sexta-feira, 18 de abril de 2014

Livros para uma Educação Libertária, por Paulo Marques





"A pedagogia libertária é uma grande desconhecida: permanece até agora ignorada, não só pelo grande público, mas também para aqueles que se ocupam da escola e os chamados especialistas em pedagogia"

Este é o parágrafo inicial do livro "Actualidad de la Pedagogia Libertária", de Filippo Trasatti, publicado em 2004,  pela Editorial Popular de Madri. Reflete uma realidade muito concreta em nosso país. Mesmo que já tenha uma história( as experiências de educação libertária no Brasil remontam a década de 10 e 20 do século passado) a Educação Libertária ainda é uma desconhecida e ou marginalizada na academia, principalmente nos cursos de Pedagogia.

No Brasil em especial temos poucas editoras que publicam e traduzem para o português as muitas obras existentes sobre a Educação Libertária. Com  exceção do belo e inigualável trabalho de três décadas da Editora Imaginário do amigo Plinio Augusto Coelho, da Achiamé do saudoso Robson e atualmente da magnífica Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo, são poucas as grandes editoras especializadas em educação que publicam obras sobre Educação Libertária.

Dessa forma muitas vezes temos que ir buscar fora do Brasil obras significativas sobre Educação Libertária. Um dos países com boas publicações  é a Espanha. 

Abaixo apresento algumas obras que adquiri recentemente em Madrid nas Livrarias La Malatesta e Traficantes de Sueños, e que estão disponíveis para o Grupo Educação Libertária. Fiz as traduções das apresentações para o português. Logo abaixo as obras da Imaginário, Achiamé e Editora Biblioteca Terra Livre.

"Actualidade de la Pedagogia Libertária"
Autor: Filippo Trasatti.
Editora: Editorial Popular, Madri,2004.



A pedagogia libertária é uma grande desconhecida. Permanece ignorada não somente pelo grande público mas também pelos que se preocupam pela escola e dos problemas da pedagogia. Todavia, muitas das ideias força da pedagogia libertária se derivam  em parte do senso comúm pedagógico e tem servido de base para as experiencias educativas mais avançadas e interessantes. O livro se estrutura como um dicionário, breve e essencial, que através de um levantamento dos temas, experiências e protagonistas fundamentais, oferece uma perspectiva de leitura de quase dois séculos de elaboração pedagógica libertária. Aqui se encontram alguns libertários em sentido estrito( de Bakunin a Faure, de Kropoktin a Ferrer) e também outros em sentido amplo( de Dewey a Lodi, de Neill a Bernardi, de Freire a Illich). Um conjunto de ideias para pensar a educação e também alguns instrumentos de trabalho para transformá-la. 
Filippo Trasatti, o autor, é professor de Filosofia e História em um Instituto da Periferia de Milão na Itália. É especialista em pedagogia libertária e Didática da Filosofia.





"Breviário del Pensamiento Educativo Libertário"
Autora: Tina Tomassi
Editora: Ediciones Madre Tierra, Madri



 Poucos livros tem chegado as nossas mãos que tratem as concepções educativas do movimento libertário para tratar de aprofundar as diferentes tendências que existem no anarquismo a respeito do problema educativo, nem relacionar uma coisa com a outra.  Nos encontramos frente a um livro que rastrea, desde os antecedentes de Godwin, Owen e os "utópicos", passando pelas grandes figuras ( Proudhon, Bakunin, Stiner, Tolstoi, Kropoktin), até chegar as experiências dos começos do século XX( Ferrer, Summerhill), as grandes linhas do pensamento educativo libertário. Uma de suas principais virtudes é a de reunir dados, que se bem, não são de todos desconhecidos, se encontram dispersos com as dificuldades que isso implica para seu estudo e apreciação.



"La A en la pizarra. Escritos anarquistas sobre Educación"
Autor: Varios autores
La Malatesta Editorial, Madrid, 2013.





