quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Educação Libertária de Ricardo Mella


Ricardo Mella(1861-1925) nascido em Vigo, foi um dos mais importantes anarquistas espanhóis. Mella não só foi um teórico brilhante do anarquismo mas também estudioso e entusiasta de vários temas. Dominava vários idiomas(francês, inglês e italiano) que lhe permitiram traduzir não só os textos de Bakunin mas também de Malatesta e Kropotkin. A anarquista Federica Montsenny disse sobre ele: "É considerado como o mais profundo, o mais penetrante e o mais lúcido dos pensadores anarquistas espanhóis". Como ativo jornalista anarquista Mella fundou em 1881 o semanário "La Propaganda" do qual foi diretor, trabalhou nas revistas Acrácia( Barcelona) e Revista Social(Madri) assim como no periódico barcelones El Productor . 
Mella como todo anarquista preocupou-se profundamente com o problema da educação. Sobre esse tema suas posições foram e ainda são pioneiras na concepção do que significa educação em uma perspectiva libertária.
Na matéria "Ricardo Mella e a pedagogia" do Periódico anarquista "Tierra y Libertad" que reproduzimos aqui com tradução de Paulo Marques, temos uma síntese da concepção de educação de Ricardo Mella que, assim como outros pensadores da educação libertária como Francisco Ferrer, Paul Robin, e Sebástien Faure mantém-se a frente não só do seu tempo como do nosso. 





Ricardo Mella e a pedagogia 
(Tradução Paulo Marques)





Ricardo Mella (1861-1925) realizava uma distinção entre "educar", que seria um modo determinado de conduzir-se, de ser e de pensar, e o ensino, o qual deveria ter como finalidade a independência intelectual e física da juventude. Se na época em que Mella viveu, já existia uma forte oposição à educação religiosa, as escolas laicas não tardariam em impor um civismo que substituiu Deus pelo Estado.

Entretanto, para o anarquista Mella a questão não estava em denominar a escola laica, neutra ou, inclusive, racionalista, já que isso constitui um mero jogo de palavras que traslada as preocupações políticas do adulto para as opiniões pedagógicas. Este autor ácrata realiza uma feroz crítica a todos aqueles, sejam quais forem suas ideias, que pretendam modelar às crianças a sua imagem e semelhança; não existe o direito para inculcar um dogma religioso a uma criança, e tampouco para ensinar-lhe uma opinião política nem um ideal social, econômico ou filosófico. Em outras palavras, a escola não tem que ser para Mella nem republicana, nem massônica, nem socialista, nem anarquista, da mesma forma que não deve ser religiosa.

A escola não deve ser nada mais que um lugar de ensino para que o individuo tenha um pleno desenvolvimento e um completo desenvolvimento; qualquer tentativa de transmitir uma ideia já pré estabelecida é uma mutilação e uma distorção daquelas faculdades que se pretendem estimular. Mella nos legou uma visão plenamente anarquista; ainda que possamos cair uma e outra vez na confusão entre os termos educar e ensinar, o mais importante é a questão de fundo: há que se erradicar todo doutrinarismo da pedagogia, ainda que tenha intenções revolucionárias.

Os indivíduos serão intelectualmente livres se, na escola, adquirirem as verdades comprovadas, produto do conhecimento e universalmente reconhecidas; Mella considera, porém, que deve-se pôr ao alcance dos indivíduos, previamente instruídos nessas verdades mencionadas, todos os sistemas metafísicos, teológicos e filosóficos para que escolham livremente, mas isso já não será função da escola.

É muito necessário que os professores expliquem tudo, ideias religiosas ou políticas, mas é muito diferente de ensinar um dogma seja do tipo que for, democrático, socialista ou anarquista. Para Mella, o anarquismo, ao colocar a liberdade de pensamento e de ação acima de tudo, não pode preconizar imposição alguma aos jovens e nenhum método doutrinário. A melhor escola desejada pelos anarquistas, portanto, é aquela que mais e melhor estimule nos jovens o desejo de saber por eles mesmos, de formar-se suas próprias ideias. Estas ideias de Mella sobre a pedagogia ficaram expostas em diversos números da publicação Ação Libertaria.

Mella insiste nessa postura sobre o ensino. Inclusive, denuncia aqueles supostts livres-pensadores, radicais e anarquistas que não atuam em questões pedagógicas de modo muito diferente do que os sectários religiosos. Os postulados de Mella são de uma atualidade inegável quando denuncia o uso que muitos coetâneos seus fazem da palavra racionalismo com a pretensão de impor em seu nome uma nova doutrina para a juventude; do mesmo modo, denuncia também toda pretensão de verdade absoluta em nome da ciência. Ricardo Mella critica que o racionalismo, ao proclamar a soberania da razão, gera erros e absurdos; a razão é meramente individual, porque não pode proclamar-se soberana, já que fazê-lo seria dar a todo o mundo o critério exato e a certeza da verdade.

O racionalismo, como sistema, tem assumido seu fracasso, ainda que tenha sido útil contra o dogmatismo e os absurdos das crenças. A ciência, baseada na experiência e nos fatos comprovados, se pode ter essa pretensão como sistema; ao contrário, as criações do pensamento, as razões em cada um, são diferentes em cada individuo, e tem um caráter frágil como para ter pretensões objetivistas, já que aquele é dado ao extraordinário e maravilhoso. Se há quem identifica ciência, racionalismo e anarquismo, para Mella isso equivale a insertar uma propaganda na educação, quer dizer, a uma nova forma de proselitismo.

Os anarquistas não tem mais direito que qualquer outro a formar os demais de um modo ou de outro, mas sim o dever de não impedir que cada um o faça a si mesmo como queira. O que os adultos entendemos como propaganda, uma criança o verá como imposição; insiste Mella em que uma coisa és instruir nas ciências e outra muito diferente é ensinar uma doutrina. Ainda que racionalismo e anarquismo tenham muito em comum, não temos direito a gravar nada dele nas mentes infantís; nenhuma crença deve impedir seu livre desenvolvimento.

Não pode existir um ato pedagogicamente menos libertário que imopr um modelo a uma criança, ainda que seja o mais belo ideal, já que com isso está cerceando a faculdade de pensar desde a mais tenra idade. Inclusive a liberdade absoluta, se é que esse conceito não seja impossível para o entendimento humano, não deve ser imposta, senão livremente aceita e buscada; é a criança que deve aceder as mais belas ideias, deduzidas dos conhecimentos gerais, e não opiniões, que se deve pôr a seu alcance.

Para chegar a este argumento, há que entender que Mella vê o anarquismo como um corpo de doutrina; por mais sólido, razoável e científico que sej em sua base, não deixa de pertencer ao terreno especulativo e, portanto, é tão questionável como qualquer outro. De novo Mella insiste em sua renuncia a uma verdade permanente, já que o devir converte em obsoletas as certezas do passado; já que o ser humano, inclusive o mais sábio, está cheio de prejuízos, de sofismas e de anacronismos, ninguém tem o direito de impor ideias às gerações seguintes.

"Como anarquistas, precisamente como anarquistas, queremos o ensino livre de toda classe de 'ismos', para que os homens do porvir possam fazer-se livres e ditos por si e não como meio de pretensos modeladores, que é como quem diz redentores" (Acción Libertaria 11, enero de 1911).

O anarquista trabalha pelo livre pensar, e este não se aplica únicamente por oposição teologia, também às imposições de partido, escola ou doutrina. A instrução da infância, e recordemos que Mella a opõe a ideia de "educar", deve ser neutra, estar isenta de qualquer tentativa de propaganda: "Descartada toda matéria de fé, a instrução da juventude ficaria reduzida ao ensino das coisas provadas e a explicação dos problemas cuja solução não tem mais que probabilidades de certeza" (Acción Libertaria 22, abril de 1911).

As crianças são propensas a perguntas metafísicas, podem perguntar-se perfeitamente qual é a origem do universo etc...O que pode fazer um professor? Existe a probabilidade de não ser feita a pergunta acerca da existência de Deus, mas se surgir é obrigado demostrar que em todo o conhecimento humano não há prova alguma de sua existência. Sobre as questões acerca da causa e da finalidade da existência, inevitáveis em algum momento do desenvolvimento do individuo, não há certeza alguma e de nada vale invocar a ciência; os que se referem ao materialismo, ao racionalismo ou ao evolucionismo seguirão falando em nome de uma opinião ou crença.

Para Mella, a honestidade intelectual do professor deve produzir-se através de uma exposição clara dos dados do problema e as diferentes hipóteses que tratam de aclará-lo; qualquer outra via, é cair na imposição de uma doutrina. O pequeno individuo deverá formar seu juízo por si mesmo ao pôr a seu alcance todos aqueles conhecimentos que possam ilustrar a questão; se trata de um "método de liberdade" respeitoso com a independência intelectual da criança que, para Mella, devem proclamar os anarquistas. É na realidade onde se encontra toda experiencia, base do conhecimento, e do ensino que deve reduzir-se a lições de coisas (não de palavras); com essa primeira adquisição, pode estabelecer-se o caminho para adquirir os melhores métodos para que a própria realidade, e não o professor, gere na consciência do individuo, que será o integrante de uma nova sociedade, os mais belos exemplos de bondade, amor e justiça. Pretende Mella erradicar todo discurso imposto no ensino, basear-se nos fatos, para que as crianças se questionem sobre o mundo que lhes rodeia e acabem se desenvolvendo de maneira intelectualmente adequada.

De novo observamos que na visão anarquista, também em questões pedagógicas, a liberdade é um fator central, Mella arremete contra a imposição e o verbalismo:
"E se na humanidade persiste a escravidão moral e material, é porque precisamente se há empregado no ensino o fator imposição. O instrumento desta imposição tem sido o verbalismo, o verbalismo teológico, metafísico ou filosófico. Queremos um ensino novo? Pois nada de verbalismo nem de imposição. Experiência, observação, análises, completa liberdade de juízo, e os homens do porvir não terão que impedir a continuação da cadeia que queremos romper" (El Libertario 7, septiembre de 1912).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Vamos falar um pouco de Educação Libertária? por Paulo Marques




O que é Educação Libertária? Onde está? Seria uma uma teoria, doutrina, pedagogia, metodologia? Uma prática? uma utopia? uma heterotopia?Não é nada disso e ao mesmo tempo pode ser tudo isso. É, portanto, um ethos, um comportamento, uma relação, sobretudo,  baseada em uma ideia de ser humano. Ser humano como devir, como único na acepção de Stirner;  como experimentador, cujas possibilidades requerem e exigem uma educação capaz de possibilitar a cada um tornar-se, como disse Nietzsche, "aquilo que se é", e não aquilo que outro quer que seja.

