terça-feira, 4 de novembro de 2014

Grupo de Estudos Educação Libertária/UFPel promove, em Pelotas, o Lançamento Livro "A ESCOLA MODERNA" do educador libertário Francisco Ferrer





O Grupo de Estudos Educação Libertária/UFPel, criado no ano passado,  surgiu com o objetivo de aprofundar os estudos acerca da teoria e práticas libertárias em educação, resgatando os autores clássicos do anarquismo como Paul Robin, Sébastién Faure, Francisco Ferrer, Bakunin, Reclus bem como os mais contemporâneos como Maurício Tragtemberg, Hugues Lenoir, Francisco Codello,  entre outros. São autores que tem permanecido à margem do ensino "oficial" da educação. Também incluímos  no campo libertário  autores que mesmo não se identificando como acratas propõe uma educação libertária como José Pacheco, Ivan Illich, Paulo Freire, Ruben Alves, Alexandre Neill.. Da mesma forma  também direcionamos  nossos estudos para os educadores e pesquisadores que hoje realizam seu trabalho teórico/ prático na perspectiva da Educação Libertária, possibilitando um espaço de troca de informações, de colaboração e compartilhamento de saberes a partir de uma prática libertária, ou seja, baseando os encontros do Grupo em uma dinâmica de autonomia do saber cooperativo e autogestionário. Foi com esse intuito que o Grupo abriu-se este ano para fora da Universidade, buscando construir-se como experimentação libertária com sujeitos libertários.




Foi a partir dessa ideia que encontramos Xs amigXs libertários da Casa Okupa 171, que tem na Casa um espaço libertário de convivência,  de arte, cultura  que neste ano completa 5 anos de existência. A integração dXs amigXs da casa ao Grupo de Estudos é um passo fundamental não só para  para a ampliação e fortalecimento do Grupo Educação Libertária mas sobretudo para que essa Ideia de Educação Livre e contra-hegemônica saia do esquecimento e seja conhecida e estudada por todXs  os libertários que atuam no âmbito da educação ou se interessem pelo tema, estejam ou não em alguma instituição de ensino.






Foi a partir desse objetivo que construímos essa atividade aberta de divulgação do Grupo de Estudos Educação Libertária na Casa OKUPA 171, junto com a 4 FLIA , Feira do Livro Independente e Autônoma de Pelotas(15 e 16 de novembro, também na Casa OKUPA, 171) .



A Atividade será o lançamento da primeira edição brasileira da clássica obra "A Escola Moderna" do educador libertário Francisco Ferrer y Guardia, realizada pela Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo neste ano. A Editora  vêm realizando um belo trabalho de estudos e divulgação das obras mais significativas do pensamento libertário. Desde 2010 a Editora mantém o Grupo de Estudos "Anarquismo e Educação" e recentemente fundou o Laboratório de Educação Anarquista(LEA).


Para esta atividade convidamos o pesquisador e integrante da Editora, Rodrigo Rosa, que trará ainda o documentário sobre a vida de Francisco Ferrer, produzido em Barcelona,  para realizarmos uma sessão comentada e debate. A Editora Terra Livre está nesses meses de outubro e novembro realizando uma série de Lançamentos e debates sobre a vida e obra de Francisco Ferrer.


Divulgação do Mês Ferrer, organizado pela Biblioteca Terra Livre 




A obra e seu autor




O Educador catalão Francisco Ferrer y Guardia é considerado como uma das principais referências do pensamento pedagógico libertário. Assim como outros educadores anarquistas, permaneceu e ainda permanece desconhecido para grande parte dos educadores ou estudantes de educação. Essa realidade pode ser comprovada pelo fato de que seu livro "A Escola Moderna",  escrito quando Ferrer estava preso em 1909, somente agora, mais de cem anos ganha uma edição brasileira.


Capa do livro publicado em espanhol em 1909, após o fuzilamento de Ferrer 



Conforme destaca o educador Silvio Gallo no prefácio da edição brasileira:

"O livro que o leitor tem em mãos levou muito tempo para chegar entre nós. Escrito em 1909 por Ferrer y Guardia nos fossos da fortaleza de Montjuic, em Barcelona, encarcerado pelo governo espanhol,  autor decidiu narrar aqui sua experiência com a criação e condução da Escuela Moderna de Barcelona, entre 1901 e 1906, bem como suas reflexões sobre uma educação antiautoritária, orientada para o desenvolvimento das potencialidades de cada ser humano. Seria publicado em espanhol pouco tempo depois do fuzilamento de Ferrer e o livro correria o mundo, como testemunho do criador da Escola Moderna" ( Gallo, 2014, p. 11)

O livro é o relato da experiência educacional da Escola Moderna, inaugurada por Francisco Ferrer  em Barcelona na data de 9 de setembro de 1901 e que durará até 1906, quando o governo fecha a escola e prende Ferrer com a acusação de que teria participado do atentado contra Alfonso XIII, Rei da Espanha que estava em visita na França. Sem obter provas contra o educador ele é posto em liberdade depois de mais de um ano encarcerado. Ao sair prisão  Ferrer não consegue reabrir a Escola, mas a Ideia já havia se espalhado não só pela Espanha mas para o mundo.Uma significativa quantidade de escolas racionalistas e laicas do modelo de Ferrer são abertas e começam a funcionar em diversos países. Ferrer torna-se um perigo para a igreja que até então mantinha o monopólio da educação e também é uma ameaça ao sistema quando a educação libertária chega aos trabalhadores que começam  a se auto-organizar e lutar contra as opressões do Estado e da Igreja.




