quinta-feira, 16 de julho de 2015

Revistas divulgam o pensamento libertário anarquista-individualista, por Paulo Marques


Revistas divulgam o pensamento libertário anarquista-individualista 



Foram lançadas, ano passado e neste ano, na Espanha, duas revistas de grande significado para o pensamento libertário em geral e anarquista em particular. São as revistas"Zodaxa"(2014)"Stirner"(2015), ambas tem em comum a proposta de divulgação do pensamento libertário de tradição anarquista-individualista.

O anarquismo individualista nasceu como uma das tradições do pensamento anarquista, caracterizado, fundamentalmente pela priorização do individuo sobre todo tipo de determinação externa, no qual ele é um fim em si mesmo e não um meio para uma causa, incluindo grupos, "bem comum", sociedade, tradições e sistemas ideológicos.

Pode-se dizer que o anarquismo individualista nunca foi um movimento social, ideologia ou doutrina, mas um fenômeno filosófico/literário ou mesmo um comportamento, um ethos libertário. Ele surge em primeiro lugar nos Estados Unidos e depois na Europa no século XIX, sendo aderido especialmente por autores norte-americanos. No Brasil uma das figuras que mais teve influências dos anarquistas individualistas foi a educadora Maria  Lacerda de Moura.



Obra "Renovação" de Maria Lacerda de Moura, publicada em 1919, relançada este ano pela Plebeu Gabinete de Leitura e edições UFC, permite conhecer um pouco mais sobre o pensamento da educadora libertária e suas influências. 


As primeiras influências filosóficas identificadas são de Willian Godwin, D. H. Thoreau, Proudhon, Benjamin Tucker, Lysander Spooner, Emma Goldman, Max Stirner e Zo 'dAxa. Na contemporaneidade destacam-se os filósofos Michel Onfray, Wendy McElroy e Sharon Presley.


Willian Godwin(1756-1836)foi um jornalista inglês, filósofo, político e novelista. É considerado o precursor do pensamento anarquista moderno que emerge no contexto do iluminismo.

Lysander Spooner(1808-1887) foi um jurista norte-americano, filósofo político, empresário, abolicionista e um dos mais significativos expoentes do anarquismo individualista. Sua interpretação libertária  do direito natural o levou a propor o levante das pessoas contra os governos em sua obra "A ciência da Justiça" onde critica a função dos governos, exército e  política como ferramentas que servem para proteger a plutocracia e os monopólios, relacionados com o conceito de Estado e poder.





Benjamin Tucker (1854-1939) é considerado o principal defensor norte-americano do anarquismo individualista. Foi editor do periódico anarquista americano Liberty.





Emma Goldman(1869-1940) Nascida na Lituania, ficou conhecida como uma das mais expressivas figuras do anarquismo americano por seu ativismo e escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas. Admiradora de Nietzsche, foi identificada como a anarquista-individualista que teve papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo nos Estados Unidos na primeira metade do Século XX.


Michel Onfray(1959) é um filósofo francês contemporâneo. Se auto identifica como um libertário e nietzschiano de esquerda. Fundador da Universidade Livre de Caen, é caracterizado como um pensador que afirma a razão o hedonismo e o ateísmo. Tem como referências os pensadores gregos que celebram a auttonomia do pensamento e da vida como Diógenes o Cìnico, Arisitpo de Cirene e outros da tradição que ele denomina como "irmãos do Espírito Livre" entre outros como os libertinos e a Escola de Frankfourt.




"STIRNER"





 A revista "Stirner" é editada em Barcelona, seu nome é uma homenagem a Max Stirner, codinome de Johann Kaspar Schmidt(1806-1856), um dos principais pensadores libertários individualista do século XIX. Stirner ficou conhecido a partir de sua obra "O único e sua propriedade" no qual faz uma crítica radicalmente anti-autoritária e individualista da sociedade.