Para isso Educação Libertária não começa nem termina em um espaço fechado e exclusivo, não é monopólio de Estado, de família, de religião, nem  educadores ou ideólogos. Educação na perspectiva libertária  é compartilhamento de múltiplos saberes encontrados na própria dinâmica da vida de cada um, seja individualmente, seja coletivamente.

Educação Libertária é generalizada, é  ação direta, sem intermediários, sem autoridades que determinem conteúdos, fins, objetivos, metas. Educação Libertária é autocriação do conhecimento, da própria vida como exercício de autoeducação.

A Educação Libertária nasceu como ideia dos pensadores iluministas que levaram às últimas consequencias o pressuposto  Kantiano do "sapere aude", tenha coragem de saber. Ao contrário dos "libertadores" que pregam a necessidade de alguém que "liberte" o oprimido; os libertários como m Willian Godwin, Max Stirner, Proudhon, Bakunin, os libertários por excelência, pioneiros na filosofia antiautoritária que adotaria a denominação "maldita" de ANARQUISTAS", advogam pela liberdade sem "Libertadores", a liberdade de cada um é obra de cada um, ou seja  não é necessária nenhuma autoridade.

Foram os anarquistas que no século XIX e XX colocaram em prática essas ideias de Educação Libertária pela primeira vez na Europa e depois no resto do mundo. Paul Robin, Sebastién Faure, Francisco Ferrer foram pioneiros. Demonstraram com suas experiências de Educação Libertária que ensino, conhecimento, saberes poderiam ser realizados sem prêmios e castigos, de forma livre, autogestionária, integral. Que a liberdade não era um conceito abstrato mais um atributo da ação, e do ethos. As ideias libertárias aportaram no Brasil nas primeira décadas do século XX, trazidas pelos milhares de operários imigrantes da Itália, Espanha, Polônia, que vieram servir de mão de obra para o nascente capitalismo tardio. Tratados como animais de cargas em fábricas no qual trabalhavam mulheres e crianças por mais de 14 horas sem nenhum direito, auto-organizaram-se e criaram suas próprias Escolas Libertárias para os operários e seus filhos. Foram pioneiros no que viria a ser chamado no Brasil de Educação Popular.

Cem anos depois a ideia de Educação Libertária, que ao contrário do que a história oficial sustenta, nunca morreu, ressurge com força em cada movimento libertário que avança.   Revive sempre e em cada ação no qual a prática seja da ação direta, do apoio mútuo e da Autogestão. É encontrada hoje em salas de aulas de Escolas e Universidades,  nas Okupas, nas Escolas ocupadas por estudantes na bela "Revolução dos secundas" de São Paulo, na ação de cada Grupo de Estudo ou coletivo libertário, cada Biblioteca libertária.

De forma rizomática a ideia e a prática libertária no campo da educação se espalha sem um centro propulsor ou organizador, sem qualquer "cartilha" , "Livro sagrado" . Daí a dificuldade de compreendê-la pois escapa das narrativas tradicionais e aceita dos muitos "ismos" que pretendem determinar sentidos. Educação Libertária é devir , é nômade. Não está em um lugar, está em mil platôs....

Falamos um pouco sobre nossa perspectiva de Educação Libertária no Programa Educação, realizado pela jornalista Maria Lucia Walerko Moreira da TV Câmara de Pelotas que mostrou também o trabalho que estamos realizando na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas-UFPel e o nosso Grupo de Estudos Educação Libertária.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sarau de confraternização da Disciplina de Educação Libertária da UFPel




Realizamos na Faculdade de Educação da UFPel neste Semestre uma Disciplina Optativa de Educação Libertária. Participaram estudantes dos mais diversos cursos como sociologia, filosofia, Letras, Dança, Artes Visuais, Matemática, Psicologia, história, Pedagogia, bem como pessoas que participaram como ouvintes sem estarem matriculadas na Universidade. Foi uma experiência muito rica de troca de saberes e conhecimentos sobre uma ideia de Educação pensada e exercitada como autocriação libertária.

Neste semestre vimos um pouco da história da Educação Libertária, desde sua emergência no contexto da filosofia política anarquista que nasce na Europa no Século XIX como pensamento anticapitalista, com a contribuição teórica de pensadores como Willian Godwin, Max Stirner, Proudhon, Bakunin, passando pelas experiências práticas emblemáticas dos anarquistas no campo da educação como do "Orfanato de Cempuis" de Paul Robin, a "Colmeia" de Sabastién Faure, e a Escola Moderna de Francisco Ferrer i Guardia.

Conhecemos as experiências educacionais dos anarquistas no Brasil, pioneiros na educação popular para os trabalhadores e seus filhos durante às decadas de 10 e 20 do Século passado, onde destacamos as ações dos anarquistas na cidade de Pelotas.

Vimos por fim os momentos de renascimento do ethos libertário no final do século XX, com a revolução cultural de 68 e a emergencia da Filosofia da Diferença e seus  pensadores como Foucault e Deleuze e novamente o crescimento das alternativas de caráter libertário nas primeiras décadas do século XXI com as grandes mobilizações sociais antti-sistêmicas como de  2011 na Grécia e Espanha (indignados da Portta del Sol) e nas Jornadas de Junho de 2013 no Brasil, que abrem novas perspectivas na contemporaneidade para novas  práticas de Educação Libertária que se desenvolvem hoje através de processos de Desescolarização e de experimentações em espaços de vivência autônoma e autogestionária como as Okupas. 

Para nossa alegria libertária, encerramos nosso semestre com a ótima notícia do que ocorre em São Paulo: o belo movimento de ocupação de Escolas em São Paulo, no qual estudantes, pais e professores, ao protestarem contra as medidas do governo paulista de fechamento de escolas, responderam com a ação direta de ocupação e autogestão das Escolas. Um movimento cuja prática expressa os fundamentos da Educação Libertária, qual seja a Ação Direta, educação sem intermediários, feita e exercida por todos Ajuda Mútua, ou seja cooperação para troca de saberes e conhecimentos e Autogestão.

Podemos dizer que a Educação Libertária não é apenas uma teoria ou uma utopia é uma realidade que se constrói a cada dia em práticas como estamos vendo na Educação em São Paulo ou em diversas atividades como as realizadas nas Okupas e espaços auttogestionários. 

Para confraternizarmos com todos que participaram dessa experimenttação realizaremos um Sarau, na Sexta-feira, dia 04 , na OCA



Carta aos estudantes que estão ocupando as escolas de São Paulo, por Guilherme "Gui Sch"



Não era por 20 centavos e não é por 94 escolas.

E antes de tudo, não deixem fazer deste potente movimento pedagógico uma guerra.


O que vocês estão fazendo é infinitamente maior do que simplesmente tensionar uma tentativa de reorganização escolar estadual. O que vocês estão fazendo é muito maior do que simplesmente lutar contra o fechamento de 94 escolas. Vocês estão ousando revolucionar as formas com que se entende a educação. A organização pedagógica que vocês estão experimentando é incrivelmente potente e questiona profundamente os modos com que a educação escolarizada vem sendo aplicada.
Claro que suas ocupações tem pautas específicas, mas deixe vasculhar um pouco além dos objetivos, olhando para o dia a dia, olhando para o imediato da prática que vocês estão vivenciando.
Os muros são os mesmos, são as mesmas grades, as mesmas salas, os mesmos prédios e as mesmas pessoas, mas alguma coisa mudou com a organização para a ocupação. O que foi?
Quais os sentimentos da organização escolar burocrática anterior não existem mais? Quais os novos sentimentos que vieram à tona?
No funcionamento normal da escola existe uma certa desconfiança, os estudantes são tidos como incapazes, como inferiores não dotados de discernimento para decidir e executar o caminho da educação. Tanto é que sempre são outros que pensam o que é bom para ser ensinado em currículos nacionais, e sempre outros elaborar planejamentos pedagógicos e de aulas, os estudantes nunca são chamados para participar destas decisões, e isto mostra apenas a falta de confiança ou a descrença nas capacidades dos jovens e das crianças. Como poderíamos imaginar que vocês seriam chamados para dialogar sobre a reorganização. Estudantes não são ouvidos nem sobre o que desejam estudar, quanto menos seriam chamados para ser escutados sobre mudanças deste gênero.
O que vocês estão fazendo nestas ocupações é mostrarem suas imensas capacidades de auto organização, suas capacidades de decisão coletiva e autônoma, estão mostrando a maturidade que germina quando é permitido brotar criatividade. Estão mostrando a capacidade d e executar tarefas que lhes eram negadas por receio de suas incapacidades. Estão cozinhando sua própria comida, limpando o chao, capinando o pátio e mais estão organizando por si o currículo vivo proveniente de suas vontades, vocês são os planejadores, gestores, diretores e professores organizados coletivamente. E se mostram plenamente capazes.
Em alguns relatos percebi que a vontade e de ir para a escola, agora ocupada, era maior que anteriormente. Será que antes também não existia a vontade de fazer as atividades que agora estão fazendo? E será que não faziam estas atividades por que a burocracia disciplinar das aulas e mais aulas não os dava oportunidade de criar? Aulas e mais aulas pensadas e impostas por outras pessoas que faziam com que vocês não pudessem decidir o que gostariam de fazer por suas próprias vontades.
Na escola burocrática hierárquica não é possível ser responsável. Responsabilidade é apenas um conteúdo esperado, mas sem espaço para acontecer na realidade, pois posso sujar o banheiro, jogar lixo no chão e quando chegar meio dia a comida está pronta. E o pior, não há interesse por organizar os próprios estudos pois tem alguém que pensa isso pra mim, retirando a possibilidade de ser responsável por isso.
Quanto envolvimento é privado pela estrutura de funcionamento escolarizada da educação? E quanto envolvimento se faz possível e está acontecendo agora nas ocupações?
Capacidades, curiosidades, responsabilidade e envolvimento são alguns dos aprendizados que talvez estejam sendo percebidos neste movimento, e isto vai muito além da simples luta contra a reorganização, isso mostra que a educação pode ser muito mais divertida e satisfatória quando é cocriada. As escolas ocupadas estão vivas, cheias de vontades vibrantes, antes poderiam parecer mais mortas em seu funcionamento padrão.
E agora estão querendo fazer uma guerra contra esta mobilização autônoma, responsável e alegre. Não se deixem abafar, não se deixem ser miserabilizados novamente, não se deixem ser tratados como subalternos, inferiores ou incapazes.
Este movimento de ocupação conseguiu mobilizar uma valiosa meta da educação, a participação dos pais e da comunidade nas escolas, conseguiu rapidamente mobilizar agricultores e advogados para apoiar ativamente a causa. Estão conseguindo realizar e aplicar os sonhos mais lindos contidos nos planejamentos pedagógicos de autonomia, protagonismo, liberdade, alegria, responsabilidade, todas estas palavras que ficavam mortas num papel sem valor agora são vivas em suas atividades. Isto demonstra uma imensa conquista em termos de aplicação pedagógica.
A produção de conteúdos feita nestas 3 semanas de ocupações, em formato de vídeos, reportagens e atividades diversas tem sido infinitamente maior que nos tempos escolares normais. isto mostra como os conteúdos escolares são tijolos e as aulas são muros que acabam represando as potências dos estudantes.
Com todas estas mobilizações vocês estão mostrando que precisam ser escutados e que são legítimos agentes políticos construtores ativos da educação. Caso existam agentes partidários instrumentalizando seus movimento, resistam e recusem se mantendo autônomos.
Não deixem que as políticas públicas nem os currículos sejam despejados em vocês de cima para baixo. Não deixem este Alegre movimento se transformar mesmo em uma guerra. os gestores e governantes estão decepcionados porque gostariam que vocês permanecessem por toda vida dóceis e domesticados, mantidos sob o controle e a ordem deles, agora tipos construtores da educação estao sendo vistos como inimigos. Quem deseja guerra é rancoroso, ressentido, são pessoas tristes que sentem perdendo poder de manipulação. Sigam firmes e sigam mobilizados em qualquer cenário que se desenrolar, sigam mobilizando a comunidade para participar ativamente da educação, sigam se perguntando porque a escola se organiza em cima da pressuposição de que vocês são incapazes. E acima de tudo, sigam dançando e cantando a alegria de vida em luta sem se deixar impregnar pela idéia da guerra

