sábado, 9 de janeiro de 2016

Entrevista com Pedro Garcia Olivo-Quarta Parte: A educação como ferramenta de Libertação





QUARTA PARTE : Educação como ferramenta de libertação


Nesta parte da entrevista Garcia Olivo faz uma crítica à prática salvacionista daqueles que em nome de uma Educação Popular e pseudo "libertadora", pretendem ser os "demiúrgos", "criadores" de "homens novos", como pastores de novos rebanhos: 

"...estes novos evangelizadores impõe sobre os grupos marginalizados um autêntico “poder pastoral”, um labor de prédica, inspirado sempre por modelos eugenésicos de triste recordação no Ocidente -aquela temível vontade de forjar um Homem Novo, como se o homem real, de carne e osso, fora defeituoso, ou malvado, ou esteja alienado, afastado de si mesmo, necessitado de uma luz exterior, aquele projeto elitista, despótico-ilustrado, de reinvenção do ser humano que igualou no mais profundo os fascismos históricos, o stalinismo e as democracias liberais". 

Malgrado essas práticas, que Pedro Garcia repudia veementemente, ele aposta no que identifica como educações comunitárias e auto-educação:

"frequentemente nos marcos da oralidade, como o está todavia hoje no coração e no pensamento de quantos consideram que a educação, em sentido amplo, lhes compete pessoalmente e, mais além da doutrinação e domesticação que sofrem nas escolas, se esforçam por auto-formar-se, auto-construir-se —quer dizer, descodificar-se e des-sistematizar-se...

Na parte seguinte Garcia Olivo aponta o habitus ainda comum das pessoas de se eximir de suas responsábilidades pelo que acontece no mundo, mantendo posturas que permite às barbáries cotidianas: 

"...o monstro habita fora de nós e pode receber distintos nomes: o Sistema, a Oligarquia, os de cima, as potências do G-8, o Capital transnacional, etc. Na minha opinião, e pelo contrário, o monstro habita em nós, somos nós; e nossa colaboração com o horror, nossa aceitação da ignominia, nossa cumplicidade e solidariedade com a opressão apenas pode já ser maior. Em razão de nossa docilidade, de nossa obediência mecânica, de nosso acriticismo fundamental, reproduzimos já o perfil psicológico daqueles alemães “da multidão”, “normais”, “correntes”, de todas as categorias sociais, de todos as profissões, que apoiaram e sustentaram o fascismo histórico..."

Em contraponto a essa lógica, Garcia Olivo defende a necessidade de autoconstrução de sujeitos ético-estéticos para a luta, o que, para ele, é impensável nas escolas, que avançam em sentido contrário(sistematização intensiva da população).

Como essa autoconstrução não se dará na Escola, Garcia Olivo aponta como possibilidades "os espaços sociais e culturais não-estatais (Ateneus, Casas Okupas, Centros Sociais Antagonistas, Bibliotecas Alternativas, Editoriais não comerciais, Espaços educativos anti-escolares, etc.) que se apresentam, exatamente, como uma ferramenta para a auto-educação, auto-formação, auto-descodificação, dessistematização, das pessoas"


Boa Leitura



Pergunta: El Amanecer:

Nos anos 70 a população analfabeta da América do Sul era enorme, enquanto que a diferença de outros países, este continente por um lado ia enriquecendo, e por outro, agudizava as condições de habitabilidade. As pessoas do Chile, ainda residiam em ocupações de terrenos, em lugares onde a água e a luz não eram suficientes. Por isso, as pessoas começaram a organizar-se e a manifestar seu descontentamento. 

Chega ao poder um presidente com ideias populares para o país, cujo eixo eram os trabalhadores ou as classes populares; sem descuidar do Estado como seu principal instrumento. Isto no entanto trouxe consigo uma ditadura que durou 30 anos. Se quebraram todo tipo de organizações clandestinas que lutaram contra a democracia fascista, que então estava a favor do desenvolvimento de um modelo capitalista. Modelo que encontrou sua execução anos mais tarde, deixando claro, que o poder político e econômico de classe é mais poderoso que toda a raiva organizada das classes populares. Se fecham as universidades publicas com um forte (carácter critico), e se abrem outras com um sentido de dominação. 

