domingo, 30 de março de 2014

“A pedagogia de Bakunin” , por Gastón Leval *




Neste ano será comemorado os 200 anos de nascimento de Mikail Bakunin, um dos maiores pensadores libertários do século XIX. Serão realizadas diversas atividades em sua homenagem e estão sendo publicados muitos artigos e textos dele ou sobre seu pensamento. Publicamos este artigo de Gastón Leval sobre uma contribuição de Bakunin para a educação.

Este texto sobre a Pedagogia de Bakunin, escrita por Gastón Leval foi publicado originalmente na Revista Libertaria Reconstruir, número 100, janeiro – fevereiro de 1976 (Buenos Aires, Argentina):




Todas as atividades revolucionárias e problemas filosóficos essenciais de que se ocupou Bakunin poderiam fazer pensar que não teve tempo para aportar aos problemas da instrução e educação conceitos pessoais de real valor. Mas nos preocupamos aqui sobre um homem a quem não se deve depreciar com o senso comum.
Não nos surpreenderá pois, que se tenha interessado por outros problemas que os mencionados até agora( luta nas barricadas, ataques a todas as religiões e igrejas, ao Estado, ao capitalismo, a filosofia escolástica; fundação do movimento socialista revolucionário internacional, preparação revolucionária em distintos países, influência sobre a juventude russa, etc.) Teve também tempo para pensar na pedagogia, nos direitos das crianças, tema que até então com exceção de Froebel, criador dos jardins de infância, e de Pestalozzi, não parecia interessar aos intelectuais, aos sociólogos e menos ainda aos homens de Estado.
Não propõe Bakunin novas técnicas de ensino. Não é essa sua missão. Aporta conceitos e princípios dos quais o pedagogo suiço Ferriére parece estar empregnado, e que poderiam inspirar a pedagogia contemporânea, pois as realizações mais audazes ficam para trás em relação ao preconizado por ele, e duvidamos que a sociedade humana, por perfeita que seja, possa razoavelmente ir mais além sem estravio.
O ponto de partida, segundo expressa, é que “a escola deve substituir a igreja, com a enorme diferença de que esta, ao difundir sua educação religiosa, não persegue outro objetivo que eternizar o regime de exploração do homem pelo homem e da autoridade supostamente divina, enquanto a educação e a instrução da escola, ao não perseguir outros fins que a educação real das crianças com vistas a sua maturidade, não será senão sua preparação gradual e progressiva para a liberdade, e o triplo desenvolvimento de suas forças físicas, de seu espírito e de sua vontade.

A razão, a verdade, a justiça, o respeito humano, a consciência da dignidade pessoal, solidária, inseparável do respeito humano de todos; o amor a liberdade para si mesmo e para os demais, o culto do trabalho como base e condição do direito, o desprezo pela demagogia, a mentira, a injustiça, a covardia, a preguiça, tais deveriam ser as bases fundamentais da educação pública. Deve antes de tudo, formar homens, depois trabalhadores especializados e cidadãos, e na medida que avance a idade das crianças, a autoridade será cada vez mais substituída pela liberdade, de modo que os adolescentes, ao chegar a maior idade e sendo emancipados de acordo com a norma geral, podem haver esquecido como em sua infância haviam sido criados e educados de outro modo que pela liberdade”.


Bakunin insiste muito particularmente na educação, no sentido de formar “primeiro homens, depois trabalhadores especializados”, podemos dizer, homens, antes que técnicos e a fórmula nos parece oportuna frente ao esquecimento do espírito em benefício da máquina. Foi a de Tolstói em sua escola de Yasnaia-Poliana; foi a de Tagore, que reagia contra a transformação do ser humano em papagaio e o empinar dos cérebros a expensas da consciência e da sensibilidade dos indivíduos. Comparar Bakunin com Tagore pode parecer excessivo, mas havia nele um Tagore, como havia um Espartaco.


