quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Cultura e Educação Libertária em Pelotas :Os 100 anos do Grupo Iconoclasta, por Paulo Marques



A historiografia sobre o movimento operário no Rio Grande do Sul reconhece que os municípios de Rio Grande e Pelotas foram pioneiros na auto-organização política dos trabalhadores, a partir da fundação de sindicatos, Centros Sociais e jornais operários na segunda metade do século XIX e inicio do Século XX. O pesquisador João Batista Marçal identifica Pelotas como  “berço do sindicalismo gaúcho”. Marçal destaca esse fato “não só pelo pioneirismo das lutas operárias como pela força que ali , nas duas últimas décadas do século XIX, ganhou a classe trabalhadora em força e pujança reivindicatória( Marçal,1985, p.109) . É de 1887 o ano de surgimento da “Liga Operária” de Pelotas que segundo a historiadora Silvia Petersen é “a mais antiga sociedade operária do Rio Grande do Sul”.

No contexto deste pioneirismo um fato que tem tido pouco destaque é o papel dos anarquistas bem como suas iniciativas no campo da cultura e da educação. Isto se dá muito pela hegemonia da historiografia marxista que mantém à margem ou simplesmente ignora a contribuição dos libertários. São poucos os livros que resgatam a história dos anarquistas gaúchos. Cabe destacar os estudos de João Batista Marçal, pioneiro neste resgate , assim como Edgar Rodrigues.

Obra pioneira de João Batista Marçal sobre os libertários gaúchos 

Os estudos de Edgard Rodrigues sobre os anarquistas no Brasil destacam a história do primeiro ativista ácrata que chegou no Rio Grande do Sul por Pelotas, o italiano José Saul, nos anos de 1880 que teria vindo da Colônia Cecília, a mais conhecida experiência de Colonia anarquistas criada por imigrantes italianos no Paraná. José Saul dará inicio a um trabalho de divulgação das idéias libertárias e vai ganhando adeptos. Conforme Edgar Rodrigues: 

"suas ideias escandalizavam os reacionários, preocupavam as autoridades e deixavam confusa a maioria dos trabalhadores pouco esclarecida. Apesar disso, firme em suas convicções libertárias, inicia um trabalho paciente de douttrinação e vai ganhando seguidores. O seu progresso ideológico cresce e não tarda a organizar os primeiros Grupos Libertários, mas as autoridades preocupadas com o avanço de suas ideias, resolvem expulsá-lo de Pelotas( Marçal apud Rodrigues, 1987, p.111)"

Todavia as sementes plantadas não tardaram a germinar com o surgimento dos primeiros Grupos Libertários de Pelotas que atuarão no meio sindical com inovadoras iniciativas de caráter político-cultural e educacional. Uma das mais significativas experiências foi desenvolvida pelo Grupo Iconoclasta, criado em 1914, ou seja, a cem anos.


O Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres, constituiu-se como um dos primeiros coletivos de cultura libertária da cidade de Pelotas. Foi criado por um coletivo de ativistas anarquistas cujos principais nomes eram o jovem anarquista anti-clerical Victor Russomano, Zenon de Almeida,   Lemos de Almeida, Pedro Bischoff e Santos Barbosa . O nome Iconoclasta é simbólico para o movimento libertário, na media em que significa literalmente “quebrador de imagem” e tem origem no grego eikon(ícone ou imagem) e klastein (quebrar), ou seja, ser um iconoclasta quer dizer um indivíduos que não respeitam tradições e crenças estabelecidas ou se opõem a qualquer tipo de culto ou veneração seja de imagens ou outros elementos como as instituições opressivas como o Estado, a religião, a família monogâmica patriarcal, a propriedade privada, as hierarquias e opressões de todo o tipo.


Zenon de Almeida, O "Espartaco do sul", educador anarquista que atuou em Pelotas entre 1914 e 1916


Uma das figuras emblemáticas do Grupo Iconoclasta é Zenon Budaszewiski de Almeida militante anarquista conhecido nacionalmente. Nascido em Porto Alegre em 1892, foi jornalista, intelectual autodidata, teatrólogo, poliglota. Participou da criação e foi editor dos periódicos "Terra Livre" e "A Luta" ambos de Pelotas. Também foi o principal animador do Grupo Teatral 1 de Maio" e fundou o Ateneu Sindicalista Pelotense. Conforme estudo de Marçal no seu "Os anarquistas no Rio Grande do Sul". Zenon de Almeida lecionava no Ateneu às segundas e quartas feiras. Como educador anarquista e apaixonado pelo teatro Zenon de Almeida realiza em 13 de outubro de 1914, na atividade  que lembra o quinto aniversário da morte do educador catalão Francisco Ferrer, a apresentação de sua peça "Ideal Fecundo" sobre a vida de Ferrer, em dois atos. Zenon será conhecido como o Espártaco do Sul. Atuará em Pelotas, Porto Alegre. Na capital do Estado será fundador e professor da Escola Moderna de Porto Alegre junto com Polidoro Santos. Zenon terá papel dastacado nas greves de 1917. 

Conforme pesquisa de João Batista Marçal, no seu livro “Primeiras Lutas operárias do Rio grande do Sul” , o Grupo Iconoclasta será responsável por um conjunto de iniciativas e ações de agitação cultural e política na cidade de Pelotas a partir da realização de pesquisas sobre o movimento operário, a divulgação do ideário anarquista, fundação de jornais semanários como o “A Luta” , realização de comícios contra a guerra e organizador de ciclos de palestras com importantes ativistas anarquistas do Estado .

O Grupo funda o “Ateneu Sindicalista Pelotense”  que tinha a função de garantir educação para os trabalhadores;  o “Grupo de Teatro Social 1 de maio”, que funcionará na sede da Liga Operária. Segundo Edgard Rodrigues, a estréia deste grupo de teatro se dá com a peça “ Ideia Fecunda, Volta e Turcatos”. O Grupo Iconoclasta também participará de eventos nacionais como o Congresso Internacional da Paz , organizado pela Confederação Operária Brasileira, no Rio de Janeiro de 14 a 16 de outubro de 1915 do qual participaram dois membros do Grupo Iconoclasta, Pedro Bischoff e Santos Barbosa, representando os anarquistas Pelotenses.

Cem anos depois, podemos verificar que a cultura libertária em Pelotas renasce a partir de ações e atividades de grupos autogesttionários libertários que constróem espaços auttonômos de vivência e cultura-educação libertária como a Okupa 171, que já completa 6 anos de atividades, entre elas a Biblioteca José Saul, com acervo de obras raras sobre anarquismo. Nesse espaço, desde 2014 funciona o Grupo de Estudos sobre Educação Libertária que vem realizando um resgate dessa história. 






Referências

MARÇAL, J. B.  Os anarquistas no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Palmarinca, 1995.
_______________Primeiras Lutas operárias no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Globo, 1985. 
RODRIGUES, E. Os anarquistas trabalhadores italianos no Brasil. São Paulo, Global Editora, 1984.

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