quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Educação Anarquista em Pelotas: passado e presente: Primeiros resultados da Pesquisa "Memória, teorias e práticas de Educação Libertária no RS" da UFPel





Neste segundo semestre de 2015 iniciamos os trabalhos da Pesquisa "Memória, teorias e práticas de cultura-educação libertária no Rio Grande do Sul", aprovada pelo COCEPE/UFPel, código 5767. A pesquisa está sob coordenação do Prof. Dr. Paulo Marques, da Faculdade de Educação/UFPel e conta com a colaboração do Prof. Dr. Édio Raniere da Psicologia da UFPel. O grupo de pesquisa é formado pelos acadêmicos Juliana Broilo(Geografia), Aline Igansi(Dança), Iago Nizolli(Letras/Francês), Edson Moreira(História), Leandro Silveira(Artes Visuais), Marcela Paz( Pós Memória e Patrimônio Cultural), Suelen Lemons(Psicologia), Pablo Castro(Filosofia) . 

A pesquisa tem como objetivo geral realizar um estudo das experiências de educação libertária, fundamentadas no pensamento filosófico de matriz anarquista no Rio Grande do Sul e na região sul em especial. A partir do resgate dos referenciais teóricos da filosofia educacional libertária e suas práticas tanto internacionais como nacionais, busca identificar o seu legado e influência nas atuais experimentações, bem como identificar a contribuição da mesma para a educação na atualidade. 

Assim a pesquisa se organiza em três eixos: Memória, teorias e práticas

Eixo Memória: A partir de uma pesquisa bibliográfica buscamos realizar um resgate da memória das experiências realizadas pelos anarquistas nas primeiras décadas do século XX, quando os libertários hegemonizaram o movimento operário, o que possibilitou a construção de diversos espaços educacionais de caráter libertário suprindo a lacuna da inexistência de educação para os trabalhadores e seus filhos. Neste primeiro momento pesquisamos as ações dos anarquistas em Pelotas.

Eixo Teorias: Busca constituir um acervo de pesquisas, teses, dissertações e artigos atuais relacionados a Educação Libertária através de acesso a bibliotecas virtuais de Universidades, Centros de Pesquisa . Essa pesquisa está em andamento.

Eixo Práticas: Busca realizar uma pesquisa de campo nas experimentações atuais de cultura-educação realizada por individuos e/ou grupos que se auto-identificam como anarquistas e libertários. Nesta primeira fase pesquisamos a OKUPA 171, espaço de vivência autogestionária existente a 6 anos na cidade de Pelotas e que se constitui como referência de práticas libertárias de educação e cultura. 

A partir dessa pesquisa realizamos o primeiro artigo do Grupo de Pesquisa, apresentado na III Jornada de Educação Libertária, realizada na Universidade Federal de Pernambuco, nos dia 12 a 16 de outubro de 2015. O artigo será publicado em livro pelos organizadores do evento. 

No dia 13/11 o Grupo de Pesquisa promoveu o debate sobre desescolarização na OCA - Ocupação Coletiva de ArteirXs


Abaixo postamos o artigo que é também um resumo dos primeiros resultados da pesquisa:



100 ANOS DE CULTURA-EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA EM PELOTAS:
Do Grupo Iconoclasta à Casa Okupa 171
Paulo L. A. Marques1
Edson Rodrigues2

Introdução

O presente artigo propõe-se a realizar um resgate da memória das práticas de cultura-educação libertária na cidade de Pelotas e o legado que tem sido retomado através das ações dos libertários nas vivências autogestionárias das Okupas, que se constituem como espaços autonomos de educação libertária da contemporaneidade.

No primeiro momento resgatamos a história das ações realizadas pelos libertários nas primeiras décadas do Século XX, em particular as iniciativas do“Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres”- constituído por operários, artistas e intelectuais anarquistas no ano de 1914 - e no segundo momento abordaremos as atividades libertárias que, cem anos depois, serão retomadas na cidade, através dos libertários da Casa Okupa 171, espaço autônomo de vivência libertária3, que já completou 6 anos de existência.

A Okupa 171 constitui-se hoje como experiência/ensaio/invenção que, guardadas as diferenças, retomam as práticas de cultura libertária ocorridas em Pelotas no século passado. Se naquele período os anarquistas criaram os Ateneus nos sindicatos e Escolas Modernas, como instrumento de educação para a classe trabalhadora, hoje existem os Grupos de Estudo, Oficinas, Ciclo de cine-debate, bibliotecas como atividades de cultura-educação das Okupas; se ontem os libertários criaram jornais e revistas, hoje existem os blogs, sítios e fanzines digitais; se no passado os libertários realizavam piqueniques e teatros, hoje fazem pizzadas e Circo Àkrata; se antes dirigiam sindicatos, hoje atuam na construção de espaços de vivência e produção econômica coletiva e autogestionária.

