terça-feira, 17 de novembro de 2015

Nós adestramos todos, e como adestramos!!!





Max Stirner(1806-1856), autor de "Unico e sua propriedade", escreveu diversos artigos sobre a educação, com uma abordagem crítica à educação estatal prussiana que emergiu na segunda metade do século XIX  como modelo educacional por excelencia para todos os países ocidentais ditos desenvolvidos. Será, portanto, o paradigma de toda educação ocidental até hoje. Escolarização obrigatória, de massas, voltada para a formação do "cidadão". 

Em 1842 Stirner escreve "O falso princípio da nossa educação" onde sustenta a tese de que a educação e a escola devem formar homens livres donos de si mesmos e com a possibilidade de se autodeterminar-se. Stirner pergunta se a escola tem que educar o homem para que seja independente ou simplesmente deve adesttrá-lo. Ele observa que essa é uma questão central na medida em que se o individuo é um "homem completo" a sociedade também se beneficiaria disso. Ao conttrário um homem formado para ser submisso só poderia engendrar uma sociedade submissa. Assim não é difícil compreender qual o modelo de educação o Estado precisa manter, qual o tipo de "cidadão" é preciso formar desde a "mais tenra idade" nas palavras irônicas de Stirner. 

Esse foi o centro de suas críticas que, dado a predominancia desse modelo até hoje é uma crítica contemporânea, mas ao mesmo tempo permanece extemporânea por apontar para possibilidades que ainda não estão no horizonte nem mesmo dos especialistas em educação.

Postamos aqui um desses chamados "textos menores" de Stirner sobre educação. São "menores" em tamanho, mas não deixam de ser "enormes" em conteúdo e significado para uma necessária crítica a um modelo de educação que não serve para quem acredita que o ser humano é bem mais que um autômato ou peça de engrenagem. Para quem não só a escolarização obrigatória deve ser colocada em xeque como a "escolarização" interna que cada um carrega em si. Este talvez seja o grande desafio para pensar uma outra educação no século XXI. 


"Quem não sabe que em todo o mundo não há um regime escolar melhor que o prussiano? Esta frase sem importância tem dado a volta ao mundo. Como se nós com nossa lingua fossemos os iluminados do mundo. Quem entre nós (excetuando os russos como o povo mais culto: estes são também para nós o ideal inalcansável), quem, pergunto eu, pode exibir um militarismo de tão distinguido espírito de subordinação, e de uma precisão tão mecânica? Quem pode mostrar uma burocracia da qual pelo menos dois terços são tão funcionários em corpo e alma que fora disso não são outra coisa? E, a quem devemos um exército tão dotado e uma burocracia assim de sobra? Todavia, sabemos apreciar a importância da cultura, educando todos da mesma maneira. 

Nós adestramos todos, e como os adestramos!!! As árvores do jardim de Luis XIV não podem estar melhor cultivadas e melhor podadas. Como poderíamos duvidar da exemplaridade de nossas escolas, se nós cultivamos tudo assim? Portanto, não há que entender o argumento com espírito limitado. Nós temos tentado alcançar as coisas mais altas: para nós a escola é a vida, e toda a vida é uma escola. Ser estudante toda a vida é em verdade algo grande e belo; e mais, é a verdadeira solução do enigma da "perfectibilidade indefinida". Estar sempre sob o professor da escola, não é quiçá o que requer a negação mais nobre de nós mesmos e acaso não autoriza a justa aspiração de ser nós mesmos um dia professores de escola? Na verdade, ser professor de uma escola é uma coisa que levamos no sangue; levamos dentro o professor de escola ou, em outras palavras, o policial e o gendarme(soldado de uma corporação especial encarregado de manter a ordem) e só o que está bem interiorizado está a salvo. Portanto, por quê preocupar-se com os colégios onde só se educa as crianças? É falso entender a fama de nossas escolas somente neste sentido limitado. 

Se os professores não atendem às crianças, se resolve rápido e não significa nada: um estudante apático que mais tarde realizará um trabalho sem importância sob a vigilância de um comissário se tornará prontamente um bom subordinado, quando compreenda que não é fácil sair de uma aula do colégio que ocupa muitos metros quadrados. Isto há que gravá-lo muito bem em nossas cabeças, que os alunos de nossas escolas não são a coisa essencial e principal, antes de ler a respeito que entre nós as coisas estão tão mal como em qualquer outro estado policial. Assim as partes levam sempre ao todo. Tu tens razão. Eu não encontro restos de um espírito. Tudo está adestrado" (Max Stirner In "Arte e Ciência" - 10/11/1842- escritos menores- Tradução Paulo Marques) 



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