domingo, 29 de novembro de 2015

A potência do ethos libertário ou Quando o Leviatã é colocado para correr, por Paulo Marques




O tema dessa postagem é um vídeo que mostra uma tentativa de "reintegração de posse", por parte do Estado,  de uma das mais de cem escolas ocupadas por seus estudantes, pais e professores em São Paulo. É uma verdadeira video aula sobre como funciona o "Estado Democrático de Direito"; que nada mais é do que o eufemismo que o velho Leviatã recebeu na modernidade. Isto porque, sua função permanece a mesma que foi fundamentada teoricamente por Thomas Hobbes. Ao mesmo tempo podemos analisar o que significa a Escola Estatal, de modelo Prússiano que, nascida na segunda metade do século XIX, ainda predomina como paradigma para as sociedades ocidentais modernas:  A Escola do Leviatã.

A cena se passa em 30 minutos e é  cinematográfica do início ao fim.

O principal argumento da oficial de justiça é direto e claro: " A escola é do Estado". Mais explícito que isso impossível. A ilusão da "escola pública" cai por terra, para decepção dos progressistas que ainda crêem nesse mito. 

A oficial do Estado ameaça os ocupantes com o uso da força. Os estudantes, em sua maioria adolescentes reagem; "Porque o juiz não vem falar com a gente?". A resposta é direta: o Leviatã não discute, exige o cumprimento da sua "Lei". O problema é que a "Lei" do Leviatã não tem sentido quando enfrenta a insubordinação, a subversão. Por isso a oficial começa a citar os "criminosos" que atentam contra a ordem  do "Estado Democrático de Direito" . Com um lista de nomes de estudantes, a "oficial" começa a citá-los em voz alta. Ameaça, com Conselho Tutelar, com a prisão, os "desordeiros" que não se entregam.

A auto-organização de professores, pais e alunos não se intimida com as ameaças do Leviatã: "A escola é nossa" gritam. Para o Leviatã isso é inaceitável, inconcebivel. A Escola foi criada pelo Leviatã e lhe pertence. Os estudantes, os pais e professores, afinal, foram criadas pelo Leviatã e, portanto, lhe pertencem. Essa é a compreensão do Leviatã. Para ele a sociedade é composta de servos, serviçais, eufemisticamente chamados "cidadãos" e "cidadãs" e como tal devem se comportar. É para isso que as Escolas foram criadas, para  formatar essa "cidadania" de cumpridores de Leis e Ordens; para aprender  a obediência, a disciplina, o bom comportamentto e a subserviência ao próprio Leviatã.

E quando ela perde essa função? e quando os súditos se rebelam? O Leviatã usa o que tem de mais eficaz: a força policial.  Escola deve ser retomada, eis a palavra de ordem do Estado. A educação saiu do controle, isso não será permitido jamais. Para isso o Estado tem tribunais, juízes, oficiais, advogados, exército, tem "Leis". Para que servem se não for para "manter a ordem"?  Para quê serviriam as Escolas se não fosse para adesttrar cumpridores de "Leis"?

"A Escola é nossa!!!!", o grito de estudantes, pais e professores ecoa no interior da escola, enfeitada com cartazes, faixas de indignação, de protesto, contra o "Estado de coisas". O grito é coletivo e acusa a contradição entre a promessa de um espaço público de educação que não é. Pais, estudantes e professores que ocupam as escolas começam a dar outro sentido ao espaço. Educação como construção comúm, pública, auto-organizada, auto-gestionada, sob controle da comunidade. Uma afronta ao Leviatã.

Ao final do video, quando chega a notícia de que a ordem não pode ser cumprida pois ainda não foi definitivamente deferida, a Oficial do Estado, sentindo-se derrotada lamenta o desfecho mas  ainda tenta um último esforço, agora não mais a mando do Estado, mas a partir de sua própria compreensão de sujeito sujeitado. Tenta "ensinar' para uma das mães que estão apoiando a ocupação que os responsáveis pelo que ocorre na escola são os "grupos radicais" e que seu filho seria ''prejudicado" com isso.  O discurso do funcionário do Leviatã é a incorporação mais profunda do ensinamento que teve, de que sem uma autoridade, sem alguém ordenando, sem submissão,  os seres humanos não são capazes de pensar ou agir por sua própria conta.

A fala da oficial de Justiça não é só a fala de um funcionário do Estado, é a fala da Educação Estatal. É a voz do Leviatã reproduzida por seus mais fiéis suditos. É essa fala que está sendo derrotada por outra fala, aquela que diz: "Não preciso de nenhuma autoridade que me ensine como eu devo viver a minha vida, como nós, coletivamente podemos organizá-la". Essa é a maior contribuição que esses estudantes estão dando com seu ethos libertário.




quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Escola Ocupada, educação Autogestionada, por Paulo Marques





"A vida na atualidade realiza acontecimentos trazidos pelo tempo e efetivados em espaços restritos ou ampliados, até mesmo extraordinários. Durante sua existência cada pessoa interfere nos eventos em sua volta, dando-lhes novos percursos, ignorando-lhes os rumos ou mantendo seus modorrentos itinerários. Por vezes, sob circunstâncias imprevistas, alguém é levado ao transbordamento das margens, dos limites, das fronteiras, das designações a respeito de onde devemos parar, sinalizadas por regras ou leis. Aí, ele se vê diante do caos e da beleza estonteante e experimenta liberdades"( Passetti, Augusto, p. 11) 


Autogestão nas escolas ocupadas no Estado de São Paulo,  transbordamento dos limites, eis o caos e a beleza estonteante que é a experimentação da liberdade que estamos presenciando. 

Autogestão na educação, esse é fenômeno novo que emerge no país a partir do processo de ocupação de mais de uma centena de escolas públicas em São Paulo. Sem teorias, sem representantes, "Líderes", organizações políticas, "entidades de representantes", os alunos de forma autônoma ocuparam as escolas que o governo ameaça fechar e começam a autogeri-las, organizá-las e colocar em funcionamento. Estudantes se convertem em propiciadores de experimentações que potencializam a liberdade, conforme Passetti a Augusto, 

"A vida está no combate constante entre as diversas forças conservadoras, que procuram manter relações pautadas no exercício de uma autoridade hierárquica mais ou menos centralizada, e os propiciadores de experimentações, que potencializam a liberdade" ( Passetti e Augusto, p. 12) 

A escola como instituição de reprodução da moral dominante, da disciplina e da ordem, representa essa autoridade hierarquizada que é derrubada tão logo é ocupada por um devir transformador e rupturista que experimenta novas práticas. O saber e o conhecimento rompem as jaulas da burocracia e dos saberes pré-fabricados e se generaliza como obra a ser construída. A engrenagem da "máquina de moer" emperra. Uma nova potência assume o comando. É nova, inédita para seus próprios realizadores. Não sabiam como deveria ser feito, foram lá e fizeram...




De forma coletiva propuseram e realizaram atividades culturais, educacionais, debates, oficinas aulas organizadas e ministradas pelos próprios alunos ou por convidados. Experimentam assim a Autogestão, a cooperação, ajuda mútua e a Ação Direta. Princípios básicos que caracterizam a prática anarquista. Não são anarquistas os jovens que ocupam as escolas, praticam sim, saibam ou não uma ética anarquista e libertária. 

Constróem na ação direta uma heterotopia de invenção, criam um outro "lugar" que rompe com o velho lugar. Da educação baseada no autoritarismo e na heterogestão ensaiam a liberdade e a autogestão. Negam autoridades, burocracias, hierarquias, currículos, chamadas, provas para fazer educação. Assim tem o espaço como seu, o que antes não sentiam. Por isso organizam a limpeza dos banheiros, ocupam a cozinha e produzem a alimentação, mudam a forma de vivênciar o espaço ocupado. Educar se converte em viver e praticar, a prática se converte em saberes. Como nos lembra Passetti e Augusto, 

Educar  está na vida da casa, na ida e volta ao trabalho, no próprio trabalho; nas folgas, nos amores, nos jogos com crianças, nos estudos, nas aventuras com e entre jovens; em fazer teatro sem ser ator ou espectador; em promover palestras para ampliar as conversações; em filmar, fotografar, gravar, cantar, escrever, ler, ouvir, falar sem se escorar na autoridade do proprietário do saber; em praticar ajuda mútua" ( Passetti e Augusto, p. 115) 





Ou seja, educar é autogestionar-se, autocriar-se como dizia Nietzsche "como obra de arte", possibilitando potencias e vontade de potencias. 

