quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Escola na democracia: Conversando com Pedro Garcia Olivo





Periódico anarquista chileno "Amanecer", edição de 1 de janeiro de 2016 com entrevista 
exclusiva com Pedro Garcia Olivo.


Educação Libertária é possível? O que é "educação" para que seja possível adjetivá-la? Uma educação pode ser denominada educação se não for libertária? Uma educação libertária requer professores libertários? quem seriam? prescinde de professores? Por que a Educação Libertária é aceita nos espaços institucionais se ela se pretende anti-sistema? 

Para discutir estas e outras questões relacionadas aos limites e perspectivas da Educação Libertária na atualidade, apresentaremos em um série de posts com entrevista exclusiva do auto-denominado anti-pedagogo espanhol Pedro Garcia Olivo. 

Quem é Pedro Garcia Olivo? 

Escritor, anti-pedagogo e ex-professor, crítico das sociedades democráticas ocidentais e doutor em historia contemporânea. Nos anos 80 se licenciou em Geografía e Historia pela Universidade de Múrcia, posteriormente trabalhou na Nicaragua com o governo sandinista, nos tempos da guerra civil trabalhando nas cooperativas de deslocados de guerra de Matagalpa. Residiu na Hungría onde foi pesquisador da Universidad de Budapest. Com a queda da URSS abandona o ensino e durante oito anos se dedica a vida de pastor, vivendo da criação de um pequeno rebanho de cabras em uma aldeia das montanhas no interior valenciano. Por razões de pobreza, em 2001 volta a dar aulas de ciências sociais e geografía na SES de Alpuente. Em outubro de 2010 renuncia definitivamente a educação administrada e como ele mesmo diz "deixei de trabalhar e de obedecer, entregando-me a experiencia demoníaca da extinção em liberdade". Garcia Olivo atualmente escreve ensaios críticos sobre a escolarização ocidental, sobre o Estado e as possibilidades de uma educação comunitária autogestionária como ação política do que ele domina auto-construção ética-estética para a luta.

Tal qual o filósofo grego Diógenes -O Quínico-, para quem era preciso ter uma boa visão e muita luz para enxergar, não um mundo para além deste, como ocorre com Platão, mas este mundo, o mundo da experiência humana imediata, Garcia Olivo nos convida a tão logo reconhecermos as coisas pelo que são, estarmos dispostos a chamá-las exatamente pelo que são, ou seja, precisamos externar seus nomes. É isso que ele faz ao chamar a escola, seja pública ou estatal como uma exigência do capitalismo, no qual as Escolas "reformistas" e até mesmo ditas "libertárias" nada mais são do que aquilo que o capitalismo precisa pois ele não quer apenas “operários dóceis e votantes crédulos”, senão “cidadãos assertivos, empreendedores, organizativos; pessoas criativas, imaginativas, associativas” sempre —e este é o aspecto crucial— desde a aceitação franca do já dado, desde a instalação plena no sistema ou, ao menos, desde o desejo irrefreável de acomodação". 

Estas e outras posições do autor de "O Irresponsável", "O enigma da docilidade", o "Educador Mercenário", "Escola e bala" e o "Doce Leviatã" que colocam o dedo na ferida, de forma profunda, que publicamos aqui no blog sua entrevista dada ao periódico anarquista Chileno "El Amanecer", que foi lançado no primeiro dia deste novo ano( https://periodicoelamanecer.wordpress.com)

Realizamos a tradução e publicaremos por partes conforme os tópicos do próprio periódico: A primeira parte da entrevista versa sobre "Universidade e Anarquismo", onde Garcia Olivo fala de sua visão do sobre educação, Escola e Universidade e a relação com uma prática libertária e suas contradições. Também conta um pouco de sua própria trajetória como anti-pedagogo; A segunda parte é sobre "Representação versus Antiautoritarismo", onde Garcia Olivo aprofunda a crítica a Educação no contexto do Estado Leviatã. Na terceira parte o tema é "Educar é domesticar", com uma profunda crítica à Escola. Na quarta parte a discussão é "A educação como ferramenta de libertação" com uma reflexão sobre os limites das propostas reformistas de libertação. Na última parte "Abandonar a escola", Garcia Olivo sustenta sua proposta de desescolarização.




