domingo, 10 de janeiro de 2016

Entrevista com Pedro Garcia Olivo- Parte Final: Abandonar a Escola



PARTE FINAL : Abandonar a Escola


Nesta última parte da entrevista Pedro Garcia Olivo vai mais fundo em suas reflexões sobre educação ao responder sobre o tema a alfabetização e o significado da escola. 

Transvalorando os valores predominantes como propunha Nietzsche, Garcia Olivo traz uma discussão inexistente na sociedade ocidental moderna, e talvez inadmissível, uma heresia, que é o questionameno da alfabetização e a defesa da oralidade como uma riqueza humana que está se perdendo com a coerção da educação ocidental. Ele diz que é possível reivindicar a dignidade da cultura oral e expõe oum conjunto de significativos argumentos.

"Desde a tradição anarquista se tem aportado argumentos para denunciar as campanhas de alfabetização, chegando a sugerir inclusive a superioridade ética dos homens das culturas orais. Sabemos, desde Bakunin, que a história do gênero humano tem sido uma sucessão de matanças, de genocídios, sempre em nome de uma “abstração” qualquer que seja (Deus, Pátria, Estado, Nação,...; e hoje poderíamos adicionar “Liberdade”, “Revolução”, “Estado de Direito”, “Democracia”, “Direitos Humanos”, etc.); e o homem oral não maneja abstrações, não recorre a conceitos descorporalizados, contentando-se com um pensamento “operacional”, “situacional”....

"...O homem que era desvalorizado como analfabeto, ágrafo (por quê designar a diferença, a alteridade, como uma ausência, como uma falta do que nos caracteriza: a escritura), sem-escola, se concebe hoje como subjetividade distinta: os homens orais respondem a outros modos de expressão, outras dinâmicas de pensamento, outra estrutura de personalidade, outro estilo de vida (“verbomotor”, em expressão de M. Jousse). São diferenças encarnadas, em absoluto “inferiores” aos homens da escritura...)

A partir dessa análise do significado da oralidade, Garcia Olivo analisa o papel da alfabetização no contexto do Estado, em sua tarefa de "integrar" a todos, principalmente os "marginais", "analfabetos" ao sistema:

"Para ajudar-lhes nessa meta de adaptação, os Estados dispõe de suas nutridas “burocracias do bem estar social”; e, como lhes contava, é também densa a malha dos “Sociais”, contratados ou voluntários, dispostos sempre a fazer o bem em beneficio próprio, a “integrar”, “incluir”, “incorporar”, “assimilar”. Assunto de canalhas, não é tarefa para o talante libertário...“incorporar” marginalizados no Sistema, levar oprimidos a aceitação do que é dado, nada tem de prática antagonista..."

São reflexões que compõe um pensamento radicalmente insubmisso e extemporâneo. 

Nietzsche definiu no parágrafo 225 de "Humano, demasiado humano", o que seria um "Espírito Livre": 

"É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é exceção, os espíritos escravos, são a regra, estes lhe objetam que seus princípios livres têm origem na ância de ser notado ou até mesmo levam à inferência de atos livres, isto é, inconciliáveis com a moral escrava"

Não estariamos lendo nesta entrevista, pensamentos de um Espirito-livre?

Não estariamos entrando em contato com um pensamento que retoma a pharresía kinica de Diógenes, ou seja, o filósofo do barril que propôs-se a dar nome às coisas como elas são? O filósofo da lanterna que saía as ruas durante o dia com sua lanterna acessa procurando um "ser humano virtuoso"?

Garcia Olivo ascende sua lanterna Kínica e joga luz sobre as coisas, sobre as abstrações, sobre nós e nossas ilusões e sobre os cinismos cotidianos, que é o contrário do Kinismo grego.  Para isso se ancora em outros pensadores que como ele destoaram do rebanho, como Nietzsche, Cioran, Ivan Illich... E como eles, Garcia Olivo, pensador nômade diz, mas sobretudo faz o que pensa, eis aí, mais do que nunca, sua identidade com estes outros nômades, o ethos libertário.


