sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Max Stirner ,precursor de Nietzsche


Reedição de 2013 da Martins Fontes,  da clássica obra de Max Stirner, "O Único e sua propriedade" é uma bela oportunidade de conhecer  o pensamento daquele que foi o precursor de Nietzsche. Escrito no ano de nascimento de Nietzsche, o "Unico" anuncia a "morte de Deus", a necessidade de superar as "identidades", os conceitos universais abstratos de "homem" , "humanidade" e toda metafísica idealista. Stirner, o anarquista-individualista por excelência,  antecipa, no século XIX,  questões e problemas levantados somente no século XXI. Leitura obrigatoria.
Abaixo publicamos resenha de J. Bragança sobre essa Obra singular, como seu autor.
J. Bragança de Miranda (*)
A publicação de O Único e a sua Propriedade em 1844 caiu como um relâmpago no meio da agitação de Berlim. O seu autor, Max Stirner, faz aí o anúncio de que Deus morrera, segredo que se procurava manter oculto a toda a custa e que Nietzsche repetiu estentoricamente, com bem mais sucesso. Mais grave ainda, como Sade antes dele avisa que, desaparecido o Senhor dos senhores, já não reconhece mais nenhum. A euforia que se seguira à revolução estava a ser dissipada pela seriedade do Estado, do povo ou da humanidade. Radicalizando o contrato moderno Stirner não reconhece outra soberania que não a do único, que se nega a cedê-la ou transferi-la para o Estado. Não é loucura pôr-se em pé de igualdade com o Estado ou a Humanidade, confrontá-los numa guerra de corpo a corpo? A afirmação de Joseph Beuys de que cada um é soberano ainda pode passar, porque se mantém dentro da arte, mas aquilo que Stirner tem para dizer, por afectar a vida, já não cabe em nenhum domínio. Mas se pode dizer algo sobre a vida, é porque se trata da sua vida… da vida de cada um de nós.
Durante muito tempo Stirner só foi lido clandestinamente. Uma espécie de maldição assinalou este livro. A censura da época bem hesitou, sem saber que fazer dele. Para o primeiro censor, que proibiu a sua publicação, era uma obra de barbárie, que atacava todos os valores, e se arrogava direitos absolutos sobre a propriedade e a vida. Criminoso, portanto. Para o Ministro que autorizou a publicação era um livro «demasiado absurdo para ser perigoso». Louco, portanto. Acima de tudo é um livro que sempre resistiu à leitura, que parecia exceder a todas. Quando a revolução se tornou questão de futuro opõe-lhe a revolta permanente para impedir que a que já tinha ocorrido se estabiliza e estiole. Quando o Estado liberal se procurava implantar timidamente, faz uma crítica demolidora do direito. Quando o comunismo de Marx começa a demolir o liberalismo, sustenta que a comunidade perfeita e o «Homem» são a forma culminante da servidão. Para Stirner são tudo formas de dominação. Stirner descobre que a dialéctica hegeliana do senhor e do servo mais do que chegar ao fim, tornando todos senhores, desembocou antes numa dominação psicotrópica, em que são os próprios indivíduos que ficam obcecados, fascinados, entusiasmados, com os espectros que os possuem. Muito antes da análise das perversões por Freud, da crítica do espectáculo ou da economia do entretenimento já Stirner estava a construir as primeiras armas para o combate.
