sábado, 1 de março de 2014

És um anarquista? A resposta poderia te surpreender. Por David Graeber

Nosso post de hoje é um pequeno e instigante texto do Antropólogo americano David Graeber sobre o anarquismo. Uma importante contribuição  para a reflexão sobre as sempre presentes "acusações" sobre o que é ser anarquista. Graeber nos auxilia a refletir melhor para além dos preconceitos e desinformações nem um pouco ingênuas de que as faz.




David Graeber é antropólogo americano, anarquista e professor de Antropologia Social no Colégio Golssmith da Universidade de Londres. É autor do livro "Fragmentos de uma Antropologia anarquista", editado no Brasil pela Editora Deriva


O mais provável é que já tenhas escutado algo sobre quem são os anarquistas e sobre aquilo no que supostamente acreditam. O mais provável é que tudo que escutou dizerem sobre eles seja falso. Muita gente parece que pensa que os anarquistas são adeptos da violência, do caos e da destruição, que se opõem a todas as formas de ordem e de organização, que são niilistas fanáticos que querem acabar com tudo. Nada mais longe da realidade. Os anarquistas são as pessoas que pensam simplesmente que os seres humanos podem comportar-se de uma forma razoável sem ter que ser obrigados a isso. Na realidade, é uma noção muito simples. Mas é a noção que os ricos e poderosos sempre consideraram mais perigosa.

Em sua expressão mais simples, as crenças anarquistas giram em torno de duas premissas. A primeira é que os seres humanos são, em circunstâncias normais, tão razoáveis e decentes como lhes permitam ser e, portanto, podem auto-organizar suas comunidades sem a necessidade de que lhes indiquem como. A segunda é que o poder corrompe. Antes de nada, o anarquismo é uma questão de ter coragem para tomar os princípios simples da decência comum pelos quais nos guiamos e segui-las até suas conclusões lógicas. Por muito insólito que pareça, em muitos aspectos importantes, já és anarquista( só que não te dá conta). 

Talvez te ajude se analisarmos alguns exemplos do dia a dia:


Se há uma fila para pegar o ônibus quase cheio, vais esperar tua vez e conter a vontade de furar a fila, inclusive se não há nenhum policial?

Se respondeste “sim”, então estás habituado a atuar como um anarquista! O princípio anarquista fundamental é “auto-organização”: o assumir que os seres humanos não necessitam que lhes ameacem com sansões para que alcancem um grau de compreensão entre eles, ou para que tratem os demais com dignidade e respeito. 


Todas as pessoas acreditam que são capazes de comportar-se de maneira razoável. Se pensas que a lei ou a polícia são necessárias, é só porque crês que outras pessoas não sejam. Mas se paras a pensar, não terão elas direito a pensar exatamente o mesmo em relação a ti? Os anarquistas argumentam que quase todo o comportamento anti-social que nos faz pesar que é necessária a existência de forças armadas, de polícia, de prisões e de governos para controlar nossas vidas é, de fato, causado pelas desigualdades sistemáticas e a injustiça que estas forças armadas, polícia, prisões e governos criam. É todo um círculo vicioso. Se as pessoas estão acostumadas a serem tratadas como se suas opiniões não importassem, é provável que se tornem agressivas e cínicas, inclusive violentas( o qual, todavia, faz com que seja fácil para os que estão no poder dizer que suas opiniões não contam). Enquanto se dão conta de que sua opinião é tão importante como a de qualquer outra pessoa, tendem a tornar-se muitíssimo mais abertas. Para abreviar uma longa história: os anarquistas acreditam  que, em grande medida, é o próprio poder e suas consequências o que torna as pessoas estúpidas e irresponsáveis.


És membro de um clube esportivo ou equipe de esporte, ou de qualquer outra organização voluntária onde as decisões não sejam impostas por um chefe, mas sim tomadas em base no consenso geral?

