quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Escola Ocupada, educação Autogestionada, por Paulo Marques





"A vida na atualidade realiza acontecimentos trazidos pelo tempo e efetivados em espaços restritos ou ampliados, até mesmo extraordinários. Durante sua existência cada pessoa interfere nos eventos em sua volta, dando-lhes novos percursos, ignorando-lhes os rumos ou mantendo seus modorrentos itinerários. Por vezes, sob circunstâncias imprevistas, alguém é levado ao transbordamento das margens, dos limites, das fronteiras, das designações a respeito de onde devemos parar, sinalizadas por regras ou leis. Aí, ele se vê diante do caos e da beleza estonteante e experimenta liberdades"( Passetti, Augusto, p. 11) 


Autogestão nas escolas ocupadas no Estado de São Paulo,  transbordamento dos limites, eis o caos e a beleza estonteante que é a experimentação da liberdade que estamos presenciando. 

Autogestão na educação, esse é fenômeno novo que emerge no país a partir do processo de ocupação de mais de uma centena de escolas públicas em São Paulo. Sem teorias, sem representantes, "Líderes", organizações políticas, "entidades de representantes", os alunos de forma autônoma ocuparam as escolas que o governo ameaça fechar e começam a autogeri-las, organizá-las e colocar em funcionamento. Estudantes se convertem em propiciadores de experimentações que potencializam a liberdade, conforme Passetti a Augusto, 

"A vida está no combate constante entre as diversas forças conservadoras, que procuram manter relações pautadas no exercício de uma autoridade hierárquica mais ou menos centralizada, e os propiciadores de experimentações, que potencializam a liberdade" ( Passetti e Augusto, p. 12) 

A escola como instituição de reprodução da moral dominante, da disciplina e da ordem, representa essa autoridade hierarquizada que é derrubada tão logo é ocupada por um devir transformador e rupturista que experimenta novas práticas. O saber e o conhecimento rompem as jaulas da burocracia e dos saberes pré-fabricados e se generaliza como obra a ser construída. A engrenagem da "máquina de moer" emperra. Uma nova potência assume o comando. É nova, inédita para seus próprios realizadores. Não sabiam como deveria ser feito, foram lá e fizeram...




De forma coletiva propuseram e realizaram atividades culturais, educacionais, debates, oficinas aulas organizadas e ministradas pelos próprios alunos ou por convidados. Experimentam assim a Autogestão, a cooperação, ajuda mútua e a Ação Direta. Princípios básicos que caracterizam a prática anarquista. Não são anarquistas os jovens que ocupam as escolas, praticam sim, saibam ou não uma ética anarquista e libertária. 

Constróem na ação direta uma heterotopia de invenção, criam um outro "lugar" que rompe com o velho lugar. Da educação baseada no autoritarismo e na heterogestão ensaiam a liberdade e a autogestão. Negam autoridades, burocracias, hierarquias, currículos, chamadas, provas para fazer educação. Assim tem o espaço como seu, o que antes não sentiam. Por isso organizam a limpeza dos banheiros, ocupam a cozinha e produzem a alimentação, mudam a forma de vivênciar o espaço ocupado. Educar se converte em viver e praticar, a prática se converte em saberes. Como nos lembra Passetti e Augusto, 

Educar  está na vida da casa, na ida e volta ao trabalho, no próprio trabalho; nas folgas, nos amores, nos jogos com crianças, nos estudos, nas aventuras com e entre jovens; em fazer teatro sem ser ator ou espectador; em promover palestras para ampliar as conversações; em filmar, fotografar, gravar, cantar, escrever, ler, ouvir, falar sem se escorar na autoridade do proprietário do saber; em praticar ajuda mútua" ( Passetti e Augusto, p. 115) 





Ou seja, educar é autogestionar-se, autocriar-se como dizia Nietzsche "como obra de arte", possibilitando potencias e vontade de potencias. 

Se antes a Escola, cercada por muros, grades, gerida por burocracias e regulamentos pertencia ao Leviatã, os novos afetos de potência libertária, reconstróem estes espaços que agora lhes pertence.

Como um castelo a Escola  estava apartada da própria comunidade em que foi construída. Agora estas  mais de 100 escolas ocupadas, cada uma com suas especificidades, seus ensaios únicos, são resignificadas, reinventadas. Desescolariza-se a escola. 

Pode ser uma curta primavera libertária na educação brasileira, pouco importa o tempo. Sua força está na profundidade do que já fizeram. 

Abolindo hierarquias, autoridades, disciplinas, ordens, mostraram as possibilidades de uma outra educação, auto criação coletiva de estudantes, pais, professores.

Escola ocupada é escola autogestionada, eis a palavra de (des)ordem. Eis o que revoluciona o cotidiano, não é utopia, não é "projeto" é devir revolucionário em ato 

Enfim, um caminho que se faz ao caminhar...








Referência

PASSETTI, E. AUGUSTO A. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte, Autêntica, 2008.

5 comentários:

  1. Numa escola autogerida os alunos descobrem que possuem o poder, coletivamente, de transformar tudo que está a sua volta e, a partir disso, mudar o mundo.Descobrem que, ao invés de perambularem pelos corredores, como máquinas, presos a ordens ditadas por seus professores, conteúdo didático arbitrário, provas, existe um eu dentro deles, capaz de tomar decisões, de formular suas próprias ideias.Descobrem que podem se relacionar uns com os outros não apenas mandando ou obedecendo, mas cooperando, adquirindo solidariedade e estabelecendo objetivos comuns.Percebem que não precisam mais viver com temor de ser "repreendidos" pela "sociedade" por não fazerem "sua parte".Que tais crenças são uma estratégia para mantê-los enfraquecidos e intimidados, e assim sustentar a sociedade que os escraviza.Que possuem controle sobre si mesmos.Como que num ato de despertar, veem o espaço que os cerca como algo que faz parte deles mesmos e, assim, no lugar de tentar destruí-lo, sentem um verdadeiro amor por ele, pois ele não é mais uma jaula usada para encarcerá-lo, mas um ambiente onde sua consciência se eleva, onde seus valores, morais e artísticos, podem florescer.
    Recomendo este texto aqui:

    http://manifestoaeconomiadovicio.blogspot.com/2015/11/a-escola-autogerida-por-uma-nova.html

    ResponderExcluir
  2. Enfim, uma ótima notícia em meio a tantas de corrupção e mazelas dos políticos. Um viva para a verdadeira educação que só pode acontecer em liberdade! Somente este tipo de ambiente escolar pode ajudar cada criança, cada jovem a trazer para fora aquilo que ele já é em essência. Um viva para estes jovens inteligentes, corajosos, conscientes e criativos!!!

    ResponderExcluir
  3. Em tempo de discussão sobre uma nova base curricular da educação no Brasil, seria deveras importante aproveitarmos a oportunidade, para ampliarmos o debate e olharmos a modernização do ensino no Brasil não só do ponto vista curricular, mais também sob o aspecto pedagógico.

    ResponderExcluir
  4. Mais Arte Mais Educação Menos Corrupção | Força Juventude

    ResponderExcluir
  5. Oi pessoal, estou pesquisando experiências de educação autogeridas que se relacionem ou baseiem com as experiências das escolas ocupadas. Sou do Chile e a idea inicial e tentar fazer uma comparação entre elas. Quem conhecer alguma podemos trocar email para falar. Obrigado

    ResponderExcluir

Lançada a II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS

II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS  9, 10 E 11 de Outubro de 2017 Local : OCA : Ocupação Coletiva de ArteirXs Na ...