 Tiveram que passar muitos anos para que a escola mudasse. Desde sua concepção é um instrumento do poder para manter o status quo; mas, no século XIX se iniciou um debate sobre o sentido da escola, da educação, transformando-se nas mãos dos reformadores em um instrumento  para a transformação social. Neste debate tomaram partido os libertários que, ainda que não fossem nem os primeiros nem os únicos em participar dos mesmos. Sim foram os mais  conscientes e comprometidos na transformação da escola como passo prévio para a transformação social. 
Exemplo desta realidade o encontramos neste livro onde se recompilam trabalhos de significativos pensadores ácratas como Paul Robin, Sebastién Faure, Ricardo Mella, Jean Grave, Francisco Ferrer, entre outros, que, partindo de distintas perspectivas, chegam a um mesmo destino: a necessidade de criar pessoas livres para uma sociedade livre. Demostrando sua leitura que, apesar do tempo passado, todavia o debate não está concluído, por muito que o sentido da modernidade nos leve a crer que superamos todas essas questões. De verdade praticamos a coeducação? Se transmite o conhecimento sem dogmas? Criamos pessoas ou cidadãos? Se potencializa o pensamento crítico na escola? Muitas perguntas sem resposta que necessitam da deliberação conjunta pois é nisso que vai o futuro como sociedade.

"Educación Anarquista. Aprendizajes para una sociedad libre"
Autores: Vários.
Editorial Eleuterio, Santiago, 2012.




Os métodos pedagógicos libertários são múltiplos e por isso não determinam um caminho reto e único: cada comunidade deve encontrar sua propria rota na busca incansável e sempre renovada de uma educação para a liberdade. Comunidade autoeducativa, autogestionária e autônoma, quer dizer, que ensina e aprende mediante a relação de todas e todos os indivíduos que são parte dela e que toma decisões por ela mesma, em completa responsabilidade para consigo. Serão então os mais pequenos os beneficiários deste caminho atitudinal da coletividade, que respeita e promove seus direitos. 
O presente livro está composto por artigos de Félix Garcia, Heloisa Castellano, Hugues Lenoir, Silvio Gallo, Lamberto Borghi, Francesco Codello, Pere Solà, Josefa Martin Luengo,e Daniel Parajuá, educadores que tem realizado grandes aportes para o desafio de uma educação anarquista no século XXI, atualizando e revitalizando o terreno do prático e do teórico.



"La Escuela de la Anarquia" 
Autora: Josefa Martín Luengo
Editora: Ediciones Madre Tierra, Madri, 2012



Quando se cria uma pequena Escola Livre, se cria a falácia de pensar que ela educa o suficiente como para gerar pessoas diferentes, perdendo de vista que a grande escola da vida  educa contra a Escola da Liberdade, como se tem feito sempre, já que as novas ideologias e esta em particular, tem sido combatidas desde todas as frentes, até minimizar-las ou aceitar-las como impossibilidade. 

Na ingenuidade, que nos precedeu durante muito tempo aos defensores e defensoras da anarquia, educamos pensando que o ser humano, se vive em liberdade desejará ser livre, se vive em solidariedade desejará ser solidário, se vive em justiça, justo e se em igualdade, igualitário. 

Mas perdemos de vista um princípio fundamental, o do influxo educativo de todos os instrumentos de uma sociedade autoritária, competitiva, moralista e midiatizada.

Não sobrevivemos  por perpetuar o estabelecido, sobrevivemos por injetar nas novas gerações a evolução da humanidade e isso significa o estabelecimento da felicidade. E a felicidade não é mais que o desenvolvimento constante e sem fim de nossos desejos de sobrevivência, e unicamente podemos sobreviver nas ideias que como sujeitos da Anarquia.


