quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Entrevista com Pedro Garcia Olivo - Segunda Parte: Representação Vs Antiautoritarismo





Segunda Parte - Representação Vs Antiautoritarismo (1) 


Pergunta el Amanecer : As federações quase sempre não são representativas. Você deve conhecer o que aconteceu com a CNT em 1936 na Espanha e a que levou a tomada de poder dos próprios operários, como também o que aconteceu aqui no Chile com Allende e a Unidade Popular. Ambas ainda que com enormes diferenças, tiveram como dominador comum: o poder popular. Aqui ocorre um fenômeno muto parecido, quiçá ocorra geralmente em todos os países onde o Estado é garantidor de direitos, e se pode apreciar na Venezuela, Cuba, Bolivia, ou nos países onde o Socialismo de Mercado se vê enfrentado o Capitalismo. Dizíamos isto, porque não é sempre que existe aquilo que chamamos representatividade. Se, quem representa teus direitos, não é tu mesmo, mas sim um dirigente. O como escrevia Max Stirner: Ninguém pode prender minha vontade, eu sempre serei livre para rebelar-me. Isto gera um conflito, ou basicamente o tem gerado “a representatividade”. Questão que dá lugar a um tipo de individualismo/egoísta, segundo os próprios dirigentes. Já que muitos dos estudantes não se sentem representados ante nenhum líder e presidente de uma organização; desencadeando así, uma forma de ação direta que quebra todo tipo de organograma; no qual vários estudantes Anarquistas que acudem as universidades se veem expostos a rechaço e o ódio de seus próprios pares ou companheiros. Dessa forma, se associa a Anarquia como um movimento Burguês; inclusive de Direita, frente a gestão (socialista) de libertar os povos oprimidos, como a única bandeira de luta. Ali, nesse estagio de ideias, existe uma enorme disputa, que hoje segue dando o que falar. Podemos vê-lo nas marchas, atos ou nas próprias organizações, tanto em coletivos como nos grupos de afinidade. Existe, portanto, nas Universidades, uma aldeia cheia de pequenos grupos, com suas diferentes consignas que lutam contra o poder, frente a outros que pretendem reformar para mudar algumas peças ou se prefere, aqueles que odeiam o aparato educativo, pessoas que rompem com todo tipo de estrutura, sem nenhuma proposta sobre a mesa. Alguns geralmente chamam e estes(Encapuzados) ou simplesmente violentos. Você faz menção em o “Educador Mercenário” sobre o dano ao aparato educativo, quiçá um tanto leve, e não sei até que ponto violento, se a isso se adiciona a palavra, queimar, romper ou destruir. De acordo a o anterior: Como foi sua experiencia nas Universidades, no seu período de deserção e de ódio, e em seu campo de estudo por terras indígenas o processo de representatividade? Existe isso? É viável um processo democrático, sem ter que abraçar os requerimentos institucionais, para chegar a algum acordo? O é válido organizar-se nas Universidades a troco de que , se ela é, por essência um campo de domesticação?


Garcia Olivo: Socialismo de mercado e Capitalismo se entendem muito bem bem, pois falam a mesma linguagem “produtivista” da economia política. Se atingem também as mesmas vítimas: povos indígenas hostis a todo conceito de Estado-Nação, ainda que se vista de federal o confederal; comunidades refratárias a mercantilização e monetarização das relações sociais e da vida mesma; grupos nômades; pessoas que optam por arraigar-se nas “margens” do Sistema, dando as costas ao Mercado e ao Estado, ao Ouro e ao chicote, ao Capital e ao Poder; sempre, e em todas partes, o que seguimos denominando “Natureza” (território, meio ambiente, biosfera); etc. Fica clara a dimensão etnocida, altericida, das políticas de Evo Morales, Rafael Correa, Daniel Ortega, Chávez e Maduro,... Desde o principio, e seguindo paradoxalmente pautas europeias, o projeto bolivariano tem escondido no bastidor uma guilhotina, revelando-se como uma “farsa sangrenta”, por utilizar uma expressão de A. France. De que tipo de terror escorre por esse Estado Social de Direito sabem muito bem a Amazonia, os povos originários, os comuneros autônomos, os dissidentes anárquicos, as subjetividades irredutíveis...Não é acidental que essa forma de gestão política fale de “representação”, pois a “democracia representativa” é o espelho em que se olha, ainda que dissimule tal circunstância postulando-se “substantiva”, “do povo”, “de raiz”, etc. Descarta, por si, as pautas “demos-lógicas” que caracterizavam as formações culturais por ela desmanteladas, indígenas, nômades e rural-marginais, e que resultavam incompatíveis com a ideia de partido político, eleições, parlamento, governo separado,... Falamos, para tais âmbitos, de índole “demos-lógica”, em lugar de “democrática”, para sublinhar o caráter participativo, “popular”, deliberadamente horizontal, desta maneira de alcançar acordos, mais próxima ao espírito do que em certas ocasiões se denomina “autogestão”, “autogoverno”, “assembleísmo direto”, etc. Que a fórmula liberal representativa (formações políticas, sufrágio, câmaras,...) evocada de maneira imediata pelo termo “democracia”. 