Ou seja, pode-se perceber o legado do passado nestas atividades das Okupas, cujas premissas da autonomia individual, autogestão, ação direta, ajuda mútua, cooperação e solidariedade constituem a prática do que Passetti e Augusto(2008) identificam como heterotopias da invenção, um outro lugar de experimentações, agenciamentos de novas subjetividades éticas e estéticas próprias. São novos tempos e circunstâncias diferentes que mantém ideias-forças, valores e práticas que permanecem vivas nas invenções de cultura-educação libertárias de hoje.
A educação anarquista volta-se para a liberdade, experimentações e maneiras de lidar com a criança e o jovem que os fortificam como pessoas autônomas, com capacidade de entendimento e decisão; valoriza a rebeldia (…) Maneiras de educar elaborando regras móveis, feitas para e com as pessoas envolvidas com a educação e mesmo em escolas, em função da potência livre da vida da criança. Situações que poderíamos caracterizar, seguindo sugestões de Michel Foucault, próprias de uma heterotopia, experimentando-se subjetividades, éticas e estéticas próprias e que nos anarquistas se distinguem como heterotopias de invenção (Passeti e Augusto,2008,p.81)
Nosso objetivo, portanto, é relacionar esses dois momentos de conformação dessas heterotopias de invenção libertárias analisando os elementos de continuidade e inovação que contém, ao mesmo tempo, diferenças e semelhanças, que constroem uma cultura libertária viva, cujo presente, com todas as especificidades relativas à tempo e contexto, mantém um legado que é constitutivo das novas possibilidades que se abrem para uma Educação Libertária do século XXI.
O Cenário: os libertários no movimento operário de Pelotas no inicio do século XX



A cidade de Pelotas e Rio Grande, ambas localizadas na região sul do Estado do Rio Grande do Sul são consideradas pela historiografia como o “berço do movimento operário gaúcho (Marçal, 1985; Petersen e Lucas,1992). Essa identificação se justifica pelo fato de que foi nessas duas cidades que se deu o inicio do processo de desenvolvimento industrial do Estado desde meados do Século XIX. Tendo nos setores de alimentação e têxtil suas mais importantes industrias vinculadas a exportação e importação, a cidade de Pelotas tornou-se um polo de atração de um significativo contingente de operários imigrantes, principalmente alemães e italianos. Parte importante destes trabalhadores traziam consigo as novas ideologias nascidas na Europa como o marxismo, socialismo e o anarquismo. Segundo Edgar Rodrigues(1984) no seu livro Os anarquistas: trabalhadores italianos no Brasil”, o primeiro anarquista italiano que se tem notícia, chegou a Pelotas por volta de 1880 e chamava-se José Saul:
Suas ideias escandalizaram os reacionários, preocupavam as autoridades e deixavam confusa a maioria dos trabalhadores pouco esclarecida. Apesar disso, firme em suas convicções libertárias, inicia um trabalho paciente de doutrinação e vai ganhando seguidores. O seu progresso ideológico cresce e não tarda a organizar os primeiros Grupos Libertários, mas autoridades preocupadas com o avanço de suas ideias, resolvem expulsá-lo de Pelotas(RODRIGUES,1984, p.55)
Com a ampliação de uma nova classe operária emergente, criam-se as suas primeiras entidades de Apoio Mútuo, as mutualistas, que fariam parte da pré-história do movimento operário(Foot, Leonardi, 1982). Segundo Marçal(1985) em seu livro As primeiras lutas operárias do Rio Grande do Sul” foi possível identificar três etapas do período de nascimento do movimento operário gaúcho: uma primeira etapa que ele denomina de período mutualista, que seria a fase embrionária iniciada a partir da criação da primeira entidade de ajuda mútua que foi a “Sociedade Operária Italiana Mútuo Socorro e Beneficiência Vittorio Emanuele II” em Porto Alegre, no ano de 1877 e uma década depois o “Congresso Operário” (Associação) de Pelotas, em 1887 que, posteriormente, viria a se transformar na Liga Operária, considerada pela historiadora Silvia Petersen(1992) a mais antiga sociedade operária do Rio Grande do Sul.

A Liga Operária terá um papel chave nas atividades dos libertários na cidade no período de hegemonia dos anarquistas que se desenvolvem durante as décadas de 10 e 20 do século passado. É no interior da Liga que atuará o “Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres”.

Primeiro Congresso Operário Brasileiro de 1906, sob hegemonia anarquista

A partir de 1910, inicia o chamado Período Anarquista, com a hegemonia dos libertários na Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS), a primeira entidade unificada de âmbito estadual da classe operária criada em 1906. Conforme Marçal (1985) o trabalho dos anarquistas no movimento operário começou desde 1894 de forma tímida, com o jornal “A Luta” editado em Porto Alegre, mas que ao longo dos anos iria crescer, contando com o aumento da chegada de imigrantes europeus(alemães, poloneses e Italianos) para trabalhar na nascentes industrias. Esse crescimento dos libertário é lento mas constante. Segundo Marçal :
Quando relançam o jornal “A Luta”, em 1906, já estão realmente dispostos a conduzirem as lutas dos trabalhadores. E essa influência vai crescendo à proporção em que cresce o comprometimento dos socialistas com a classe dominante. A grande greve de 1906 – única deste período- por exemplo, sai para a rua na 'marra', 'puxada' pela vanguarda anarquista( marmoristas) que reunia e discutia na Escola Eliseu Reclus, dirigida pela figura apostolar de Polidoro Santos( MARÇAL, 1985, p. 15)
Pode-se perceber daí o papel político que a Educação e em especial as escolas, tiveram para os libertários como parte fundamental do processo de luta pela construção de uma sociabilidade libertária. Conforme Luizzetto aponta :
Para o movimento libertário era muito especial o papel representado pela educação: de um modo geral, era claro para a maioria dos militantes que ela não era a única nem a principal agente responsável pelo desencadeamento da revolução; mas era evidente para eles que, sem a ocorrência de mudanças profundas na mentalidade das pessoas, mudanças provocadas em grande parte por intermédio da educação, a revolução social poderia não alcançar o êxito desejado(LUIZETTO, 1987, p.42)
Os libertários, portanto, coerentes com seus princípios de autogestão, ajuda mútua, cooperação e ação direta, não esperavam pelo Estado ou por qualquer instituição privada para realizar seu aprendizado e de seus filhos. Tão logo se estabeleciam em alguma cidade como operários, organizavam seus sindicatos, associações, entidades, ou mesmo começavam a integrar entidades já existentes de defesa da classe trabalhadora; imediatamente defendiam e efetivavam a construção de Escolas e espaços de instrução e formação como os ateneus(espécie de escola para adultos com sede nos sindicatos).

