quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Meu individualismo anarquista por Thierry


Meu individualismo anarquista1

Thierry2


Já desde alguns anos é muito difícil encontrar leituras anarco-individualistas sobre a atualidade. A batalha “classista” segue sendo frequentemente a prioridade sobre qualquer outra luta e os conflitos, quaisquer que sejam, se resumem a maior parte das vezes em problemas econômicos. O capitalismo seria o maior culpado.

Os “comunistas libertários” tem como filtro de leitura o coletivo e este desgraçadamente em detrimento do individuo. Sem contar com que ao individualismo frequentemente se lhe acusa de todos os males do anarquismo, seus valores são desviados até o ridículo. O individualista é então burguês, ou ultraliberal, ou pretensioso…

Lamentamos isso, ainda mais porque a autonomia individual, muito querida aos individualistas, é historicamente uma das primeiras demandas dos anarquistas. A historia do movimento anarquista mostra que em seus primeiros momentos de organização os anarquistas não queriam federações. A razão era simples: uma organização de qualquer tipo seria garantia de perda da autonomia individual. A ideia de grupo não era rechaçada, mas devia ser o menos coercitiva possível.

Seguidamente as federações vieram a luz, enquanto os indivíduos alertavam a companheiros e companheiras de prováveis excessos. É interessante observar que, se bem a maioria destes individualistas rechaçaram a organização em “grande escala”, outros estiveram presentes, negando-se a ficar à margem de um movimento que levava a esperança de mudanças sociais em consonância com seus próprios desejos.

Que individualismo?

Devo, neste momento, explicar o que para mim é o anarquismo individualista, mas sem colocar o individualista em uma categoria específica. Para este, e esta é uma base comum a todo individualista, não existe causa superior ao próprio indivíduo; nem sequer o anarquismo seria uma causa pela qual o individualista se sacrificaria.

A ideia não é encontrar-se sozinho contra todos como um ermitão anti-social, mas sim a busca de sua liberdade com os demais. O comum tem todo o sentido e interesse, e a pretensão de que uma pessoa possa viver fora de qualquer sociedade se revela falsa. O individualista parte de si mesmo, é o centro de suas preocupações, de suas lutas contra toda dominação. É por isso que não se define por um pertencimento que lhe superaria – identitário, social, comunitário ou de classe –, senão por suas escolhas conscientes e sua ética pessoal.

Meu individuo prima sobre os grupos sociais que uniformizam e tendem a subordinar aos indivíduos a dogmas ou a líderes. Para mim é primordial fazer de tudo para não dobrar-me a nenhum determinismo social.

O individualista luta contra o fato de que o individuo siga sendo uma construção social e, portanto, produto das condições sociais. Ele quer ser a soma de seus atos, experiências e escolhas, que não são, naturalmente, separadas das escolhas e atos dos demais indivíduos que compõem a sociedade, mas não devem ser de modo algum determinadas por elas.

Em uma agrupação de indivíduos minha prioridade é meu bem-estar. Se, em um grupo, cada indivíduo aceita que seus gestos e pensamentos são guiados por seus próprios interesses – e portanto não se esconde atrás da hipocrisia do sacrifício pelos demais – ; se cada pessoa pensa por si mesma, mas nunca contra os demais; se não se trata em nenhum caso de darwinismo social; se cada pessoa defende sua autonomia individual, então as relações humanas se estabelecerão em pé de igualdade e fora de toda tentativa de dominação.

Classe ou indivíduo?

Assim, o individualista não se opõe a toda agrupação. O perigo, no entanto, é que todo grupo que ganha estabilidade corre o risco de converter-se em autoritário ou inclusive terminar atormentado por sujeitos que desejam converter-se em indispensáveis. Não obstante, se este grupo é baseado na associação livre, onde o indivíduo se considera como uma unidade e não uma parte de outra unidade (o grupo) e onde o indivíduo não dá conta mais que a si mesmo atuando de acordo com sua própria ética e não por uma moral imposta, então o individualista não colocará objeção alguma a sua própria participação. Pelo contrário, é muito consciente da importância destas associações livres.