Se antes a Escola, cercada por muros, grades, gerida por burocracias e regulamentos pertencia ao Leviatã, os novos afetos de potência libertária, reconstróem estes espaços que agora lhes pertence.

Como um castelo a Escola  estava apartada da própria comunidade em que foi construída. Agora estas  mais de 100 escolas ocupadas, cada uma com suas especificidades, seus ensaios únicos, são resignificadas, reinventadas. Desescolariza-se a escola. 

Pode ser uma curta primavera libertária na educação brasileira, pouco importa o tempo. Sua força está na profundidade do que já fizeram. 

Abolindo hierarquias, autoridades, disciplinas, ordens, mostraram as possibilidades de uma outra educação, auto criação coletiva de estudantes, pais, professores.

Escola ocupada é escola autogestionada, eis a palavra de (des)ordem. Eis o que revoluciona o cotidiano, não é utopia, não é "projeto" é devir revolucionário em ato 

Enfim, um caminho que se faz ao caminhar...








Referência

PASSETTI, E. AUGUSTO A. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte, Autêntica, 2008.

Meu individualismo anarquista por Thierry


Meu individualismo anarquista1

Thierry2


Já desde alguns anos é muito difícil encontrar leituras anarco-individualistas sobre a atualidade. A batalha “classista” segue sendo frequentemente a prioridade sobre qualquer outra luta e os conflitos, quaisquer que sejam, se resumem a maior parte das vezes em problemas econômicos. O capitalismo seria o maior culpado.

Os “comunistas libertários” tem como filtro de leitura o coletivo e este desgraçadamente em detrimento do individuo. Sem contar com que ao individualismo frequentemente se lhe acusa de todos os males do anarquismo, seus valores são desviados até o ridículo. O individualista é então burguês, ou ultraliberal, ou pretensioso…

Lamentamos isso, ainda mais porque a autonomia individual, muito querida aos individualistas, é historicamente uma das primeiras demandas dos anarquistas. A historia do movimento anarquista mostra que em seus primeiros momentos de organização os anarquistas não queriam federações. A razão era simples: uma organização de qualquer tipo seria garantia de perda da autonomia individual. A ideia de grupo não era rechaçada, mas devia ser o menos coercitiva possível.

Seguidamente as federações vieram a luz, enquanto os indivíduos alertavam a companheiros e companheiras de prováveis excessos. É interessante observar que, se bem a maioria destes individualistas rechaçaram a organização em “grande escala”, outros estiveram presentes, negando-se a ficar à margem de um movimento que levava a esperança de mudanças sociais em consonância com seus próprios desejos.

Que individualismo?

Devo, neste momento, explicar o que para mim é o anarquismo individualista, mas sem colocar o individualista em uma categoria específica. Para este, e esta é uma base comum a todo individualista, não existe causa superior ao próprio indivíduo; nem sequer o anarquismo seria uma causa pela qual o individualista se sacrificaria.

A ideia não é encontrar-se sozinho contra todos como um ermitão anti-social, mas sim a busca de sua liberdade com os demais. O comum tem todo o sentido e interesse, e a pretensão de que uma pessoa possa viver fora de qualquer sociedade se revela falsa. O individualista parte de si mesmo, é o centro de suas preocupações, de suas lutas contra toda dominação. É por isso que não se define por um pertencimento que lhe superaria – identitário, social, comunitário ou de classe –, senão por suas escolhas conscientes e sua ética pessoal.

Meu individuo prima sobre os grupos sociais que uniformizam e tendem a subordinar aos indivíduos a dogmas ou a líderes. Para mim é primordial fazer de tudo para não dobrar-me a nenhum determinismo social.

O individualista luta contra o fato de que o individuo siga sendo uma construção social e, portanto, produto das condições sociais. Ele quer ser a soma de seus atos, experiências e escolhas, que não são, naturalmente, separadas das escolhas e atos dos demais indivíduos que compõem a sociedade, mas não devem ser de modo algum determinadas por elas.

Em uma agrupação de indivíduos minha prioridade é meu bem-estar. Se, em um grupo, cada indivíduo aceita que seus gestos e pensamentos são guiados por seus próprios interesses – e portanto não se esconde atrás da hipocrisia do sacrifício pelos demais – ; se cada pessoa pensa por si mesma, mas nunca contra os demais; se não se trata em nenhum caso de darwinismo social; se cada pessoa defende sua autonomia individual, então as relações humanas se estabelecerão em pé de igualdade e fora de toda tentativa de dominação.

Classe ou indivíduo?

Assim, o individualista não se opõe a toda agrupação. O perigo, no entanto, é que todo grupo que ganha estabilidade corre o risco de converter-se em autoritário ou inclusive terminar atormentado por sujeitos que desejam converter-se em indispensáveis. Não obstante, se este grupo é baseado na associação livre, onde o indivíduo se considera como uma unidade e não uma parte de outra unidade (o grupo) e onde o indivíduo não dá conta mais que a si mesmo atuando de acordo com sua própria ética e não por uma moral imposta, então o individualista não colocará objeção alguma a sua própria participação. Pelo contrário, é muito consciente da importância destas associações livres.

Há em um individualista um profundo desacordo com os que chamaria “os classistas”. Estes veem o indivíduo como uma construção ideológica. Para o individualista que sou, são os indivíduos – independentemente de se são ou não conscientes de sua unicidade – que criaram esse grupo social de classe a que nele se encerram. E a criação desta entidade ideológica define o individuo fora de si mesmo por sua condição em lugar de por o que ele fez de si mesmo.

Ademais, não me sinto necessariamente companheiro de todos os proletários. Se para mim está fora de lógica sentir-me perto a alguém que explora os demais, isso não me converte automaticamente em simpático a qualquer explorado. O verdadeiro irmão – a irmã de verdade – não é sempre o mais afetado pela exploração, senão quem deseja emancipar-se das categorias nas quais se encontra capturado.

A sociedade de amanhã

O que realmente me assusta dos companheiros e companheiras que tem ideias sobre a organização pós-revolucionária, é quando pensam que a emancipação individual só pode lograr-se através da emancipação coletiva; assim a potência individual se converte no resultado das necessidades coletivas satisfeitas. Nós vemos aí claramente um risco significativo de autoritarismo anarquista que obriga a seguir as regras estabelecidas pelos mais iluminados, relativas ao que seria necessário para os indivíduos. Para mim, as exigências do indivíduo estão a frente daquelas da sociedade, é a afirmação do Eu, da minha própria finalidade e ademais toda ação não tem valor mais que para Mim.

Recordo uma discussão com uns companheiros sobre a possível economia libertária. Cada um ia com sua ideia e seus planos sobre a forma de organizar-se. Estes momentos sempre me dão um pouco de medo. Em suma, há lugar para a dissidência? O que acontecerá, nestes paraísos sociais, se me nego a participar? Não nos confundamos, as projeções de companheiros e companheiras sobre a redistribuição da riqueza são muito atrativas, são suas convicções o que me assusta. Sempre tenho a sensação de que me será impossível realizar-me como eu o entendo. Um exemplo: Se eu denuncio um trabalho como alienante inclusive fora de um sistema capitalista, mas o grupo, a comuna, decide outra coisa, tenho que alinhar-me ou resistir a este paraíso? Qual é então o lugar para minha autonomia individual? Nestas discussões, frequentemente tenho a impressão de que os muros já estão construídos para os dissidentes.

Revolução? Não, devir revolucionário

Outra preocupação que tenho acerca das propostas de muitos companheiros e companheiras é a sua visão desse momento em que tudo mudará de um sistema para outro. Estou por que os que trabalham decidam sobre sua organização e me oponho totalmente a que uma pessoa possa viver a expensas de outro, não posso no entanto crer no poder onipotente de uma revolução. Não é suficiente implorá-la, há que construí-la. Por isso prefiro falar de devir revolucionário mais que de revolução. Prefiro uma vida revolucionária desde agora que uma revolução amanhã. E a revolução, há que fazê-la com todo mundo ou contra todo o mundo? Tenho hoje a sensação de que agora, os homens e as mulheres emancipadas de prejuízos, de desejos de obedecer e do prazer de dar ordens são menos numerosos. Tenho a sensação de que amanhã apenas serão mais. Minha inquietude é ver esse desejo de revolução ou insurreição muito acima do que eu chamo “a coletivização da emancipação.”

Porém vale a pena repetir uma e outra vez: não existe oposição entre individualista e anarquista na crítica das condições sociais atuais nem na organização da repartição da produção.

O individualista não dita a cada um a melhor maneira de organizar a economia, a produção. O que importa sobretudo é a ação individual. O qual, naturalmente, não exclui o comunismo como organização econômica.

Este é meu individualismo: um individualismo social com uma finalidade comunista e egoísta.



1Artigo publicado no site da Revista NADA,http://revistanada.com/, em 5 de agosto de 2015. Tradução para o português de Paulo Marques

2Thierry, o autor é integrante do Groupe Germinal de la Fédération anarchiste ( França)

 

Célebres anarquistas individualistas 






Voltairine de Cleyre


Zo'Daxa

Emma Goldman




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Educação Anarquista em Pelotas: passado e presente: Primeiros resultados da Pesquisa "Memória, teorias e práticas de Educação Libertária no RS" da UFPel





Neste segundo semestre de 2015 iniciamos os trabalhos da Pesquisa "Memória, teorias e práticas de cultura-educação libertária no Rio Grande do Sul", aprovada pelo COCEPE/UFPel, código 5767. A pesquisa está sob coordenação do Prof. Dr. Paulo Marques, da Faculdade de Educação/UFPel e conta com a colaboração do Prof. Dr. Édio Raniere da Psicologia da UFPel. O grupo de pesquisa é formado pelos acadêmicos Juliana Broilo(Geografia), Aline Igansi(Dança), Iago Nizolli(Letras/Francês), Edson Moreira(História), Leandro Silveira(Artes Visuais), Marcela Paz( Pós Memória e Patrimônio Cultural), Suelen Lemons(Psicologia), Pablo Castro(Filosofia) . 

