domingo, 29 de novembro de 2015

A potência do ethos libertário ou Quando o Leviatã é colocado para correr, por Paulo Marques




O tema dessa postagem é um vídeo que mostra uma tentativa de "reintegração de posse", por parte do Estado,  de uma das mais de cem escolas ocupadas por seus estudantes, pais e professores em São Paulo. É uma verdadeira video aula sobre como funciona o "Estado Democrático de Direito"; que nada mais é do que o eufemismo que o velho Leviatã recebeu na modernidade. Isto porque, sua função permanece a mesma que foi fundamentada teoricamente por Thomas Hobbes. Ao mesmo tempo podemos analisar o que significa a Escola Estatal, de modelo Prússiano que, nascida na segunda metade do século XIX, ainda predomina como paradigma para as sociedades ocidentais modernas:  A Escola do Leviatã.

A cena se passa em 30 minutos e é  cinematográfica do início ao fim.

O principal argumento da oficial de justiça é direto e claro: " A escola é do Estado". Mais explícito que isso impossível. A ilusão da "escola pública" cai por terra, para decepção dos progressistas que ainda crêem nesse mito. 

A oficial do Estado ameaça os ocupantes com o uso da força. Os estudantes, em sua maioria adolescentes reagem; "Porque o juiz não vem falar com a gente?". A resposta é direta: o Leviatã não discute, exige o cumprimento da sua "Lei". O problema é que a "Lei" do Leviatã não tem sentido quando enfrenta a insubordinação, a subversão. Por isso a oficial começa a citar os "criminosos" que atentam contra a ordem  do "Estado Democrático de Direito" . Com um lista de nomes de estudantes, a "oficial" começa a citá-los em voz alta. Ameaça, com Conselho Tutelar, com a prisão, os "desordeiros" que não se entregam.

A auto-organização de professores, pais e alunos não se intimida com as ameaças do Leviatã: "A escola é nossa" gritam. Para o Leviatã isso é inaceitável, inconcebivel. A Escola foi criada pelo Leviatã e lhe pertence. Os estudantes, os pais e professores, afinal, foram criadas pelo Leviatã e, portanto, lhe pertencem. Essa é a compreensão do Leviatã. Para ele a sociedade é composta de servos, serviçais, eufemisticamente chamados "cidadãos" e "cidadãs" e como tal devem se comportar. É para isso que as Escolas foram criadas, para  formatar essa "cidadania" de cumpridores de Leis e Ordens; para aprender  a obediência, a disciplina, o bom comportamentto e a subserviência ao próprio Leviatã.

E quando ela perde essa função? e quando os súditos se rebelam? O Leviatã usa o que tem de mais eficaz: a força policial.  Escola deve ser retomada, eis a palavra de ordem do Estado. A educação saiu do controle, isso não será permitido jamais. Para isso o Estado tem tribunais, juízes, oficiais, advogados, exército, tem "Leis". Para que servem se não for para "manter a ordem"?  Para quê serviriam as Escolas se não fosse para adesttrar cumpridores de "Leis"?

"A Escola é nossa!!!!", o grito de estudantes, pais e professores ecoa no interior da escola, enfeitada com cartazes, faixas de indignação, de protesto, contra o "Estado de coisas". O grito é coletivo e acusa a contradição entre a promessa de um espaço público de educação que não é. Pais, estudantes e professores que ocupam as escolas começam a dar outro sentido ao espaço. Educação como construção comúm, pública, auto-organizada, auto-gestionada, sob controle da comunidade. Uma afronta ao Leviatã.

Ao final do video, quando chega a notícia de que a ordem não pode ser cumprida pois ainda não foi definitivamente deferida, a Oficial do Estado, sentindo-se derrotada lamenta o desfecho mas  ainda tenta um último esforço, agora não mais a mando do Estado, mas a partir de sua própria compreensão de sujeito sujeitado. Tenta "ensinar' para uma das mães que estão apoiando a ocupação que os responsáveis pelo que ocorre na escola são os "grupos radicais" e que seu filho seria ''prejudicado" com isso.  O discurso do funcionário do Leviatã é a incorporação mais profunda do ensinamento que teve, de que sem uma autoridade, sem alguém ordenando, sem submissão,  os seres humanos não são capazes de pensar ou agir por sua própria conta.

A fala da oficial de Justiça não é só a fala de um funcionário do Estado, é a fala da Educação Estatal. É a voz do Leviatã reproduzida por seus mais fiéis suditos. É essa fala que está sendo derrotada por outra fala, aquela que diz: "Não preciso de nenhuma autoridade que me ensine como eu devo viver a minha vida, como nós, coletivamente podemos organizá-la". Essa é a maior contribuição que esses estudantes estão dando com seu ethos libertário.




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