segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Pesquisa "Memória, teorias e práticas de cultura educação libertária no Rio Grande do Sul".




Resgatar a contribuição do pensamento libertário anarquista para a educação no Rio Grande do Sul, bem como identificar o seu legado e as novas práticas culturais-libertárias em funcionamento é o objetivo principal da Pesquisa "Memória, teorias e práticas de cultura-educação libertária no Rio Grande do Sul, que inicia neste semestre na Faculdade de Educação da UFPel aprovada pelo Conselho do Ensino, da Pesquisa e da Extenção (COCEPE), sob a Coordenação do Professor Paulo L. Marques (Educação)  e colaboração do professor Édio Raniere (Psicologia) . 


A pesquisa envolvendo diversas áreas do conhecimento e tem a participação de nove estudantes, sendo 8 de graduação e 1 de Pós-Graduação. Entre eles estão: Edson Moreira, Otho Pikhold, Giovani(História); Iago Siqueira e Eduardo Tomasi(Letras); Aline Igansi(Dança); Juliana Broilo(Geografia), Leandro Siqueira (Artes Visuais) e Marcela Paz (Mestrado Memória Social e Patrimônio).

Segundo o coordenador Prof.Paulo Marques "O projeto de pesquisa é um dos resultados práticos do Grupo de Estudos Educação Libertária, criado no ano passado com o objetivo de estudar a contribuição teórica dos pensadores libertários e anarquistas para a educação e também analisar seu legado e as práticas construídas e em funcionamento que tem como referencia a filosofia libertária". Abaixo, segue a entrevista realizada com Prof. Paulo Marques.

Como surgiu a proposta da Pesquisa?

Percebemos que, mesmo com o crescimento de pesquisas sobre o tema nos últimos anos, a  Educação Libertária ainda é uma desconhecida nos cursos de pedagogia e licenciaturas, permanecendo, assim, marginalizada no meio acadêmico do Brasil. Não aparece nem nos conteúdos relacionados a história da educação, por exemplo. Quando aparece é em alguma nota de rodapé ou baseada na leitura rasa de viés marxista que procura deslegitimar tudo que não componha sua visão de mundo.  Existem, também, poucos livros publicados de importantes estudos daqui e de fora, a maior parte da literatura existente é da Espanha, França, Itália sem traduções para o português. Uma exceção é o belo trabalho de mais de 30 anos da Editora Imaginário e mais recentemente da Editora Terra Livre, ambas de São Paulo,  que vem suprindo essa lacuna com belas edições de obras clássicas e contemporâneas do pensamento libertário. É uma defasagem que não faz justiça à  enorme contribuição dos libertários anarquistas para a educação brasileira, seja pelo pioneirismo na educação das classes trabalhadoras por mais de 20 anos (nas primeiras duas décadas do século XX no Brasil); seja pelas inovações na prática pedagógica como a educação integral, co-educação entre os sexos, a educação laica/científica/racional (questões que foram assimiladas pela educação atual),mas outras permanecem como desafios como a prática do auto-didatismo, e ainda, o fim dos prêmios e castigos como método, o disciplinamento dos corpos, o fim das avaliações, exames e provas, baseadas em memorizações como critério de saber. São questões não superadas pela Educação Estatal que temos, mesmo que se denomine de pública, tem pouquíssima realidade pública, ou seja, autonomia e apropriação por parte de todos os envolvidos, pais, alunos e professores. 

Seria essa a proposta da Educação Libertária?

A educação ainda é vista como um "serviço" que deve ser oferecido ou pelo Estado ou pelo Mercado. Na maioria das escolas do Estado ainda permanece a lógica hierárquica e vertical de poder, que colocam as Escolas no mesmo perfil de Fábricas, Exército, prisões, ou seja, instituições totais,  no qual o mais importante é a aprendizagem da disciplina, bom comportamento, como elementos da formação de sujeitos obedientes e qualificados servidores do sistema. O que Nietzsche vai chamar de formação de funcionários sejam eles para o Estado ou para o Mercado.  A Educação proposta pelos libertários sempre foi o oposto de tudo isso, busca principalmente contribuir para a formação de pessoas livres, autônomas, capazes de serem o que querem ser e não o que querem que elas sejam. Por isso, é uma educação que sempre foi perigosa e ainda o é. Também  quando questiona a própria Escola como única forma de educar. São questões que já eram discutidas desde o século XIX, mas que por contrariarem muitos interesses foram descartadas pela história e a pedagogia oficial, seja ela marxista ou liberal. 