Entrevista Pedro Garcia Olivo






Primeira Parte: Universidade e Anarquismo*



Pergunta : El Amanecer:

Sendo a Universidade um campo de concentração, onde circulam tanto senhores como escravos (Acadêmicos e estudantes). Estes últimos ainda insistem em recorrer a ela como uma saída ou bem como um ponto de encontro. (Oficinas, fóruns, encontros, atividades, etc) Você também é participe dela, seja desde o espaço acadêmico de formação e mais tarde como um odiador (assim mesmo logrou escrever o “Irresponsável”, como uma espécie de terapia, e que pode servir como aliciente aqueles educadores que pretendem aportillar o aparato educativo; sempre que o assumam como uma tarefa). Hoje por exemplo a demanda está colocada na inclusão do estudantado, mediante a gratuidade universal em todo o período que dura a domesticação. Questão que se vem transformando como uma demanda social que tem colocado em perigo vários ministros de educação no último período presidencial, e ademais tem sido a tônica principal do movimento estudantil, ao qual adquiriu uma marca social: gratuita, de qualidade e estatal. Cabe preguntar-se o seguinte: É válido fazer desde aí um dano ao aparato educativo e como você vê esta enorme contradição de seguir recorrendo ou buscando nela uma espécie de mobilidade social ou se prefere uma especie de conscientização de masas?

Garcia Olivo: Ainda quando os Anarquistas rechaçam a autoridade, odeiam o Estado e ainda soe irrisório, aqui se manifesta o contrário a que versa a ideia em sua genealogia. Onde a anarquia em palavras de E. Armand: é essencialmente negativa, crítica e nunca positiva ou construtora. Em minha opinião, as demandas de educação pública, de qualidade e gratuita, são um signo da prostração contemporânea do pensamento crítico e da práxis antagonista. A escola pública, universal, como pretendido “direito”, é uma exigência clássica do Capitalismo consolidado. O Sistema requer escolas, sejam elas estatais ou para-estatais (privadas, concertadas, semi-públicas,...), com uma preferência crescente por projetos não-diretivos, frequentemente de inspiração libertária... Acabo de participar da Semana da Educação Alternativa de Bogotá, evento realizado com recursos públicos, desde os aparatos políticos e as quotas de poder da esquerda, da social-democracia, do progressismo reformista. Se evidenciou ali um interesse maiúsculo das administrações, seguindo pautas emanadas do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, da Unesco, de certa tecnocracia educativa muito influente em escala global (pensemos em Edgar Morin e seu celebrado sinistro manifesto: “Os sete saberes necessários para a educação do futuro”) e dos modelos propostos pelas potencias hegemônicas, em “reformar” a Escola, em afastá-las dos protótipos autoritários clássicos, que já não servem para reproduzir o Sistema, e em organizá-la desde as pautas do “alternativo”, o “não-diretivo”, o “ativo e participativo”, o “dialógico”, o “democrático”, o “assembleário”, etc

A “Escola alternativa” pela qual se clamava nesse encontro (que se inscreve em uma longa série de eventos semelhantes, em todos os continentes) será amanhã a “Escola oficial”, e de fato já é hoje em parte na Europa: é a Escola por fim readaptada a uma fase do Capitalismo que já não requer, sem mais, “operários dóceis e votantes crédulos”, senão “cidadãos assertivos, empreendedores, organizativos; pessoas criativas, imaginativas, associativas” sempre —e este é o aspecto crucial— desde a aceitação franca do já dado, desde a instalação plena no sistema ou, ao menos, desde o desejo irrefreável de acomodação. Para este novo perfil demandado pela máquina política e econômica já não serve a escola tradicional; se precisa uma Escola Renovada, e há um interesse maiúsculo, nas agencias econômicas e nos poderes políticos, em promovê-la. Mas, como aconselhava Maquiavel, tal “exigência do Sistema” não deve de ser meramente imposta: convém que seja o povo, a cidadania, as pessoas comuns, quem demandem, quem “lute” por ela, mobilizando-se, enchendo as ruas, se enfrentando inclusive com a policia, recebendo golpes e padecendo em prisões, sonhando “conquistá-la”. Quando o clamor popular seja notável, e todo o mundo aspire a reforma, o Príncipe, em um gesto de sensibilidade social e de amor a seus súbditos, “concederá” aquilo que, desde o principio, desejava “decretar”. Não haverá “imposto” nada: se dirá que cedeu ante uma aspiração da cidadania, ou que a atendeu ao menos. Este é nosso caso: as demandas de Educação Pública Universal, de Escolas Renovadas, de Pedagogias Alternativas, de Reformismo Metodológico, etc., são alentadas hoje pelos poderes estabelecidos, ainda que se permitam uma repressão dos demandantes, ainda que enquadrem frente a eles policiais e outras esquadras brutais. Estamos, aqui, no âmbito da “conflitividade conservadora”, da “desobediência induzida”, do que Foucault chamou “ilegalismo útil”, política e ideologicamente rentável. Um mínimo ponto de radicalidade no questionamento do dispositivo de ensino conduz a não aceitar a estatalização da educação; a não tolerar a figura “demiúrgica” do Professor, a hipóstase do “encerro formativo” e o discurso anestésico-narcótico das pedagogias todas, incluídas as nominalmente libertarias.