Se respondes “sim”, então pertence a uma organização que trabalha de acordo com os princípios anarquistas! Outro princípio básico é a associação voluntária. É só uma questão de aplicar os princípios democráticos a vida diária. A única diferença é que os anarquistas acreditam  que deveria ser possível a existência de uma sociedade em que cada coisa fosse organizada segundo esses princípios, todos os grupos baseados no consentimento livre de seus membros e, portanto, todo este estilo de organização de cima para baixo( militar como os exércitos, ou as burocracias ou as grandes corporações, baseadas em cadeias de comandos) já não seriam necessárias. Talvez não creia que isso chegue a ser possível jamais. Talvez sim. Mas cada vez que chegas a um acordo por consenso, em vez de por uma ameaça, cada vez que fazes um pacto voluntário com outra pessoa, chegas a um reconhecimento recíproco ou alcanças um compromisso tendo a devida consideração a situação ou as necessidades particulares do outro, estás sendo um anarquista, inclusive ainda que não tenhas consciência disso. 
O anarquismo é só o modo em que as pessoas atuam quando tem liberdade para fazê-lo de acordo com sua escolha e quando negociam com outros que são também livres- e portanto, conscientes da responsabilidade frente aos demais que isso implica. Isto conduz a outro ponto crucial: enquanto as pessoas podem ser razoáveis e ter consideração se estão se relacionando com iguais, a natureza humana é tal que parece impossível que o façam quando se lhes dá poder sobre outros. Dá poder a alguém e abusará dele de uma forma ou outra. 

Pensas que a maioria dos políticos são unas porcos egocêntricos, egoístas, a os que não lhes importa realmente o interesse público? Pensas que vivemos em um sistema econômico que é estúpido e injusto?

Se respondeste “sim”, então apoias a crítica anarquista da sociedade contemporânea( pelo menos em seus aspectos mais gerais). Os anarquistas pensam que o poder corrompe e que os que passam a vida inteira em busca do poder são as últimas pessoas a que se deveria dar-lhes. Os anarquistas pensam que nosso sistema econômico atual tem mais probabilidades de premiar as pessoas por comportamentos egoístas ou sem escrúpulos que as que são seres humanos decentes, preocupados pelos demais. A maioria das pessoas tem esses sentimentos. A única diferença é que a maioria das pessoas crê que não há nada que fazer em relação a isso o que(e é isto o que os fiéis servidores do poder fazem crer) pode chegar a se fazer algo que acabe mudando as coisas para pior . Mas...e se não fosse certo? Haverá realmente alguma razão válida para acreditar nisso? Quando se podem provar, a maioria das previsões sobre o que sucederia sem Estados ou capitalismo acabam por demostrar que não estão fundamentadas

Durante milhares de anos as pessoas viveram sem governo. Em muitos lugares do mundo há povos que vivem fora do controle dos governos, inclusive hoje em dia. Não se dedicam a matar-se uns aos outros. Só vivem suas vidas, como qualquer outra pessoa faria. Claro que em uma sociedade complexa, urbana, tecnológica... há uma necessidade muito maior de organização. Todavia, a tecnologia pode fazer também que esses problemas sejam mais fáceis de resolver. De fato, nem sequer começamos a pensar como seriam nossas vidas se a tecnologia fosse posta realmente à serviço das necessidades humanas. Quantas horas necessitaríamos trabalhar para manter uma sociedade funcional( quer dizer, se nos víssemos livres das ocupações inúteis ou destrutivas como o telemarketing, os burocratas e os políticos), se focássemos o trabalho de nossas melhores cabeças científicas dos sistemas de armamentos espaciais ou do mercado de ações para a mecanização das tarefas mais desagradáveis ou mais perigosas como a mineração de carvão ou a limpeza de banheiros e se distribuíssemos o trabalho que sobrasse entre todas as pessoas? Quatro horas por dia? Três? Duas? Ninguém sabe porque ninguém se faz nem sequer esse tipo de pergunta. Os anarquistas pensam que estas são exatamente o tipo de perguntas que deveríamos começar a nos fazer.

Acreditas realmente nas coisas que dizes a teus filhos( ou o que teus pais te contaram)?
Não importa quem começou”. “Dos males não se faz um bem”. “Limpa o que sujaste”. “Faça as coisas pensando nos outros”. “Não sejas mesquinho com as pessoas que te parecem diferentes”. Talvez deveríamos decidir se estamos mentindo a nossos filhos quando lhes falamos do bem e do mal, ou se estamos levando realmente a sério nossas próprias sentenças. Porque se levas estes princípios morais a suas conclusões lógicas, chegará ao anarquismo.