Como a pesquisa será desenvolvida?


O foco da pesquisa será no Rio Grande do Sul, com ênfase na região sul do Estado, onde estamos e que possui uma história muito rica de práticas libertárias que nascem junto com as primeiras lutas operárias dos anarquistas na cidade de Rio Grande e Pelotas. Como a educação e a cultura sempre tiveram um vínculo estratégico com a luta política dos libertários, suas experiências tiveram grande importância em um período, final do século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX, para a educação dos trabalhadores e seus filhos. Lembremos que a educação era um privilégio para os filhos das classes ricas. Não havia educação pública e o pouco que existia era vinculada a igreja, portanto muito mais "catequizadora" do que outra coisa. Assim vamos começar buscando as pesquisas, artigos, estudos existentes sobre essas práticas de educação e cultura realizada pelos libertários e anarquistas e a partir daí construir um acervo documental, sistematizar as informações que possibilitem aprofundar essas informações e análises já realizadas. Procurar arquivos pessoais, identificar educadores libertários da época, materiais utilizados, referencias teóricas etc.. Pretendemos, ainda, buscar contato com outros pesquisadores e Grupos de Estudo sobre Educação Libertária para trocar informações e conhecimentos. 

A segunda etapa da pesquisa será voltada para a as práticas atuais, ou seja, identificar e analisar  quais práticas de cultura- educação existentes tem como fundamentação teórica o pensamento libertário anarquista, e qual as referências, quais as práticas que serviram e servem de modelo, o que foi apropriado, o que avançou. 


Por que o projeto definiu o foco da pesquisa em cultura-educação e não apenas educação?


Primeiro, porque a relação direta entre educação e cultura é uma característica bem marcada do  pensamento e da práticas educacionais dos libertários, ao longo da história. Não há uma desvinculação, como em outras filosofias entre a Educação e cultura. Para os libertários não há possibilidade de uma sem a outra.  Cultura é educação e educação é cultura. Cultura  no sentido que a palavra tem de cultivo, de criação e não há educação sem criação do novo, do devir, bem como não há educação se ela se restringir à reprodução do existente. É a superação das limitações do que Deleuze vai chamar de recognição, ao  desenvolver sua crítica ao conhecimento racional-cartesiano. 
O segundo motivo é que coerentes com essa ideia e essas práticas do passado, realizadas pelos anarquistas, os libertários de hoje mantém esse vínculo. Suas atividades culturais são educacionais; temos as experimentações das Okupas, no qual se desenvolvem oficinas, Grupos de Estudos, Bibliotecas livres, Universidades Livres. Assim como a própria experimentação de vida autogestionária é uma pedagogia. 


Vida autogestionária como pedagogia, como isso se dá?

Eu chamaria Pedagogia da Vida Libertária. Que, na prática, supera os limites da educação como prerrogativa do Estado ou do mercado. As comunidades de aprendizagem que se formam em torno de Grupos anarquistas e libertários que utilizam as novas tecnologias da informação constituem na prática as possibilidades apontadas por Ivan Illich no seu clássico "Sociedade sem escola" que mostra que a Escola não é necessária para o conhecimento, pode até existir mas não é fundamental. No passado, quando não havia Escola, os anarquistas construíram espaços livres para a educação nos sindicatos, nos Ateneus (os centros culturais), nos Centros Sociais e bibliotecas. Editavam revistas jornais. A vivencia libertária cuja prática é a autogestão coletiva da vida, com cooperação, ajuda mútua e ação direta, adquire um caráter pedagógico porque é praticada, é vivenciada como experimentação, com seus erros, contradições, mas fundamentalmente baseada na liberdade de cada um ser o que é e ter condições de expandir sua vontade de criar livremente novas formas de vida e relação. Por isso a experimentação de vida em uma Okupa é muito mais educativa e cultural, por cultivar a liberdade,  do que uma escola estatal ou privada com "Lições de vida "correta". A escola vive de abstrações, por isso  torna-se irrelevante para o conhecimento. Como dizia Maurício Tragtenberg sobre o que significavam as provas e testes como "Carimbo burocrático do Saber", podemos dizer que a Escola hoje é um distribuidor de "Passaportes para o mundo da exploração humana". Ensina a obedecer e  dizer "sim senhor" . 