 "La Ruche. Una Experiencia pedagógica"
Autor: Sébastién Faure
Editora: La Malatesta, Madrid, 2013




O movimento libertário se preocupou, e muito, pela renovação pedagógica da escola. Sob o termo de educação integral, tentava-se semear as sementes da nova sociedade que inspiravam as mentes das crianças demonstrando na prática que suas ideias não eram absurdas utopias de mal sonhadores, mas sim uma realidade tangível. Daí as numerosas experiências pedagógicas que surgiram em meados  do século XIX e onde surge a experiência de La Ruche; se Paul Robin levantou um orfanato e Francisco Ferrer uma escola, Sébastien Faure sintetizará ambas propostas e criará uma verdadeira colonia anarquista com todos os seus membros confraternizando em igualdade e onde se colocará em prática todas as novas propostas pedagógicas. Sem alunos, não havia escola e, portanto, tampouco professores, só companheiros e companheiras que compartilhavam seus conhecimentos fazendo da aprendizagem um processo natural. La Ruche, portanto, devemos considerá-la como um marco na história da pedagogia moderna, muito apesar do esquecimento imperante sobre o que chegaram a construir umas simples pessoas com a força de suas ideias.

"Francisco Ferrer y la Pedagogia Libertária
Autor; Ángel Cappelletti
Editora: La Malatesta, Madrid, 2010




Nas palavras de Colin Ward, o anarquismo tem sido o movimento social que maior atenção tem prestado a educação, pois, dentro de sua ideologia, é fundamental a transformação do ser humano como passo prévio a qualquer tipo de transformação social. Demarcada essa realidade, Ángel Cappelletti nos apresenta um recorrido pela vida e o trabalho da figura mais importante do que veio a denominar-se educação racionalista na Espanha. Francisco Ferrer Guardia, quem transladaria a prática todos esses debates pedagógicos que haviam tido lugar dentro do movimento libertário ao largo do século XIX e princípios do XX.



"La Escuela Moderna"
Autor: Francisco Ferrer Guardia
Editora: La Malatesta, Madrid, 2013.



 Em 1901, se inaugurava a Escola Moderna de Barcelona. Este sensível ato, uma escola mais, abriu as portas a renovação pedagógica no mundo hispanico, com uma transcendencia que seguramente nem seus protagonistas teriam em mente nem poderiam intuir. Sua proposta pedagógica, um laicismo e racionalismo de base igualitária e libertária. rompia com todos os moldes do ensino dogmático e carregado de prejuízos imperante até estes momentos. 
Francisco Ferrer, com sua escola, se fazia continuador da rica teorização e experimentação pedagógica que se havia  desenvolvido desde as filas anarquistas, sobretudo francesas, no que se denominava como educação integral, que não era outra coisa que levar a escola o apoio mútuo, o afeto, a observação racional da realidade, a coeducação entre gêneros e classes sociais, o jogo como ferramenta de aprendizagem, a higiene; em poucas palavras, uma escola adaptada ao ritmo e desenvolvimento das crianças e não o contrário.

Este livro é uma das obras fundamentais do educador Ferrer Guardia. Nela estão descritas a rica experiência da Escola Moderna, sua história,  seus fundamentos, organização interna, funcionamento, propostas educacionais, princípios pedagógicos e conteúdos do Boletim da Escola, incluindo trabalhos e depoimentos das crianças que frequentavam a escola.  Nesta reedição de 2013, temos um apêndice com artigos de grandes pensadores publicados no Boletim da Escola, como por exemplo " Reflexões sobre a instrução pública", apresentado por Lavosier na Convenção em Julho de 1793; o fragmento do artigo de Herbert Spencer "A Educação dos Pais" entre outros.


"Las aventuras de Nono"
Autor: Juan Grave- Tradução Anselmo Lorenzo
Editora: Ediciones Libertárias, Madrid, 2013.



"As aventuras de Nono" é um clássico da literatura para crianças direcionada para a formação em uma perspectiva libertária, reflexiva e crítica. Por isso foi adotada nas Escolas Modernas de Ferrer Guardia e uma das primeira publicações da editora criada pelo educador catalão.
Escrita no por Juan Grave na segunda metade do Século XIX, foi traduzido para o Espanhol por Anselmo Lorenzo. Uma nova edição foi publicada pela editora Ediciones Libertarias de Madrid e 1999 e em segunda edição em  2013.