Uma outra peculiaridade dos libertários no campo da educação é a sua intrínseca vinculação com a cultura. Para os libertários educação(formação/instrução) e cultura se complementavam. Suas intervenções na área da educação, segundo Luizetto(1987), fundamentavam-se, claramente,na concepção de Instrução integral concebida pelo educador Paul Robin4, e que terá um Bakunin um dos principais defensores. Nessa perspectiva a educação deve ser um processo de formação integral do indivíduo envolvendo todos os saberes e conhecimentos oriundos da capacidade intelectual da humanidade.
Dessa forma os jornais, o teatro, os grupos musicais, as publicações de livros, poesias eram instrumentos, praticas, fundamentalmente de formação.

Nesse cenário temos o desenvolvimento de ações e práticas de educação libertária levada a cabo pelos anarquistas que atuavam em Pelotas, sendo responsáveis por iniciativas e experimentações com um rico significado que mostraram as potencialidades das práticas culturais e educacionais autônomas e autogestionárias desses ativistas.
Os anarquista não se limitaram, como antes a proclamar as virtudes da educação, protestar contra a educação dominante e propor genéricas mudanças no ensino. Trataram de formular, de um modo sistematizado, os pressupostos que deveriam orientar a educação libertária e passaram a colocar em prática, ou então, a apoiar, propostas educacionais que pareciam adequadas aos seus propósitos revolucionários(LUIZETTO, 1987, p.51).
Como parte dessa educação os libertários utilizaram uma diversidade de iniciativas de caráter cultural como o teatro, a literatura (prosa, poesia) a música; e como canal dessas expressões uma quantidade significativa de jornais, periódicos semanais que cumpriam funções pedagógicas além da informação. Nessa aspecto destacou-se o papel protagonista do“Grupo Iconoclasta de pensadores livres”.


O Grupo Iconoclasta de pensadores livres: 
os pioneiros da cultura-educação libertária em Pelotas

Livro pioneiro de João Batista Marçal que registra a memória do Grupo Iconoclasta de pensadores livres" criado em Pelotas por anarquistas em 1914

Foi nesse contexto de hegemonia dos anarquistas no movimento operário gaúcho, com a conquista da direção da FORGS, a partir de 1910 e que atingirá diversas entidades por todo o Estado que se inicia o período mais rico de atividades culturais-educacionais dos libertários em Pelotas. Conforme destacou Marçal :
Os anarquistas e anarco-sindicalistas tomam quase todas as associações de trabalhadores, a começar pela FORGS. Organizam os que estão desorganizados. Tiram a massa para a rua, em 1912, numa grande campanha contra a carestia. Fazem várias greves, quase todas vitoriosas – pequenos prelúdios da grande greve de 1917, que passaria à história como “ A Guerra dos braços cruzados”. E assim eles entram pelos anos 20 adentro, fazendo greves, fundando jornais, criando associações, agitando a questão social em clima de absoluta liberdade e autonomia, sem se aperceberem que o Estado – seu grande inimigo – tramava já, na moita, formas especiais de freá-los. Esse espírito e essa intenção foram os geradores do Ministério do trabalho e da grande noite de controle, vigilância e fiscalização policialesca que se abate depois de 1930 sobre o sindicalismo brasileiro (MARÇAL, 1985, p. 16)
Segundo Miranda(2014) citando a pesquisa de Loner (1999), nas duas primeiras décadas de existência a Liga Operária de Pelotas teve uma hegemonia burguesa, contando com integrantes não só operários mas empresários, donos de oficinas e jornais. A presença destes setores patronais vinculados à classe média e alta, facilitou a aquisição de um prédio para sediar a associação5.

Em meados de 1910, a diretoria da Liga Operária de Pelotas, uma das entidades mais antigas da cidade já era composta por uma maioria anarquista.

Com o controle dos anarquistas a sede da Liga se torna um espaço para as diversas atividades propostas pelos libertários. Coerentes com sua visão de integralidade das ações, no qual política, cultura, educação se complementavam, foram criadas um conjunto de iniciativas como Grupos de Estudo, teatro e música, jornais, escolas e Ateneu.