Hoje, com o advento da internet, é possível romper com esse monopólio da Escola, construir comunidades virtuais e presenciais de aprendizagem, blogs, acesso a obras e livros de todo o mundo, com tradução, redes de afinidade, conhecimento, ativismo. Sem a necessidade de qualquer mediação estatal ou do mercado. 


Essas premissas são vistas, nos dias de hoje, apenas como teorias...

Não é teoria, é realização prática. E é isso que queremos conhecer, mas não como mero conhecimento acadêmico, mas sim uma contribuição à legitimação destas práticas, que essas práticas sejam reforçadas em sua proposta que representem não só uma pedagogia mas um modo de viver específico.


Quais os resultados esperados dessa pesquisa?


Nossa pesquisa tem o prazo de 12 meses. Nesse período temos alguns objetivos bem claros como: resgatar o pensamento dos educadores libertários  gaúchos (podemos citar nomes como Zenon de Almeida, as irmãs Espertirina, Eulina, Dulcina e Virginia Martins, Djalma e Cristiano Fetterman, todos esses educadores e  criadores da Escola Moderna e Escola Elisé Reclus em Porto Alegre na primeira década do século XX). A Educadora Malvina Tavares e também o pelotense Victor Russomano, fundador do Grupo Iconoclasta, de ativistas anarquistas de Pelotas, responsável por um conjunto de atividades no campo da cultura como Teatro, jornal, criação de Centros Sociais e Grupos de estudo. São alguns dos nomes que já tem alguma pesquisa, mas a proposta é encontrar novos, ou conhecer mais sobre alguns que apenas são citados pelo nome em pesquisas. 

Com esse material queremos construir um acervo do pensamento educacional libertário no Rio Grande do Sul, contribuindo com outras pesquisas que estão sendo realizadas em São Paulo e outros estados que compõe esse esforço de resgate do pensamento libertário no campo da educação no Brasil. E por fim, pretendemos começar  a construção de um Observatório das experimentações de cultura-educação  Libertária do Rio Grande do Sul, sendo essa a parte que aponta para o que está  em funcionamento ou construção em diferentes cidades.

Abaixo algumas imagens de personagens dessa Memória a ser resgatada pela Pesquisa: 





Turma da Escola Moderna de Porto Alegre, em 1917. À Esquerda está Zenon de Almeida e Djalma Fettermann, e à direita duas das Irmãs Martins. Estes militantes anarquistas eram fundadores e educadores da Escola Moderna.




Zenon Budaszewski de Almeida (1892-1940) De família de imigranttes poloneses, nasceu em Porto Alegre,  foi uma das figuras mais emblemáticas do anarquismo gaúcho na década de 10 e 30 do século passado. Intelectual autodidata, orador , poliglota(falava polonês, alemão, inglês e Idíche), jornalista e teatrólogo, atuou em Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Rio de Janeiro e Pelotas. Trabalhou em frigoríficos em Pelotas como químico, onde aderiu ao anarquismo. Na cidade foi editor dos Jornais Terra Livre e a Luta, ambos publicados  nos anos de 1915 e 1916. Em 1914 ajuda a criar o Grupo Iconoclasta e o Teatro 1 de Maio. Zenon Lecionou no Ateneu Sindicalista pelotense. De volta a Porto Alegre em 1915, será fundador, professor e dirigente da Escola Moderna da cidade, juntamente com Polydoro Santos e Djalma Fettermann. Casa-se com Eulalia Marttns, também educadora da Escola. De volta a Pelotas em 1916 será redator do jornal A Luta. Em 1917 passa um período em Rio Grande  onde edita "O nosso verbo", órgão da União Geral dos Trabalhadores Rio Grandino. Será um dos líderes em Porto Alegre da greve geral de 1917. Nos anos 20 continua atuando politicamente e trabalhando como químico industrial . Vai para o Rio de Janeiro, adere ao a ALN de Prestes. Trabalha na Embaixada da Polônia no Brasil até sua morte em 1940. 
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Malvina Hailliot Tavares(1866-1939) Professora e poetisa nasceu em Encruzilhada do Sul, filha de família francesa, formou-se em Porto Alegre e foi lecionar em sua cidade e posteriormente em São Gabriel e Lageado, onde viveu toda sua vida. Foi pioneira na educação laica e libertária do modelo de Francisco Ferrer. Foi professora das irmãs Martins que posteriormente seriam figuras centrais na construção da Escola Moderna de Porto Alegre, foram as fundadoras e educadoras da escola no ano de 1917. 