Há em um individualista um profundo desacordo com os que chamaria “os classistas”. Estes veem o indivíduo como uma construção ideológica. Para o individualista que sou, são os indivíduos – independentemente de se são ou não conscientes de sua unicidade – que criaram esse grupo social de classe a que nele se encerram. E a criação desta entidade ideológica define o individuo fora de si mesmo por sua condição em lugar de por o que ele fez de si mesmo.

Ademais, não me sinto necessariamente companheiro de todos os proletários. Se para mim está fora de lógica sentir-me perto a alguém que explora os demais, isso não me converte automaticamente em simpático a qualquer explorado. O verdadeiro irmão – a irmã de verdade – não é sempre o mais afetado pela exploração, senão quem deseja emancipar-se das categorias nas quais se encontra capturado.

A sociedade de amanhã

O que realmente me assusta dos companheiros e companheiras que tem ideias sobre a organização pós-revolucionária, é quando pensam que a emancipação individual só pode lograr-se através da emancipação coletiva; assim a potência individual se converte no resultado das necessidades coletivas satisfeitas. Nós vemos aí claramente um risco significativo de autoritarismo anarquista que obriga a seguir as regras estabelecidas pelos mais iluminados, relativas ao que seria necessário para os indivíduos. Para mim, as exigências do indivíduo estão a frente daquelas da sociedade, é a afirmação do Eu, da minha própria finalidade e ademais toda ação não tem valor mais que para Mim.

Recordo uma discussão com uns companheiros sobre a possível economia libertária. Cada um ia com sua ideia e seus planos sobre a forma de organizar-se. Estes momentos sempre me dão um pouco de medo. Em suma, há lugar para a dissidência? O que acontecerá, nestes paraísos sociais, se me nego a participar? Não nos confundamos, as projeções de companheiros e companheiras sobre a redistribuição da riqueza são muito atrativas, são suas convicções o que me assusta. Sempre tenho a sensação de que me será impossível realizar-me como eu o entendo. Um exemplo: Se eu denuncio um trabalho como alienante inclusive fora de um sistema capitalista, mas o grupo, a comuna, decide outra coisa, tenho que alinhar-me ou resistir a este paraíso? Qual é então o lugar para minha autonomia individual? Nestas discussões, frequentemente tenho a impressão de que os muros já estão construídos para os dissidentes.

Revolução? Não, devir revolucionário

Outra preocupação que tenho acerca das propostas de muitos companheiros e companheiras é a sua visão desse momento em que tudo mudará de um sistema para outro. Estou por que os que trabalham decidam sobre sua organização e me oponho totalmente a que uma pessoa possa viver a expensas de outro, não posso no entanto crer no poder onipotente de uma revolução. Não é suficiente implorá-la, há que construí-la. Por isso prefiro falar de devir revolucionário mais que de revolução. Prefiro uma vida revolucionária desde agora que uma revolução amanhã. E a revolução, há que fazê-la com todo mundo ou contra todo o mundo? Tenho hoje a sensação de que agora, os homens e as mulheres emancipadas de prejuízos, de desejos de obedecer e do prazer de dar ordens são menos numerosos. Tenho a sensação de que amanhã apenas serão mais. Minha inquietude é ver esse desejo de revolução ou insurreição muito acima do que eu chamo “a coletivização da emancipação.”

Porém vale a pena repetir uma e outra vez: não existe oposição entre individualista e anarquista na crítica das condições sociais atuais nem na organização da repartição da produção.

O individualista não dita a cada um a melhor maneira de organizar a economia, a produção. O que importa sobretudo é a ação individual. O qual, naturalmente, não exclui o comunismo como organização econômica.

Este é meu individualismo: um individualismo social com uma finalidade comunista e egoísta.



1Artigo publicado no site da Revista NADA,http://revistanada.com/, em 5 de agosto de 2015. Tradução para o português de Paulo Marques

2Thierry, o autor é integrante do Groupe Germinal de la Fédération anarchiste ( França)

 

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