Foto de uma turma da Escola Moderna de Porto Alegre, que funcionou na capital gaúcha entre 1916 e 1917, ano da foto. A Escola foi criada por militantes anarquistas e se localizava no Bairro operário do Bom Fim.


Em 1909 Ferrer é novamente preso e acusado pela igreja e polo governo de ser o mentor da rebelião popular ocorrida em Barcelona naquele ano, conhecida como a "Semana trágica". Desta vez , mesmo sem prova alguma, a condenação está definida. O governo quer "dar o exemplo" para que não surjam mais outros educadores como Ferrer.

A Escola Moderna de Francisco Ferrer tinha um claro objetivo: a emancipação dos trabalhadores, e para isso resgatava o exemplo da experiência do Orfanato de Cempuis, coordenado pelo educador anarquista Paul Robin. Eis o grande perigo que ameaçava o status quo. Conforme este trecho de uma carta de Ferrer enviada em 1900 para seu amigo J. Prats sobre a Ideia da Escola:

"Meu plano é que a escola seja de ensino primário(...), mista , quer dizer, de meninos e meninas juntos, como em Cempuis, e tal como entendo que haverá de ser a escola do porvir. Se durante o dia servirá a escola para as crianças, servirá a noite para os adultos dando cursos de francês, inglês, alemão, taquigrafia e contabilidade. Ao mesmo tempo serão dadas conferências e terá um local a disposição dos sindicatos e grupos de operários, sociedades de resistência que não se ocupem de eleições nem de melhorar sua classe, trabalhando para chegar a sua completa emancipação"( Jarré, 2006, p.97)

 O educador é fuzilado naquele ano de 1909. Entretanto o que os poderes não entendiam é que as Ideias são maiores que seus criadores. A Escola Moderna transformou-se no grande exemplo prático das possibilidades de uma Educação Libertária, ganhou o mundo e permanece viva até hoje.


Protestos na França em repúdio ao fuzilamento de Ferrer



O Legado de Francisco Ferrer y Guardia



O fuzilamento de Francisco Ferrer foi a tentativa de matar as ideias revolucionárias de construção de homens e mulheres livres. Ideias que continuam vivas assim como o projeto da Educação Libertária.     
Na apresentação da edição brasileira do livro a Editora Biblioteca Terra Livre destaca o significado da Escola Moderna para a educação em perspectiva libertária:

"Ferrer buscou aplicar seus princípios integralmente. Ele acreditava que a educação devia ser voltada para as crianças, pais , mães e para toda a sociedade, pois a atuação política de cada indivíduo acontece, principalmente, para além dos muros da escola. Compreender a importância da luta, levada adiante em várias frentes, abrindo sempre novas trincheiras para se avançar na constituição de um pensamento político-pedagógico libertário foi, talvez, uma das grandes qualidades do projeto da Escola Moderna"( trecho da apresentação do livro pela Editora Terra Livre)

Por fim destacamos esse trecho do prefácio de Silvio Gallo que diz muito em relação ao cada vez mais necessário conhecimento sobre a experiência da Escola Moderna para nossa  reflexão e transformação da educação atual  :

"Mais de cem anos nos separam da época em que esse livro foi escrito. Não obstante, a crítica contundente de Ferrer contra uma escola que não forma e não educa, apenas molda os estudantes segundo aquilo que um Estado autoritário deseja para manter um sistema de dominação e de exploração, continua atual. Também são atuais as propostas de Ferrer para uma "escola moderna". Se algumas foram incorporadas pelas escolas, inclusive por escolas autoritárias, que, ao tirarem  essas práticas de seu contexto, as modificaram segundo seus interesses, muitas outras seguem sendo uma novidade absoluta, esperando para mudar as práticas cotidianas nas escolas de nosso tempo. Enfim, as ideias de Ferrer ressoam e permanecem à espreita, aguardando aqueles indignados com a situação do mundo que estejam dispostos a atualizá-las, produzindo novas práticas educativas e sociais"(Gallo, 2014, p. 12)

Capa e contracapa da Edição brasileira lançada em agosto deste ano pela Editora Biblioteca Terra Livre




Com este recado  aos(s) IndignadXs,  convidamos todXs para a LANÇAMENTO da Edição Brasileira da obra A ESCOLA MODERNA" de Francisco Ferrer em PELOTAS.

A atividade será no dia 14/11/2014- Sexta-feira, às 17h30min na Casa OKUPA 171, na Rua XV de Novembro, 171, centro de Pelotas. 





Cartaz da atividade elaborado pelXs amigXs da Casa OKUPA, 171, que estará na cidade de Pelotas a partir dessa semana para divulgação 

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