Nada se tem combatido mais, desde a arena política liberal, que a noção e a prática de uma autogestão comunitária, com cargos rotativos, eletivos, não remunerados, sob a supervisão da assembleia, e um desempenho dos mesmos encaminhado a obtenção da “estima”, do “apreço”, do respeito e a aprovação coletiva. Este genuíno “governo do povo pelo povo”, que se fundava em uma comunidade de livres e iguais, atestando quase o seu pesar pela antropologia, desde Evans-Pritchard e Fortes a Lévi-Strauss ou P. Clastres e R. Jaulin, tem sido apagado conscientemente pelas administrações nacionais, liberais e socialistas, jogando precisamente a carta de “representatividade”. 



Obra clássica de Pierre Clastres sobre as sociedades originárias que recusam o Estado como forma de organização sócio-política


A tomada de decisões coletivas, naquele contexto, adotava, diziamos, um caráter demos-lógico. De maneira fluida e informal, os assuntos se comentavam nos distintos âmbitos da vida social, de reunião em reunião, em todos os cenários do trabalho, da conversa, do recolhimento familiar, em meio de uma desordem aparente, até que terminava fluindo o critério unitário da comunidade, e o parecer de acordo do grupo, ratificado na Assembleia. Quando se devia tomar uma resolução com urgência, pesava particularmente o parecer dos Anciãos, homens e mulheres “de respeito”, “gente grande” que havia sabido ganhar-se e conservar o apreço da comunidade. Como os “lideres sem autoridade” de Pierre Clastres, a autoridade municipal, ou o chefe da classe encarregadas de levar a prática o veredito unânime, de traduzir em fatos a opinião forjada pelo grupo.

Falamos de “opinião forjada pelo grupo” e não de “opinião majoritária no grupo” para sublinhar uma circunstancia sobre a que nos alertou W. Ong: quando os homens da oralidade se reuniam para chegar a acordos sobre questões relativamente complexas (em uma assembleia indígena, em uma reunião de vizinhos rural-marginais, em um grupo de ciganos tradicionais,...), o que se estava produzindo não era um ato de debate entre posições previamente estabelecidas, de maneira que uns tentariam convencer a outros (proceder característico das sociedades escriturais), senão um exercício de reflexão comunitária, de pensamento coletivo, em que a opinião não estava dada de antemão, pois devia alcançar-se mediante a comunicação mesma, através da acumulação e montagem de perspectivas que afloravam em um intercambio não regrado, caótico em sua superfície, de exposições, interpelações, ocorrências, etc. 

Tal e como relata G. Lapierre, assim operava a assembleia maya tradicional, no seio de uma multiplicidade variada de saudações e conversações simultâneas, de gesticulações, risadas, lamentos, gritos,... em cascata; com os participantes (crianças e velhos, mulheres e homens) movendo-se de um lado a outro, agrupando-se aqui e ali, dispersando-se depois, indo e voltando, sem elevar nunca a voz de modo deliberado para fazer-se e escutar por toda a sala (como ocorre no Ocidente), bebendo café, comendo tortilhas, etc, Até que, transcorridas não poucas horas, ou dias se fosse preciso, vinha um grande silêncio, um silêncio grave, fundo e prolongado, que denotava o fim da reunião para a obtenção de um consenso absoluto, para lograr uma resolução sem fissura, ratificado na continuação pelos Anciãos: “Estamos de acordo; acabou a Assembleia”. 

Não existindo posturas prévias, nem partidos de opinião, toda a localidade se havia entregue a um ato de reflexão conjunta, a uma experiencia de pensamento oral coletivo... Não se votava; pois, para a Democracia Comunitária Indígena, a votação sancionaria, precisamente, a morte da comunidade e a mentira da democracia.

