer rebelde que Bakunin respeitava tanto, e muitos outros”.

Nesse sentido, cabe perguntar: Qual era o conteúdo das rebeliões a que se refere Nettlau? Se trata de rebeliões originárias, mitológicas, que poderíamos situar nas antípodas da origem da humanidade e que, portanto, põe em dúvida sua própria condição e se enfrentam a criação como tal. Já o assinalou Albert Camus em sua obra “ O Homem Revoltado”: “(…) não posso duvidar do meu grito e tenho que acreditar, ao menos, no meu protesto”. Os caminhos que posteriormente tome a rebelião, enquanto movimento mesmo da vida, colocarão em tensão a possibilidade da destruição dos outros, ou bem sua capacidade de levantar um ser, como gesto de amor e fecundidade. Não obstante, como o homem é aquele ser que se nega a si mesmo, é capaz de esquecer suas generosas origens, e fazer da rebelião uma máquina mortífera em nome do poder e da história.

Refletir sobre a Anarquia antes do anarquismo supõe, então, pensar na origem generosa da rebelião. Daí que nos interessa os argumentos de Max Nettlau e, particularmente, a historia do titã Prometeu, memória de uma obstinada rebeldia, o relato de um desobediente amor pelos seres humanos.

Prometeu era primo de Zeus: o primeiro era filho do titã Japeto, enquanto que o segundo foi de Cronos. Como todo mito, a historia de Prometeu tem diversas versões. Por exemplo, conforme é apontada na Teogonia de Hesíodo, escrita entre os Séculos VII e VIII a.C., Prometeu nasceu de Japeto e Clímene, uma bela Oceanide. Enquanto que algumas versões relatam que Prometeu criou os homens moldando-os com argila, na versão de Hesíodo é, simplesmente, o bem feitor da humanidade, o titã filantropo. Certamente, este último é sua característica principal e é o que podemos encontrar nas suas diversas historias e versões, ademais de seu carácter manhoso e astuto.

A historia que nos referiremos na sequencia é, sem dúvida, a mais conhecida de todas. Tem como referencia variados autores gregos e latinos, como Ésquilo, Aristófanes, Luciano de Samosata, Virgilio e Ovidio, e outros mais modernos, como Percy Shelley e Nikos Kazantzakis.

Tudo começa em Mecona, durante uma celebração que termina com a separação entre deuses e homens. Ali, Prometeu ofereceu um boi dividido em duas partes: em um lado coloca a carne coberta pelo ventre do boi, e noutro os ossos dissimulados sob brilhante gordura branca. Oferece a Zeus sua parte, para que o resto fique para os homens. Zeus escolhe a brilhante gordura, sem perceber que no fundo eram somente ossos. Encolerizado, castiga os homens, beneficiados da astucia prometeica, tirando-lhes o fogo. É então quando, segundo a descrição de Esquilo em sua tragédia “Prometeu Acorrentado”, os homens, sem fogo, se assemelham a fantasmas de um sonho, com a vida entregue ao azar. Prometeu, em seu amor pela humanidade, rouba o fogo da “roda do Sol” dos deuses e corre para entregá-lo aos homens, para que fizessem o uso do fogo em beneficio deles.

A conotação deste fato é dupla: por um lado, o ato de rebeldia de Prometeu, e, por outro lado, o significado do fogo. No que diz respeito ao primeiro, ha que assinalar que Prometeu é duramente castigado por Zeus, quem o amarra a uma roca no alto do Cáucaso e o deixando abandonado, e lhe envia uma ave de amplas asas, que devora seu imortal fígado durante o dia, sendo que o mesmo cresce pelas noites nas mesmas proporções devoradas. Em que pese a tudo isso, e ainda quando se oferece sua libertação se diz como será a caída de Zeus (Prometeu tinha a faculdade de ver o futuro), Prometeu se mantém obstinado: “não mudaria meu sofrimento por teu servilismo”, diz na tragédia de Esquilo, ou “sabes bem que aborreço os deuses todos”, segundo Aristófanes escreve em sua comedia “Os Pássaros”. Daí podemos vislumbrar a segunda conotação do mito: o valor de seu ato, e as razões pelas quais Prometeu crê nele, é que o fogo não só é um elemento transformador, o motor da sofisticação da técnica, senão também é a arte. De fato, a palavra grega “téchne” se traduz como “arte”, “ciência” ou “profissão”, quer dizer, arte e técnica habitam juntas e, mais ainda, elas supõe a essência do homem: para deixar de viver como fantasmas de um sonho, necessitamos da arte.




Dessa forma, a rebeldia de Prometeu lhe deu ao homem uma faculdade única: a criação artística. Se os deuses não sofrem, eles não podem conhecer a criação artística. A rebeldia frente os deuses, portanto, é maior ainda: se encontrou aquilo que os deuses precisam. Uma tardia versão de Prometeu, de Luciano de Samosata (siglo II d.C.), versa: “Me parecia que algo lhe faltava a divindade no entanto não havia nada que opor-se”.

Uma mitologia em que podemos ver a luz fogosa das ideias anarquistas. Camus anotou em seu ensaio “Prometeu nos infernos”: “Os mitos não tem vida por si mesmos. Aguardam a que nós os encarnemos”. Este mito contém um saber intacto, pode ser uma possível ressurreição. Porque é certo, diz Camus, que se Prometeu voltasse a roubar o fogo seriam os mesmos homens quem o acorrentariam ao Cáucaso, pois eles não desejam mais a arte. Só necessitam a técnica.

A nós restaria perguntar: Se encarnamos o mito, a quem devemos roubar o fogo?, desde onde devemos extraí-lo?, pode a técnica supor uma arte, e vice-versa?, reorganizar os oficios, como diria Proudhon? Recordemos, ainda nessa avançada, mas contraditoriamente salvagem civilização: Ainda tudo está por ser feito, que será necessário voltar a pensar no fogo.


*Tradução: Paulo Marques

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