A pesquisa tem como objetivo geral realizar um estudo das experiências de educação libertária, fundamentadas no pensamento filosófico de matriz anarquista no Rio Grande do Sul e na região sul em especial. A partir do resgate dos referenciais teóricos da filosofia educacional libertária e suas práticas tanto internacionais como nacionais, busca identificar o seu legado e influência nas atuais experimentações, bem como identificar a contribuição da mesma para a educação na atualidade. 

Assim a pesquisa se organiza em três eixos: Memória, teorias e práticas

Eixo Memória: A partir de uma pesquisa bibliográfica buscamos realizar um resgate da memória das experiências realizadas pelos anarquistas nas primeiras décadas do século XX, quando os libertários hegemonizaram o movimento operário, o que possibilitou a construção de diversos espaços educacionais de caráter libertário suprindo a lacuna da inexistência de educação para os trabalhadores e seus filhos. Neste primeiro momento pesquisamos as ações dos anarquistas em Pelotas.

Eixo Teorias: Busca constituir um acervo de pesquisas, teses, dissertações e artigos atuais relacionados a Educação Libertária através de acesso a bibliotecas virtuais de Universidades, Centros de Pesquisa . Essa pesquisa está em andamento.

Eixo Práticas: Busca realizar uma pesquisa de campo nas experimentações atuais de cultura-educação realizada por individuos e/ou grupos que se auto-identificam como anarquistas e libertários. Nesta primeira fase pesquisamos a OKUPA 171, espaço de vivência autogestionária existente a 6 anos na cidade de Pelotas e que se constitui como referência de práticas libertárias de educação e cultura. 

A partir dessa pesquisa realizamos o primeiro artigo do Grupo de Pesquisa, apresentado na III Jornada de Educação Libertária, realizada na Universidade Federal de Pernambuco, nos dia 12 a 16 de outubro de 2015. O artigo será publicado em livro pelos organizadores do evento. 

No dia 13/11 o Grupo de Pesquisa promoveu o debate sobre desescolarização na OCA - Ocupação Coletiva de ArteirXs


Abaixo postamos o artigo que é também um resumo dos primeiros resultados da pesquisa:



100 ANOS DE CULTURA-EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA EM PELOTAS:
Do Grupo Iconoclasta à Casa Okupa 171
Paulo L. A. Marques1
Edson Rodrigues2

Introdução

O presente artigo propõe-se a realizar um resgate da memória das práticas de cultura-educação libertária na cidade de Pelotas e o legado que tem sido retomado através das ações dos libertários nas vivências autogestionárias das Okupas, que se constituem como espaços autonomos de educação libertária da contemporaneidade.

No primeiro momento resgatamos a história das ações realizadas pelos libertários nas primeiras décadas do Século XX, em particular as iniciativas do“Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres”- constituído por operários, artistas e intelectuais anarquistas no ano de 1914 - e no segundo momento abordaremos as atividades libertárias que, cem anos depois, serão retomadas na cidade, através dos libertários da Casa Okupa 171, espaço autônomo de vivência libertária3, que já completou 6 anos de existência.

A Okupa 171 constitui-se hoje como experiência/ensaio/invenção que, guardadas as diferenças, retomam as práticas de cultura libertária ocorridas em Pelotas no século passado. Se naquele período os anarquistas criaram os Ateneus nos sindicatos e Escolas Modernas, como instrumento de educação para a classe trabalhadora, hoje existem os Grupos de Estudo, Oficinas, Ciclo de cine-debate, bibliotecas como atividades de cultura-educação das Okupas; se ontem os libertários criaram jornais e revistas, hoje existem os blogs, sítios e fanzines digitais; se no passado os libertários realizavam piqueniques e teatros, hoje fazem pizzadas e Circo Àkrata; se antes dirigiam sindicatos, hoje atuam na construção de espaços de vivência e produção econômica coletiva e autogestionária.

Ou seja, pode-se perceber o legado do passado nestas atividades das Okupas, cujas premissas da autonomia individual, autogestão, ação direta, ajuda mútua, cooperação e solidariedade constituem a prática do que Passetti e Augusto(2008) identificam como heterotopias da invenção, um outro lugar de experimentações, agenciamentos de novas subjetividades éticas e estéticas próprias. São novos tempos e circunstâncias diferentes que mantém ideias-forças, valores e práticas que permanecem vivas nas invenções de cultura-educação libertárias de hoje.
A educação anarquista volta-se para a liberdade, experimentações e maneiras de lidar com a criança e o jovem que os fortificam como pessoas autônomas, com capacidade de entendimento e decisão; valoriza a rebeldia (…) Maneiras de educar elaborando regras móveis, feitas para e com as pessoas envolvidas com a educação e mesmo em escolas, em função da potência livre da vida da criança. Situações que poderíamos caracterizar, seguindo sugestões de Michel Foucault, próprias de uma heterotopia, experimentando-se subjetividades, éticas e estéticas próprias e que nos anarquistas se distinguem como heterotopias de invenção (Passeti e Augusto,2008,p.81)
Nosso objetivo, portanto, é relacionar esses dois momentos de conformação dessas heterotopias de invenção libertárias analisando os elementos de continuidade e inovação que contém, ao mesmo tempo, diferenças e semelhanças, que constroem uma cultura libertária viva, cujo presente, com todas as especificidades relativas à tempo e contexto, mantém um legado que é constitutivo das novas possibilidades que se abrem para uma Educação Libertária do século XXI.
O Cenário: os libertários no movimento operário de Pelotas no inicio do século XX



A cidade de Pelotas e Rio Grande, ambas localizadas na região sul do Estado do Rio Grande do Sul são consideradas pela historiografia como o “berço do movimento operário gaúcho (Marçal, 1985; Petersen e Lucas,1992). Essa identificação se justifica pelo fato de que foi nessas duas cidades que se deu o inicio do processo de desenvolvimento industrial do Estado desde meados do Século XIX. Tendo nos setores de alimentação e têxtil suas mais importantes industrias vinculadas a exportação e importação, a cidade de Pelotas tornou-se um polo de atração de um significativo contingente de operários imigrantes, principalmente alemães e italianos. Parte importante destes trabalhadores traziam consigo as novas ideologias nascidas na Europa como o marxismo, socialismo e o anarquismo. Segundo Edgar Rodrigues(1984) no seu livro Os anarquistas: trabalhadores italianos no Brasil”, o primeiro anarquista italiano que se tem notícia, chegou a Pelotas por volta de 1880 e chamava-se José Saul:
Suas ideias escandalizaram os reacionários, preocupavam as autoridades e deixavam confusa a maioria dos trabalhadores pouco esclarecida. Apesar disso, firme em suas convicções libertárias, inicia um trabalho paciente de doutrinação e vai ganhando seguidores. O seu progresso ideológico cresce e não tarda a organizar os primeiros Grupos Libertários, mas autoridades preocupadas com o avanço de suas ideias, resolvem expulsá-lo de Pelotas(RODRIGUES,1984, p.55)
Com a ampliação de uma nova classe operária emergente, criam-se as suas primeiras entidades de Apoio Mútuo, as mutualistas, que fariam parte da pré-história do movimento operário(Foot, Leonardi, 1982). Segundo Marçal(1985) em seu livro As primeiras lutas operárias do Rio Grande do Sul” foi possível identificar três etapas do período de nascimento do movimento operário gaúcho: uma primeira etapa que ele denomina de período mutualista, que seria a fase embrionária iniciada a partir da criação da primeira entidade de ajuda mútua que foi a “Sociedade Operária Italiana Mútuo Socorro e Beneficiência Vittorio Emanuele II” em Porto Alegre, no ano de 1877 e uma década depois o “Congresso Operário” (Associação) de Pelotas, em 1887 que, posteriormente, viria a se transformar na Liga Operária, considerada pela historiadora Silvia Petersen(1992) a mais antiga sociedade operária do Rio Grande do Sul.

A Liga Operária terá um papel chave nas atividades dos libertários na cidade no período de hegemonia dos anarquistas que se desenvolvem durante as décadas de 10 e 20 do século passado. É no interior da Liga que atuará o “Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres”.

Primeiro Congresso Operário Brasileiro de 1906, sob hegemonia anarquista

A partir de 1910, inicia o chamado Período Anarquista, com a hegemonia dos libertários na Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS), a primeira entidade unificada de âmbito estadual da classe operária criada em 1906. Conforme Marçal (1985) o trabalho dos anarquistas no movimento operário começou desde 1894 de forma tímida, com o jornal “A Luta” editado em Porto Alegre, mas que ao longo dos anos iria crescer, contando com o aumento da chegada de imigrantes europeus(alemães, poloneses e Italianos) para trabalhar na nascentes industrias. Esse crescimento dos libertário é lento mas constante. Segundo Marçal :
Quando relançam o jornal “A Luta”, em 1906, já estão realmente dispostos a conduzirem as lutas dos trabalhadores. E essa influência vai crescendo à proporção em que cresce o comprometimento dos socialistas com a classe dominante. A grande greve de 1906 – única deste período- por exemplo, sai para a rua na 'marra', 'puxada' pela vanguarda anarquista( marmoristas) que reunia e discutia na Escola Eliseu Reclus, dirigida pela figura apostolar de Polidoro Santos( MARÇAL, 1985, p. 15)
Pode-se perceber daí o papel político que a Educação e em especial as escolas, tiveram para os libertários como parte fundamental do processo de luta pela construção de uma sociabilidade libertária. Conforme Luizzetto aponta :
Para o movimento libertário era muito especial o papel representado pela educação: de um modo geral, era claro para a maioria dos militantes que ela não era a única nem a principal agente responsável pelo desencadeamento da revolução; mas era evidente para eles que, sem a ocorrência de mudanças profundas na mentalidade das pessoas, mudanças provocadas em grande parte por intermédio da educação, a revolução social poderia não alcançar o êxito desejado(LUIZETTO, 1987, p.42)
Os libertários, portanto, coerentes com seus princípios de autogestão, ajuda mútua, cooperação e ação direta, não esperavam pelo Estado ou por qualquer instituição privada para realizar seu aprendizado e de seus filhos. Tão logo se estabeleciam em alguma cidade como operários, organizavam seus sindicatos, associações, entidades, ou mesmo começavam a integrar entidades já existentes de defesa da classe trabalhadora; imediatamente defendiam e efetivavam a construção de Escolas e espaços de instrução e formação como os ateneus(espécie de escola para adultos com sede nos sindicatos).

