domingo, 30 de março de 2014

“A pedagogia de Bakunin” , por Gastón Leval *




Neste ano será comemorado os 200 anos de nascimento de Mikail Bakunin, um dos maiores pensadores libertários do século XIX. Serão realizadas diversas atividades em sua homenagem e estão sendo publicados muitos artigos e textos dele ou sobre seu pensamento. Publicamos este artigo de Gastón Leval sobre uma contribuição de Bakunin para a educação.

Este texto sobre a Pedagogia de Bakunin, escrita por Gastón Leval foi publicado originalmente na Revista Libertaria Reconstruir, número 100, janeiro – fevereiro de 1976 (Buenos Aires, Argentina):




Todas as atividades revolucionárias e problemas filosóficos essenciais de que se ocupou Bakunin poderiam fazer pensar que não teve tempo para aportar aos problemas da instrução e educação conceitos pessoais de real valor. Mas nos preocupamos aqui sobre um homem a quem não se deve depreciar com o senso comum.
Não nos surpreenderá pois, que se tenha interessado por outros problemas que os mencionados até agora( luta nas barricadas, ataques a todas as religiões e igrejas, ao Estado, ao capitalismo, a filosofia escolástica; fundação do movimento socialista revolucionário internacional, preparação revolucionária em distintos países, influência sobre a juventude russa, etc.) Teve também tempo para pensar na pedagogia, nos direitos das crianças, tema que até então com exceção de Froebel, criador dos jardins de infância, e de Pestalozzi, não parecia interessar aos intelectuais, aos sociólogos e menos ainda aos homens de Estado.
Não propõe Bakunin novas técnicas de ensino. Não é essa sua missão. Aporta conceitos e princípios dos quais o pedagogo suiço Ferriére parece estar empregnado, e que poderiam inspirar a pedagogia contemporânea, pois as realizações mais audazes ficam para trás em relação ao preconizado por ele, e duvidamos que a sociedade humana, por perfeita que seja, possa razoavelmente ir mais além sem estravio.
O ponto de partida, segundo expressa, é que “a escola deve substituir a igreja, com a enorme diferença de que esta, ao difundir sua educação religiosa, não persegue outro objetivo que eternizar o regime de exploração do homem pelo homem e da autoridade supostamente divina, enquanto a educação e a instrução da escola, ao não perseguir outros fins que a educação real das crianças com vistas a sua maturidade, não será senão sua preparação gradual e progressiva para a liberdade, e o triplo desenvolvimento de suas forças físicas, de seu espírito e de sua vontade.

A razão, a verdade, a justiça, o respeito humano, a consciência da dignidade pessoal, solidária, inseparável do respeito humano de todos; o amor a liberdade para si mesmo e para os demais, o culto do trabalho como base e condição do direito, o desprezo pela demagogia, a mentira, a injustiça, a covardia, a preguiça, tais deveriam ser as bases fundamentais da educação pública. Deve antes de tudo, formar homens, depois trabalhadores especializados e cidadãos, e na medida que avance a idade das crianças, a autoridade será cada vez mais substituída pela liberdade, de modo que os adolescentes, ao chegar a maior idade e sendo emancipados de acordo com a norma geral, podem haver esquecido como em sua infância haviam sido criados e educados de outro modo que pela liberdade”.


Bakunin insiste muito particularmente na educação, no sentido de formar “primeiro homens, depois trabalhadores especializados”, podemos dizer, homens, antes que técnicos e a fórmula nos parece oportuna frente ao esquecimento do espírito em benefício da máquina. Foi a de Tolstói em sua escola de Yasnaia-Poliana; foi a de Tagore, que reagia contra a transformação do ser humano em papagaio e o empinar dos cérebros a expensas da consciência e da sensibilidade dos indivíduos. Comparar Bakunin com Tagore pode parecer excessivo, mas havia nele um Tagore, como havia um Espartaco.


