sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Max Stirner ,precursor de Nietzsche


Reedição de 2013 da Martins Fontes,  da clássica obra de Max Stirner, "O Único e sua propriedade" é uma bela oportunidade de conhecer  o pensamento daquele que foi o precursor de Nietzsche. Escrito no ano de nascimento de Nietzsche, o "Unico" anuncia a "morte de Deus", a necessidade de superar as "identidades", os conceitos universais abstratos de "homem" , "humanidade" e toda metafísica idealista. Stirner, o anarquista-individualista por excelência,  antecipa, no século XIX,  questões e problemas levantados somente no século XXI. Leitura obrigatoria.
Abaixo publicamos resenha de J. Bragança sobre essa Obra singular, como seu autor.
J. Bragança de Miranda (*)
A publicação de O Único e a sua Propriedade em 1844 caiu como um relâmpago no meio da agitação de Berlim. O seu autor, Max Stirner, faz aí o anúncio de que Deus morrera, segredo que se procurava manter oculto a toda a custa e que Nietzsche repetiu estentoricamente, com bem mais sucesso. Mais grave ainda, como Sade antes dele avisa que, desaparecido o Senhor dos senhores, já não reconhece mais nenhum. A euforia que se seguira à revolução estava a ser dissipada pela seriedade do Estado, do povo ou da humanidade. Radicalizando o contrato moderno Stirner não reconhece outra soberania que não a do único, que se nega a cedê-la ou transferi-la para o Estado. Não é loucura pôr-se em pé de igualdade com o Estado ou a Humanidade, confrontá-los numa guerra de corpo a corpo? A afirmação de Joseph Beuys de que cada um é soberano ainda pode passar, porque se mantém dentro da arte, mas aquilo que Stirner tem para dizer, por afectar a vida, já não cabe em nenhum domínio. Mas se pode dizer algo sobre a vida, é porque se trata da sua vida… da vida de cada um de nós.
Durante muito tempo Stirner só foi lido clandestinamente. Uma espécie de maldição assinalou este livro. A censura da época bem hesitou, sem saber que fazer dele. Para o primeiro censor, que proibiu a sua publicação, era uma obra de barbárie, que atacava todos os valores, e se arrogava direitos absolutos sobre a propriedade e a vida. Criminoso, portanto. Para o Ministro que autorizou a publicação era um livro «demasiado absurdo para ser perigoso». Louco, portanto. Acima de tudo é um livro que sempre resistiu à leitura, que parecia exceder a todas. Quando a revolução se tornou questão de futuro opõe-lhe a revolta permanente para impedir que a que já tinha ocorrido se estabiliza e estiole. Quando o Estado liberal se procurava implantar timidamente, faz uma crítica demolidora do direito. Quando o comunismo de Marx começa a demolir o liberalismo, sustenta que a comunidade perfeita e o «Homem» são a forma culminante da servidão. Para Stirner são tudo formas de dominação. Stirner descobre que a dialéctica hegeliana do senhor e do servo mais do que chegar ao fim, tornando todos senhores, desembocou antes numa dominação psicotrópica, em que são os próprios indivíduos que ficam obcecados, fascinados, entusiasmados, com os espectros que os possuem. Muito antes da análise das perversões por Freud, da crítica do espectáculo ou da economia do entretenimento já Stirner estava a construir as primeiras armas para o combate.