Uma outra peculiaridade dos libertários no campo da educação é a sua intrínseca vinculação com a cultura. Para os libertários educação(formação/instrução) e cultura se complementavam. Suas intervenções na área da educação, segundo Luizetto(1987), fundamentavam-se, claramente,na concepção de Instrução integral concebida pelo educador Paul Robin4, e que terá um Bakunin um dos principais defensores. Nessa perspectiva a educação deve ser um processo de formação integral do indivíduo envolvendo todos os saberes e conhecimentos oriundos da capacidade intelectual da humanidade.
Dessa forma os jornais, o teatro, os grupos musicais, as publicações de livros, poesias eram instrumentos, praticas, fundamentalmente de formação.

Nesse cenário temos o desenvolvimento de ações e práticas de educação libertária levada a cabo pelos anarquistas que atuavam em Pelotas, sendo responsáveis por iniciativas e experimentações com um rico significado que mostraram as potencialidades das práticas culturais e educacionais autônomas e autogestionárias desses ativistas.
Os anarquista não se limitaram, como antes a proclamar as virtudes da educação, protestar contra a educação dominante e propor genéricas mudanças no ensino. Trataram de formular, de um modo sistematizado, os pressupostos que deveriam orientar a educação libertária e passaram a colocar em prática, ou então, a apoiar, propostas educacionais que pareciam adequadas aos seus propósitos revolucionários(LUIZETTO, 1987, p.51).
Como parte dessa educação os libertários utilizaram uma diversidade de iniciativas de caráter cultural como o teatro, a literatura (prosa, poesia) a música; e como canal dessas expressões uma quantidade significativa de jornais, periódicos semanais que cumpriam funções pedagógicas além da informação. Nessa aspecto destacou-se o papel protagonista do“Grupo Iconoclasta de pensadores livres”.


O Grupo Iconoclasta de pensadores livres: 
os pioneiros da cultura-educação libertária em Pelotas

Livro pioneiro de João Batista Marçal que registra a memória do Grupo Iconoclasta de pensadores livres" criado em Pelotas por anarquistas em 1914

Foi nesse contexto de hegemonia dos anarquistas no movimento operário gaúcho, com a conquista da direção da FORGS, a partir de 1910 e que atingirá diversas entidades por todo o Estado que se inicia o período mais rico de atividades culturais-educacionais dos libertários em Pelotas. Conforme destacou Marçal :
Os anarquistas e anarco-sindicalistas tomam quase todas as associações de trabalhadores, a começar pela FORGS. Organizam os que estão desorganizados. Tiram a massa para a rua, em 1912, numa grande campanha contra a carestia. Fazem várias greves, quase todas vitoriosas – pequenos prelúdios da grande greve de 1917, que passaria à história como “ A Guerra dos braços cruzados”. E assim eles entram pelos anos 20 adentro, fazendo greves, fundando jornais, criando associações, agitando a questão social em clima de absoluta liberdade e autonomia, sem se aperceberem que o Estado – seu grande inimigo – tramava já, na moita, formas especiais de freá-los. Esse espírito e essa intenção foram os geradores do Ministério do trabalho e da grande noite de controle, vigilância e fiscalização policialesca que se abate depois de 1930 sobre o sindicalismo brasileiro (MARÇAL, 1985, p. 16)
Segundo Miranda(2014) citando a pesquisa de Loner (1999), nas duas primeiras décadas de existência a Liga Operária de Pelotas teve uma hegemonia burguesa, contando com integrantes não só operários mas empresários, donos de oficinas e jornais. A presença destes setores patronais vinculados à classe média e alta, facilitou a aquisição de um prédio para sediar a associação5.

Em meados de 1910, a diretoria da Liga Operária de Pelotas, uma das entidades mais antigas da cidade já era composta por uma maioria anarquista.

Com o controle dos anarquistas a sede da Liga se torna um espaço para as diversas atividades propostas pelos libertários. Coerentes com sua visão de integralidade das ações, no qual política, cultura, educação se complementavam, foram criadas um conjunto de iniciativas como Grupos de Estudo, teatro e música, jornais, escolas e Ateneu.

Em sua pesquisa, Miranda (2014) destaca por ordem cronológica as principais iniciativas: Federação Operária (1913), Centro de Estudos Sociais (1914), Grupo Teatral Cultura Social (1914); Grupo Musical 18 de Março (1914); Grupo Iconoclasta (1914) que criará o Ateneu Sindicalista Pelotense (1914), a Escola Primária (1914), com aulas noturnas gratuitas para crianças e adultos; Sindicato dos Inquilinos (1915); Centro Feminino de Estudos Sociais (1915); Núcleo Popular Pró-Paz (1915); Grupo Juventude Anti-militarista (1915); Banda Musical 11 de Novembro (1916) e Escola Racionalista ou Moderna (1918).

Loner(1999) destaca o papel dessas entidades e o período de maior intensidade das atividades:
Pela análise, percebe-se que o ponto máximo de atividade do grupo libertário, em termos de manifestações culturais, ocorreu nos anos de 1914 e 1915, nos quais havia em atividade grupo teatral, banda musical, centro feminino e de jovens, centro de estudos e um grupo de pensamento libertário, escola de teatro, escola para crianças e Atheneu operário para adultos, além da manutenção de um jornal em 1915 e outro em 1916 (Loner, 1999, p. 186).

Pode-se perceber por esse conjunto de grupos e atividades a forte e constante preocupação dos libertários com a educação com a criação de uma variedade de instrumentos e espaços dedicados a instrução e formação como o Centro de Estudos Sociais, o Atheneu Sindicalista/operário Pelotense, a Escola Primária, o Centro Feminino de Estudos Sociais, Escola Racionalista ou Moderna e o Jornal “A Luta” que também cumpria um papel formativo de divulgação do ideário anarquista, de suas lutas e atividades.

Cabe destacar que temos poucos registros dessas experiências educacionais como a do Atheneu sindicalista(voltada para a educação de adultos) e a Escola Moderna (voltada para crianças). As informações em sua maioria se restringem às matérias dos jornais editados pelos libertários.

As pesquisas já realizadas(Marçal,1985, Pettersen, 1992, Loner, 1999, Miranda, 2014) nos permitem dimensionar a importância do papel do “Grupo Iconoclasta” nesse processo, como uma das iniciativas mais atuantes na promoção de atividades relacionadas a cultura e a educação. Uma das razões para esse protagonismo foi o fato de que entre seus criadores estavam ativistas como Victor Russomano e Zenon de Almeida, duas figuras emblemáticas na história da educação libertária gaúcha, tanto teórica quanto prática.

Conforme Marçal(1985) o “Grupo Iconoclasta”, cujo nome completo, segundo Miranda(2014) era “Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres”, foi criado em julho de 1914 , ano em que começa suas atividades,
(...)promove uma série de pesquisas sobre o movimento operário no Estado, a divulgação do ideário anarquista, comícios contra a guerra e um ciclo de palestras pronunciadas por agitadores libertários, entre os quais Lemos de Almeida, ao que tudo indica a principal figura deste grupo(Marçal, 1985, p.116)6
Também segundo Marçal(1985) o “Grupo Iconoclasta” será o responsável por criar o Ateneu Sindicalista Pelotense” que conforme o modelo nascido do movimento operário espanhol no final do século XIX, durante a segunda República, cumpria a função de escola da classe trabalhadora, funcionando nos sindicatos e voltado principalmente para a educação de adultos. Os ateneus tornaram-se a resposta prática dos libertários à inexistência de escolas para a classe operária e também um experimento que mostrou a possibilidade de que os trabalhadores construíssem seus próprios instrumentos de ensino e aprendizagem, prescindindo dos aparatos estatais ou privados ou confessionais.

Pioneira e ainda única obra, de João Batista Marçal que resgata a história dos anarquistas gaúchos e suas atividades, incluindo as educacionais.

Outra iniciativa marcante do Grupo foi a edição do Semanário “A Luta” no ano de 1916. O Jornal circularia aos sábados com o objetivo de divulgar as ideias anarquistas e informar assuntos da atualidade. Sobre este jornal Miranda(2014) destaca que o jornal “O Rebate” em sua edição de 28 de janeiro de 1916, informou sobre a reunião do Grupo Iconoclasta que seria realizada no dia seguinte para tratar da nova publicação. Após o lançamento do primeiro número no dia 12/02/1916, já no seu número seguinte ( 19/02/1916) os editores de “A Luta” publicam uma notícia cujo conteúdo é uma resposta à repercussão da nova publicação, que não agradou alguns setores da sociedade:

O aparecimento d’ ’A Luta’ veio perturbar o bom humor de muita gente honesta, para cujos cérebros, obcecados pela ignorância ou pelo interesse, nós somos uma horda de heréticos, dinamiteiros, bandidos homens universalmente perigosos à sociedade, à família e à religião. Sentimo-nos francamente lisonjeados com essa tão afetuosa coleção de epítetos com que costumam mimosear-nos os nossos inimigos sistemáticos... e os inconscientes(“A Luta”, 19 de fevereiro de 1916, citado por MIRANDA, 2014, p. 70-71)7

Da mesma forma seu conteúdo deixava claro que como toda atividade ácrata a publicação ia além de seu papel estritamente propagandista, tinha também um caráter cultural-educacional, no sentido de servir como como instrumento de formação da classe trabalhadora, o que pode ser observado pelo seu conteúdo que ia além de informações sobre fatos ou notícias de atividades, mantendo espaços dedicados à reflexão teórica. conforme descreve Miranda :
Dentre os os temas abordados pelo A Luta destacam-se: anarquismo, arte social, teatro livre, a questão da mulher, guerra, miséria, política, entre outros temas que eram de grande importância no seio da classe trabalhadora anarquista. Seus artigos tinham a autoria de diversos operários, demonstrando abertura para a participação coletiva. Em nota publicada no primeiro exemplar do periódico, dia 12 de fevereiro de 1916, há o convite para que os leitores fossem colaboradores do jornal desde que obedecessem seu programa, não o usassem para ataques pessoais ou questões particulares e não excedessem o espaço de três tiras. Para tal, as correspondências deveriam ser enviadas para a Liga Operária. Além dos diversos colaboradores, eram publicadas citações na coluna intitulada Para Refletir, que demonstram o amplo conhecimento intelectual daqueles que editavam o jornal, fazendo referências a obras diversas como, por exemplo, frases de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), Friedrich Nietzche (1844-1900), Liev Tolstói (1828-1910),(MIRANDA, 2014, p. 72-73)
Conforme citamos anteriormente o Grupo Iconoclasta cumpriu um papel significativo como impulsionador de ações no campo culttural educacional principalmente por contar entre seus fundadores com a presença de dois importantes intelectuais libertários da época,Victor Russomano e Zenon de Almeida. O primeiro como pesquisador e pioneiro no estudo da educação sob a perspectiva libertária e racionalista de Francisco Ferrer e o segundo por ser uma das figuras centrais da criação da primeira Escola Moderna de Porto Alegre.