Para formar o caráter e a consciência, a escola deve ter em conta a personalidade da criança. A pedagogia teórica tardou em saber isso, porque as condições nas quais Rousseau criava o seu Emilio não eram aplicáveis as coletividades escolares, senão aos filhos de privilegiados que tinham cada um quatro professores. O conjunto das crianças não podiam ter essa sorte não só por razões técnicas, mas também porque é com a prática da solidariedade que os indivíduos se tornam sociáveis, e sim se deve formar indivíduos com personalidade própria, há que formar também homens aptos para viver com seus semelhantes. Contudo, este objetivo não implica a existência de escolas quartéis, nem que a disciplina destrua a iniciativa. E como é , sobretudo, o que se se faz no conjunto do sistema dos conventos ou do Estado, Bakunin insiste no que aparece como o mais necessário:


Para ser perfeita, a educação haverá de ser mais individualizada do que é agora. Individualizada no sentido da liberdade, e unicamente mediante o respeito da liberdade, inclusive as crianças, deverão ter por objetivo, não o adestramento do caráter, da inteligencia e do coração, mas sim seu despertar a uma atividade independente e livre, nem outro culto, quer dizer outra moralidade, outro objetivo que o respeito da liberdade de cada um e de todos, a simples justiça, não jurídica mas sim humana, a simples razão, não teológica, nem metafísica, senão cientifica, e o trabalho tanto físico como intelectual, como base obrigatória para todos de toda dignidade, de toda liberdade, de todo direito”


Tal educação estendida em benefício de todos, tanto as mulheres como os homens, em novas condições econômicas e sociais, fariam desaparecer muitas supostas diferenças naturais”.

No Catecismo Revolucionário1, Bakunin preconizava uma autoridade que se atenuava gradualmente a medida que a criança se elevava a altura da liberdade consciente. Repete as mesmas ideias n'O Império Knuto-germanico e a revolução social:




A autoridade é necessária durante os primeiros anos da vida, mas sendo todo progresso a negação do ponto de partida2, a liberdade acaba necessariamente por triunfar, pois o objeto final da educação é a de formar homens livres cheios de respeito e amor pela liberdade alheia”.


A pedagogia de Bakunin é, pois profundamente humanista.

Chegamos ao ensino secundário e superior. E é interessante constatar que as ideias bakuninianas tem sido o que tempos depois os teóricos da pedagogia vão chamar na França a Escola Ùnica.


Em primeiro lugar, Bakunin parece inspirar-se visivelmente no método que serviu ao desenvolvimento do pensamento de August Comte, e sob esta influência fala de filosofia positiva ali onde se trata de Filosofia científica experimental. Mas os princṕios conseguintes são de Bakunin.


A instrução científica terá por base o estudo da natureza e por coroamento a sociologia, deixando de ser o dominador e violador da vida, como é sempre em todos os sistemas metafísicos e religioso, o ideal não será adiante senão a última e mais bela expressão do mundo real; deixando de ser um sonho, se tornará uma realidade”.3


Por individualizada que seja, a educação, cujos fins são, como temos visto, eminentemente sociais, a instrução científica nos leva a humanidade. É, uma vez mais, humanista frente a tudo, e seu humanismo está posto ao serviço dos que são e serão. Bakunin preconiza duas etapas posteriores: a da cultura pura, que põe em contato os jovens com o saber geralmente considerado, e a que depois daquela leva a profissão:
Nenhuma inteligencia, por grande que seja é capaz de abarcar todas as ciênciai; e por outra parte, sendo o conhecimento geral absolutamente preciso para o desenvolvimento completo dos espíritos, o ensino se dividirá naturalmente em duas partes: o geral, que proporcionará os elementos principais de todas as ciências vistas em conjunto, e a especializada, necessariamente dividida em vários grupos, cada um dos quais abarcará em todas as especialidades certo número de ciência que, por sua afinidade, estão chamadas a completar-se.


Tal divisão e tal especialização do ensino cientifico, que se mostram tão necessárias quando vemos o conceito estreito de ensino de nossos dias, já não estão inspiradas por August Comte. Bakunin as concebe em um plano onde o método de trabalho corresponde ao prodigioso desenvolvimento dos acontecimentos a que se há chegado, e que se distanciam ainda de haver alcançado seu apogeu. Mas segue desenvolvendo seu pensamento, dando sempre o primeiro lugar ao humanismo.