“Morte” por divisão, por cisão do que só se concebe como um todo; e “mentira” por impor um critério sobre outro, por encobrir uma facção sobre as demais... A votação representaria, em resumidas contas, como o fim do indígena. Uma deriva semelhante (da autonomia viável a institucionalização induzida) se tem registrado no âmbito universitário e escolar geral. Ali onde caberia sustentar a possibilidade teórica de uma organização juvenil autônoma, independente das instituições, desde que se repensara o papel de seus membros na sociedade e na política, ante os aparatos do Estado (entre eles, a Escola) e os tentáculos do Mercado, frente ao trabalho em dependência que se oferta e a instalação a que se convida, justamente ali, e para erradicar essa possibilidade, se promovem, como exemplo válido, “sindicatos de estudantes”, “associações de alunos”, “juventudes dos partidos políticos”, sempre na órbita da oficialidade, da regularização, do moderno Leviatã.

Na mesma linha, e para reforçar a integração dos hipotéticos sujeitos do descontento, se estimulou a participação dos alunos nos órgãos de gestão dos Centros, sua auto burocratização como coletivo estudantil, sempre pela causa da “democratização” do ensino. De alguma forma, se “empoderava” o estudante ao modo stalinista, desde cima e para a aceitação de marcos políticos pré-estabelecidos, desenhando simulacros de liberdade e de soberania dos jovens no interior da instituição. Fiéis sempre ao modelo da representatividade, estas iniciativas, inclusive em suas formulações extremas (aula autogestionada, assembleia facultativa de alunos, renuncia expressa ao poder professoral,...), apontam a assimilação não virulenta dos jovens, que começarão a exercer-se como auto-professores, danificados de si, policias de si mesmos, nas novíssimas propostas “ativas”, “participativas”, “democráticas”, “libertarias”, etc. E se verão então absolutamente neutralizados como agentes da negação radical da educação administrada, invalidados para a crítica do tripé socializador ocidental (escolas, professores, pedagogia). Nada que esperar, pois, da Escola e da Representação, ainda que ambas nos acompanharão ao longo de toda a travessia do Capitalismo. Existirão, enquanto subsistam a propriedade privada, a fratura social, o despotismo democrático, o fundamentalismo liberal… 


Só existe Escola onde existe opressão; mas hoje já quase tudo é opressão (sob a capa da “representatividade” ) e, portanto, em todas partes teremos escolas. Resistir é dar-lhe as costas... Se um cai nas redes da Instituição, sempre pode seguir o exemplo de Heliogábalo, aquele “anarquista coroado” que sonhou Artaud, e ver o modo de “conquistar a Expulsão”, após um exercício consciente de sabotagem, da corrosão, da desorganização moral, do ludismo, da irresponsabilidade em suma. “A cabeça do estudante me importa um pito, não é assunto meu; eu me esforço na destruição, sem escrúpulos, da máquina escolar: rompo, estropeio, estrago”, assim falará um libertário localizado por azar em um posto de professor, porque, em educação, o libertário, assim o creio, é a anti-pedagogia. Como “anarquista coroado”, como anti autoritário empoleirado em uma posição de poder, o professor genuinamente libertário pode tentar, todavia, um recorrido desagregador e auto-destrutivo: pode denegar-se e demolir-se como fonte de poder, enquanto desestabiliza com rigor e método, enquanto perverte sistematicamente a Institução na qual caiu. Pode atentar contra o principio de realidade escolar, contra o sentido comum educativo, contra o “verosímil crítico” docente…




Heliogábalo o anarquista coroado é um ensaio histórico realizado pelo escritor frances Antonin Artaud(1896-1948) em 1934 sobre o Imperador Romano Heliogábalo(203-222), que assumira o trono com quatorze anos e fora assassinado quatro anos depois.