Na contracapa está este pequeno texto escrito por alunos da Escola Moderna sobre o livro:

Que belo é o país de Autonomia! Ali se está muito bem; se trabalha, se descansa e brinca quando se quer; quando um faz o que deseja, como deveria ser entre os homens, não há dinheiro, nem seguranças, nem guardas, nem soldados que tenham cara de hiena; nem ricos que vivam em palácios e passeiem junto a pobres que vivem em péssimas habitações e morrem de fome depois de trabalhar muito. 
Argirogracia é uma repetição do que acontece na sociedade atual; todos os países, uns mais que outros, todos imitam a Argirogracia, país fatal onde existe a exploração, onde há quem trabalha e quem brinca. onde uns servem a outros e se encerram no cárcere os que falam da felicidade com que se vive em Autonomia. 
Em resumo: As aventuras de Nono é um livro instrutivo que deve ser lido com muito cuidado, e que quase todo ele quer dizer que um país onde todos trabalham para um e um para todos, e não há dinheiro, nem ladrões, nem armas, e onde se fomenta a ciência e a arte é como havia de ser todo o mundo. 
Esperando o momento de conhece-los, repetimos vossa despedida. Saúde e amor. 

Alunos e alunas da Escola Moderna de Barcelona

Sobre o livro Francisco Ferrer escreveu: " ... espécie de poema em que se contrapõe com graciosa ingenuidade e verdade dramática uma fase das delicias futuras com a triste realidade da sociedade presente, as doçuras do país de Autonomia com os horrores do reino de Argirocracia".



Algumas das obras de referência da Editora Imaginário sobre Educação Libertária: 




"Pedagogia Libertária. Anarquistas, Anarquismos e Educação" de Silvio Gallo, editado em 2007, teve uma nova reimpressão em 2014. É uma obra de referência que conta com diversos artigos do professor Silvio Gallo, escritos no periodo em que ele desenvolvia seus estudos de mestrado e doutorado sobre pedagogia libertária. Leitura fundamental. 



O Falso Princípio da nossa Educação, de Max Stirner. Livro que contém um texto clássico sobre Educação de Max Stirner. Alemanha 1842, Stirner é um dos integrantes do chamado grupo "Os Livres" formado por  jovens hegelianos estudantes de filosofia do qual participavam Marx e Engels. Stirner foi convidado por Marx para escrever um artigo no Jornal do qual era editor, A Gazeta Renana sobre Educação. Temos neste livro a íntegra desse belo artigo que antecipa as críticas que os anarquistas farão à nascente educação estatal de modelo Prussíano que se tornará predominante e paradigma da educação moderna ocidental. O artigo é precedido por outros três artigos que contextualizam a obra e a contribuição de Stirner ao debate educacional. Leitura obrigatória para quem quer conhecer os fundamentos da crítica libertária à Educação moderna.




"A Boa Educação" Experiências libertárias e teorias anarquistas na Europa, de Godwin a Neill, de Francisco Codello. Uma obra fundamental que apresenta de forma ampla e aprofundada  um conjunto de pensadores e suas teorias de Educação Libertária, percorrendo os séculos XVIII ao século XXI. O primeiro volume se dedica às teorias. O segundo volume ainda não publicado em português apresenta as experiências práticas.






"Os Microcosmos". Experiências Utópicas Libertária sobretudo pedagógicas: "Utupedagogias", do francês Michel Antony. A obra é um compendio que apresenta teorias, práticas e bibliografias dos principais pensadores e educadores libertários. Ao final apresenta uma lista de obras e pesquisas publicadas sobre Educação Libertária.





Compêndio de Educação Libertária, de Hugues Lenoir, lançado em 2015, traz em breves resumos uma série de pensadores e educadores libertários, suas teorias e práticas que tornaram-se referências para a Educação Libertária.