Vitor Russomano, na época de criação do Grupo Iconoclasta” , conforme Marçal era um “jovem anarquista, antti-clerical ferrenho” , destacou-se como um pioneiro na produção teórica avançadas nos temas da educação e os direitos das mulheres. Filho de um imigrante italiano, o sapateiro Frederico Russomano, esse jovem intelectual escreveu dois trabalhos emblemáticos, “A Escravidão social da Mulher”, obra pioneira do feminismo brasileiro, escrita com forte influência das teses de Enrico Ferri, que ele conhecera pessoalmente em 1910 e a “História Natural do Educando”, originada de sua tese de doutorado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a qual, segundo Marçal(1985) foi “aprovada com distinção e recebida com aplausos na comunidade acadêmica carioca da época”. Este livro, também foi pioneiro por abordar pela primeira vez no Brasil uma pesquisa baseada nos conceitos da Escola Moderna de Francisco Ferrer. Publicado em 1914 pela Tipografia do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, se caracterizava por um estudo sobre a educação onde defendeu um ensino baseado no anticlericalismo radical, o racionalismo e um tipo de educação despida de dogmas e preconceitos.

Zenon de Almeida ( conhecido como o "O Espártaco do Sul)

Junto com Victor Russomano outra personalidade de destaque entre os fundadores do Grupo Iconoclasta é Zenon Budaszewski de Almeida. Filho de uma família de imigrantes poloneses, nasceu em Porto Alegre, e por sua trajetória de militância pode ser considerado uma das figuras mais emblemáticas do anarquismo gaúcho e em particular de Pelotas na década de 10 do século passado. Quimico industrial, Intelectual autodidata, orador, professor, poliglota(falava polonês, alemão, inglês e Idíche), jornalista e teatrólogo, atuou em Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Rio de Janeiro e Pelotas. Em seu livro sobre os anarquistas gaúchos Marçal destaca as iniciativas de Zenon no campo da cultura e educação, no período em que militava no Grupo Iconoclasta:
Zenon se transfere para Pelotas, onde se joga de corpo inteiro nas lutas da classe operária. Trabalha como auxiliar de químico no frigorífico Armour. Faz palestra no Centro de Estudos Sociais que ali funcionava sob comando de Antonio Gomes da Silva. Funda o Teatro Primeiro de Maio, na Casa dos Trabalhadores, e o Ateneu Sindicalista Pelotense”, cujo fim é instruir, educar e preparar o operariado”. A “Voz do trabalhador”, de 5 de agosto de 1914, acrescenta que essa é uma “instituição proletária de instrução, educação e preparação prática, por meio de preleções lidas e faladas, cópias de trechos de livros úteis – sociologia e ciêntíficos- provas escritas, etc.” Na inauguração, Zenon faz uma palestra sobre Ensino Racionalista. Juntamente com Santos Barbosa, secretário Geral da Federação Operária de Pelotas-FOP, funda também o Grupo Teatral Cultura Social, repetindo experiência obtida junto ao operariado carioca.( MARÇAL, 1995, p. 35-36)
Em agosto de 1915 Zenon lança o Jornal Terra Livre do qual será editor. Esse jornal será o porta-voz da Federação Operária e das entidades que ele dirigia como o Grupo Iconoclasta e o Ateneu Sindicalista. Em Pelotas Zenon havia lecionado no Ateneu Sindicalista e ao voltar a Porto Alegre continuará seu trabalho em prol da educação libertária. Será fundador, professor e dirigente da primeira Escola Moderna da cidade, criada nesse mesmo ano juntamente com Polydoro Santos e Djalma Fettermann. Essa escola foi mantida pela Sociedade Pró-Ensino Racionalista, criada em 1916. Casa-se com Eulalia Martins, também educadora da Escola. Em 1916 , novamente em Pelotas será redator do jornal A Luta. Em 1917 passa um período em Rio Grande onde edita "O nosso verbo", órgão da União Geral dos Trabalhadores Riograndinos. Sobre esse período Marçal destaca:

Em Rio Grande, nessa época, adquiriu um prelo portátil e uma fonte de tipos, passando a editar uma folha revolucionária, de pequeno formato, mas com ilustrações humorísticas extremamente mordazes, anti-burguesas e anti-clericais, já que ele dominava a técnica de clicheria e desenhava muito bem. De lá passou para São Jerônimo, onde trabalhou na administração das minas. Novamente em Porto Alegre, com Geyer e Djalma, aperfeiçoou um detonador que transformasse dinamite em granadas de mão. Djalma, como mecânico e ourives; Geyer, médico, com a cesso à produtos químicos; e ele Zenon, como químico, conseguiram um petardo que, em 1917, apavorou a Brigada Militar, tirando-lhe a iniciativa(MARÇAL, 1995, p.37)
Será um dos líderes em Porto Alegre da greve geral de 1917. Nos anos 20 continua atuando politicamente e trabalhando como químico industrial . Vai para o Rio de Janeiro, adere ao a ALN de Prestes. Trabalha na Embaixada da Polônia no Brasil até sua morte em 1940.

O papel do “Grupo Iconoclasta”, que se expressou em suas atividades e nos militantes engajados nesse trabalho, mostra de forma inequívoca o significado da concepção de educação dos libertários naquele período, qual seja, um processo amplo, diversificado e integral de práticas de caráter cultural(teatros, música, e formativas( Ateneu, Centros de Formação, Escola Moderna, jornal) vinculados à ideia força de construção de sujeitos livres/libertários para uma sociabilidade livre. Tinham, portanto, muito claro o papel que estas iniciativas cumpriam no seu projeto de formação do homem e da mulher libertária. O papel estratégico da criação de uma nova cultura emancipatória. É esse tradição/cultural que estarão presente nas diversas iniciativas encontradas 100 anos depois nas experimentações/vivencias libertárias das Okupas que resgatam, com suas diferenças, especificidades e singularidades esse legado libertário.

Mesmo com toda essa riqueza histórica, a memória das ações dos educadores libertários permanece marginalizada na academia. Entretanto, isso começa a mudar a partir das novas práticas de cultura-educação que emergem nos espaços de vivência anarquista como as Okupas, que não só inauguram novas formas de vivência libertária como, a partir das práticas de cultura-educação que realizam, resgatam, ao mesmo tempo, a memória e o legado dos pioneiros da educação libertária na cidade, como por exemplo a dos Iconoclastas de 1914, que são parte de uma história que ainda continua a ser escrita.

Unica foto da Escola Moderna de Porto Alegre, fundada em 1915 e funcionando até 1916. Entre seus fundadores e professores estava Zenon de Almeida( segundo em pé da esquerda para a direita).

As OKupas como heterotopias de invenção libertária


As “Okupas” com K, são a versão brasileira dos “squat”, ação de ocupação de espaços imobiliários como casas, prédios que estão ociosos e sem uso para transformá-los em espaços de vivência e cultura libertária autogestionária. Essa prática nasce nos anos 60 na Europa, inicialmente como ação de resposta à falta de moradia, realizada através da ocupação de casas, apartamentos e prédios desocupados ou abandonados em razão da especulação imobiliária. Dessas primeiras reações contra a especulação imobiliária de grandes áreas urbanas, nasceria um movimento de reconhecimento internacional que posteriormente se multiplicaria por diversos países como Squat (Europa) ou Okupa (América Latina). Da década de 1980 em diante, essa forma de ação direta urbana irá vincular-se à cultura punk e o anarquismo.

É dentro dessa perspectiva de interligar a educação/conhecimento para autonomia individual e, por conseguinte, coletiva, com a cultura, modo de ver e viver a vida de um grupo étnico e/ou social que podemos caracterizar hoje as práticas executadas e vivenciadas em espaços ocupados de caráter anarquista das “okupas” como heterotopias de invenção no campo da educação, que reforçam o histórico ácrata.

A heterotopia de invenção é um espaço anarquista de fronteira disforme, em que pessoas e associações elaboram subjetividades libertárias; em que se arruína a grande e a pequena moral, em favor da coexistência de éticas elaboradas por amigos que se voltam para a vida pública[…] Espaços sem fronteiras definidas, únicas e inacabadas que se reúnem para levar adiante suas heterotopias libertárias, suas delicadezas e forças, levezas e espertezas, consigo, com os demais e principalmente com a sociedade (PASSETTI e AUGUSTO, 2008, p. 82).

Esse espaço de invenção libertária não deixa de ser uma continuidade do legado dos primeiros anarquistas que estiveram atuando na sociedade pelotense no final do século XIX e início do XX e que, guardadas as devidas diferenças, construíram suas heterotopias educacionais autônomas como já vimos.


A Kasa Okupa 171 : espaço de cultura educação libertária



O nascimento da Okupa 171 se dá em meados de novembro de 2009, quando algumas individualidades de perspectiva anarquista adentram uma casa desocupada do centro da cidade de Pelotas, que já havia sido alvo de outras ocupações, mas que não haviam se estabelecido. A partir daquele momento a casa passa a ter pessoas comprometidas em estabelecer um espaço ocupado de caráter ácrata, com todas as especificidades que englobam essa perspectiva, tanto teórica e, principalmente, prática. Nascia a Casa Okupa, 171.