Para formar o caráter e a consciência, a escola deve ter em conta a personalidade da criança. A pedagogia teórica tardou em saber isso, porque as condições nas quais Rousseau criava o seu Emilio não eram aplicáveis as coletividades escolares, senão aos filhos de privilegiados que tinham cada um quatro professores. O conjunto das crianças não podiam ter essa sorte não só por razões técnicas, mas também porque é com a prática da solidariedade que os indivíduos se tornam sociáveis, e sim se deve formar indivíduos com personalidade própria, há que formar também homens aptos para viver com seus semelhantes. Contudo, este objetivo não implica a existência de escolas quartéis, nem que a disciplina destrua a iniciativa. E como é , sobretudo, o que se se faz no conjunto do sistema dos conventos ou do Estado, Bakunin insiste no que aparece como o mais necessário:


Para ser perfeita, a educação haverá de ser mais individualizada do que é agora. Individualizada no sentido da liberdade, e unicamente mediante o respeito da liberdade, inclusive as crianças, deverão ter por objetivo, não o adestramento do caráter, da inteligencia e do coração, mas sim seu despertar a uma atividade independente e livre, nem outro culto, quer dizer outra moralidade, outro objetivo que o respeito da liberdade de cada um e de todos, a simples justiça, não jurídica mas sim humana, a simples razão, não teológica, nem metafísica, senão cientifica, e o trabalho tanto físico como intelectual, como base obrigatória para todos de toda dignidade, de toda liberdade, de todo direito”


Tal educação estendida em benefício de todos, tanto as mulheres como os homens, em novas condições econômicas e sociais, fariam desaparecer muitas supostas diferenças naturais”.

No Catecismo Revolucionário1, Bakunin preconizava uma autoridade que se atenuava gradualmente a medida que a criança se elevava a altura da liberdade consciente. Repete as mesmas ideias n'O Império Knuto-germanico e a revolução social:




A autoridade é necessária durante os primeiros anos da vida, mas sendo todo progresso a negação do ponto de partida2, a liberdade acaba necessariamente por triunfar, pois o objeto final da educação é a de formar homens livres cheios de respeito e amor pela liberdade alheia”.


A pedagogia de Bakunin é, pois profundamente humanista.

Chegamos ao ensino secundário e superior. E é interessante constatar que as ideias bakuninianas tem sido o que tempos depois os teóricos da pedagogia vão chamar na França a Escola Ùnica.


Em primeiro lugar, Bakunin parece inspirar-se visivelmente no método que serviu ao desenvolvimento do pensamento de August Comte, e sob esta influência fala de filosofia positiva ali onde se trata de Filosofia científica experimental. Mas os princṕios conseguintes são de Bakunin.


A instrução científica terá por base o estudo da natureza e por coroamento a sociologia, deixando de ser o dominador e violador da vida, como é sempre em todos os sistemas metafísicos e religioso, o ideal não será adiante senão a última e mais bela expressão do mundo real; deixando de ser um sonho, se tornará uma realidade”.3


Por individualizada que seja, a educação, cujos fins são, como temos visto, eminentemente sociais, a instrução científica nos leva a humanidade. É, uma vez mais, humanista frente a tudo, e seu humanismo está posto ao serviço dos que são e serão. Bakunin preconiza duas etapas posteriores: a da cultura pura, que põe em contato os jovens com o saber geralmente considerado, e a que depois daquela leva a profissão:
Nenhuma inteligencia, por grande que seja é capaz de abarcar todas as ciênciai; e por outra parte, sendo o conhecimento geral absolutamente preciso para o desenvolvimento completo dos espíritos, o ensino se dividirá naturalmente em duas partes: o geral, que proporcionará os elementos principais de todas as ciências vistas em conjunto, e a especializada, necessariamente dividida em vários grupos, cada um dos quais abarcará em todas as especialidades certo número de ciência que, por sua afinidade, estão chamadas a completar-se.


Tal divisão e tal especialização do ensino cientifico, que se mostram tão necessárias quando vemos o conceito estreito de ensino de nossos dias, já não estão inspiradas por August Comte. Bakunin as concebe em um plano onde o método de trabalho corresponde ao prodigioso desenvolvimento dos acontecimentos a que se há chegado, e que se distanciam ainda de haver alcançado seu apogeu. Mas segue desenvolvendo seu pensamento, dando sempre o primeiro lugar ao humanismo.


A primeira parte, a parte geral, será obrigatória para todas as crianças; constituirá, se assim podemos dizer, a educação humana de seu espírito, substituindo completamente a metafísica e a teologia e situando os educadores a uma altura suficiente para que, ao chegar a idade da adolescência, possam com pleno conhecimento de causa a especialização que melhor convenha a suas aptidões e seus gostos”