Stirner rapidamente deixa de escrever, a sua vida é uma série de fracassos. Não são fracassos «belos» à Kafka, mas fracassos sem mais. Stirner morre na miséria, depois de ter sido preso por dívidas, mas o livro fez um caminho subterrâneo até nós, usando os sucesso de outros para se difundir. Passa através de Marx e Engels que dedicam mais de 300 páginas para o demolirem, e que ocultam o texto. O Ideologia Alemão é publicado apenas nos anos 30 do século passado, e incompleta. Mas a ideia de mais valia, a noção de «fixação» rebaptizada em fetichismo, as «argúcias teológicas» da mercadoria, são metamorfoses de temas stirnerianos, que permanecem puro e duros no interior daquilo mesmo que os nega. Passa através de Dostoyevsky que em Crime e Castigo o dá a ver e o anula no próprio corpo de Raskolnikov. O crime é Stirneriano e o Castigo é a possibilidade da sua superação. Dostoyevsky leu mal Stirner, e por isso mesmo o crime impressionou mais do que o castigo. Passa também através de Nietzsche que nunca o cita, embora se saiba que receou que um dia pudesse ser considerado um plagiador de Stirner. Nada isso, mas nos temas da morte de Deus, do super-homem, mesmo o eterno retorno ou no «grande criminoso» são, no mínimo, antecipados por Stirner.
A natureza provocatória da escrita stirneriana, o riso sardónico que irrompe imparavelmente ao lê-lo, a defesa do crime como última ratio da soberania, o ideia de que a singularidade só pode ser entendida como monstruosidade, facilitaram todas as leituras condenatórias, propiciaram todas as vitórias fáceis que venciam à custa de reduzir o livro à patologia criminal ou à loucura de Stirner. Os inimigos, mas também os amantes de Stirner reduziram-no a fórmulas, mas o Único é a anti-fórmula por excelência. É algo que fica para além de todo o discurso, de toda a instituição, como um Minotauro que tivesse saído do labirinto, com os altos muros cercados por humanos, que espreitam para dentro, desenrolam o fio de Ariana, lhe oferecem sacrifício. Olhando do de longe, às vezes misturando-se na multidão, o Único ri-se, pois abandonou esta antiga estrutura sacrificial. O livro é a linha que circunscreve todo o espectáculo e a agitação, e cria ou lugar de onde é possível olhar para tudo isso. E sair em busca de alegria e de prazer. Como os espectadores estão a jeito…
Stirner vai retornando. Lá se lhe vai encontrando alguma utilidade. É certo que a sua crítica ao liberalismo, que se repete pela enésima vez, ainda é potente; A sua crítica ao comunismo é mais pertinente do que nunca, e Blanchot, Negri, Nancy parecem trilhar os seus traços. Mesmo a filosofia de onde tinha sido excluído começa a citá-lo timidamente, como sucede com Gilles Deleuze, Michel Foucault ou Pierre Klossowski. Derrida dedica-lhe excelentes análises no seu Spectres de Marx. Homens tão especiais como Pierre Vanderpote ou Roberto Calasso, o lídimo pensador europeu, dedicam-lhe reflexões fulgurantes. Mas foi nas artes que a sua presença se tornou incontornável. Lido por Joyce, Pound, Lewis, Miller, etc. a sensibilidade stirneriana marcou fortemente as revoluções feitas por Francis Picabia e Marcel Duchamp que é o seu herdeiro metafísico. Desde que o Único veio à luz que se pretende fugir do «buraco negro» que tem dentro, a hiperdensidade da vida tudo atrai, para acabar por se cair nele inapelavelmente. Toda a aproximação serve a Stirner. No livro que é a cinza da vida que se consumiu nele linha a linha, letra a letra, ainda braseia a paixão do fracassado Stirner, que muito baixinho diz para não ser ouvido: «Canto porque… sou um cantor. Mas uso-vos para isso, porque… preciso de ouvidos».
(*)  José Augusto Bragança de Miranda (n. Lisboa, 27 de Janeiro de 1953) é um investigador, ensaísta e, professor universitário português. É licenciado em Sociologia pelo ISCTE, desde 1982 e, obteve o doutoramento em Comunicação Social, pela Universidade Nova de Lisboa, em 2001. É professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas daUniversidade Nova de Lisboa, onde iniciou funções em 1995. Tem obra publicada nas áreas de comunicação e cultura, cibercultura e estudo dos media.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

