quarta-feira, 5 de março de 2014

Educadoras Libertárias(2): Júlia Malvina Tavares, por Paulo Marques



Malvina Tavares- 1866-1939


Julia Malvina Hailliot Tavares conhecida como Professora Malvina Tavares foi uma educadora gaúcha, anarquista, poetisa e pioneira da Educação Libertária na região Sul do Brasil. Ela foi responsável pela criação de uma escola no interior do Rio Grande do Sul que seguiu o modelo pedagógico da Escola Moderna do educador catalão libertário Francisco Ferrer y Guardia, no município de São Gabriel do Lajeado.

O mais significativo desta escola e do trabalho educativo de Malvina foi seu legado de formação de uma importante geração de militantes e professores anarquistas atuantes nass décadas posteriores, conforme destaca o pesquisador  João Batista Marçal no seu livro "Os anarquistas no Rio Grande do Sul", lançado em 1995.

É importante destacar a grande dificuldade que temos para resgatar a vida e obra desta educadora que da mesma forma que outros educadores libertários, permanecem injustamente esquecidXs pela literatura ou pesquisas no campo da história da educação. Existem poucos estudos sobre a vida desta educadora libertária gaúcha, pioneira na Educação Libertária. Encontramos no site da Wikipédia uma página com sua breve biografia, material que utilizamos para este post, assim como as obras de João Batista Marçal sobre os Anarquistas gaúchos, lançado em 1995 e a obra "Costurando vidas: Os itinerários de Ana Aurora do Amaral Lisboa(1860-1951) e Julia Malvina Tavares(1866-1939) de Carlos Gilberto Pereira Dias de 2008, que permitem conhecermos um pouco dessa pioneira da educação libertária no Brasil.

Existem vários motivos para esse desconhecimento, desde a inexistência de arquivos das próprias s educadoras como o fato de que naquelas primeiras décadas do Século, durante a Primeira República, a educação realizada pelos anarquistas era duramente perseguida pelo Estado e pela igreja, pois ao alfabetizar operários, possibilitando a leitura de jornais anarquistas e sua sindicalização, tornavam-se uma ameaça ao sistema oligárquico. Muitos educadores anarquistas eram obrigados a eliminar seus materiais didátticos, seus livros, cadernos, porque poderiam ser "provas" de seus "crimes de subversão". Outro motivo que não podemos deixar de apontar é o predomínio das correntes marxistas no campo da educação que deliberadamente menosprezaram ao longo do tempo toda contribuição dos anarquistas para a educação, principalmente o seu pioneirismo na Educação Popular e nos méttodos de ensino livres, politécnico, integral, sem prêmio e castigo. Elementos que serão aceitos somente muito tempo depois pelas chamadas "escolas novas" e "críticas". 

Malvina Tavares nasceu no município gaúcho de Encruzilhada do Sul, em 24 de novembro de 1866, filha dos imigrantes franceses François de Lalemode Hailliot e de Henriette Souleaux Hailliot. Conforme pesquisa de Dias(2008) pouco se sabe das condições da vinda de sua família para o Brasil em meados do século XIX, pois existem apenas registros do diário de Malvina Tavares  que não esclarecem  muitos detalhes sobre esse período da vida de sua família.

Sabe-se, por estes estudos disponíveis,  que Malvina foi estudar em Porto Alegre no final da década de 1880 na Escola Normal de Porto Alegre onde foi contemporânea de Ana Aurora do Amaral Lisboa, outra futura educadora libertária. Todavia,  apesar da coincidência de trajetória de ambas, elas jamais se conheceram. Na década seguinte Malvina já formada como professora casa-se com o comerciante português José Joaquim Tavares, e ambos iniciam sua participação politica. Em 1898 Malvina é transferida de Porto Alegre para a vila Encruzilhada para lecionar. Dois anos depois, em 1900, muda-se para São Gabriel da Estrela, antigo nome do município de Cruzeiro do Sul,  onde lecionaria até o fim da vida. 

Nesse novo contexto de vida no interior , Malvina tinha a tarefa de educar crianças da área rural. Sem um  prédio que servisse de escola, as aulas eram ministradas em sua própria casa. Dessa forma não foi somente uma pioneira na educação do campo como inaugurou,  de forma inédita,  no sul do Brasil, pela primeira vez,  inovações nos métodos de ensino a partir das concepções pedagógicas e métodos de educação baseados na escola racionalista dos pensadores libertários, em particular da Escola Moderna de Barcelona, que foram criadas por educadores anarquistas no Brasil nas décadas de 10 e 20  em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre.

Nessa experiência, Malvina colocou em prática os princípios da escola libertária: Aboliu os castigos corporais aos estudantes, prática muito comum no ensino tradicional da época, aboliu o ensino religioso e adotou uma didática revolucionária proposta pelo educador anarquista catalão Ferrer i Guardia.



Unica foto conhecida de uma truma de alunos da Escola Moderna de Porto Alegre, criada em 1915. A foto é de 1917. Além dos alunos aparecem os coordenadores Zenon de Almeida e DjalmaFeterman e as professoras. ( A foto é do arquivo pessoal de João Batista Marçal)


Sabe-se que o legado da educação praticada por Malvina Tavares pode ser comprovada pela trajetória de militantes e professores anarquistas que fizeram história na luta política nas duas primeiras décadas do século XX no Rio Grande do Sul. Mas isso é insuficiente ainda para conhecer a real dimensão de sua prática pedagógica, ainda mais no meio rural no qual,  mesmo sem quase nenhuma infra-estrutura estatal, pôde levar adiante um projeto inovador como a pedagogia libertária da Escola Moderna.

Resgatar a história destes processos enriquecedores e revolucionários do passado é fundamental para uma reflexão sobre como estes processos foram destruídos pelo Estado e pelos donos do poder e quais os reflexos dessa história nos problemas e desafios que a  educação brasileira enfrenta até nossos dias. Uma educação marcada, sobretudo,  por uma lógica  excludente e elitista na qual se tem como único objetivo, de  um lado formar uma minoria  para mandar e de outro formar uma grande maioria para obedecer, mantendo assim a lógica do sistema de dominação e hierarquia, funcional para o capitalismo.

A educação Libertária e seus educadores, lutaram  contra isso tendo como protagonistas diversos homens e diversas mulheres, como Malvina Tavares e muitas outras,  que deram sua vida por esse ideal. Nesse sentido, que resgatar essas histórias constituem importante contribuição para a Educação Libertária de hoje e de amanhã.

Referências: 

Página web http://pt.wikipedia.org/wiki/Malvina_Tavares

DIAS, Carlos Pereira. Costurando vidas: Os itinerários de Ana Aurora do Amaral Lisboa(1860-1951) e Júlia Malvina Hailliot Tavares(1866-1939). Florianópolis: Fazendo Gênero, 2008

MARÇAL, João Batista. Os Anarquistas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, UE, 1995. 


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