Em sua pesquisa, Miranda (2014) destaca por ordem cronológica as principais iniciativas: Federação Operária (1913), Centro de Estudos Sociais (1914), Grupo Teatral Cultura Social (1914); Grupo Musical 18 de Março (1914); Grupo Iconoclasta (1914) que criará o Ateneu Sindicalista Pelotense (1914), a Escola Primária (1914), com aulas noturnas gratuitas para crianças e adultos; Sindicato dos Inquilinos (1915); Centro Feminino de Estudos Sociais (1915); Núcleo Popular Pró-Paz (1915); Grupo Juventude Anti-militarista (1915); Banda Musical 11 de Novembro (1916) e Escola Racionalista ou Moderna (1918).

Loner(1999) destaca o papel dessas entidades e o período de maior intensidade das atividades:
Pela análise, percebe-se que o ponto máximo de atividade do grupo libertário, em termos de manifestações culturais, ocorreu nos anos de 1914 e 1915, nos quais havia em atividade grupo teatral, banda musical, centro feminino e de jovens, centro de estudos e um grupo de pensamento libertário, escola de teatro, escola para crianças e Atheneu operário para adultos, além da manutenção de um jornal em 1915 e outro em 1916 (Loner, 1999, p. 186).

Pode-se perceber por esse conjunto de grupos e atividades a forte e constante preocupação dos libertários com a educação com a criação de uma variedade de instrumentos e espaços dedicados a instrução e formação como o Centro de Estudos Sociais, o Atheneu Sindicalista/operário Pelotense, a Escola Primária, o Centro Feminino de Estudos Sociais, Escola Racionalista ou Moderna e o Jornal “A Luta” que também cumpria um papel formativo de divulgação do ideário anarquista, de suas lutas e atividades.

Cabe destacar que temos poucos registros dessas experiências educacionais como a do Atheneu sindicalista(voltada para a educação de adultos) e a Escola Moderna (voltada para crianças). As informações em sua maioria se restringem às matérias dos jornais editados pelos libertários.

As pesquisas já realizadas(Marçal,1985, Pettersen, 1992, Loner, 1999, Miranda, 2014) nos permitem dimensionar a importância do papel do “Grupo Iconoclasta” nesse processo, como uma das iniciativas mais atuantes na promoção de atividades relacionadas a cultura e a educação. Uma das razões para esse protagonismo foi o fato de que entre seus criadores estavam ativistas como Victor Russomano e Zenon de Almeida, duas figuras emblemáticas na história da educação libertária gaúcha, tanto teórica quanto prática.

Conforme Marçal(1985) o “Grupo Iconoclasta”, cujo nome completo, segundo Miranda(2014) era “Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres”, foi criado em julho de 1914 , ano em que começa suas atividades,
(...)promove uma série de pesquisas sobre o movimento operário no Estado, a divulgação do ideário anarquista, comícios contra a guerra e um ciclo de palestras pronunciadas por agitadores libertários, entre os quais Lemos de Almeida, ao que tudo indica a principal figura deste grupo(Marçal, 1985, p.116)6
Também segundo Marçal(1985) o “Grupo Iconoclasta” será o responsável por criar o Ateneu Sindicalista Pelotense” que conforme o modelo nascido do movimento operário espanhol no final do século XIX, durante a segunda República, cumpria a função de escola da classe trabalhadora, funcionando nos sindicatos e voltado principalmente para a educação de adultos. Os ateneus tornaram-se a resposta prática dos libertários à inexistência de escolas para a classe operária e também um experimento que mostrou a possibilidade de que os trabalhadores construíssem seus próprios instrumentos de ensino e aprendizagem, prescindindo dos aparatos estatais ou privados ou confessionais.

Pioneira e ainda única obra, de João Batista Marçal que resgata a história dos anarquistas gaúchos e suas atividades, incluindo as educacionais.

Outra iniciativa marcante do Grupo foi a edição do Semanário “A Luta” no ano de 1916. O Jornal circularia aos sábados com o objetivo de divulgar as ideias anarquistas e informar assuntos da atualidade. Sobre este jornal Miranda(2014) destaca que o jornal “O Rebate” em sua edição de 28 de janeiro de 1916, informou sobre a reunião do Grupo Iconoclasta que seria realizada no dia seguinte para tratar da nova publicação. Após o lançamento do primeiro número no dia 12/02/1916, já no seu número seguinte ( 19/02/1916) os editores de “A Luta” publicam uma notícia cujo conteúdo é uma resposta à repercussão da nova publicação, que não agradou alguns setores da sociedade:

O aparecimento d’ ’A Luta’ veio perturbar o bom humor de muita gente honesta, para cujos cérebros, obcecados pela ignorância ou pelo interesse, nós somos uma horda de heréticos, dinamiteiros, bandidos homens universalmente perigosos à sociedade, à família e à religião. Sentimo-nos francamente lisonjeados com essa tão afetuosa coleção de epítetos com que costumam mimosear-nos os nossos inimigos sistemáticos... e os inconscientes(“A Luta”, 19 de fevereiro de 1916, citado por MIRANDA, 2014, p. 70-71)7