SEMINÁRIO Educação para Espíritos-Livres: transversalidade com filosofia e arte




O filósofo Karl Jasper disse que depois de Nietzsche a filosofia se caracterizaria por um profundo desengano em relação à racionalidade, pela dissolução de todos os elos e pela queda de todas as autoridades. Para o marxista Lukács, o filósofo de Hocken foi o "destruidor da razão". Já Max Weber disse: "O mundo onde nós existimos em termos de pensamento é um mundo cunhado pelas figuras de Marx e Nietzsche". Foucault o via como a opção não dialética da filosofia.

O fato é que Nietzsche permance um incômodo para 'cabeças feitas", para "militantes de causas" para queles que "têm certezas". O "filósofo do martelo", Iconoclasta extemporâneo, Nietzsche talvez seja a expressão mais profunda de uma interpretação libertária da vida e do ser humano, como devires, como experimentação e criação livre.  Nietzsche, o libertário que batia forte nas idealidades, nos "ismos", nas "crenças" nas "estruturas religiosas do pensamento" que foi do cristianismo(platonismo para o povo) até as ideologias modernas como o liberalismo, socialismo, comunismo, anarquismo. O martelo de Nietzsche não poupou ninguém...servia para destruir e criar...  Destruir as velhas "tábuas de valores' e criar novas,  principalmente como obra de arte.

Nietzsche o mais anárquico dos não-anarquistas, o mais libertário dos não-libertários. O que o "filósofo da suspeita" pode contribuir com nossas reflexões e práticas da educação atual? Qual sua contribuição para pensar as possibilidades de uma Educação Libertária para o século XXI?

 Muitos escritos e seminários já foram realizados sobre essa temática do "Nietzsche como educador";  "Nietzsche e a educação". Desta vez propomos uma reflexão que inclua a relação da educação com o que Nietzsche chamou de "espíritos-livres", que seria, uma de suas  apostas, a  sua hipótese possível para um "além do homem" e que necessitaria de uma educação voltada para a "tarefa" da transvaloração de todos os valores.

Essa é a ideia do Seminário  "Educação para os espíritos livres : Transversalidade com filosofia e arte. Isto porque, para o filósofo,  Espíritos-livres não existem, mas sua possibilidade, se algum dia existir, será na figura de um artista, será um artista por excelência. 

Artistagem será, portanto,  a metodologia;  interpretação e criação serão as formas propostas para esse encontro. 

Venha se divertir, fazer a "ciência alegre" que Nietzsche propôs para educar  os possíveis Espíritos-Livres...



ATENÇÃO: Matrículas dias 23 e 24 de outubro no PPGE - FAE - UFPel

PROGRAMAÇÃO: 


Programação Seminário “Educação para Espíritos Livres”
Professores: Dra. Carla Gonçalves Rodrigues; Dr. Édio Raniere; Dr. Paulo Marques.

(19/10) Segunda-feira

9h- Manhã
Apresentações:
  1. Professores
  2. Estudantes
  3. Seminário
  4. Plano de Trabalho e Cronograma.

13h30min Tarde ( Artistagem: Prof. Édio Raniere)


Conhecimento em Nietzsche: vontade de verdade, arte e razão


Textos de Apoio: 

1. NIETZSCHE, F. Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral. Obras incompletas. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

2. MACHADO, R. Nietzsche e a Verdade. São Paulo. Paz e Terra, 1999.


(20/10) Terça-feira : ( artistagem: Prof. Paulo Marques)


Manhã
A crítica da educação alemã como parte da crítica à cultura moderna: Stirner e Nietzsche
O Estado como fim, a cultura e a educação como meios

Textos de apoio:

3. GALLO, S. Crítica da cultura, educação e superação de si: entre Nietzsche e Stirner. FEITOSA, C. Et all.(Orgs.) Nietzsche e os gregos, arte memória e educação. Assim falou Nietzsche V. Rio de Janeiro, DP&A, 2006. p. 329-344.

4. NIETZSCHE, F. Sobre o futuro dos nossos estabelecimentos de ensino. SOBRINHO, N. (Org.) Escritos Sobre Educação. Friedrich Nietzsche, São Paulo, Loyola, 2012. p. 49-160

5. STIRNER, M. O falso princípio da nossa educação. São Paulo, Imaginário, 2001. p. 61-87.

 Tarde

A crítica extemporânea à educação e a cultura moderna
O filósofo contra o Estado

Textos de apoio:

6. NIETZSCHE, F. III Consideração Intempestiva: Schopenhauer educador. SOBRINHO, N. (Org.) Escritos Sobre Educação. Friedrich Nietzsche. São Paulo: Loyola, 2012. p. 161-259

(21/10)Quarta ( Artistagem: Prof. Paulo Marques) 

 Manhã
Nietzsche o Educador Nômade
Os Espíritos Livres e o movimento de reforma da vida
Escola dos Educadores: O mosteiro dos Espíritos Livres

Textos de apoio:

7. BRUM, José Thomaz. O demasiado humano conhecimento. In Revista Educação- Especial Biblioteca do Professor, p. 36- 45

8. NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. Cap. V: Sinais de cultura superior e inferior. SP: Companhia das Letras, 2005. p142-180.