Toma o princípio de que os males somados não produzem um bem. Se tomamos isso realmente a sério, bastaria para colocar por terra quase totalmente a base de todo o sistema bélico e de justiça criminal. O mesmo passa com o repartir: dizemos sempre às crianças que tem que aprender a compartilhar, a ter em conta as necessidades de uns e de outros, a ajudar-se mutualmente; depois, quando estamos no mundo real assumimos que cada um é naturalmente egoísta e competitivo. Um anarquista assegurará sempre que, de fato, o que dizemos a nossos filhos é certo. Muito do que se conseguiu na história da humanidade, cada descobrimento ou fato que melhorou a vida das pessoas, foi graças a cooperação e a ajuda mútua. Inclusive agora, a maior parte de nós gasta mais com a nossa família e com nossos amigos que com nós mesmos. Ainda que, sem nenhuma dúvida, sempre vai haver pessoas competitivas neste mundo, não é uma razão para que a sociedade se baseie no fomento deste comportamento e muito menos para fazer que as pessoas compitam para alcançar as necessidades básicas da vida. Uma sociedade que só fomenta a competição, só defende os interesses dos que estão no poder, que querem que vivemos com medo dos demais. Por isso os anarquistas propõe uma sociedade baseada não só na associação livre mas também na ajuda mútua.

A verdade é que a maior parte das crianças cresce acreditando em uma moral anarquista e gradualmente tem que dar-se conta de que o mundo adulto não funciona assim. Está aí porque tantas pessoas são rebeldes, alienadas e inclusive suicidas enquanto são adolescentes, e acabam por resignar-se e amargar-se quando se convertem em adultos. A única recompensa é, frequentemente, ter capacidade para educar a seus próprios filhos e desejar que o mundo seja justo para eles. Mas porque não começamos por construir um mundo que seja realmente baseado nos princípios da justiça? Não seria o melhor presente que daríamos dar a nossos filhos?

Acreditas que o ser humano é fundamentalmente corrupto e mau ou que alguns tipos de pessoas(mulheres, pessoas negras, gente comum que não é nem rica e nem tem estudos) são especialmente inferiores, destinados a ser governados por alguém melhor que eles?

Se tua resposta é “sim”, bom, então parece que não és anarquista ao fim e ao cabo. Mas se respondeste “não”, então é possível que estejas de acordo com 90% dos princípios anarquistas e, esperamos, estejas vivendo tua vida de acordo com eles. Sempre que tratas a outro ser humano com consideração e respeito estás sendo anarquista. Cada vez que resolves tuas divergências com outros através de um compromisso razoável e escutas o que cada um tem que dizer em vez de deixar que alguém decida em nome dos restantes, estás sendo anarquista. Cada vez que tens oportunidades de forçar alguém a fazer algo mas, ao invés disso, decides apelar a teu sentido da razão e da justiça, está sendo anarquista. O mesmo passa quando compartilhas algo com um amigo, ou decides quem vai lavar os pratos, ou outra coisa com um sentido de equidade.

Claro, poderás objetar que tudo vai bem enquanto se trata de pequenos grupos de pessoas que se relacionam mutualmente, mas para administrar uma cidade ou um país, é um assunto totalmente diferente. E, evidentemente, isto tem sua razão de ser. Inclusive se se descentraliza a sociedade e se põe o maior poder possível nas mãos das pequenas comunidades haverá( apesar de tudo), um grande numero de coisas que necessitem ser coordenadas, desde administrar as vias ferroviárias até decidir sobre que aspectos devem se centrar a pesquisa científica em medicina. Mas só porque algo seja complicado não quer dizer que não haja maneira de fazê-lo. Simplesmente quer dizer que será complicado. De fato, os anarquistas tem muitas ideias sobre como uma sociedade saudável e democrática deveria auto-governar-se. Para explicá-las é necessário ir muito mais além deste pequeno texto introdutório. De todas as formas, não há nenhum anarquista que pretenda ter em suas mãos o modelo perfeito. A verdade é que não conseguimos imaginar a metade dos problemas que surgirão quando tentarmos criar uma sociedade democrática. Inclusive assim, acreditamos que a capacidade dos humanos está a altura de resolvê-los enquanto a humanidade se conserve dentro do espirito de nossos princípios básicos( que são, ao fim e ao cabo, somente os princípios de decência humana fundamental). 




Tradução em português de Paulo Marques da versão em  Espanhol publicado originalmente no site www.elrefractario.blogspot.com. Título original: Are you an anarchist? The answer may surprise you!

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