Stirner rapidamente deixa de escrever, a sua vida é uma série de fracassos. Não são fracassos «belos» à Kafka, mas fracassos sem mais. Stirner morre na miséria, depois de ter sido preso por dívidas, mas o livro fez um caminho subterrâneo até nós, usando os sucesso de outros para se difundir. Passa através de Marx e Engels que dedicam mais de 300 páginas para o demolirem, e que ocultam o texto. O Ideologia Alemão é publicado apenas nos anos 30 do século passado, e incompleta. Mas a ideia de mais valia, a noção de «fixação» rebaptizada em fetichismo, as «argúcias teológicas» da mercadoria, são metamorfoses de temas stirnerianos, que permanecem puro e duros no interior daquilo mesmo que os nega. Passa através de Dostoyevsky que em Crime e Castigo o dá a ver e o anula no próprio corpo de Raskolnikov. O crime é Stirneriano e o Castigo é a possibilidade da sua superação. Dostoyevsky leu mal Stirner, e por isso mesmo o crime impressionou mais do que o castigo. Passa também através de Nietzsche que nunca o cita, embora se saiba que receou que um dia pudesse ser considerado um plagiador de Stirner. Nada isso, mas nos temas da morte de Deus, do super-homem, mesmo o eterno retorno ou no «grande criminoso» são, no mínimo, antecipados por Stirner.
A natureza provocatória da escrita stirneriana, o riso sardónico que irrompe imparavelmente ao lê-lo, a defesa do crime como última ratio da soberania, o ideia de que a singularidade só pode ser entendida como monstruosidade, facilitaram todas as leituras condenatórias, propiciaram todas as vitórias fáceis que venciam à custa de reduzir o livro à patologia criminal ou à loucura de Stirner. Os inimigos, mas também os amantes de Stirner reduziram-no a fórmulas, mas o Único é a anti-fórmula por excelência. É algo que fica para além de todo o discurso, de toda a instituição, como um Minotauro que tivesse saído do labirinto, com os altos muros cercados por humanos, que espreitam para dentro, desenrolam o fio de Ariana, lhe oferecem sacrifício. Olhando do de longe, às vezes misturando-se na multidão, o Único ri-se, pois abandonou esta antiga estrutura sacrificial. O livro é a linha que circunscreve todo o espectáculo e a agitação, e cria ou lugar de onde é possível olhar para tudo isso. E sair em busca de alegria e de prazer. Como os espectadores estão a jeito…
Stirner vai retornando. Lá se lhe vai encontrando alguma utilidade. É certo que a sua crítica ao liberalismo, que se repete pela enésima vez, ainda é potente; A sua crítica ao comunismo é mais pertinente do que nunca, e Blanchot, Negri, Nancy parecem trilhar os seus traços. Mesmo a filosofia de onde tinha sido excluído começa a citá-lo timidamente, como sucede com Gilles Deleuze, Michel Foucault ou Pierre Klossowski. Derrida dedica-lhe excelentes análises no seu Spectres de Marx. Homens tão especiais como Pierre Vanderpote ou Roberto Calasso, o lídimo pensador europeu, dedicam-lhe reflexões fulgurantes. Mas foi nas artes que a sua presença se tornou incontornável. Lido por Joyce, Pound, Lewis, Miller, etc. a sensibilidade stirneriana marcou fortemente as revoluções feitas por Francis Picabia e Marcel Duchamp que é o seu herdeiro metafísico. Desde que o Único veio à luz que se pretende fugir do «buraco negro» que tem dentro, a hiperdensidade da vida tudo atrai, para acabar por se cair nele inapelavelmente. Toda a aproximação serve a Stirner. No livro que é a cinza da vida que se consumiu nele linha a linha, letra a letra, ainda braseia a paixão do fracassado Stirner, que muito baixinho diz para não ser ouvido: «Canto porque… sou um cantor. Mas uso-vos para isso, porque… preciso de ouvidos».
(*)  José Augusto Bragança de Miranda (n. Lisboa, 27 de Janeiro de 1953) é um investigador, ensaísta e, professor universitário português. É licenciado em Sociologia pelo ISCTE, desde 1982 e, obteve o doutoramento em Comunicação Social, pela Universidade Nova de Lisboa, em 2001. É professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas daUniversidade Nova de Lisboa, onde iniciou funções em 1995. Tem obra publicada nas áreas de comunicação e cultura, cibercultura e estudo dos media.

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