Os chamados centros de formação técnica, institutos profissionais eram espaços para o acesso da classe média (estudantes de segunda categoria) que surgem graças a exploração dos próprios trabalhadores. A Universidades Privadas para os ricos, tornaram-se espaços onde se efetivou um tipo de educação muito ligada ao modelo neoliberal, com um claro propósito, domesticar a população inteira ao serviço do consumo e do endividamento. Todas elas eram Instituições que serviram ao modelo de país que se estava desenvolvendo, todo dentro de uma organização privada e com uma forte corrente consumista. 

Na atualidade, passados 40 anos de posicionamento neoliberal, é quase impossível fazer uma educação(critica). Não ha espaço para isso. Os únicos que se mantém são lugares clandestinos, com muito esforço, que servem como oficinas, ou escolas populares que atuam como aliciente ante este mercado da educação. Dentro desse contexto(70, 80s,) a única maneira de entregar um tipo de educação as pessoas de poucos recursos, eram as oficinas de educação popular, que de certa forma, serviram de resistência e também de socialização. Algo que fez falta, devido a corrente de hermetismo e de medo impulsionada pelo fascismo. Aquilo ficou marcado na memoria histórica de algumas populações, que veem hoje, essas iniciativas  como uma forma de saída, tal e qual como ocorreu na época da ditadura. 

Do que descrevemos anteriormente, você considera oportuno, hoje falar de uma especie de Educação Popular? Em uma sociedade capitalista, que obedece aos estímulos de consumo, e onde as vontades de querer mudar o mundo estão se esgotando. Ainda quando, persiste o fantasma da ditadura, recoberta por una democracia. 

E se, nos anos 70, em um contexto de resistência, as pessoas conseguiram criar comunidades, com todo o esforço que isso acarreta, com as mortes e as ameaças constantes dos agentes do governo, a policia e os militares. Hoje em uma democracia disfarçada, também com perseguições, é válido recorrer a este tipo de Educação?

Qual seria seu chamado a aqueles que seguem este tipo de trabalho, que confiam na Educação como uma arma de libertação, ainda que sejam como você chama, "pedagogias brancas"?

Pedro Garcia Olivo: As vezes eu me defino como “inimigo da Escola por amor a educação”... Considero que abandonar a esfera escolar não significa entregar ao inimigo todo o campo da educação, ao contrário. Creio que, fora dos muros das instituições, há todavia uma ampla margem de atuação para uma educação antagonista. Por um lado, temos toda essa retícula informal, não-regulamentada, anti-estatal, de Centros Sociais, Ateneus, Bibliotecas Alternativas, Casas Oficinas, etc., nas quais, como anotei, a educação se dá de fato, “sucede”. 

Da mesma maneira, está a iniciativa daqueles pais que retiram seus filhos das Escolas, públicas ou privadas, e procuram ver um modo de educá-los em casa, em comunidade se for possível, desenhando frequentemente “espaços educativos não escolares”, como Olea en Castellón durante muitos anos ou Bizi Toki em Iparralde, sul do Estado francês, de uns tempos pra cá. Eu simpatizo com quem alenta esta dupla prática insubmissa, e procuro envolver-me em suas lutas. Mas para mim é importante que estes espaços da dissidência educativa não se deixem contaminar pelo modelo escolar e não permitam, por exemplo, a figura “demiúrgica” do Professor-Consciência… 

Tenho comprovado que, em ocasiões, no interior do que tem sido denominado Educação Popular, se reproduz essa figura, com uns tipos semi-endeusados que vão para as favelas como se fossem messias, persuadidos de sua missão esclarecedora e conscientizadora, as vezes na linha do pior de P. Freire.

Como se fossem “professores”, estes novos evangelizadores impõe sobre os grupos marginalizados um autêntico “poder pastoral”, um labor de prédica, inspirado sempre por modelos eugenésicos de triste recordação no Ocidente -aquela temível vontade de forjar um Homem Novo, como se o homem real, de carne e osso, fora defeituoso, ou malvado, ou esteja alienado, afastado de si mesmo, necessitado de uma luz exterior, aquele projeto elitista, despótico-ilustrado, de reinvenção do ser humano que igualou no mais profundo os fascismos históricos, o stalinismo e as democracias liberais. 

Como anti-pedagogo, rechaço essa função “demiúrgica” do educador (“demiurgo”: divindade criadora, forjador de homens, princípio ativo do mundo), essa “ética da doma e do rebanho”, que se referia Nietzsche, e que divide o mundo em “domesticadores” e “domesticáveis”, encarregando aos primeiros certo desenho industrial da personalidade, certa operação pedagógica sobre a consciência das pessoas, uma reforma sistemática das mentalidades em nome da transformação social, quando não do bem da humanidade toda... 