"O Irresponsável" uma das obras de Garcia Olivo


A segunda parte de sua pergunta coloca uma questão complexa, que não tenho resolvida de um modo satisfatório... Como “cemitério do espirito”, como dizia A. Artaud, é muito pouco o que cabe esperar da Universidade para a crítica não subornável e os anseios de transformação. Mas cabe discutir o alcance desse “muito pouco”.… Eu nunca simpatizei com as estrategias “entristas” ou “de infiltração”, que falavam da necessidade de “tomar” progressivamente os centros de poder, para de algum modo desnaturalizá-los e voltá-los contra sua funcionalidade originaria. Vejo ali meras racionalizações do desejo de instalação, da vontade de acomodação. Os professores da Escola de Frankfürt, com Adorno e Horkheimer a frente, nos ilustram tristemente sobre a miséria de dita tática: aspirar, diziam ao “pequeno desvio”, a “diferença mínima”, desde os mesmos aparatos do Estado, incluída a Universidade, como refúgio último da esperança emancipatória. Um grande radicalismo verbal se conjugava neles com a completa adaptação a maquinaria política e cultural capitalista (daí seu assentamento na Universidade, seu êxito acadêmico, sua poderosa estrutura editorial, suas confortáveis moradias, seu aburguesamento existencial,...). Detesto essa sorte de cinismo, essa divisão esquizóide entre o pensamento e a vida; e não me parece sincera sua aposta por uma ingressão rebelde no sistema universitário... Na Espanha, temos tido os casos, quiçá ainda mais lamentáveis, de celebrados “anarcofuncionários”, empoltronados na Universidade, vivendo de seu inimigo declarado: o Estado. O anarquista que trabalha para o Estado, dando aulas por exemplo, encarna a máxima contradição concebível, o cinismo mais vergonhoso: não se engana em absoluto, não é vítima de uma ilusão, de uma mentira interior (se fora presa de um auto-engano, no sentido de Nietzsche, se “crê” em seu oficio, ainda lhe caberia certa desculpa), pois o sabe tudo, sabe para quem se vende, em troca de que lhe pagam, a ignominia de sua ocupação e de sua vida, e segue não obstante, adiante...

Em seu “O caráter destrutivo”, W. Benjamin oferece uma descrição que se faz cargo admiravelmente da psicologia destes sujos personagens... Em efeito, em um texto quiçá âmbiguo, este frankfürtiano díscolo descreveu um tipo de carácter, uma estrutura da personalidade, que, na minha opinião, encontra-se entre os “professores esquerdistas” de nossos dias, não poucos expoentes: o “caráter destrutivo”. Esta psicologia, que termina mergulhando o pathos destrutivo na conformidade e até a reação, que encontra sua referente social na pequena burguesia descontente (ou nos setores revoltosos da classe média, para utilizar outra expressão), e que também caracteriza um segmento da classe empresarial, se distingue pela insistência no rechaço visceral e nas propostas demolidoras desde uma certa acomodação, desde uma inocultável seguridade, desde um estar a salvo das consequências previsíveis daquele rechaço e daquela demolição. O “caráter destrutivo” advoga por uma comoção na qual não arrisca pessoalmente nada, reversões que em nada afetam o seu mundo.