Max Stirner (1806-1856)







Na apresentação da revista os editores divulgam a ampla gama de temas que são abordados já no primeiro número: 
"Neste primeiro número visitamos as praias da Califórnia e as barricadas parisienses e analisamos a revolução digital e a criação artística, descobrimos Xavier Dolan, o enfant terrible do cinema de autor com apenas 25 anos; nos transportamos aos subúrbios da cultura rave britânica na época de Margareth Thatcher e trazemos um olhar sociológico sobre o uso das drogas a partir do humor. Também ha espaço para explorar o vitalismo naturalista de Thoreau, e naturalmente para pensar o contrário: entrevistamos o teórico americano Kevin Carson e Enric Durán, o ativista catalão que em 2008 expropriou meio milhão de euros dos bancos para financiar movimentos sociais(essa expropriação se deu por vias legais, empréstimos em vários bancos que não foram pagos). Frances Moore nos revela as experiências de autogestão operária na Emília Romana e fechamos com as réplicas que Max Stirner dedicou aos seus adversários após a publicação de o "Único e sua propriedade", traduzidas diretamente do alemão. Mas isso são apenas retalhos de um primeiro número que, como já puderam suspeitar, tem um único ponto de gravidade: a mudança".




"ZODAXA"


Acima a revista número 1 e a baixo a número 2


 "ZODAXA", foi lançada em 2014, na mesma linha libertária anarquista-individualista de "Stirner". Ela também traz em seu nome uma homenagem a uma das figuras mais expressivas do anarquismo individualista francês no século XIX, Alphonse Gallaud de la Pérouse, conhecido pelo seu codinome de Zo' dAxa, nome que tem origem grega que significa "eu vivo mordendo ou de forma mordaz".

No primeiro número da revista não poderia faltar um texto de Nietzsche "O Novo ídolo". O pensador alemão tornou-se uma das principais referências para os anarquistas individualistas, sendo a mais conhecida Emma Goldman. Alguns pesquisadores destacam a profunda identidade entre o pensamento de Nietzsche e de Stirner, principalmente em relação  a centralidade que ambos dão à singularidade de cada indivíduo e sua vontade, dispositivo de possibilidades do vir -a -ser livre de cada um, o que Nietzsche vai denominar como espírito-livre. Malgrado sua aversão a toda e qualquer ideologia, e isso incluía comunistas e anarquistas, que para Nietzsche eram idealidades baseadas em ressentimento, a  concepção do filósofo, da mesma forma que Stirner, tem um profundo caráter libertário. Como dizia Nietzsche, "Derrubar ídolos, eis minha função". 






O segundo número da revista, lançado em janeiro deste ano,  traz o clássico texto de Max Stirner "O falso princípio da nossa educação", escrito em 1842, em forma de artigo para o jornal Gazeta Renana,  a pedido do então editor, o jovem hegeliano Karl Marx. Neste texto Stirner faz uma crítica radical à educação institucionalizada e que começava a tomar forma no que viria a ser logo em seguida o modelo estatal prussiano de educação, baseado sobretudo na disciplina militar, hierarquia, dominação do Estado sobre o individuo e adestramento para a formatação de homens em peças da máquina econômica e política da modernidade. Qualquer semelhança com a atual caracterização do ensino institucional na atualidade não é mera coincidência. Eis um dos motivos para a atualidade do texto de Stirner.






Mas quem foi Zo'dAxa? o homenageado que dá nome a Revista?









Zo D"Axa ( que em grego significa mais ou menos "eu vivo a morder) codinome de Alphonse Gallaude de la Pérouse foi um dos mais célebres anarquisas individualistas franceses do século XIX. Nasceu em Paris em 24 demaio de 1864 e morreu em 30 de agosto de 1930, em Corniche, Marselha.



Zo d'Axa foi jornalista mordaz (sempre mordia) que, com seus pequenos jornais, causou sensação em 1897, lançando protestos e imprecações ideológicas, sobretudo acerca das eleições presidenciais francesas. 

Era um libertário por excelência, aventureiro, antti-militarista, comediante satírico, sarcástico, pintor e fundador de duas das mais lendárias revistas liberttárias francesas, L'EnDehors (Por Fora) e La Feuille ( A Folha). Esta última tão violenta quento a primeira, teve 25 edições, de 1897 a 1899, continuando suas campanhas contra as injustiças da época, contra os presídos infantis, pela revanche dos mendigos, contra as hipocrisias da política, a venalidade da imprensa, em favor do aborto, pelo amor livre e a descriminalização do homossexualismo. 