Pergunta: El Amanecer :
O analfabetismo afeta ao redor de 38 milhões de pessoas na América Latina. Cifras como estas são as que alarmam a população; razão pela qual hoje, se pede que o Estado cumpra com essa tarefa. No Chile por exemplo, se considera que a Educação é uma ferramenta vital para o desenvolvimento humano. Pelo mesmo motivo organizações Mundiais como a ONU através do PNUD obrigam os países a investir mais e melhor em educação para seus filhos. Sobretudo naqueles países em vias de desenvolvimento. 

Todavia, não sabemos até que ponto a Educação garante um desenvolvimento humano vital, mas sim, o que existe são pessoas com um alto interesse de consumismo, dado de certa forma por uma estrutura econômica que impulsiona a isso tudo. Se bem que existam também grupos na sociedade, muito diversos por certo, que apesar de tudo, ainda acreditam no trabalho comunitário relacionado ao tema da alfabetização. Isto através de oficinas e programas que são financiados em certa medida pelo Estado, ou por organizações privadas. 

Poderíamos dizer, de certa maneira, que aquilo que os especialistas chamam mobilidade social, só existe para aqueles que já são oriundos de famílias com altos rendimentos e com uma enorme quota de clientelismo, tanto no serviço público como privado. Deixando antever a brecha entre estudantes de primeira e segunda categoria em todos os níveis da educação. Portanto, abandonar as Escolas, sob a critica da idiotização social, de crianças com uma alta vulnerabilidade em seus direitos, não sei até que ponto é viável nestes campos que flutuam, a obrigação que impõe o Estado, e a necessidade de aprender.

Na Educação Indígena que você se refere no seu livro “A Bala e a Escola”, faz menção as práticas existente sem a necessidade de um edifício ideológico nem estrutural, nem tampouco a dependência de um mestre ou professor que sirva de guia ou de ajuda para sua própria educação. Mas bem a leitura que se visualiza é o rechaço a este tipo de aprendizagem e de reprodução capitalista, por algo onde as relações humanas são dadas por princípios comunitários que não se compõe pela cultura ocidental. Muito distante das práticas culturais que são elaborados sob o sistema dominante, tanto na formação como na maneira de como o professor/a leciona, é que, a sala de aula como tal é um cenário igual ao do trabalho, da família e da sociedade. 

Por quê então o Estado impõe a família a ideia de ir a escola como uma forma de sair dessa pobreza, sendo que, a pobreza cultural que se vive na Escola, se alastra de forma que, tãopouco ajuda ou beneficia a criança? Mas bem, desde uma leitura Anarquista, é a Escola, tomando como referencia seus escritos, o espaço ideal que desenha o homem escravo e submisso à ordem imposta. 


Pedro Garcia Olivo:  Sinto que devo dizer algo a propósito da oralidade e dos programas de alfabetização... Nos últimos anos, e a partir de uma revalorização da obra de W. Ong, liberal conservador, e outros (A. R. Luria, na ex-Unão Soviética), é possível se reivindicar a dignidade das culturas da oralidade. 

O homem que era desvalorizado como analfabeto, ágrafo (por quê designar a diferença, a alteridade, como uma ausência, como uma falta do que nos caracteriza: a escritura), sem-escola, se concebe hoje como subjetividade distinta: os homens orais respondem a outros modos de expressão, outras dinâmicas de pensamento, outra estrutura de personalidade, outro estilo de vida (“verbomotor”, em expressão de M. Jousse). São diferença encarnada, em absoluto “inferiores” aos homens da escritura. 

O homem oral está sendo aniquilado em todas as partes. Em todos os lugares erradicamos esta forma particular de subjetividade, reduzindo a biodiversidade humana, destruindo os seres que não se parecem conosco... Nessa campanha homicida, etnocida, altericida, colabora, em primeiro lugar, a Escola, que força a alfabetização. A letra, que já não entrará “com sangue” nas novas aulas das pedagogias brancas interculturais, derrama não obstante sangue: massacra a oralidade. Recordo nesse ponto a E. M. Cioran: “Haverá que se vestir luto pelo homem no dia em que desapareça o último iletrado”… 



Desde a tradição anarquista se tem aportado argumentos para denunciar as campanhas de alfabetização, chegando a sugerir inclusive a superioridade ética dos homens das culturas orais. Sabemos, desde Bakunin, que a história do gênero humano tem sido uma sucessão de matanças, de genocídios, sempre em nome de uma “abstração” qualquer que seja (Deus, Pátria, Estado, Nação,...; e hoje poderíamos adicionar “Liberdade”, “Revolução”, “Estado de Direito”, “Democracia”, “Direitos Humanos”, etc.); e o homem oral não maneja abstrações, não recorre a conceitos descorporalizados, contentando-se com um pensamento “operacional”, “situacional”, pelo que sua capacidade de matar em massa é menor, substancial é seu pacifismo. 

