segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Desescolarização em Debate : Entrevista com Guilherme Schröder




Na tarde de sexta-feira, dia 13/11, o Grupo de Pesquisa Educação Libertária da UFPel e a turma da Disciplina Optativa de Educação Libertária da Faculdade de Educação,  realizou um debate sobre Desescolarização na OCA -Ocupação Coletiva de ArteirXs. A atividade que teve um belo público de cerca de 40 pessoas, contou com a presença de Guilherme Schröder, o "Gui", que está  realizando pesquisa de mestrado na FACED da UFRGS sobre desescolarização. Após a atividade realizamos uma breve entrevista com ele para o blog. As fotos são de Iago Nizolli. 





1) Na sua opinião o que significa a Desescolarização para a educação ?

A desescolarização não é uma coisa só, portanto deveria ser tratada como “as desescolarizações”. A desescolarização não é a negação da escola e também não se trata de uma oposição à escolarização. Desescolarização talvez seja a abertura a uma multiplicidade de possibilidades de criação de processos educativos. É uma máquina de produzir modos de existência, maneiras de aprender mundo, de criar mundo. A desescolarização abre uma oportunidade de operar dentro de uma lógica não definidora, de uma lógica não restringente, sem definição ou restrição. A desescolarização opera por relações sem fundamento, sem cabimento, num campo aberto, deslizando.
Na desescolarização não se carregam pilhas de conhecimentos precedentes a serem ensinados, não se visa a transmissão de doutrinas certas, portanto não visa chegar à certezas. A desescolarização é justamente o investimento na dúvida, no mistério como operação possível para a criação de possibilidades de encontros. A desescolarização desvia do medo que constitui as paredes, as grades, os uniformes; desvia da desconfiança que gera currículos largos, planejamentos extensos. Não acredita na estratégia de usar certificados e diplomas para discriminação.
A desescolarização investe nestes desvios justo por achar que os sentimentos que desejam segurança, controle e garantias movimentam as estratégias burocratizadas de ensinagem. A desescolarização tensiona as resistências de repetição demasiada nas formas educativas, as repetições já estão desgastadas, já é possível experimentar criações e largar os arreios do amedrontamento, das dúvidas sobre os resultados possíveis. Já não é mais hora de focar em garantias miseráveis só porque são resultados controlados, não dá mais para aceitar migalhas apenas para cumprir expectativas.




2) A desescolarização seria uma alternativa ao modelo de educação obrigatória, escolarizado sob controle estatal, que predomina no ocidente desde o século XIX?

A desescolarização investe em alguma ousadia um pouco maior. Mas nem por isso a desescolarização se enxerga como a saída, como qualquer salvação, como um mundo melhor. A desescolarização por ser composta de incertezas vai se fazendo singular e múltipla, cada encontro é um encontro peculiar e irrepetível. Encontros de potência desescolarizados não propõem nada de antemão, são apenas uma forma aberta de criar planos de imanência para malabarismos breves com o caos, malabarismos conjuntos às vezes. Malabarismos desinteressados, sem expectativas, operações de trazer novos elementos vivos para outras leituras da realidade. A desescolarização não é uma alternativa à escola porque não visa a proposta de repetir um jeito, não tem vistas de expor suas boas práticas e ensinar seus métodos, mas busca experimentar dinâmicas de encontros, onde aconteçam de fato encontros. Onde os encontrantes consigam se olhar sem desejos de manipular um ao outro, onde desejam simplesmente encontrar o outro, o qualquer, o diferente em sua frente.



3) A grande preocupação das pessoas que têm pouca informação sobre desescolarização, diz respeito à educação das crianças, o que você tem a dizer sobre essa preocupação?

Os processos de desescolarização não estão debruçados ou interessados em como desescolarizar crianças, claro que acaba indo para o contato com as crianças, mas não tem isto por foco, o foco é a desescolarização de si, tirar as durezas do corpo, amolecer mesmo, desintoxicar bolores. Desvia e recusa a prepotência dos que sabem conduzir, ensinar, professar. Duvida dos que se dizem capazes e se consideram superiores, duvida dos que são capazes de saber o que é bom para os outros sem sequer perguntar. Pensar que a educação é para os outros e não para si já se configura uma demasiada prepotência para a desescolarização. Responsabilidade consigo mesmo portanto, quando o compromisso é consigo mesmo é que posso tentar cuidar do outro. Ao estar leve, quando as questões internas estão bem resolvidas, é que pode ocorrer a ousadia de não enfiar algum modo no outro, para poder desta forma, de fato me encontrar com este outro.
A desescolarização foca no presente, no decorrer do tempo, observa os acontecimentos, se arrepia com os afetos e muda de direção. Pode desejar permanecer, durar, num futuro sim, fazer alguma ordem, conservar alguma coisa, estabelecer algum projeto mais longo, mas se faz no agora e vai fazendo, se carrega de passado mas usando para se enfeitar enquanto for pertinente. A desescolarização mobiliza uma força que abstrai os preconceitos e resistências, é difícil inegavelmente complicada de ser traçada.



