sábado, 29 de março de 2014

Retomando as atividades do Grupo de Estudos Educação Libertária em 2014 com a obra de Ivan Illich



Ivan Illich, a frente do seu e do nosso tempo...

AmigXs, estaremos retomando os encontros do Grupo neste semestre a partir do dia 15 de abril, terça-feira, as 15h no 3 andar da FaE-UFPel ( Sala do Observatório da Educação no Campo). 

Conforme havíamos deliberado no último encontro do Grupo, realizado em Janeiro,  a proposta de dinâmica para este semestre será a de realizar estudos direcionados para algumas obras consideradas clássicas de pensadores revolucionários da educação. Clássica no sentido de que seu conteúdo aponta para reflexões e problemas que permanecem como questões chave da educação na sociedade contemporânea. Uma dessas obras, que propomos para iniciar a dinâmica, é "Sociedade Desescolarizada" do educador Ivan Illich. Tanto o autor( cuja breve biografia foi postada aqui no blog)  como sua obra,  infelizmente permanecem à margem dos debates sobre educação, seja na academia ou na sociedade e,  portanto, são pouco estudadas;  mesmo que o conjunto de sua obra seja reconhecida em diversos países como uma contribuição fundamental para a reflexão acerca,  não só da do papel da escola como instituição, mas da própria "instituição" como fator que caracteriza a sociedade moderna. 

Assim como Paulo Freire, Ivan Illich se destaca pela radicalidade de seu pensamento; radical no sentido de ir na raiz dos problemas. É  nesse sentido que aborda a escola a partir da crítica à sociedade industrial capitalista, caracterizada pela burocracia e desperdício de recursos. Illich assim como outros pensadores revolucionários da educação,  esteve a frente de seu tempo e podemos verificar, a partir da análise de seu pensamento,  que ainda está a frente do nosso tempo. Suas reflexões não se resumem à mera crítica dos limites da "escola" como instituição, e sim ao fato da  escola cumprir uma função no mecanismo  institucional burocrático da sociedade,  que engloba a maioria dos serviços públicos. Dessa forma  Illich vai a fundo na análise crítica da natureza e das consequências daquilo que Weber chamou de "jaula de ferro" da burocracia como marca da sociedade contemporânea. Mas não fica somente na crítica ao apontar, de forma até profética,  as possibilidades do uso das novas tecnologias no processo de ensino aprendizagem,  não de forma técnica instrumental, mas como fator de uma possível nova práxis de ensino e conhecimento livre, no qual a liberdade, a cooperação o compartilhamento de saberes é o elemento prioritário. As redes de comunicação( quando Illich escreveu sobre isso sequer imaginava-se as possibilidades da internet) a partir das novas tecnologias foram apresentadas por Illich como elementos dessas novas possibilidades de conhecimento para além dos limites da instituição escola. O que  fundamenta sua  análise crítica da naturalização  da "escola" como único espaço obrigatório de conhecimento. 



O significado do tempo na sala de aula...


Em que medida o pensamento de Ivan Ilich ainda permanece como uma importante contribuição ao necessário debate radical sobre a educação? Podemos ver essa necessidade quando analisamos os recentes dados do chamado PISA(Programa Internacional de Avaliação dos Alunos) de 2013, realizado pela OCDE( Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) instituição que reúne os países mais desenvolvidos e alguns emergentes( México por exemplo). A pesquisa avaliou 64 países; o Brasil obteve a 59 posição, ou seja, seis posições acima do último lugar. O país perdeu seis posições desde o útimo PISA de 2009. A média de pontos dos países da OCDE é 500 pontos, o Brasil ficou com 391 pontos em Matemática( são avaliados conhecimentos em matemática, língua pátria e ciências). Na  avaliação do PISA,  no Brasil " 2 em cada 3 brasileiros de 15 anos não conseguem interpretar situações que exigem dedução simples, não entendem percentual, frações , gráficos..."






Ao mesmo tempo o Censo de 2010 nos informa que 49, 2% da população com 25 anos não tem o ensino fundamental  completo, isso significa 54 milhões de brasileiros.  O dado mais significativo é o que mostra que 36% dos jovens de 18 a 24 anos abandonam o estudo antes de completar o ensino médio. 59% deixou a escola antes de terminar o ensino fundamental, enquanto 21% abandona logo após ingressar no ensino médio. 

Ao mesmo tempo que temos estes dados, temos aqueles números que apontam que temos hoje quase 100% das crianças matriculadas nas escolas. Que a idade obrigatória para matricula das crianças na escola passa a ser 4 anos. O que significa o fato de que todos estão na escola, mas não permanecem nela, porque? Eis uma das questões fundamentais da reflexão de Illich, o que não é distante do pensamento de Paulo Freire acerca da Educação Popular. 


Todos para as "celas" de aula

O que estes dados mostram? apenas que o Estado não investe o que deveria na educação? Que o salários dos professores é uma vergonha? Sim, esta é uma parte do problema, mas será somente esta a questão fundamental da Educação? E a questão do que significa o conhecimento? para quê e para quem serve o conhecimento? Qual o papel/função  da Escola para o conhecimento? O que é a Escola? o que é o ensino? Estas são perguntas muito mais profundas do que cálculos financeiros ou debates sobre  "Políticas públicas" de Estado, pois remetem a discussão sobre o próprio Estado, as instituições, os aparelhos burocráticos, os meios e os fins do processo de reprodução da ordem  e do sistema.

O Estado "democrático" que quer educar suas crianças 


No entanto, este debate que vai na raiz da questão não está, lamentavelmente, na pauta de quem discute a educação, em especial educadores, trabalhadores, sindicatos, universidade. 

É nesse sentido, que obras como de Paulo Freire, Ivan Illich, Alexandre Neill, Francesc Ferrer Guardia, Maurício Tragtemberg, Sébastién Faure, Paul Robin, José Pacheco, Tólstoi, entre outros educadores libertários e revolucionários,  que permanecem à margem ou são ignorados pelas bibliografias oficiais, constituem uma gigantesca contribuição para pensar e repensar estes problemas sobre a educação, o conhecimento, em suma sobre as possibilidades do ser humano ser livre e autônomo.

TodXs estão convidados para este aprendizado colaborativo.



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