Tarde
A Educação (Im) possível de Nietzsche
Experimentação e autoexperimentação
A aposta de Nietzsche: Zaratustra Educador

Textos de apoio:

9. ROCHA, Silvia Pimenta Tornar-se quem se é: a educação como formação, educação como transformação. FEITOSA, C. Et all.(Orgs.) Nietzsche e os gregos, arte memória e educação. Assim falou Niettzsche V. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. p. 267-288.

10. NIETZSCHE, F. Das tábuas velhas e novas In Assim falou zaratustra. 189-208. Porto Alegre: LP&M, 2014. p. 189-208.

(22/10) Quinta ( Artistagem Prof. Carla Rodrigues) 
 Manhã

Artistagem radiofônica 

11. Abecedário de Gilles Deeluze: M - doença

Tarde


Educação aqui e agora
Didática da tradução, transcriações do currículo
O agenciamento e as caóides de Gilles Deleuze

Textos de apoio:

12.Corazza, S. M.; Heuser, E. M. D.; Monteiro, S. B., Rodrigues, C. G. Escrileituras da diferença: didática da tradução, transcriações do currículo. Anais XI Colóquio Luso-brasileiro sobre Questões Curriculares. Braga, 2014.

13.DELEUZE, Gilles. Foucault. (p. 34-53) Tradução de José Carlos Rodrigues. Lisboa: Vega, 1998.

14. DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix.. O que é a filosofia?. (p. 211-257). Tradução de Bento Prado Jr.; Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. (TRANS.)


(23/10) Sexta ( Artistagem: Prof. Édio Raniere) 

Manhã
Artistagem cênica

Nietzsche Theatrum: do conceito a cena


Obs: vir com roupa confortável para realização de exercícios físicos e trazer uma garrafinha de água.

 Tarde
Artistagem cênica

Nietzsche Theatrum: do conceito a cena


Obs: vir com roupa confortável para realização de exercícios físicos e trazer uma garrafinha de água.




Não existem "espíritos-livres", nunca existiram - mas, como disse, eu precisava de sua companhia na época, para me animar em meio às coisas ruins(doenças, isolamento, sentir-se estrangeiro, preguiça, inatividade); como bravos sujeitos e fantasmas com os quais conversar e rir, e que mandamos para o inferno quando se tornam chatos - como reparação pela falta de amigos. Que possa um dia haver esses espíritos livres, que nossa Europa venha a ter esses camaradas ousados e cheios de vida entre seus filhos de amanhã e depois de amanhã, reais e palpáveis e não apenas fantasmas e jogos de sombras de um ermitão, como no meu caso: serei o último a querer duvidar disso. Já os vejo se aproximando, lentamente, lentamente; e não estaria fazendo algo para apressar sua chegada quando descrevo antes mesmo de acontecerem as fatais condições que vejo dando origem a eles, os caminhos pelos quais os vejo chegando? (F. Nietzsche - Humano, demasiado humano, 1878)



terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ethos libertário na "Febre do Rato"


Nas aulas iniciais da disciplina de Educação Libertária trabalhamos o tema do ethos libertário, como característica dos anarquistas e libertários de todos os matizes.

Junto com os textos: "O-be-de-cer: o “abc” do princípio de autoridade, ou da covardia" artigo  de Rogério Nascimento, publiado na  Revista VERVE, NuSol, PUC-SP, 2002, pp 90-105 e o texto "O individualismo anarquista" de Émile Armand, da  Revista VERVE, número 5, 2004, Nusol/PUC-SP, São Paulo, pp 208-217, assistimos o filme "Febre do Rato", de Claudio Assis, cuja história do poeta anarquista Zizo reflete muito bem o significado de um etthos/comportamento/atitude libertária.