Sabemos que os homens da oralidade necessitam do outro para pensar e para expressar-se, enquanto que os homens da escritura se reportam para si mesmos ao ler e a escrever, por isso que o sentimento comunitário é fortíssimo nos primeiros (cabe definir a cada homem oral particular como “uma fibra da comunidade”) e o individualismo aniquilador tem feito o contrário nos segundos (somos, os ocidentais e os ocidentalizados, detestáveis “indivíduos”, seres incapazes de admitir o clã, a tribo, a família e inclusive o casal: de nós, e pensando em ações coletivas, só cabe esperar, como eu lhes dizia, “pseudo-fraternidades”, fraternidades artificiais, e este déficit ontológico corrompe nossas assembléias, resumidas a jogos de esgrima entre egos expansivos, nossas associações, etc.). 

Sabemos que as culturas da oralidade, em lugar de arraigar —como se pensava desde o etnocentrismo europeu— na vingança e na lei do mais forte, se afirmavam no direito oral consuetudinário, um modo próprio de fazer as pazes e resolver os conflitos, encaminhando a restauração da harmonia comunitária, sem juízes separados, códigos de novo abstratos de crimes estipulados e castigos correlativos, ideia de culpado individual, noção de “penitencia”, etc., como já anotara Kropotkin no seu “O Estado”. 

É, este, um assunto complexo, em que, ainda que eu goste, não devo me demorar. Eu trabalhei sobre esse tema em “A ciganidade apagada”, estudo feito para imprensa, e, com menos profundidade, no “Doce Leviatã”, obra liberada, como todas as minhas, disponível sem custo na rede. 




A cultura oral dos povos originários como "outros modos de expressão, outras dinâmicas de pensamento, 
outra estrutura de personalidade, outro estilo de vida..."


Do caráter coercitivo da alfabetização o tem padecido as culturas que historicamente resistiram ao universalismo etnocida da civilização ocidental: povos nômades, como o cigano, orgulhosamente oral durante séculos; comunidades indígenas de todos os continentes; âmbitos rurais marginais dos países do Norte, desde a Espanha à Grécia, desde os Balcãs ao Ártico,... Se tratava de pessoas “marginais”, que defendiam seu direito a não deixar de ser elas mesmas, sua “idiosincrasia”, apostando por uma laxa “convivência” com a cultura hegemônica e denotando a “integração” (“A integração —anotou lucidamente o antropólogo R. Jaulin— é um direito a vida que se concede ao outro com a condição de que venha ser o que nós somos”). 

Distinto é o caso dos “marginais”, das pessoas que desejam integrar-se, promover-se, e se veem discriminadas ou excluídas nesse projeto pessoal de ser parte do Sistema, de empoleirar-se mais alto no Sistema. Para ajudar-lhes nessa meta de adaptação, os Estados dispõe de suas nutridas “burocracias do bem estar social”; e, como lhes contava, é também densa a malha dos “Sociais”, contratados ou voluntários, dispostos sempre a fazer o bem em beneficio próprio, a “integrar”, “incluir”, “incorporar”, “assimilar”. Assunto de canalhas, não é tarefa para o talante libertário...“incorporar” marginalizados no Sistema, levar oprimidos a aceitação do que é dado, nada tem de prática antagonista. 

Para isso existe essa “oficina de reparações” e esse “muro de contenção que chamamos Assistência Social"; e já são bastantes os “profissionais” ou “aficionados” que se entregam com paixão a esse lubrificante da máquina capitalista, como sua graxa otimizadora. Estes social-cínicos se disponibilizarão nos programas de alfabetização contribuindo para que os oprimidos e explorados se pareçam cada dia um pouco mais a eles mesmos, a essa Subjetividade Única que propendem e que passa pela admissão —com queixas menores— do estabelecido, pela corrida até a centralidade do Sistema. 