Revistas Educação Libertária da Editora Imaginário, Número 1 e 2.  Pioneiras e únicas revistas que trazem diversos artigos sobre Educação Libertária de autores brasileiros e estrangeiros. O primeiro número destacou a Educação Libertária na Espanha revolucionária de 1936 e a vida e obra de Francisco Ferrer. No segundo número tem como tema "Teoria e práticas libertárias de educação" traz uma série de artigos abordando as mais significativas contribuições teóricas dos anarquistas para a educação com destaque para os artigos de Hugues Lenoir, de Jean Raynaud sobre  Paul Robin, arttigos de  Sebastién Faure, artigo sobre Francisco Ferrer; artigo de Ângela Martins sobre "As contribuições da Educação Anarquista no Brasil"; o artigo de Jaime Cubero "Universidade e escolas livres"; o artigo "Fazer a Ponte" de José Pacheco; o artigo de Francesco Codello "A escola está morrendo" e ainda o "Manifesto Pró Federação Libertária de Educação de 2014.






Obras da Editora Biblioteca Terra Livre/SP

A Editora Biblioteca Terra Livre é especializada em literatura libertária. Sobre Educação Libertária destacamos três lançamentos recentes pela importância história. A obra "A Escola Moderna" de Francisco Ferrer é a primeira edição brasileira deste livro clássico, escrito em 1906 e nunca antes editado no Brasil. Traz um prefácio do professor Silvio Gallo. O segundo livro é "A Colmeia. Uma experiência pedagógica" de Sébastién Faure. Obra que teve uma única edição brasileira em 1919. O terceiro lançamento é "O Homem e a terra" Textos escolhidos de Élisée Reclus, editado em conjunto com a Intermezzo e Plebeu Gabinete de Leitura. Estas duas últimas lançadas em 2015.











sábado, 12 de abril de 2014

Debate Noam Chomski e Michel Foucault





Michel Foucault e Noam Chomski,  realizaram um debate memorável  na Universidade de Amsterdã na Holanda em 1971. O debate  que versa sobre temas como a  natureza humana, poder, justiça, política e transformação social,  transformou-se em livro sob o título " Chomski-Foucault: A natureza humana, justiça Versus Poder" . A importância deste debate se justifica principalmente  porque as questões tratadas por eles, continuam ainda hoje mais  atuais que nunca. 









Dois trechos do debate:

CHOMSKI:  (...) um elemento fundamental da natureza humana é a necessidade de trabalho criativo, de livre criação, sem os efeitos limitantes das instituições coercitivas. Então depreende-se que uma sociedade decente deve maximizar as possibilidades para que essa característica humana fundamental seja realizada; o que significa tentar superar os elementos de repressão, opressão, destruição e coerção que existe em qualquer sociedade existente, a nossa por exemplo, como um resíduo histórico. Agora um sistema federado e descentralizado de livre associação que incorpore tanto as instituições econômicas como sociais seria o que me refiro como anarco-sindicalismo.  Parece-me ser uma forma de organização apropriada para uma sociedade tecnológica avançada na qual seres humanos não devem ser forçados a uma posição de ferramenta de engrenagem da máquina. Na qual o impulso criativo que penso ser intrínseco à natureza humana será capaz de realizar-se de qualquer maneira que deva(...) 