Após a exibição do filme foi proposto que aqueles que quizessem poderiam expressar seu entendimento sobre o tema em forma de texto, poesia ou outra forma de expressão.

Publicamos abaixo  dois trabalhos elaborados o poema "Nós te observamos" de Pablo Castro e a resenha "Notas sobre o Grupo de Recife" de Lorena Alves



Nós te observamos (Pablo Castro)

Daqui nós te observamos; 
daqui nós dizemos o que você deve fazer

Lázaro, súdito sujo de si mesmo
filho do orvalho de Narciso
parcela enescrupulosa do saber
retrato indigesto da verdade

Mas isso é apenas o que dizem sobre você

Peste transmutada em liberdade

Fragmento parcimonioso das possibilidades
Encontro da fome com a vontade de comer

Verbo conjugado no presente


E para quem não vive de alegorias
basta um dia para ser feriado






Notas sobre o “Grupo de Recife”
por Lorena Alves Monteiro.

Após lidos textos sobre ethos libertário e anarquismo, discussões e agora com a sessão do filme “A febre do rato”, apontarei algumas observações e relações entre estes três meios de abordagem acerca do pensamento libertário.
A febre do rato”, do diretor Cláudio de Assis, é uma produção brasileira de cinema do ano de 2011, que retrata a história de um grupo de amigos libertários moradores de Recife. O papel de protagonista é interpretado por Irandhir Santos na pele de Zizo, um poeta-pregador que desenrola verbetes e metáforas denunciantes do modo de vida opressor que o homem comum vive dentro do Estado. Ele mora com a mãe – e ela também está inserida no grupo de libertários –, não trabalha, vive como boêmio, tem relações abertas com homens e mulheres de diferentes idades, é animado e despudorado, assim como todos do grupo, e é apaixonado por Eneida, vivida por Nanda Costa.
O grupo é miscigenado em gênero, raça, idade, mas encontra um denominador comum na amizade forte entre os componentes, ajuda mútua e desprendimento da parte de todos em relação às amarras do pensamento e da ação. Poliamor, sexo entre idades distantes, casal composto por homem e mulher transsexual, entre outros aspectos formam uma comunidade não anarquista em si, mas não menos libertária. Tomás Ibáñez, em “Anarquismo é movimento”, discorre sobre esta nova variedade de anarquismos, por vezes não identitários, que carregam em seu âmago muitas das questões do anarquismo do séx XIX, surgidas na segunda metade do século XX em diante. Essas novas configurações sob as quais se apresenta o anarquismo hoje, são fruto, é claro, de mudanças de pensamento, sendo isto sempre delineado pelo presente.


Maio de 1968 foi um momento de forte agitação política e social no mundo inteiro, ora pelo movimento contra a Guerra do Vietnã, ora pela revolta dos estudantes em Paris, ora pelas manifestações anti-ditadura ocorridos no Brasil. Estas reações, nem sempre levando o nome de anarquistas, tinham caráter mais militante e seguiam muitas das questões libertárias defendidas pelo anarquismo do século XIX. Daí se sucederam diversas outras manifestações libertárias ao redor do mundo: em 1977, a efervecência libertária após a morte de Franco, na Espanha; as lutas de Seattle em 1999; a Occupy WallStreet, etc.
Com isso, novas formas de ethos libertário criaram novas formas de anarquismos e manifestações a fim, como as Okupas – ocupações coletivas de um espaço ou construção sem permissão do Estado ou proprietário, a fim de torná-lo um meio de convivência libertário –, o anarkopunk, nômades digitais – pessoas que criam redes virtuais de cunho solidário a fim de receber viajantes que muitas vezes abandonaram suas antigas vidas para conhecer o mundo e viver à margem do Capitalismo; estes conseguem o que precisam (água, comida, moradia) por meio de escambo ou troca de favores –, entre outros.
Trago estes exemplos para melhor explicar o comportamento dos integrantes do grupo de amigos acima citado, que a partir de agora me referirei como grupo de Recife. Em nenhum momento os integrantes se denominam anarquistas, a não ser Zizo, que, com sua personalidade expansiva e performática, poetiza todas as realidades que ele vive, inclusive a anarquia. O filme marca seu tempo cronológico por meio das “datas comemorativas”: Páscoa, seguida pela festa de São João e culminando no Dia da Independência. Eventos estes que são mais uma sátira dos costumes e tradição corrompidos que hoje servem como meios de manipulação do povo, seja para consumir, seja para exaltar o cristianismo, religião como manobra de aprisionamento do homem, seja para glorificar a falsa pátria, a pátria que oprime – esta representada, no filme, pelo desfile dos militares, a mão punidora do Estado. O grupo de Recife comemora estes eventos assim como comemoram todos os dias e noites qualquer que tenham vontade de beber e rir.