Em segundo lugar, e para responder com um pouco de ordem as suas perguntas, tem ficado muito claro, desde os estudos clássicos de P. Bourdieu, J. C. Passeron, R. Establet,... e das análises posteriores de I. Illich para América Latina, C. Lerena e outros para Espanha, etc., que a Escola em muito pequena medida promove a mobilidade social: situa cada um, um pouco melhor, em seu posto de saída e reproduz a estrutura social com pequenas exceções individuais que alimentam o sonho da “escalada”. Nada que celebrar nesse “ascenso”, e o digo porque foi meu caso, que passei de lúmpen à classe média, do mal-estar ao mal-fazer...



Os filhos das classes dominantes seguem ascedendo aos melhores empregos e aos postos de responsabilidade nas empresas ou nas administrações, enquanto que os estudantes de origem social humilde são canalizados até os degraus médios ou baixos da escala laboral: isto é sabido. Como também se sabe que há exceções, e que o sistema seleciona e eleva determinados exponentes das frações sociais oprimidas, para erigi-los em “mandaletes”, em capos dourados, em minorias assimiladas, pessoas recrutadas (bom salário, prestigio social) para acabar com os dispositivos de resistência e os esforços autônomos de seu próprio povo, como assinala D. Provansal. 

Deste mandonismo sangrento sabem demasiado os povos originários da América Latina, os grupos nômades, as aldeias de pastores, os coletivos suburbanos das cidades... E temos, ao fim, indígenas nos partidos políticos, no parlamento, no senado, nas prefeituras, na chefia de governos; ciganos nas Universidades e em associações que clamam por integração; agricultores convertidos em fazendeiros que contratam  seus vizinhos para conduzir o rebanho; sindicalistas e outros animais nocivos corporativos que declamam como representantes dos pobres,... 

Se a mobilidade social fora verdade, não haveria nada que festejar nisso, pois o sistema se robusteceria assimilando a hipotéticos descontentes; sendo mentira, caberá lamentar sempre que forje, a modo de exceção e para sustentar o sonho americano, uma casta hedionda de judas e mandaletes burocratizados. 

Suspeito, não obstante, que o Reformismo Pedagógico logo abordará com seriedade a questão da mobilidade social, pois o Sistema não vê nela o menor perigo, antes pelo contrário. As classes sociais podem preservar-se sem problemas em sua relação de exploração, em sua dissimetria fundamental, “refrescando” ao mesmo tempo o conjunto de pessoas que as compõe, com ascensos e descensos, trasvases e portas giratórias. De fato, se conservarão melhor como entidades contrapostas, baseadas na inequidade, se perdem o que todavia retém de “casta” e se fazem porosas, permeáveis. 

Um horizonte em que, graças a Escola, os filhos dos pobres podem se converter amanhã em pais dos ricos, em que cabe perfeitamente ascender na escala da propriedade e do consumo, em absoluto desagrada aos nossos “humanizadores” do Capitalismo. E creio que as Escolas Renovadas que já estão sendo criadas incorporarão com rigor essa exigência, hoje não lograda plenamente, de facilitar e procurar a mobilidade social. Temos muito pouco a aplaudir nisso tudo: o estabelecido se faz assim, mais admissível e se desenha uma via individual de escape da penúria e da exploração desde dentro do Sistema, no próprio Sistema, escalando pelo Sistema.





A América do Norte se apresentou como a Terra Prometida para isso: todos podem se emancipar economicamente, se libertar da escravidão do trabalho, passar da pua ao martelo, de explorados a exploradores, de vítimas a verdugos, de servos a senhores, de despossuídos à proprietários, e isso é todo o sonhável, o Paraíso nessa vida. 

Fora dessa meta, dessa finalidade, administrada pelo Sistema, para quem a Escola pretende ser uma ferramenta, não há nada, salvo o deserto. 

Termino esta entrevista, amigos, com a sensação de que é agora quando deveríamos começar a falar; quando, depois de havermos nos saudado de forma protocolar, estamos de uma vez em situação de compartilhar pensamentos e experiências.“O princípio está ao final”, se diz… 

Muito obrigado por conceder-me a oportunidade de repensar estes assuntos, a luz de suas realidades latino-americanas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

LIVROS DO GRUPO DE ESTUDOS EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA e BIBLIOTECA TERRA LIVRE

O Grupo de Estudos Educação Libertária da UFPel disponibiliza para os interessados no tema um conjunto de livros e cartilhas recém l...