E essa figura detestável está se reproduzindo em demasiadas experiências educativas que se proclamam anti-sistema, sob a forma do “acompanhante”, do “técnico”, do “facilitador”, do “para-professor” por fim, um adulto que não pertence ao grupo familiar e que executa uma ação junto aos menores em razão de um título ou de uma formação acadêmica... 


O Demiurgo: divindade criadora, forjador de homens, princípio ativo do mundo. Eis o modelo de " "construtor" de "homens", padrão da práxis das "ideologias evangelizadoras", "populares", "revolucionárias"

Na Espanha, se tem estabelecido, a este respeito, uma linha de demarcação clara entre as Escolas Alternativas, “Escuelitas”, Escolas Libertárias (pensemos en Paideia), etc., nas quais se desenvolvem sempre pequenos demiurgos, “professores” de fato, e os espaços educativos não-escolares, como os que eu citei, empenhados em não reiterar a lógica das aulas (portanto, sem técnicos ou educadores separados, sem currículos definidos ou definíveis, sem controle de presença, sem sistemas de avaliação ou de preservação da ordem nas reuniões, etc.

Também o campo da Educação Autônoma ou Popular pode ver-se infectada pela praga demiúrgica dos “sociais” (assistentes sociais, educadores sociais, ativistas sociais, psicólogos, sociólogos, terapeutas, ONGentes, membros de associações humanitárias ou filantrópicas, etc.), que caem sobre os despossuídos, os explorados, os vulneráveis, os maltratados, os marginalizados,...com toda a desfaçatez da ave de rapina. 




Tenho falado, em relação a este ponto, de “Síndrome de Viridiana”, em referência ao personagem de um filme de Buñuel, que não podia viver, literalmente, se não encontrava um pobre, um mutilado, um necessitado, a quem ajudar imediatamente a fim de ganhar o céu dos cristãos. Esta síndrome se deslocou até a esquerda social e política; e nos encontramos todos os dias com essa trupe dos “sociais”, no fim é o discurso "bem-estarista", que cae sobre os grupos oprimidos com a mesma pretensão de ganhar-se um céu, mas desta vez o dos progressistas, o dos solidários, inclusive o dos revolucionários. 

Afetando todas as poses inflamantes da comiseração(lástima, piedade, pena) ante as vicissitudes do outro e da simpatia (desde acima) com causas alheias dos de baixo, impondo sua ajuda e obtendo regularmente um crédito econômico-político-cultural (aparte do usufruto simbólico que temos designado “ganhar-se um céu”), estes bem feitores sociais terminam sempre reorientando, corrigindo, reformando, alterando, desnaturalizando e recanalizando a práxis outra dos outros. E já sabemos até onde aponta esta re-canalização: até a órbita do Estado (programas, assistência, subsídios,...), com seus partidos políticos, seus sindicatos, suas organizações, ou, em todo caso, até a esfera da velha racionalidade política (a célula revolucionária, o comitê, a associação, o movimento,...). Infra-sacrificial e necro-parasitária, esta disposição auxiliadora, de índole social-cínica, tende a corromper, no meu país, também a esfera da educação popular.




Salvo esse perigo, sim acredito ser indispensável atuar nessas frentes onde a educação se desentende da tutela estatal, como eu estive até anteontem, quando subsistiam as educações comunitárias, frequentemente nos marcos da oralidade, como o está todavia hoje no coração e no pensamento de quantos consideram que a educação, em sentido amplo, lhes compete pessoalmente e, mais além da doutrinação e domesticação que sofrem nas escolas, se esforçam por auto-formar-se, auto-construir-se —quer dizer, descodificar-se e des-sistematizar-se...


Falo de des-sistematização para me desmarcar de uma linha de pensamento que, procedendo da esquerda clássica, se tem remoçado no entorno do progressismo cidadanista, e que tende a uma quase completa des-responsabilização da população, a uma exculpação geral da sociedade, ante os horrores do nosso tempo(genocídios encadeados, vigência plena do princípio de Auschwitz, guerras expansionistas com o Ocidente como a maior força agressora, destruição acelerada do planeta,...). 