A não ser Pazinho, personagem de Matheus Nachtergale, que trabalha num cemitério, não fica claro se os outros integrantes do grupo trabalham. Este, na verdade, é um personagem notável: ele tem uma relação instável e apaixonada com Vanessa, uma transsexual, e ao longo do filme, os dois sempre se desentendem pela mesma coisa: infidelidade de ambas as partes; participa deste meio libertário que é o grupo de Recife, e ainda assim mostra ser um homem que está por desconstruir muitos pilares dentro de si. Ele não nega o trabalho, quer uma relação monogâmica e isso em alguns momentos demonstra machismo de sua parte, às vezes se mostra um tanto cético, mas sempre se apresenta respeitoso frente as individualidades que o cercam e generoso com os amigos. Pazinho é um personagem que serve para desmascarar a ilusão de um libertário resolvido como muitos imaginam ser um libertário, alguém que já resolveu todas as questões dentro de si, que não falha em seus atos, o que é uma grande inverdade. O libertário não é este ser completamente livre de amarras, mas antes alguém ciente das amarras que o prendem e que luta para se libertar de todas elas ao longo de sua vida.
Agora voltando para o personagem de Zizo. É um homem sensível, subjetivo, incisivo e boa praça. Costuma fazer intervenções pela cidade, desenhando ratos nas paredes e pontes de Recife, declama poemas em altofalantes e escreve um jornal libertário que dá nome ao filme. Falando nisso, o nome “A febre do rato” é algo que não pode escapar à análise: ele sugere uma efervescência, uma ebulição de algo “desprezível” como um rato. Associamos ao rato, doenças, perigo, desordem, assim como o fazem aos libertários. Eles carregam a alcunha de ratos, algo que está muitas vezes escondido, mas está ali. O movimento libertário não é tão divulgado e se espalha com pouca celebridade, permeando brechas na sociedade em que vive e tentando criar nesta brecha uma forma de manifestar sua ideologia, muitas vezes criticada pelo “bom cidadão”. A agitação deste grupo de “ratos” mostra-se como uma consequência de uma vida de tabus e regras e leis, uma resposta ao opressor, seja ele o que/quem for. Essas intervenções de Zizo, promovendo o pensamento libertário, são mais uma forma de denúncia da opressão do sistema do que uma propaganda de recrutamento. Não caberia ao anarquista recrutar, mas mostrar a realidade que o oprimido talvez não enxergue e mostrar-lhe ainda uma alternativa. Dar-lhe caminhos e poder de escolha, nunca se apresentar como vanguarda – no sentido de se reclamar como única vertente válida de desdobramento –, pois, do contrário, o anarquismo não se tornaria tão distinto daquilo que tanto luta para desconstruir.