"Heliogábalo é homem e  mulher... ao mesmo tempo... O homem que se torna mulher e permanece homem eternamente.. Mas o que aparece nesta imagem mutante, nesta natureza fascinante e dupla que descende de Venus encarnada, e em sua prodigiosa inconsequencia sexual –imagem mesma da mais rigorosa lógica da inteligencia-, muito mais que o Andrógino, é a idea da ANARQUIA. Heliogábalo é um anarquista nato, que suporta de má vontade a coroa, e todos seus atos de rei são atos de anarquista nato, inimigo público da ordem, ou seja, de um inimigo da ordem pública; mas sua anarquia primero ele a pratica em si mesmo e contra si mesmo, a anarquia que introduz no governo de Roma, pode se dizer que a predica com o exemplo e que pagou por ela o preço devido(Antonin Artaud -Heliogábalo o el anarquista coronado)"



Heliogábalo, Deus-Imperador, criança vestida de prostituta, se vende por quarenta centavos, nas imediações dos templos romanos e das igrejas cristãs, a quantos homens desejam tê-lo. No zênit de seu recorrido subversivo, decide casar-se com um “bárbaro”, um escravo negro, e repassar a ele seu poder como Imperador, transferir-lhe a autoritas e a divinitas que encarna, direcionando o papel de sua muito apaixonada esposa. Antes disso, expulsou os homens e encheu o senado de mulheres; escolheu seus ministros pelo tamanho do pênis, e criou um cargo novo, o de “corruptor da juventude”, que não havia de faltar em nenhuma cidade —Roma havia contado com quatorze. Iniciou um controvertido programa de castração de cortesãos e outros aristocratas; e gostou de arrojar periodicamente bolsas com os genitais assim obtendo a punhados de trigo para a cidadania, desde torres insignes: “Nutria -interpreta Artaud- a um povo castrado”. Nunca quiz exercer o poder para melhorar as condições de vida da população, para reformar a sociedade, para garantir o bem-estar das pessoas. Tampouco para idear mecanismos mediante os quais a opinião de seus súditos, através de pessoas interpostas, pudera converter-se em política pública (lógica ideal da representação). 

Usou o poder para evidenciar poeticamente sua arbitrariedade intrínseca e destruí-lo enquanto se auto-destruia, comocionando toda a superestrutura ideológica e moral do Imperio. Havia previsto seu próprio fim e foi também belo o modo em que logrou a clausura de seu labor artístico destrutivo, de sua insurreição anarquista desde dentro e desde cima: sua própria Guarda o degolou em sua alcova, como a mão executora de uma conspiração ampla contra a criança anarquista coroada que fez temblar os cimentos da Civilização.

Eu me ative a esse paradigma, estritamente criminal, verdadeiramente irresponsável, sem duvida grávido de violência simbólica, de jogo, de paixão criativa, de teatro (sem bem que da Crueldade), de poesia (ainda que maldita), de uma loucura sobrada de razão, quando perdi a fé no Reformismo Pedagógico Libertário e deixei para trás a imbecilidade de procurar fazer o bem aos estudantes —quer dizer, quando o desengano e a desesperação me levaram a abraçar o alento anárquico da anti-pedagogia. Mas não obtive Guardas filantrópicas que me executaram nas latrinas... Não logrando “conquistar a Expulsão”, abandonei sem mais as aulas.

Dando às costas a Escola, fugindo dela, concluído o périplo corrosivo, fica, todavia, um cenário que podemos seguir denominando “educação”; e no qual não se admitem “professores”, “guias”, “acompanhantes”, “educado- res mercenários”. Se toleram aí “mestres”, com minúsculas e entre aspas, pessoas que tem um saber (frequentemente concreto, local, parcial) e desejam comparti-los; pessoas que ganharam nosso apreço, nossa estima, e a que nos acercamos, dizia G. Steiner, desde a amizade moral, estável- sendo um vínculo erótico (em sentido amplo), sempre reversível, sempre cancelável. Podem ter oitenta anos, ou só quatro, e é sabido que, quando nos encontremos frente elas, de imediato se suscitarão as inevitáveis “relações de poder” (influências e pressões ante as que sempre cabe uma resistência), o mesmo que, ao redor do professor, sob ele, se originam fatalmente os, todavia um pouco evitáveis “estados de dominação”. 

Havendo deixado a Escola, sigo buscando e encontrando mestres, e não desisto de espantar professores; e acolho, como um presente, as pessoas que me visitam porque viram em mim algo parecido a um pequeno mestre para assuntos puntuais -autosuficiência alimentar relativa, técnicas de captação e conservação de frutos silvestres, sobrevivência marginal, desescolarização vivida...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

As educadoras anarquistas individualistas: mulheres livres na Belle Époque, por Anne Steiner*

Nos trabalhos que reconstroem a gênese do movimento feminista apenas são citadas as figuras das mulheres anarco-individualistas do pr...