A primeira parte, a parte geral, será obrigatória para todas as crianças; constituirá, se assim podemos dizer, a educação humana de seu espírito, substituindo completamente a metafísica e a teologia e situando os educadores a uma altura suficiente para que, ao chegar a idade da adolescência, possam com pleno conhecimento de causa a especialização que melhor convenha a suas aptidões e seus gostos”

Os adolescentes poderão equivocar-se ao escolher seu papel na sociedade. Esta hipótese perfeitamente fundada nos permite ver uma vez mais o papel da autoridade dos pais para seus filhos, Bakunin é categórico: “ detestamos e condenamos com toda a força de nosso amor pelas crianças, a autoridade paterna, tanto como a do professor da escola”. E se subleva quando uns e outros, “determinando arbitrariamente o porvir das crianças obedecem muito mais a seus gostos pessoais que as aptidões das crianças”. Por fim, considerando que “as faltas cometidas pelo despotismo são sempre mais funestas e difíceis de emendar que as cometidas pela liberdade, mantemos contra os tutores oficiais, oficiosos, paternais e pedantes do mundo, a liberdade plena e inteira das crianças de escolher e determinar sua existência”


Bakunin expôs estas ideias e discutia estes problemas a mais de um século, no ano de 1869, em um jornal lido por trabalhadores manuais e, não esqueçamos, em uma série de artigos entitulados “O ensino integral”. Nos parece digno de assinalar que vários dos homens notáveis que foram seus companheiros na Aliança( Paul Robin, Fernand Buisson4, James Guillaume) , depois de haver se retirado da luta frente a invasão autoritária dos socialistas marxistas, consagraram sua vida aos problemas pedagógicos, aportando sua contribuição ao ensino; aos nomeados podemos agregar a Claparede, que não pertenceu a aliança, mas que esteve em contato com Bakunin. Este não se limita ao que assinalamos, e nos expõe alguns aspectos complementários a seu pensamento:
O ensino industrial, ou prática, deverá dar-se ao mesmo tempo que o ensino científico ou teórico. O mesmo que o ensino científico, o ensino industrial compreenderá uma primeira parte em que a criança “ adquirá o conhecimento geral e prático de todas as industrias, tanto como sua ideia de conjunto, que constitui a civilização, tanto material, a totalidae do trabalho humano; e a parte especial, dividida em grupos de industrias mais particularmente ligadas entre si”

Aqui Bakunin se adiantava em três quartos de século ao que se começava praticar nas escolas profissionais dos países mais avançados. Mas onde só se procurava fazer produtores, enquanto que Bakunin queria ao mesmo tempo, dar uma idea de conjunto do que constituía “a civilização material, a totalidade do trabalho humano”, e introduzir na aprendizagem de um ofício um conteúdo ao que não se referem ainda e não parecem dispostos a se referir os técnicos das escolas profissionais. Esta diferença basta para demostrar a diversidade de espírito que conduz por uma parte a automatização do homem, e por outra a humanização do produtor e do trabalho.


Precisando ainda, Bakunin introduz o ensino moral especial no ensino geral. Como em outros casos, não teve tempo para desenvolver seu sistema mas os apontamentos que nos deixou provam que também havia refletido sobre tão importante tema:

A moral divina está fundada sobre dois princípios imorais: o respeito a autoridade e a desprezo da humanidade. Pelo contrário, a moral humana se funda unicamente no respeito a liberdade e a humanidade. A moral divina considera o trabalho como uma indignidade e como um castigo; a moral humana vê nele a condição suprema da felicidade dos homens e da humana dignidade. Em consequência, a moral divina conduz a uma política que só admite os direitos dos que por sua posição econômica privilegiada podem viver sem trabalhar. A moral humana só o admite ara os que vivem trabalhando; reconhece que só trabalhando o home acede a humanidade”

Do mesmo modo que não enumera as normas do ensino técnico e científico. Bakunin tampouco diz em que deveria consistir essa “série de experiências sucessivas” quer dizer as aplicações práticas mediante as quais deveria dar-se o ensino moral. Mas basta com que aporte os princípios. Aos pedagogos, os professores, os mestres, lhes toca encontrar os procedimentos adequados segundo as épocas e as situações, procedimentos que ao procurar a realização de tão altos princípios deveriam ser tão amplos como a vida mesma e como as relações dos homens na coletividade.
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* Tradução para o português de Paulo Marques
1Documento escrito em 1863, inédito até hojehasta  e só reproduzido em “Life of Bakunin”, obra poligrafada por Max Nettlau.
2Resquícios  da dialética hegeliana que  se encontra as vezes em Bakunin.
3Do estudo “O Ensino Integral”.