Da mesma forma seu conteúdo deixava claro que como toda atividade ácrata a publicação ia além de seu papel estritamente propagandista, tinha também um caráter cultural-educacional, no sentido de servir como como instrumento de formação da classe trabalhadora, o que pode ser observado pelo seu conteúdo que ia além de informações sobre fatos ou notícias de atividades, mantendo espaços dedicados à reflexão teórica. conforme descreve Miranda :
Dentre os os temas abordados pelo A Luta destacam-se: anarquismo, arte social, teatro livre, a questão da mulher, guerra, miséria, política, entre outros temas que eram de grande importância no seio da classe trabalhadora anarquista. Seus artigos tinham a autoria de diversos operários, demonstrando abertura para a participação coletiva. Em nota publicada no primeiro exemplar do periódico, dia 12 de fevereiro de 1916, há o convite para que os leitores fossem colaboradores do jornal desde que obedecessem seu programa, não o usassem para ataques pessoais ou questões particulares e não excedessem o espaço de três tiras. Para tal, as correspondências deveriam ser enviadas para a Liga Operária. Além dos diversos colaboradores, eram publicadas citações na coluna intitulada Para Refletir, que demonstram o amplo conhecimento intelectual daqueles que editavam o jornal, fazendo referências a obras diversas como, por exemplo, frases de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Friedrich Nietzche (1844-1900), Liev Tolstói (1828-1910),(MIRANDA, 2014, p. 72-73)
Conforme citamos anteriormente o Grupo Iconoclasta cumpriu um papel significativo como impulsionador de ações no campo culttural educacional principalmente por contar entre seus fundadores com a presença de dois importantes intelectuais libertários da época,Victor Russomano e Zenon de Almeida. O primeiro como pesquisador e pioneiro no estudo da educação sob a perspectiva libertária e racionalista de Francisco Ferrer e o segundo por ser uma das figuras centrais da criação da primeira Escola Moderna de Porto Alegre.

Vitor Russomano, na época de criação do Grupo Iconoclasta” , conforme Marçal era um “jovem anarquista, antti-clerical ferrenho” , destacou-se como um pioneiro na produção teórica avançadas nos temas da educação e os direitos das mulheres. Filho de um imigrante italiano, o sapateiro Frederico Russomano, esse jovem intelectual escreveu dois trabalhos emblemáticos, “A Escravidão social da Mulher”, obra pioneira do feminismo brasileiro, escrita com forte influência das teses de Enrico Ferri, que ele conhecera pessoalmente em 1910 e a “História Natural do Educando”, originada de sua tese de doutorado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a qual, segundo Marçal(1985) foi “aprovada com distinção e recebida com aplausos na comunidade acadêmica carioca da época”. Este livro, também foi pioneiro por abordar pela primeira vez no Brasil uma pesquisa baseada nos conceitos da Escola Moderna de Francisco Ferrer. Publicado em 1914 pela Tipografia do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, se caracterizava por um estudo sobre a educação onde defendeu um ensino baseado no anticlericalismo radical, o racionalismo e um tipo de educação despida de dogmas e preconceitos.

Zenon de Almeida ( conhecido como o "O Espártaco do Sul)

Junto com Victor Russomano outra personalidade de destaque entre os fundadores do Grupo Iconoclasta é Zenon Budaszewski de Almeida. Filho de uma família de imigrantes poloneses, nasceu em Porto Alegre, e por sua trajetória de militância pode ser considerado uma das figuras mais emblemáticas do anarquismo gaúcho e em particular de Pelotas na década de 10 do século passado. Quimico industrial, Intelectual autodidata, orador, professor, poliglota(falava polonês, alemão, inglês e Idíche), jornalista e teatrólogo, atuou em Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Rio de Janeiro e Pelotas. Em seu livro sobre os anarquistas gaúchos Marçal destaca as iniciativas de Zenon no campo da cultura e educação, no período em que militava no Grupo Iconoclasta:
Zenon se transfere para Pelotas, onde se joga de corpo inteiro nas lutas da classe operária. Trabalha como auxiliar de químico no frigorífico Armour. Faz palestra no Centro de Estudos Sociais que ali funcionava sob comando de Antonio Gomes da Silva. Funda o Teatro Primeiro de Maio, na Casa dos Trabalhadores, e o Ateneu Sindicalista Pelotense”, cujo fim é instruir, educar e preparar o operariado”. A “Voz do trabalhador”, de 5 de agosto de 1914, acrescenta que essa é uma “instituição proletária de instrução, educação e preparação prática, por meio de preleções lidas e faladas, cópias de trechos de livros úteis – sociologia e ciêntíficos- provas escritas, etc.” Na inauguração, Zenon faz uma palestra sobre Ensino Racionalista. Juntamente com Santos Barbosa, secretário Geral da Federação Operária de Pelotas-FOP, funda também o Grupo Teatral Cultura Social, repetindo experiência obtida junto ao operariado carioca.( MARÇAL, 1995, p. 35-36)
Em agosto de 1915 Zenon lança o Jornal Terra Livre do qual será editor. Esse jornal será o porta-voz da Federação Operária e das entidades que ele dirigia como o Grupo Iconoclasta e o Ateneu Sindicalista. Em Pelotas Zenon havia lecionado no Ateneu Sindicalista e ao voltar a Porto Alegre continuará seu trabalho em prol da educação libertária. Será fundador, professor e dirigente da primeira Escola Moderna da cidade, criada nesse mesmo ano juntamente com Polydoro Santos e Djalma Fettermann. Essa escola foi mantida pela Sociedade Pró-Ensino Racionalista, criada em 1916. Casa-se com Eulalia Martins, também educadora da Escola. Em 1916 , novamente em Pelotas será redator do jornal A Luta. Em 1917 passa um período em Rio Grande onde edita "O nosso verbo", órgão da União Geral dos Trabalhadores Riograndinos. Sobre esse período Marçal destaca:

Em Rio Grande, nessa época, adquiriu um prelo portátil e uma fonte de tipos, passando a editar uma folha revolucionária, de pequeno formato, mas com ilustrações humorísticas extremamente mordazes, anti-burguesas e anti-clericais, já que ele dominava a técnica de clicheria e desenhava muito bem. De lá passou para São Jerônimo, onde trabalhou na administração das minas. Novamente em Porto Alegre, com Geyer e Djalma, aperfeiçoou um detonador que transformasse dinamite em granadas de mão. Djalma, como mecânico e ourives; Geyer, médico, com a cesso à produtos químicos; e ele Zenon, como químico, conseguiram um petardo que, em 1917, apavorou a Brigada Militar, tirando-lhe a iniciativa(MARÇAL, 1995, p.37)
Será um dos líderes em Porto Alegre da greve geral de 1917. Nos anos 20 continua atuando politicamente e trabalhando como químico industrial . Vai para o Rio de Janeiro, adere ao a ALN de Prestes. Trabalha na Embaixada da Polônia no Brasil até sua morte em 1940.

O papel do “Grupo Iconoclasta”, que se expressou em suas atividades e nos militantes engajados nesse trabalho, mostra de forma inequívoca o significado da concepção de educação dos libertários naquele período, qual seja, um processo amplo, diversificado e integral de práticas de caráter cultural(teatros, música, e formativas( Ateneu, Centros de Formação, Escola Moderna, jornal) vinculados à ideia força de construção de sujeitos livres/libertários para uma sociabilidade livre. Tinham, portanto, muito claro o papel que estas iniciativas cumpriam no seu projeto de formação do homem e da mulher libertária. O papel estratégico da criação de uma nova cultura emancipatória. É esse tradição/cultural que estarão presente nas diversas iniciativas encontradas 100 anos depois nas experimentações/vivencias libertárias das Okupas que resgatam, com suas diferenças, especificidades e singularidades esse legado libertário.

Mesmo com toda essa riqueza histórica, a memória das ações dos educadores libertários permanece marginalizada na academia. Entretanto, isso começa a mudar a partir das novas práticas de cultura-educação que emergem nos espaços de vivência anarquista como as Okupas, que não só inauguram novas formas de vivência libertária como, a partir das práticas de cultura-educação que realizam, resgatam, ao mesmo tempo, a memória e o legado dos pioneiros da educação libertária na cidade, como por exemplo a dos Iconoclastas de 1914, que são parte de uma história que ainda continua a ser escrita.

Unica foto da Escola Moderna de Porto Alegre, fundada em 1915 e funcionando até 1916. Entre seus fundadores e professores estava Zenon de Almeida( segundo em pé da esquerda para a direita).

As OKupas como heterotopias de invenção libertária


As “Okupas” com K, são a versão brasileira dos “squat”, ação de ocupação de espaços imobiliários como casas, prédios que estão ociosos e sem uso para transformá-los em espaços de vivência e cultura libertária autogestionária. Essa prática nasce nos anos 60 na Europa, inicialmente como ação de resposta à falta de moradia, realizada através da ocupação de casas, apartamentos e prédios desocupados ou abandonados em razão da especulação imobiliária. Dessas primeiras reações contra a especulação imobiliária de grandes áreas urbanas, nasceria um movimento de reconhecimento internacional que posteriormente se multiplicaria por diversos países como Squat (Europa) ou Okupa (América Latina). Da década de 1980 em diante, essa forma de ação direta urbana irá vincular-se à cultura punk e o anarquismo.

É dentro dessa perspectiva de interligar a educação/conhecimento para autonomia individual e, por conseguinte, coletiva, com a cultura, modo de ver e viver a vida de um grupo étnico e/ou social que podemos caracterizar hoje as práticas executadas e vivenciadas em espaços ocupados de caráter anarquista das “okupas” como heterotopias de invenção no campo da educação, que reforçam o histórico ácrata.

A heterotopia de invenção é um espaço anarquista de fronteira disforme, em que pessoas e associações elaboram subjetividades libertárias; em que se arruína a grande e a pequena moral, em favor da coexistência de éticas elaboradas por amigos que se voltam para a vida pública[…] Espaços sem fronteiras definidas, únicas e inacabadas que se reúnem para levar adiante suas heterotopias libertárias, suas delicadezas e forças, levezas e espertezas, consigo, com os demais e principalmente com a sociedade (PASSETTI e AUGUSTO, 2008, p. 82).

Esse espaço de invenção libertária não deixa de ser uma continuidade do legado dos primeiros anarquistas que estiveram atuando na sociedade pelotense no final do século XIX e início do XX e que, guardadas as devidas diferenças, construíram suas heterotopias educacionais autônomas como já vimos.


A Kasa Okupa 171 : espaço de cultura educação libertária



O nascimento da Okupa 171 se dá em meados de novembro de 2009, quando algumas individualidades de perspectiva anarquista adentram uma casa desocupada do centro da cidade de Pelotas, que já havia sido alvo de outras ocupações, mas que não haviam se estabelecido. A partir daquele momento a casa passa a ter pessoas comprometidas em estabelecer um espaço ocupado de caráter ácrata, com todas as especificidades que englobam essa perspectiva, tanto teórica e, principalmente, prática. Nascia a Casa Okupa, 171.