Não se compromete verdadeiramente, não se envolve até o fim, nas lutas que proclama, nos conflitos que suscita, nas convulsões a que assiste. Sua beligerância, seu radicalismo, sua disconformidade, é, exatamente, de índole ritual, cenográfica, e tem que ver, por um lado, com certa “subida del telón” profissional e, por outro, com una particular conformação de seu caráter —com um desdobramento de sua psicologia que reconcilia, como dizia, a sede de crises com o conservadorismo secreto, o apetite de inferno com o amor de Deus, os gestos de negação insubornável com o suborno de una afirmação não-declarada. Em tanto “caráter destrutivo”, o universitário progressista se incapacita para a verdadeira práxis transformadora, dissolve e inocula sua aparente insubmissão em uma parafernália de ritos catárticos, em uma gesticulação simbólica de homem que nega as coisas deste mundo porque não ameaça seu bem-estar neste mundo e que parece amar a desordem por excesso mesmo de ordem que tem instaurado sobre os assuntos de sua vida. Ritual e quase hipócrita, a ‘destruição’ pela qual suspiram muitos professores contestadores vale o mesmo que uma consigna de rebelião escrita na areia da praia por um homem desocupado que toma sol entre bocejos: não é sincera, e é apagada por qualquer pequena onda…

Mas me parece também que, em situações concretas, pode resultar interessante desatar discursos críticos, antiescolares, antiuniversitários, na mesma Instituição. Por um lado, o pensamento des-sistematizado sai assim, de alguma maneira, de seu gueto natural, de seus circuitos as vezes sectários, e alcança receptores, públicos, nos quais pode realmente “explodir”. Se trata de uma certa transgressão da ordem do discurso, que se dá raras vezes, e na qual eu gosto de me envolver. Propor, por exemplo, com toda rotundidade, sem meias tintas, um discurso desescolarizador na própria Universidade, frente a estudantes desprevenidos, de cuja formação se tem excluído sistematicamente tais perspectivas (dois ou três linhas concedidas a figura de Ivan Illich, no máximo, nas aulas de pedagogia), pode resultar emocionante e pode lançar a muitos jovens após a indicação de textos a experiencias que nem se imaginava. 

Já sabem que eu abandonei a tempos o ensino, minha própria condição de “educador mercenário”, expert em pedagogias alternativas que encantava por certo as autoridades educativas e a própria Inspeção, procurando viver em uma horta no meio rural marginal, dando às costas progressivamente ao mercado e ao Estado, em uma experiencia terminal de liberdade possível. Por esse lado mostrei a bunda para a Universidade, e procurei soltar um peido em seu rosto... Mas, como minha auto-suficiência ainda não é absoluta, e tem alimentos que não posso produzir, mais o gasto desta conexão mínima de Internet que me permite falar com vocês e com os amigos, para não tornar-me louco de solidão, no final das contas, por esta impossibilidade temporal de autarquia, dizia, uma vez ou outra me deixo contratar por alguma Universidade para desatar em seu meio, discursos antiescolares, como pedradas contra o estabelecido. Os vínculos que tenho estabelecido com estudantes que me escutam assombrados e começam a recolocar-se algumas coisas, me fazem crer que essa esporádica transação (não ocorre mais de uma ou duas vezes ao ano) arroja também uns “efeitos colaterais” que são dignos de atender.



O "Educador mercenário" livro de Pedro Garcia Olivo



Também é possível, amigos, que eu esteja me auto-enganando neste momento; e, de fato, não tenho claro este assunto, eu confesso. As vezes me determino a não pisar nunca mais uma Universidade, não voltar a dar palestras inclusive, em nenhuma parte, recuperando o ideal de Antístenes, O Quínico: “Esconde tua vida”, “apaga tuas pegadas”, “prescinde de todo público”... Mas, em outras ocasiões, me seduz mais a beligerância de Diógenes, o Cão”, seu discípulo, com seus espetáculos provocativos, desagregadores, sua necessidade (patética?) de auditório... Oscilo de um extremo a outro, porque não hás meio caminho praticável. Me calo por meses, e logo falo demasiado —também em Universidades. Tendo, em conjunto, a negar a prática docente na Universidade, se objetivam fins antagonistas; mas não me nego a utilização seletiva, circunstancial, de seus espaços, na medida em que se preserve a autonomia e independência dos convocantes..





* Tradução: Paulo Marques

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