"Por Fora" (acima) e "A Folha" (abaixo),  as duas lendárias publicações de de Zo d'Axa 


Considerado um dos mais emblemáticos anarquistas-individualistas da virada do século XIX para o XX, Zo d'Axa foi implacável em seus ataques às elites iluminadas eleitoreiras, mas também não poupou os medíocres eleitores, trabalhadores honestos e homens comuns subservientes às elites. Evocou insurreições em diversas frentes e ironizou muitos dos aspectos da sociedade burguesa em que viveu. Sua postura liberária acabou lhe trazendo muitos problemas com a justiça, que o perseguiu com tenacidade. Em 1892, fugiu para a a Inglaterra, Holanda e Itália onde foi expulso. Acabou na Grécia e na Turquia, fixando-se em Jaffa, onde amargou uma pena de dezoito meses de cadeia como prisioneiro político. Em 1895 publicou seu livro mais conhecido: "De Mazas à Jerusalém", que continha os relatos de sua vida. O livro obteve grande sucesso. Zo' dAxa se suicidou na França em 1930. 



Livro mais famoso de Zo d"Axa




Abaixo publicamos “Nós” , um dos artigos mordazes escrito por Zo'dAxa em sua revista L'En-Dehors(Por Fora) em 1896.



Nós

Eles falam sobre Anarquia.
Os jornais estão despertos. Camaradas são entrevistados e "L’Éclair" entre outras coisas, diz que há uma divisão entre os anarquistas.
É com relação à questão do roubo que opiniões estão divididas.
Alguns, como é dito, querem constituí-lo como um princípio; outros irrevogavelmente o condenam.
Bem! Seria impossível para nós assumir uma posição em tal questão. Este roubo poderia nos parecer algo bom e poderia ser aprovado; ele também nós poderíamos considerar violento e repugnante.
Não existe Absoluto.
Se os fatos nos levam hoje a especificar este e aquele meio de ver ou ser, todo dia, nos vívidos artigos de nossos expressivos colaboradores, nossa determinação tem sido claramente afirmada:
Nem em uma parte (partido) ou um grupo.
Estamos fora disso.
Seguimos nosso próprio caminho — indivíduos, sem a Fé que salva e cega. Nosso desgosto com a sociedade não engendra em nós nenhuma convicção imutável. Lutamos pelo prazer da batalha, e sem qualquer sonho de um futuro melhor. O que nos importamos com amanhãs que não vieram por séculos! O que nos importa nossos netos e sobrinhos! Estamos fora de todas as leis, de todas as regras, de todas as teorias - mesmo anarquistas; a partir deste instante - de imediato - que queremos devotar nossa piedade, nossos ímpetos, nossa dedicação, nossas raivas, nossos instintos - com o orgulho de sermos nós mesmos.
Até agora nada se revelou a nós como radiante para além do horizonte. Nada foi nos dado em critério constante. O panorama da vida muda sem cessar, e os fatos aparecem para nós sob uma luz diferente dependendo da hora. Nós nunca vamos reagir contra as atrações de pontos de vistas contraditórios. É algo simples. O eco de sensações vibrantes ressoam aqui. E se a impetuosidade desoriente por sua imprevisibilidade, é porque nós falamos das coisas do nosso tempo como fariam os bárbaros primitivos com que tivesse subitamente caído entre eles.
Roubo!
Nunca nos ocorreu assumir a posição de juízes. Existem ladrões que nos deixam descontentes: certamente; e é aí que gostaríamos de atacar: provavelmente. Mas isto exerceria seu fascínio mais que pelo fato bruto.
Não vamos colocar em palco uma Verdade eterna - com um V capital.
É uma questão de impressão.
Um corcunda poderia me desagradar mais que um amável reincidente.







Para saber mais e adquirir as revistas as páginas no facebook: 

Revista Stirner : https://www.facebook.com/pages/Stirner/449390535238521?fref=photo

Revista Zodaxa: https://www.facebook.com/AnarquismoIndividualista?fref=ts









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