segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Carta aos estudantes que estão ocupando as escolas de São Paulo, por Guilherme "Gui Sch"



Não era por 20 centavos e não é por 94 escolas.

E antes de tudo, não deixem fazer deste potente movimento pedagógico uma guerra.


O que vocês estão fazendo é infinitamente maior do que simplesmente tensionar uma tentativa de reorganização escolar estadual. O que vocês estão fazendo é muito maior do que simplesmente lutar contra o fechamento de 94 escolas. Vocês estão ousando revolucionar as formas com que se entende a educação. A organização pedagógica que vocês estão experimentando é incrivelmente potente e questiona profundamente os modos com que a educação escolarizada vem sendo aplicada.
Claro que suas ocupações tem pautas específicas, mas deixe vasculhar um pouco além dos objetivos, olhando para o dia a dia, olhando para o imediato da prática que vocês estão vivenciando.
Os muros são os mesmos, são as mesmas grades, as mesmas salas, os mesmos prédios e as mesmas pessoas, mas alguma coisa mudou com a organização para a ocupação. O que foi?
Quais os sentimentos da organização escolar burocrática anterior não existem mais? Quais os novos sentimentos que vieram à tona?
No funcionamento normal da escola existe uma certa desconfiança, os estudantes são tidos como incapazes, como inferiores não dotados de discernimento para decidir e executar o caminho da educação. Tanto é que sempre são outros que pensam o que é bom para ser ensinado em currículos nacionais, e sempre outros elaborar planejamentos pedagógicos e de aulas, os estudantes nunca são chamados para participar destas decisões, e isto mostra apenas a falta de confiança ou a descrença nas capacidades dos jovens e das crianças. Como poderíamos imaginar que vocês seriam chamados para dialogar sobre a reorganização. Estudantes não são ouvidos nem sobre o que desejam estudar, quanto menos seriam chamados para ser escutados sobre mudanças deste gênero.
O que vocês estão fazendo nestas ocupações é mostrarem suas imensas capacidades de auto organização, suas capacidades de decisão coletiva e autônoma, estão mostrando a maturidade que germina quando é permitido brotar criatividade. Estão mostrando a capacidade d e executar tarefas que lhes eram negadas por receio de suas incapacidades. Estão cozinhando sua própria comida, limpando o chao, capinando o pátio e mais estão organizando por si o currículo vivo proveniente de suas vontades, vocês são os planejadores, gestores, diretores e professores organizados coletivamente. E se mostram plenamente capazes.
Em alguns relatos percebi que a vontade e de ir para a escola, agora ocupada, era maior que anteriormente. Será que antes também não existia a vontade de fazer as atividades que agora estão fazendo? E será que não faziam estas atividades por que a burocracia disciplinar das aulas e mais aulas não os dava oportunidade de criar? Aulas e mais aulas pensadas e impostas por outras pessoas que faziam com que vocês não pudessem decidir o que gostariam de fazer por suas próprias vontades.
Na escola burocrática hierárquica não é possível ser responsável. Responsabilidade é apenas um conteúdo esperado, mas sem espaço para acontecer na realidade, pois posso sujar o banheiro, jogar lixo no chão e quando chegar meio dia a comida está pronta. E o pior, não há interesse por organizar os próprios estudos pois tem alguém que pensa isso pra mim, retirando a possibilidade de ser responsável por isso.
Quanto envolvimento é privado pela estrutura de funcionamento escolarizada da educação? E quanto envolvimento se faz possível e está acontecendo agora nas ocupações?
Capacidades, curiosidades, responsabilidade e envolvimento são alguns dos aprendizados que talvez estejam sendo percebidos neste movimento, e isto vai muito além da simples luta contra a reorganização, isso mostra que a educação pode ser muito mais divertida e satisfatória quando é cocriada. As escolas ocupadas estão vivas, cheias de vontades vibrantes, antes poderiam parecer mais mortas em seu funcionamento padrão.
E agora estão querendo fazer uma guerra contra esta mobilização autônoma, responsável e alegre. Não se deixem abafar, não se deixem ser miserabilizados novamente, não se deixem ser tratados como subalternos, inferiores ou incapazes.
Este movimento de ocupação conseguiu mobilizar uma valiosa meta da educação, a participação dos pais e da comunidade nas escolas, conseguiu rapidamente mobilizar agricultores e advogados para apoiar ativamente a causa. Estão conseguindo realizar e aplicar os sonhos mais lindos contidos nos planejamentos pedagógicos de autonomia, protagonismo, liberdade, alegria, responsabilidade, todas estas palavras que ficavam mortas num papel sem valor agora são vivas em suas atividades. Isto demonstra uma imensa conquista em termos de aplicação pedagógica.
A produção de conteúdos feita nestas 3 semanas de ocupações, em formato de vídeos, reportagens e atividades diversas tem sido infinitamente maior que nos tempos escolares normais. isto mostra como os conteúdos escolares são tijolos e as aulas são muros que acabam represando as potências dos estudantes.
Com todas estas mobilizações vocês estão mostrando que precisam ser escutados e que são legítimos agentes políticos construtores ativos da educação. Caso existam agentes partidários instrumentalizando seus movimento, resistam e recusem se mantendo autônomos.
Não deixem que as políticas públicas nem os currículos sejam despejados em vocês de cima para baixo. Não deixem este Alegre movimento se transformar mesmo em uma guerra. os gestores e governantes estão decepcionados porque gostariam que vocês permanecessem por toda vida dóceis e domesticados, mantidos sob o controle e a ordem deles, agora tipos construtores da educação estao sendo vistos como inimigos. Quem deseja guerra é rancoroso, ressentido, são pessoas tristes que sentem perdendo poder de manipulação. Sigam firmes e sigam mobilizados em qualquer cenário que se desenrolar, sigam mobilizando a comunidade para participar ativamente da educação, sigam se perguntando porque a escola se organiza em cima da pressuposição de que vocês são incapazes. E acima de tudo, sigam dançando e cantando a alegria de vida em luta sem se deixar impregnar pela idéia da guerra

Um comentário:

  1. Excelente texto, recomendo este, abaixo, com temática semelhante:
    http://manifestoaeconomiadovicio.blogspot.com/2015/11/a-educacao-ideal-aos-olhos-das.html

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