FOUCAULT: (...) Uma das tarefas que me parecem urgente, imediata  e acima de todas as outras, é a seguinte: nós temos o hábito, ao menos em nossa sociedade européia, de considerar que o poder está localizado nas mãos do governo e é exercido por um certo número de instituições bastante particulares, que são a administração, a polícia, o exército. Sabemos que todas essas instituições são feitas para transmitir ordens, aplicá-las e punir aqueles que não obedecem. Mas eu acredito que o poder político é exercido ainda pelo intermédio de um certo número de instituições que dão a impressão de nada possuir com o poder político, que dão a impressão de serem independentes mas não são. Sabemos bem que a Universidade e, de maneira geral todo o sistema escolar,  em aparência é feito para distribuir esse saber. Sabemos que esse aparelho escolar  é feito para manter no poder  certa classe social e excluir outra classe(...) Parece-me  que a tarefa política atual em uma sociedade como a nossa é criticar o jogo das instituições, aparentemente mais neutras e mais independentes, criticá-las, atacá-las, de tal maneira que a violência política exercida  obscuramente por elas apareça e possamos lutar contra elas. Se procurarmos de todo o modo a fórmula da sociedade futura sem haver bem feito uma crítica e todas as denuncias da violência política que se exercem em nossa sociedade, arriscamos a deixá-las se reconstituir, mesmo através de fórmulas tão nobres e aparentemente tão puras como essa do anarco-sindicalismo. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Como as escolas transformam crianças em adultos medíocres

Encontrei esse artigo na internet, escrito por Renato Salomão Guimarães que, republico aqui em nossa página, pois é um artigo muito certeiro,  sobre os reais e concretos problemas da Educação.

Foto de Robert Doisneau "As horas nunca passam", Paris, 1956

Como as escolas transformam crianças  em adultos medíocres

 Renato Salomão Guimarães

Os problemas enfrentados pelas gerações atuais são cada vez mais dinâmicos. O mundo muda rapidamente e, para transpor seus novos desafios, cresce a demanda por pessoas que realmente pensem. Pessoas capazes de olhar para os problemas e imaginar soluções. Capazes de criar, inovar e reinventar. Pessoas que construam a mudança que o mundo precisa. Contraditoriamente, logo nos primeiros anos de vida, inserimos as crianças em um sistema educacional que tenta convertê-las em adultos consumidores, e não criadores de conhecimento. Adultos que deixam seus talentos de lado para se tornarem simplesmente medianos. Colocamos as crianças em um ambiente há muito tempo ultrapassado e esperamos que ele proporcione a elas alguma educação.
Eis algumas razões pelas quais o modelo educacional vigente é obsoleto e quais são as sequelas que ele deixa em cada um que passa por ele.

Ambiente escolar totalmente desfavorável

Conforme observado pelo especialista em educação Ken Robinson, as escolas são indústrias. Essa afirmação talvez não seja tão imediata, mas pare para pensar. As escolas agrupam os alunos em turmas, que nada mais são do que lotes. Em uma sala de aula, cada lote passa por uma rotina repetitiva, na qual profissionais especializados — os professores — desempenham seus papeis de maneira bem segmentada — cada um ensinando o conteúdo específico que lhe cabe, mesmo que na verdade todo o conhecimento esteja entrelaçado, e não dividido em disciplinas. Sirenes tocam indicando que é hora da aula atual ser interrompida para dar lugar à próxima. Após vários anos de repetições diárias desse ciclo, os alunos recebem o rótulo de “formados”, o que indica que o lote está pronto para ir para o mercado.
Infelizmente, não para por aí. Além de uma fábrica, as escolas também possuem características de um presídio. Elas cerceiam a liberdade dos alunos. Todos têm hora para entrar, hora para ir para o pátio e hora para sair. Há inspetores vigiando os estudantes e uma série de punições — advertências, suspensões e expulsões — para os que tiverem mau comportamento.


Desenho Angeli


Esse conjunto de medidas faz com que as escolas suprimam o desejo de aprender, ao invés de despertar a curiosidade e estimular a inteligência. Tomo emprestada a metáfora do fascinante educador Rubem Alves, afirmando que a maioria das escolas são gaiolas, quando na verdade deveriam ser asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
- Rubem Alves
Foto de Robert Dosneau

O modus operandi que norteia o funcionamento de praticamente todas as escolas é o mesmo há muitas décadas. As poucas mudanças que aconteceram não foram de caráter educacional, e sim cultural, como o surgimento das escolas mistas e o fim dos internatos. Fora isso, as escolas em que você estudou seguem os mesmos paradigmas das escolas em que seus avós estudaram. Salas de aula, lousas, cadernos e a velha relação dual: “o professor ensina e o aluno aprende”.