Já Eneida, musa de Zizo, o que na verdade ela se torna devido ao fato de não aceitar ter relações sexuais com o poeta, embora mantenham uma intimidade, fazendo com que Zizo se apaixone por ela, ou pelo “desprezo dela”, como ele explica, é uma personagem-metáfora. Eneida é o nome de um poema de Virgílio, que narra a história de Eneias, um troiano que consegue sair com vida após o abate de Tróia pelos gregos e foge por mar, a procura de um lugar para fundar uma nova cidade. O fato de Eneida ser inalcansável aos desejos de Zizo, torna ela uma metáfora, a personificação da utopia, de um não lugar, um lugar ideal. A personagem é uma jovem (estudante, pelo que mostra o filme) irreverente e individualista, não cede ao que ela não quer e faz parte também do grupo de Recife. Desafiadora, ela transforma o personagem de Zizo, que a sacraliza como musa por não poder tê-la nem talvez entendê-la.
Não há preocupações com o futuro da parte dos integrantes do grupo, o que revela a característica anarquista de não projeção, de resolver e pensar questões do presente, diferentemente da proposta progressista estampada na bandeira brasileira. De fato, “Ordem e Progresso” não poderia ser um lema mais contrário à ideologia anarquista. E a “Ordem” é garantida pela polícia, que no filme aparece em um único momento, o da repressão da manifestação pública do grupo libertário durante o desfile de 7 de Setembro, onde os personagens se despem. Toda e qualquer forma de pensar e agir diferente da exigida pelo Estado tem que ser eliminada, pelo bem da ordem, do bom funcionamento do sistema. O “Progresso”, por outro lado, é o motivador do presente, e tudo o que acontece agora é em prol deste futuro ideal que nunca chega. Toda a violência, desigualdade, guerras, doenças, miséria que acometem a sociedade atual são justificáveis ao ouvir uma queda no valor da inflação, o que torna os cidadãos em meros zumbis instrumentalizados que não vivem sua vida presente para trabalhar a serviço do progresso que, mesmo que num dia remoto acontecesse, não lhes beneficiaria ou mudaria suas vidas em qualquer aspecto.
A arte acontece espontâneamente dentro do grupo de Recife, seja por meio de poemas, dança, filmes, música ou performance. Ela é uma atividade natural, que toma lugar quando a livre expressão é exercida, quando se desprende de conceitos e aprecia-se a diversidade e a relação saudável do homem com o mundo, a relação de se deixar maravilhar por uma manhã comum de um casal de quatro amantes, ou quando se observa o meio, pertencendo a ele e não somente o modificando a bel prazer. Neste momento a arte é dessacralizada e passa a ser, como John Dewey explica em “Arte como experiência”, vida cotidiana, repleta de situações estéticas a serem descobertas e sentidas. Neste momento, já não é mais uma arte para alguém, para um fim comercial ou para ser exposto em algum pedestal, imaculado e ideal, mas para ser compartilhada entre os que a percebem e são felizes pela sensibilidade de encontrá-la numa paisagem ou num adorno feito apenas para seu próprio prazer estético.

Por fim, o filme ruma a seu desfecho com a morte de Zizo nas mãos da polícia após a manifestação durante o desfile de Independência. Os militares são representados quase que como uma caricatura, um estereótipo do policial com o qual todos se familiarizam pelas seguintes características: fardados iguais como soldadinhos de chumbo, cara fechada, linguajar xulo e ofensivo, indiferença para com o infrator – este agora caiu nas garras da “mão do Estado” –, violência, opressão, etc. O corpo de Zizo é desovado no rio como um rato que ninguém sentirá falta e que, para o “bem” da nação, é melhor que não exista mais. O grupo de Recife, após a morte de Zizo, inclusive sua mãe, Dona Marieta, não sofrem. Não lamentam, não entram em luto, nem param de beber ou festejar como num dia normal. Para eles, Zizo foi alguém a quem eles amaram e por quem foram amados, aprenderam e ensinaram, riram e choraram. Não há motivo para cair em desencantamento, pois o poeta viveu livre e pleno e morreu defendendo seus ideais. A vida que não espera a outra vida para ser vivida, e que aceita sempre seu fim natural e irreversível.


  “A febre do rato” é o retrato de um ethos libertário transformado que, após séculos de mudanças de pensamento, ramificações, desdobramentos, se apresenta como apenas libertário. Livre também para não se denominar nada. Não atender a espectativas do que ele é ou não é ou deveria ser, em teoria: característica explicitada nas palavras de Zizo “abaixo a reciclagem e viva a lapidagem!”. É uma manifestação que é inerente ao homem, em seu desejo eterno de ser dono de si, e que só precisa de um meio favorável para se estabelecer e florescer. Um lugar onde a opressão não caiba e as forças humanas, construtivas, coletivas e afetivas possam ser desenvolvidas sem um “Grande Irmão” orwelliano cuidando para que os homens-fera não destruam uns aos outros.





Lançada a II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS

II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS  9, 10 E 11 de Outubro de 2017 Local : OCA : Ocupação Coletiva de ArteirXs Na ...