No decorrer dos anos, até os dias atuais, o espaço físico “okupado”, passou por diversas modificações, transformações, no que diz respeito a questão de reformas, melhorais no prédio, assim como de caracterização que tomou pela orientação de vida dos ocupantes, onde suas paredes “falam” com cartazes do mundo todo que “gritam” contra toda autoridade. Na Kasa desenvolvem-se projetos permaculturais, como telhado vivo, estufa para desenvolvimento de plantas comestíveis e medicinais. Há também a compostagem de tudo que é consumido de orgânicos pelos habitantes do espaço, que depois de todo o processo que simula o natural, pode-se se beneficiar com um fertilizante orgânico de alto desempenho. Destaca-se também a biblioteca José Saul1, que possui diversificado acervo, contendo uma prateleira com magnífico conteúdo anárquico e de cunho libertário.


A casa autogestiona-se de forma horizontal e organizada, onde os moradores desenvolveram uma cooperativa interna que realiza atividades tais como Pizzadas e outras festas para arrecadar recursos financeiros para desenvolver projetos e reformas no prédio, além de outros gastos. A casa conta ainda, com um estúdio musical, para ensaios de bandas e músicos.

O espaço libertário conta, nesses 6 anos de sua existência, com uma agenda de atividades fixas e esporádicas, propostas por qualquer pessoa que visita o espaço. As atividades variam desde oficina para aprender a arrumar sua própria bicicleta a preparo de cremes e óleos naturais. Também se desenvolvem oficinas de fotografia, serigrafia, etc. Sempre com o intuito de autonomia individual, construindo informalmente uma rede de conhecimento e aprendizagem compartilhado, que beneficia a todos nas trocas de conhecimentos e cotidianiza a absorção de saberes; como nos ciclos de cine temáticos, para fomentar a discussão e troca de experiências. Atualmente no espaço desenvolve-se um grupo de Estudos de Educação Libertária, com calendário de atividades e um ciclo cinematográfico relacionado com o tema educação-cultura, sob a perspectiva ácrata.


A partir dessa breve descrição de dois momentos/experiências de cultura libertária da cidade de Pelotas com suas iniciativas e práticas no campo da educação, podemos analisar o quanto as práticas dos libertários da Casa Okupa 171 de hoje resgatam e renovam o ethos libertário do Grupo Iconoclasta de 1914. Constituem a Okupa como um espaço de heteronomia de invenção da Educação Libertária do século XXI, um contraponto que busca na prática superar a velha educação pela educação como invenção de liberdade. Segundo Passetti e Augusto:
Não faz mais sentido falar de escola na atualidade, mas voltar a falar de invenção de liberdade como possibilidade de lidar com o inédito(…) Numa sociedade de controle a céu aberto que não suporta resistências, que pretende incluí-las de vez ou simplesmente eliminá-las pela convocação à participação democrática, os anarquistas em luta ensaiam outras existências. Suas ações diretas saíram da recusa, da substituição, da experimentação do reverso da ordem para outra ordem, da sociedade com Estado para a sociedade sem Estado( 2008, p. 113).
Dessa forma podemos dizer que os libertários de hoje, nos mais diversos espaços autônomos, mantém viva as possibilidades de uma educação libertária, assim como fizeram os pioneiros Iconoclastas no passado. Salientando, sobretudo, o caráter de inventor de liberdades da educação libertária que propõe. Como ação direta que potencializa singularidades livres; cuja vida libertária é o próprio aprendizado pela prática.

Cartaz do Primeiro Ciclo de Cine-Debate Educação e(M) Liberdade, organizado pelo Grupo de Estudos Educação Libertária e Biblioteca José Saúl, realizado no primeiro semestre de 2015.

Cartaz do II Ciclo de Cine-Debate com o tema dos Espaços autogestionários de educação Libertária, realizado no segundo semestre de 20015.

Conclusão

Conforme sustentamos neste trabalho, a Educação Libertária ao longo de sua história e na atualidade se constitui como uma heterotopia de invenção, como bem definiram Passetti e Augusto(2008), ou seja, “é a urgência de seu acontecimento, o que já é impossível aguardar, ruminar, elaborar no pensamento”. Uma invenção que é, também, ensaio e experimentação de vivências e práticas de sociabilidade libertária que, em sí, adquirem um sentido cultural-educacional em novas perspectivas. 

Rompe-se, através da ação direta no campo da aprendizagem livre e autônoma, com a lógica da educação heterônoma, obrigatória, sob controle absoluto do Estado(Escola/Universidades) como única possível.

Compreendemos essa educação heterotópica realizada em diversas Okupas e outros espaços de vivências autogestionárias como a “EduKação Libertária com K”. Na educação com K, saber e conhecimento não são meros meios para chegar ao um fim, como obter um “certificado”, uma “especialização”, cujo objetivo único é obtenção de uma maior valorização na venda da força de trabalho.

É portanto, uma prática que renova e amplia as perspectivas de uma educação libertária para o século XXI, no qual os espaços autônomos e autogestionários convertem-se em ambiente/lugar da heterotopia libertária, no qual a ação direta das práticas culturais-educacionais é a resposta dos libertários, para além das teorias dos pedagogos “críticos” da academia que não ultrapassam os limites impostos pelos muros da institucionalidade.