Foco na memória, e não na habilidade de pensar

Ao invés de ensiná-los a pensar, as escolas apenas obrigam os alunos a digerir grandes quantidades de informações. Transmite-se o conhecimento em aulas puramente expositivas. Posteriormente, o conteúdo é cobrado em provas, que são a forma que as escolas encontraram para avaliar se os alunos realmente aprenderam. Isso é bastante curioso, porque as provas, em geral, exigem que os alunos apenas reproduzam o que lhes foi “ensinado”, e não que desenvolvam seu raciocínio, senso crítico e a habilidade de relacionar fatos para tirar conclusões. Basicamente, na escola, os alunos são treinados para memorizar informações e despejá-las em avaliações escritas.

Inibição da criatividade

As escolas instituem desde o começo que serão feitas perguntas, e que cada pergunta admite apenas uma resposta correta. Se o aluno não responde exatamente o que lhe foi ensinado, ele errou. E é bom que não erre muitas vezes. Caso contrário, ele não passará de ano. O aluno aprende que ele não tem liberdade para pensar fora da caixa.


Foto Robert Dosneau " A informação escolar, Paris, 1956

Conteúdos nem sempre relevantes

O cenário em uma sala de aula é, quase sempre, o mesmo: alunos sentados durante várias horas anotando o que o professor ensina. Não importa se o assunto lhes interessa ou se terá utilidade no futuro. Na verdade, a escolas desperdiçam boa parte do tempo e da energia dos alunos com assuntos desnecessários, quando poderiam estar desenvolvendo habilidades relevantes para a vida pessoal e profissional.
As escolas ensinam que a democracia surgiu na Grécia Antiga, mas não despertam nos alunos o pensamento crítico para avaliar o nosso cenário político e tomar melhores decisões. As escolas ensinam conhecimentos matemáticos nada triviais, como logaritmos, mas não instruem sobre noções básicas de economia ou finanças pessoais. As escola ensinam o que são dígrafos e sujeitos desinenciais, mas não formam pessoas que saibam utilizar bem a linguagem na hora de se comunicar com clareza.

Padronização do ensino

O ensino é o mesmo para todos. Um aluno que se interessa mais por uma determinada área não tem, dentro da maioria das escolas, a oportunidade de se aprofundar nela. Alunos com capacidades e interesses distintos são agrupados simplesmente por terem idades iguais, freando o desenvolvimento dos que têm mais facilidade e ignorando as necessidades especiais dos que possuem dificuldades. Além disso, as escolas conduzem o ensino sempre da mesma maneira, ignorando o fato de que cada aluno se adapta melhor a um tipo de aprendizado: visual, auditivo, cinestésico, entre outros.



Ao passar por todas as falhas desse modelo educacional, as crianças não ficam ilesas de suas consequências: redução da capacidade criativa, desprezo pelo ato de estudar, pouca habilidade para pensar por si próprias, estresse e acúmulo de muitas informações dispensáveis.
É por isso que já passa da hora das escolas serem reinventadas. Ao invés de doutrinar os alunos para se tornarem cidadãos obedientes e passivos, elas precisam estimulá-los a pensar de maneira inovadora e lidar com problemas reais — que são muito diferentes de um enunciado aguardando uma resposta decorada. Quando isso acontecer, chegaremos ao cerne da resolução de boa parte dos problemas contemporâneos.
E, quiçá, de uma verdadeira revolução.
“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”
— Nelson Mandela


LIVROS DO GRUPO DE ESTUDOS EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA e BIBLIOTECA TERRA LIVRE

O Grupo de Estudos Educação Libertária da UFPel disponibiliza para os interessados no tema um conjunto de livros e cartilhas recém l...