4) Na sua opinião o que deu errado no paradigma “Escola” como espaço e monopólio da educação?

A escola é um caminho asfaltado, pavimentado, bem iluminado, mas que leva a um lugar que não se quer ir, a highway da escola garante que chegarei no destino, mas o destino é insatisfatório. A desescolarização pode ser mais complicada pois cria suas trilhas, traça caminhos, explora pastos altos, margens pedregosas de rios caudalosos, sobe montanhas e não sabe onde vai chegar. Tem a convicção de que deve ser assim, mas sequer sabe o que está buscando, nem se está de alguma forma buscando algo, mas existe uma certeza e confiança que vai chegar, e chega sempre, não só num objetivo, mas em qualquer coisa, em cada coisa do caminho já chegou, está.

5) Um dos argumentos dos defensores da escolarização obrigatória é a necessidade de socialização das crianças. Como fica essa questão na proposta da desescolarização? 

A desescolarização não quer o abandono da escola, muito menos a destruição da escola, não é contra; apenas apresenta vetores centrífugos. A desescolarização não se trata de levar a escola para dentro de casa, muito menos junto com a igreja, não se trata de ficar dentro de casa. Desvia-se de bolhas, de muros, paredes, sejam elas de tijolos ou doutrinas religiosas. A desescolarização visa socializar, desvia das negações da socialização, desvia das tentativas de manutenção do silêncio, da ordem. Evita reduzir a socialização às mesmas idades . Onde, além da escola, existe esta separação por idades em qualquer outro lugar social? Então que socialização é esta? Existe socialização quando se massifica e uniformiza os corpos e mentes? Existe socialização quando eu não posso tirar uma dúvida com o colega, quando se é avaliado num sistema individual de tortura, quando se impõe a obediência e docilização da vida? A desescolarização investe na socialização por respeitar cada um, cada singularidade se manifestando em multiplicidade. Por estas coisas é que não é dentro de casa, não se fecha na família, nem na escola, nem na igreja. Este movimento educativo busca comunidades de confiança, redes de apoio mútuo, outras formas de cuidado consigo e com o outro que não relegem o cuidado, evita-se terceirizar as relações.



6) Poderíamos dizer que a desescolarização é uma das possibilidades de um novo paradigma para a educação? Uma Educação Libertária para o século XXI?

A desescolarização não se deixa cercar, não quer cercas. É a possibilidade de variar fora, diferenciar, a educação e a si mesma. Não acredita no melhor jeito, então não admite ficar estagnada em um jeito qualquer. A desescolarização exige pouco, exige não exigir, exige não condicionar. Condições abafam a vida, o amor, as relações. Desescolarização é o desejo de sair de um paradigma, mas não falta nada, nem se quer chegar a outro, sair pela simples possibilidade de sair, se move pela vontade de criar. A desescolarização não quer servir pra nada, não é servil, nem quer colocar ninguém na servidão. É inútil, não quer formar utensílios humanos, nem despeja utilidades adaptativas para um mundo de capturas. A desescolarização quer a potência exposta, ativa, vibrante. Potência é fluxo de vida movente. Não se desescolariza para ganhar melhores salários, nem para educar empresários. A desescolarização não acha que mais seja melhor, não quer conquistar, seduzir. Desescolarização não é só libertária, vai além, produz possibilidades de ser livre, inventa, mas passa ao largo de ser liberal, está conectada com a vida não com a economia. A desescolarização confia sem garantias. Dança, balança, requebra, quebra. Tem predileção por ruínas, cascalho, nos escombros o horizonte se mostra.



7) Para concluir, se fosse possível resumir, em poucas palavras, o que significa a desescolarização, você diria que:


 A desescolarização acontece por um esgotamento, um cansaço. Tantas tentativas de mudanças e as mesmas resistências, as mesmas insistências. É tão complicado criar relações diferentes na escola, então se faz fora. A desescolarização não quer mudar ou transformar, quer fazer agora, em cada encontro. Se a educação está em todo lugar, porque se fechar? Abre, arregaça, transborda, extravasa. É desejo produtivo, sorriso, é fazer o que o corpo pode, pintar fora do quadrado. Desescolarizar se faz na ética dos encontros, na estética da existência e na poética da vida. Vamos nos encontrar?

Mais imagens desse primeiro encontro: 








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