Por fim, podemos dizer que essa perspectiva da EduKação Libertária com K, se relaciona com a ideia de uma educação como prática libertária na forma e conteúdo. Na media em que a cultura e a educação ganham centralidade na prática da Okupa, também adquirem novo significado. Da mesma forma que a Okupa não se resume ao problema da moradia, a Educação nesses espaços também não tem o sentido adestrador da Educação estatal, mas sim o novo sentido de saberes compartilhados e criados livremente. Espaços de e para artistXs, criadores. Em certo sentido é a reinvenção, em em forma e conteúdos, das práticas dos anarquistas pioneiros como do “Grupo Iconoclasta de pensadores livres” de 1914 que, ha cem anos, estiveram experimentando e ensaiando heterotopias na Pelotas dos oligarcas e escravocratas do século XX.

As invenções, ensaios, potencializações de vida, coexistência de singularidades, experimentações de liberdades, práticas de ajuda mútua e ação direta, são elementos que caracterizaram as práticas dos anarquistas no passado e que são resgatados pelos iconoclastas libertários das diversas Okupações e espaços de vivência autônoma e autogestionárias que nascem a cada dia como resistência e espaços de liberdade. A Casa Okupa 171, é uma delas, que vai se constituindo, que se mantém vivo nas ações libertárias do presente. Ou seja, nas práticas da educação anarquista do século XXI

1 O nome da Biblioteca é uma homenagem à José Saúl, primeiro anarquista que chegou a Pelotas que se tem notícia, segundo informação do historiador Edgar Rodrigues(1984).



Referências Bibliográficas:

LONER, B. Classe Operária: Mobilização e Organização Operária em Pelotas: 1888-1937. PPG/UFRGS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1999. Tese de doutorado.

LUIZZETTTO, F. Utopias anarquistas. São Paulo: Brasiliense, 1987. 

MARÇAL, J. As primeiras lutas operárias do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Globo, 1985

________________Os anarquistas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Unidade Editorial, 1995. 

MARÇAL, J. MARTINS, M. Dicionário ilustrado da esquerda gaúcha. Anarquistas, Comunistas, Socialistas e Trabalhistas. Porto Alegre: Libretos, 2008. 

MIRANDA, C. O Teatro na voz operária: Grupo teatral cultural social e o anarquismo em Pelotas – seus operários e suas palavras. PPGT/UESC, 2014. Dissertação de Mestrado. 

PASSETTI, E. AUGUSTO, A. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 

PETERSEN, R.; LUCAS, M. Antologia do movimento operário gaúcho-1870-1937. Porto Alegre: Editora UFRGS/Tchê, 1992. 

RAYNAUD, J. Paul Robin e o orfanato de Cempuis. In Revista Educação Libertária. Editora Imaginário, SP/Rj , número 2 , março de 2014. 

RODRIGUES, E. Os anarquistas: Trabalhadores italianos no Brasil. São Paulo, Global, 1984.


1 Paulo L. Marques é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas e Coordena o Grupo de Pesquisa “Memória, teorias e práticas de cultura-educação Libertária no Rio Grande do Sul”.
2 Edson Rodrigues é graduando em História da UFPel e integrante do Grupo de Pesquisa “Memória, teorias e práticas de cultura-educação Libertária no Rio Grande do Sul”.
3 Okupa é um termo anarquista, derivado da palavra ocupação sendo que seu equivalente na língua inglesa é squat. O termo faz referência especificamente ao ato de ocupar um espaço ou construção, abandonado ou desabitado, não para transformá-lo em propriedade privada, para ser alugada ou vendida, mas com o objetivo de criar uma esfera de sociabilidade e vivência libertária.
4 Ver RAYNAUD, J. Paul Robin e o orfanato de Cempuis. In Revista Educação Libertária. Editora Imaginário, SP/Rj , número 2 , março de 2014.
5 O prédio da Liga estava bem localizado no centro de Pelotas, na Rua XV de Novembro, no. 757, e tinha amplos salões que possibilitavam a ocorrência de mais de uma reunião em paralelo.
6 Chama a atenção que Marçal identifica o ativista Lemos de Almeida como principal figura do grupo mas não há nenhuma informação sobre este militante, nem mesmo nos dois livros do autor que apresena mais de trinta biografias de militantes anarquistas.
7 Conforme Miranda(2014) para sua pesquisa a foi consultado a coleção composta por onze (11) exemplares encontrados em dois (2) arquivos. Arquivo da Memória Operária do Rio de Janeiro-UFRJ: 12 fev. 1916, ano I, n. 1; 19 fev. 1916, ano I, n. 2; 26 fev. 1916, ano I, n. 3; 04 mar. 1916, ano I, n. 4; 11 mar. 1916, ano I, n. 5; 18 mar. 1916,ano I, n.6; 25 mar. 1916, ano I, n. 7. Arquivo Edgard Leuenroth/UNICAMP: 14 maio 1916, ano I, n.11; 31 maio 1916, ano I, n. 12; 15 jul. 1916, ano I, n. 15; 31 jul. 1916, ano I, n. 16.
8 O nome da Biblioteca é uma homenagem à José Saúl, primeiro anarquista que chegou a Pelotas que se tem notícia, segundo informação do historiador Edgar Rodrigues(1984).







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