Pelas colocações que faço, o monstro habita fora de nós e pode receber distintos nomes: o Sistema, a Oligarquia, os de cima, as potências do G-8, o Capital transnacional, etc. Na minha opinião, e pelo contrário, o monstro habita em nós, somos nós; e nossa colaboração com o horror, nossa aceitação da ignominia, nossa cumplicidade e solidariedade com a opressão apenas pode já ser maior. Em razão de nossa docilidade, de nossa obediência mecânica, de nosso acriticismo fundamental, reproduzimos já o perfil psicológico daqueles alemães “da multidão”, “normais”, “correntes”, de todas as categorias sociais, de todos as profissões, que apoiaram e sustentaram o fascismo histórico.





Como já não se sustenta o mito de uma grande manipulação da população pelo regime nazi, de um processo político-mediático de alienação sistemática das pessoas, ante as evidencias que assinalam a participação desinteressada, generosa, voluntária, da população alemã em seu conjunto em todo o que pavimentou o caminho para Auschwitz (os títulos das obras envolvidas nessa mudança de perspectiva, que apresentam Hitler como uma mera expressão da tradição cultural europeia e as formas de subjetividade majoritárias em seu tempo, são eloquentes: “Os verdugos voluntários de Hitler”.Os alemães comuns e o holocausto”, de D. H. Goldhagen; “Pessoas completamente normais”, de Browning, etc.), tampouco podemos fechar hoje os olhos a conivência (complacência, aquiescência, displicência) dos ocidentais, de todas as classes sociais, ante os massacres, genocídios e destruições desatadas em nome de seus interesses.

Assim como os alemães de ontem “quiseram” o fascismo, os ocidentais de hoje “querem” o demofascismo —invasões e campanhas militares sob propósitos não muito distintos daqueles do velho imperialismo, aniquilação da diferença cultural, etnocídios metódicos,...Ou será que já estamos na III Guerra Mundial, com as potencias ocidentais como responsáveis supremos? E não é o fascismo democrático o modelo hegemônico de gestão do espaço social na Europa? E cabe duvidar de que, ante essa magnificação do horror, os ocidentais não farão nada, aparte de revirar os olhos e olhar para ouro lado? Cabe duvidar de nossa responsabilidade individual no sofrimento dos outros, no assassinato dos outros, na eliminação da alteridade? O monstro habita em nós, nos constitui, com ele nos desposamos, somos o monstro —e já não só o mais feio dos homens... 




Somos o Sistema, todos e cada um de nós; o somos em cada ato de compra, de venda, de mando ou de obediência, de trabalho ou de demanda de trabalho. Somos o Sistema e vivemos de todas as infâmias do Sistema, dentro e fora. Por isso cabe esperar muito pouco de nossos esforços “coletivos”, de nossos afãs “associativos”, das pseudo-fraternidades que inventamos para dissimular que a comunidade morreu faz tempo em nós e nos convertemos em temíveis “indivíduos”. 

Aquilo que não saberás nunca, escreveu A. Gide, é o tempo que necessitou o homem para elaborar o individuo”. Que cabe esperar de uma agrupação de monstros, de uma soma de bicharadas humanas? Por tudo isto, sustento a prioridade de uma descodificação pessoal, de uma desconstrução subjetiva, de uma desistematização: “arrancar-se do Sistema é como desfiar a própria pele”, reencarnar-se com si mesmo para desfazer e refazer-se, aspirar a autoconstrução ético-estética para a luta...

A autoconstrução ética para a luta é impensável nas escolas, que avançam em sentido contrário(sistematização intensiva da população). Em absoluto requer do labor “iluminador” dos modernos demiurgos entregues ao trabalho ou ao ativismo social, empenhados as vezes em “constituir o sujeito coletivo” (La Polla Records nos explicou o que se deve fazer com isso: “Veio me salvar, de outra parte do mundo. Me traz a salvação, mas isso é por tua conta e risco. Hora bolas, quem te mandou? Uma patada nos ovos é o que te posso dar; vai salvar o teu velho, só pretendes cobrar. ¡Gurú!”). 

Se vê facilitada, isso sim, pela proliferação e o desenvolvimento de todos esses espaços sociais e culturais não-estatais (Ateneus, Casas Okupas, Centros Sociais Antagonistas, Bibliotecas Alternativas, Editoriais não comerciais, Espaços educativos anti-escolares, etc.) que se apresentam, exatamente, como uma ferramenta para a auto-educação, auto-formação, auto-descodificação, dessistematização, das pessoas, todavia não de todo arrebanhadas. Pessoas que já não querem correr até a centralidade do sistema, mas sim que lhe dão as costas em busca de uma “margem” para se autoconstruir.






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