Os adolescentes poderão equivocar-se ao escolher seu papel na sociedade. Esta hipótese perfeitamente fundada nos permite ver uma vez mais o papel da autoridade dos pais para seus filhos, Bakunin é categórico: “ detestamos e condenamos com toda a força de nosso amor pelas crianças, a autoridade paterna, tanto como a do professor da escola”. E se subleva quando uns e outros, “determinando arbitrariamente o porvir das crianças obedecem muito mais a seus gostos pessoais que as aptidões das crianças”. Por fim, considerando que “as faltas cometidas pelo despotismo são sempre mais funestas e difíceis de emendar que as cometidas pela liberdade, mantemos contra os tutores oficiais, oficiosos, paternais e pedantes do mundo, a liberdade plena e inteira das crianças de escolher e determinar sua existência”


Bakunin expôs estas ideias e discutia estes problemas a mais de um século, no ano de 1869, em um jornal lido por trabalhadores manuais e, não esqueçamos, em uma série de artigos entitulados “O ensino integral”. Nos parece digno de assinalar que vários dos homens notáveis que foram seus companheiros na Aliança( Paul Robin, Fernand Buisson4, James Guillaume) , depois de haver se retirado da luta frente a invasão autoritária dos socialistas marxistas, consagraram sua vida aos problemas pedagógicos, aportando sua contribuição ao ensino; aos nomeados podemos agregar a Claparede, que não pertenceu a aliança, mas que esteve em contato com Bakunin. Este não se limita ao que assinalamos, e nos expõe alguns aspectos complementários a seu pensamento:
O ensino industrial, ou prática, deverá dar-se ao mesmo tempo que o ensino científico ou teórico. O mesmo que o ensino científico, o ensino industrial compreenderá uma primeira parte em que a criança “ adquirá o conhecimento geral e prático de todas as industrias, tanto como sua ideia de conjunto, que constitui a civilização, tanto material, a totalidae do trabalho humano; e a parte especial, dividida em grupos de industrias mais particularmente ligadas entre si”

Aqui Bakunin se adiantava em três quartos de século ao que se começava praticar nas escolas profissionais dos países mais avançados. Mas onde só se procurava fazer produtores, enquanto que Bakunin queria ao mesmo tempo, dar uma idea de conjunto do que constituía “a civilização material, a totalidade do trabalho humano”, e introduzir na aprendizagem de um ofício um conteúdo ao que não se referem ainda e não parecem dispostos a se referir os técnicos das escolas profissionais. Esta diferença basta para demostrar a diversidade de espírito que conduz por uma parte a automatização do homem, e por outra a humanização do produtor e do trabalho.


Precisando ainda, Bakunin introduz o ensino moral especial no ensino geral. Como em outros casos, não teve tempo para desenvolver seu sistema mas os apontamentos que nos deixou provam que também havia refletido sobre tão importante tema:

A moral divina está fundada sobre dois princípios imorais: o respeito a autoridade e a desprezo da humanidade. Pelo contrário, a moral humana se funda unicamente no respeito a liberdade e a humanidade. A moral divina considera o trabalho como uma indignidade e como um castigo; a moral humana vê nele a condição suprema da felicidade dos homens e da humana dignidade. Em consequência, a moral divina conduz a uma política que só admite os direitos dos que por sua posição econômica privilegiada podem viver sem trabalhar. A moral humana só o admite ara os que vivem trabalhando; reconhece que só trabalhando o home acede a humanidade”

Do mesmo modo que não enumera as normas do ensino técnico e científico. Bakunin tampouco diz em que deveria consistir essa “série de experiências sucessivas” quer dizer as aplicações práticas mediante as quais deveria dar-se o ensino moral. Mas basta com que aporte os princípios. Aos pedagogos, os professores, os mestres, lhes toca encontrar os procedimentos adequados segundo as épocas e as situações, procedimentos que ao procurar a realização de tão altos princípios deveriam ser tão amplos como a vida mesma e como as relações dos homens na coletividade.
—————————————————
* Tradução para o português de Paulo Marques
1Documento escrito em 1863, inédito até hojehasta  e só reproduzido em “Life of Bakunin”, obra poligrafada por Max Nettlau.
2Resquícios  da dialética hegeliana que  se encontra as vezes em Bakunin.
3Do estudo “O Ensino Integral”.


4Que fue um dos mais brilhantes ministros da instrução pública, e de quem James Guillaume foi colaborador. Enquantoo a Paul Robin, organizou na França a primeira escola  mista e foi a este título o pioneiro do ensino misto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

As educadoras anarquistas individualistas: mulheres livres na Belle Époque, por Anne Steiner*

Nos trabalhos que reconstroem a gênese do movimento feminista apenas são citadas as figuras das mulheres anarco-individualistas do pr...