Djalma Fettermann (1893-1973) Nasceu em Porto Alegre, filho  de um sapateiro alemão e uma filha de escravos. Foi  Metalúrgico e gráfico era um militante anarquista extremamente culto, dominava vários idiomas e foi um filósofo diletante. Junto com seu irmão Cristiano Fettermann foi um dos fundadores da Escola Eliseu Reclus, em 1906, onde lecionou português, alemão, francês. Fez parte do Grupo Libertário Solidariedade, responsável pela reorganização dessa escola em 1909. Em 1915 ajuda a fundar a Escola Moderna de Porto Alegre, em 1915, onde também será professor. Também foi dirigente da Sociedade pró-ensino racionalista, fundada em 2 de abril de 1916. Essa entidade será a responsável pela Escola Moderna, que funcionava no então conhecido Bairro Africano por ser formado por uma colonia africana e também por operários. A escola chegou a ter 400 alunos. Djalma terá participação significativa na Greve Geral de 1917. Em 1919, faz concurso para os Correios e vai  para o Rio de Janeiro onde vive até os anos 40 quando volta a Porto Alegre, até 1947. Retorna ao Rio onde vive até sua morte em 1973. Permanece fiel ao ideário anarquista até sua morte. 

Estas breves biografias dessas três personalidades emblemáticas da Educação Libertária no Rio Grande do Sul constituem uma amostra da riqueza dessa história que precisa ser resgatada. Contribuição significativa sobre essa temática pode ser encontrada nas poucas obras de referência existentes, como estas que apresentamos abaixo e merecem ser destacadas por seu pioneirismo e importância para a história dos libertários gaúchos. 




Nesta obra de 1985, o jornalista João Batista Marçal, pesquisador do movimento operário descreve as origens do sindicalismo gaúcho, suas entidades e atividades. Destacamos o capítulos "Elementos para uma história Operária de Pelotas" com destaque para a criação do Grupo Iconoclasta em 1914, responsável por várias iniciativas no campo cultural e educacional libertário. 




Obra pioneira e única sobre os anarquistas gaúchos, também organizada por João Batista Marçal em 1995, traz breves biografias com fotos de 35 militantes anarquistas que marcaram a história do movimento anarquista no Rio Grande do Sul no final do século XIX e nas primeiras décadas o século XX, como os pioneiros do movimento operário gaúcho. O livro ainda traz como apêndice a transcrição da Conferência " Uma aurora com clarão de incêndio: o homem livre sobre a terra livre" proferida por Zenon de Almeida no Centro Galego do Rio De Janeiro em 21 de março de 1914. Também traz um "Mapa da imprensa Operária do Rio Grande do Sul" com uma lista de Jornais, identificando o editor e a cidade onde foi editada. ( As fotos e biografias  publicadas no blog são deste livro)




Este "Dicionário Ilustrado da Esquerda Gaucha", organizado por João Batista Marçal e Marisângela Martins, lançado em 2008 traz a biografia de vários militantes que fizeram história na esquerda do Estado. Destacamos aqui os 33 militantes anarquistas. Ao final do livro o jornalista Marçal lista os periódicos da época,  que tem em seu arquivo pessoal e constituem em um material de enorme valor para pesquisas e memória do movimento operário gaúcho.



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