No decorrer dos anos, até os dias atuais, o espaço físico “okupado”, passou por diversas modificações, transformações, no que diz respeito a questão de reformas, melhorais no prédio, assim como de caracterização que tomou pela orientação de vida dos ocupantes, onde suas paredes “falam” com cartazes do mundo todo que “gritam” contra toda autoridade. Na Kasa desenvolvem-se projetos permaculturais, como telhado vivo, estufa para desenvolvimento de plantas comestíveis e medicinais. Há também a compostagem de tudo que é consumido de orgânicos pelos habitantes do espaço, que depois de todo o processo que simula o natural, pode-se se beneficiar com um fertilizante orgânico de alto desempenho. Destaca-se também a biblioteca José Saul1, que possui diversificado acervo, contendo uma prateleira com magnífico conteúdo anárquico e de cunho libertário.


A casa autogestiona-se de forma horizontal e organizada, onde os moradores desenvolveram uma cooperativa interna que realiza atividades tais como Pizzadas e outras festas para arrecadar recursos financeiros para desenvolver projetos e reformas no prédio, além de outros gastos. A casa conta ainda, com um estúdio musical, para ensaios de bandas e músicos.

O espaço libertário conta, nesses 6 anos de sua existência, com uma agenda de atividades fixas e esporádicas, propostas por qualquer pessoa que visita o espaço. As atividades variam desde oficina para aprender a arrumar sua própria bicicleta a preparo de cremes e óleos naturais. Também se desenvolvem oficinas de fotografia, serigrafia, etc. Sempre com o intuito de autonomia individual, construindo informalmente uma rede de conhecimento e aprendizagem compartilhado, que beneficia a todos nas trocas de conhecimentos e cotidianiza a absorção de saberes; como nos ciclos de cine temáticos, para fomentar a discussão e troca de experiências. Atualmente no espaço desenvolve-se um grupo de Estudos de Educação Libertária, com calendário de atividades e um ciclo cinematográfico relacionado com o tema educação-cultura, sob a perspectiva ácrata.


A partir dessa breve descrição de dois momentos/experiências de cultura libertária da cidade de Pelotas com suas iniciativas e práticas no campo da educação, podemos analisar o quanto as práticas dos libertários da Casa Okupa 171 de hoje resgatam e renovam o ethos libertário do Grupo Iconoclasta de 1914. Constituem a Okupa como um espaço de heteronomia de invenção da Educação Libertária do século XXI, um contraponto que busca na prática superar a velha educação pela educação como invenção de liberdade. Segundo Passetti e Augusto:
Não faz mais sentido falar de escola na atualidade, mas voltar a falar de invenção de liberdade como possibilidade de lidar com o inédito(…) Numa sociedade de controle a céu aberto que não suporta resistências, que pretende incluí-las de vez ou simplesmente eliminá-las pela convocação à participação democrática, os anarquistas em luta ensaiam outras existências. Suas ações diretas saíram da recusa, da substituição, da experimentação do reverso da ordem para outra ordem, da sociedade com Estado para a sociedade sem Estado( 2008, p. 113).
Dessa forma podemos dizer que os libertários de hoje, nos mais diversos espaços autônomos, mantém viva as possibilidades de uma educação libertária, assim como fizeram os pioneiros Iconoclastas no passado. Salientando, sobretudo, o caráter de inventor de liberdades da educação libertária que propõe. Como ação direta que potencializa singularidades livres; cuja vida libertária é o próprio aprendizado pela prática.

Cartaz do Primeiro Ciclo de Cine-Debate Educação e(M) Liberdade, organizado pelo Grupo de Estudos Educação Libertária e Biblioteca José Saúl, realizado no primeiro semestre de 2015.

Cartaz do II Ciclo de Cine-Debate com o tema dos Espaços autogestionários de educação Libertária, realizado no segundo semestre de 20015.

Conclusão

Conforme sustentamos neste trabalho, a Educação Libertária ao longo de sua história e na atualidade se constitui como uma heterotopia de invenção, como bem definiram Passetti e Augusto(2008), ou seja, “é a urgência de seu acontecimento, o que já é impossível aguardar, ruminar, elaborar no pensamento”. Uma invenção que é, também, ensaio e experimentação de vivências e práticas de sociabilidade libertária que, em sí, adquirem um sentido cultural-educacional em novas perspectivas. 

Rompe-se, através da ação direta no campo da aprendizagem livre e autônoma, com a lógica da educação heterônoma, obrigatória, sob controle absoluto do Estado(Escola/Universidades) como única possível.

Compreendemos essa educação heterotópica realizada em diversas Okupas e outros espaços de vivências autogestionárias como a “EduKação Libertária com K”. Na educação com K, saber e conhecimento não são meros meios para chegar ao um fim, como obter um “certificado”, uma “especialização”, cujo objetivo único é obtenção de uma maior valorização na venda da força de trabalho.

É portanto, uma prática que renova e amplia as perspectivas de uma educação libertária para o século XXI, no qual os espaços autônomos e autogestionários convertem-se em ambiente/lugar da heterotopia libertária, no qual a ação direta das práticas culturais-educacionais é a resposta dos libertários, para além das teorias dos pedagogos “críticos” da academia que não ultrapassam os limites impostos pelos muros da institucionalidade.

Por fim, podemos dizer que essa perspectiva da EduKação Libertária com K, se relaciona com a ideia de uma educação como prática libertária na forma e conteúdo. Na media em que a cultura e a educação ganham centralidade na prática da Okupa, também adquirem novo significado. Da mesma forma que a Okupa não se resume ao problema da moradia, a Educação nesses espaços também não tem o sentido adestrador da Educação estatal, mas sim o novo sentido de saberes compartilhados e criados livremente. Espaços de e para artistXs, criadores. Em certo sentido é a reinvenção, em em forma e conteúdos, das práticas dos anarquistas pioneiros como do “Grupo Iconoclasta de pensadores livres” de 1914 que, ha cem anos, estiveram experimentando e ensaiando heterotopias na Pelotas dos oligarcas e escravocratas do século XX.

As invenções, ensaios, potencializações de vida, coexistência de singularidades, experimentações de liberdades, práticas de ajuda mútua e ação direta, são elementos que caracterizaram as práticas dos anarquistas no passado e que são resgatados pelos iconoclastas libertários das diversas Okupações e espaços de vivência autônoma e autogestionárias que nascem a cada dia como resistência e espaços de liberdade. A Casa Okupa 171, é uma delas, que vai se constituindo, que se mantém vivo nas ações libertárias do presente. Ou seja, nas práticas da educação anarquista do século XXI

1 O nome da Biblioteca é uma homenagem à José Saúl, primeiro anarquista que chegou a Pelotas que se tem notícia, segundo informação do historiador Edgar Rodrigues(1984).



Referências Bibliográficas:

LONER, B. Classe Operária: Mobilização e Organização Operária em Pelotas: 1888-1937. PPG/UFRGS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1999. Tese de doutorado.

LUIZZETTTO, F. Utopias anarquistas. São Paulo: Brasiliense, 1987. 

MARÇAL, J. As primeiras lutas operárias do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Globo, 1985

________________Os anarquistas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Unidade Editorial, 1995. 

MARÇAL, J. MARTINS, M. Dicionário ilustrado da esquerda gaúcha. Anarquistas, Comunistas, Socialistas e Trabalhistas. Porto Alegre: Libretos, 2008. 

MIRANDA, C. O Teatro na voz operária: Grupo teatral cultural social e o anarquismo em Pelotas – seus operários e suas palavras. PPGT/UESC, 2014. Dissertação de Mestrado. 

PASSETTI, E. AUGUSTO, A. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. 

PETERSEN, R.; LUCAS, M. Antologia do movimento operário gaúcho-1870-1937. Porto Alegre: Editora UFRGS/Tchê, 1992. 

RAYNAUD, J. Paul Robin e o orfanato de Cempuis. In Revista Educação Libertária. Editora Imaginário, SP/Rj , número 2 , março de 2014. 

RODRIGUES, E. Os anarquistas: Trabalhadores italianos no Brasil. São Paulo, Global, 1984.


1 Paulo L. Marques é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas e Coordena o Grupo de Pesquisa “Memória, teorias e práticas de cultura-educação Libertária no Rio Grande do Sul”.
2 Edson Rodrigues é graduando em História da UFPel e integrante do Grupo de Pesquisa “Memória, teorias e práticas de cultura-educação Libertária no Rio Grande do Sul”.
3 Okupa é um termo anarquista, derivado da palavra ocupação sendo que seu equivalente na língua inglesa é squat. O termo faz referência especificamente ao ato de ocupar um espaço ou construção, abandonado ou desabitado, não para transformá-lo em propriedade privada, para ser alugada ou vendida, mas com o objetivo de criar uma esfera de sociabilidade e vivência libertária.
4 Ver RAYNAUD, J. Paul Robin e o orfanato de Cempuis. In Revista Educação Libertária. Editora Imaginário, SP/Rj , número 2 , março de 2014.
5 O prédio da Liga estava bem localizado no centro de Pelotas, na Rua XV de Novembro, no. 757, e tinha amplos salões que possibilitavam a ocorrência de mais de uma reunião em paralelo.
6 Chama a atenção que Marçal identifica o ativista Lemos de Almeida como principal figura do grupo mas não há nenhuma informação sobre este militante, nem mesmo nos dois livros do autor que apresena mais de trinta biografias de militantes anarquistas.
7 Conforme Miranda(2014) para sua pesquisa a foi consultado a coleção composta por onze (11) exemplares encontrados em dois (2) arquivos. Arquivo da Memória Operária do Rio de Janeiro-UFRJ: 12 fev. 1916, ano I, n. 1; 19 fev. 1916, ano I, n. 2; 26 fev. 1916, ano I, n. 3; 04 mar. 1916, ano I, n. 4; 11 mar. 1916, ano I, n. 5; 18 mar. 1916,ano I, n.6; 25 mar. 1916, ano I, n. 7. Arquivo Edgard Leuenroth/UNICAMP: 14 maio 1916, ano I, n.11; 31 maio 1916, ano I, n. 12; 15 jul. 1916, ano I, n. 15; 31 jul. 1916, ano I, n. 16.
8 O nome da Biblioteca é uma homenagem à José Saúl, primeiro anarquista que chegou a Pelotas que se tem notícia, segundo informação do historiador Edgar Rodrigues(1984).







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