4Que fue um dos mais brilhantes ministros da instrução pública, e de quem James Guillaume foi colaborador. Enquantoo a Paul Robin, organizou na França a primeira escola  mista e foi a este título o pioneiro do ensino misto.

sábado, 29 de março de 2014

Retomando as atividades do Grupo de Estudos Educação Libertária em 2014 com a obra de Ivan Illich



Ivan Illich, a frente do seu e do nosso tempo...

AmigXs, estaremos retomando os encontros do Grupo neste semestre a partir do dia 15 de abril, terça-feira, as 15h no 3 andar da FaE-UFPel ( Sala do Observatório da Educação no Campo). 

Conforme havíamos deliberado no último encontro do Grupo, realizado em Janeiro,  a proposta de dinâmica para este semestre será a de realizar estudos direcionados para algumas obras consideradas clássicas de pensadores revolucionários da educação. Clássica no sentido de que seu conteúdo aponta para reflexões e problemas que permanecem como questões chave da educação na sociedade contemporânea. Uma dessas obras, que propomos para iniciar a dinâmica, é "Sociedade Desescolarizada" do educador Ivan Illich. Tanto o autor( cuja breve biografia foi postada aqui no blog)  como sua obra,  infelizmente permanecem à margem dos debates sobre educação, seja na academia ou na sociedade e,  portanto, são pouco estudadas;  mesmo que o conjunto de sua obra seja reconhecida em diversos países como uma contribuição fundamental para a reflexão acerca,  não só da do papel da escola como instituição, mas da própria "instituição" como fator que caracteriza a sociedade moderna. 

Assim como Paulo Freire, Ivan Illich se destaca pela radicalidade de seu pensamento; radical no sentido de ir na raiz dos problemas. É  nesse sentido que aborda a escola a partir da crítica à sociedade industrial capitalista, caracterizada pela burocracia e desperdício de recursos. Illich assim como outros pensadores revolucionários da educação,  esteve a frente de seu tempo e podemos verificar, a partir da análise de seu pensamento,  que ainda está a frente do nosso tempo. Suas reflexões não se resumem à mera crítica dos limites da "escola" como instituição, e sim ao fato da  escola cumprir uma função no mecanismo  institucional burocrático da sociedade,  que engloba a maioria dos serviços públicos. Dessa forma  Illich vai a fundo na análise crítica da natureza e das consequências daquilo que Weber chamou de "jaula de ferro" da burocracia como marca da sociedade contemporânea. Mas não fica somente na crítica ao apontar, de forma até profética,  as possibilidades do uso das novas tecnologias no processo de ensino aprendizagem,  não de forma técnica instrumental, mas como fator de uma possível nova práxis de ensino e conhecimento livre, no qual a liberdade, a cooperação o compartilhamento de saberes é o elemento prioritário. As redes de comunicação( quando Illich escreveu sobre isso sequer imaginava-se as possibilidades da internet) a partir das novas tecnologias foram apresentadas por Illich como elementos dessas novas possibilidades de conhecimento para além dos limites da instituição escola. O que  fundamenta sua  análise crítica da naturalização  da "escola" como único espaço obrigatório de conhecimento. 



O significado do tempo na sala de aula...


Em que medida o pensamento de Ivan Ilich ainda permanece como uma importante contribuição ao necessário debate radical sobre a educação? Podemos ver essa necessidade quando analisamos os recentes dados do chamado PISA(Programa Internacional de Avaliação dos Alunos) de 2013, realizado pela OCDE( Organização para a Cooperação e Desenvolvimento) instituição que reúne os países mais desenvolvidos e alguns emergentes( México por exemplo). A pesquisa avaliou 64 países; o Brasil obteve a 59 posição, ou seja, seis posições acima do último lugar. O país perdeu seis posições desde o útimo PISA de 2009. A média de pontos dos países da OCDE é 500 pontos, o Brasil ficou com 391 pontos em Matemática( são avaliados conhecimentos em matemática, língua pátria e ciências). Na  avaliação do PISA,  no Brasil " 2 em cada 3 brasileiros de 15 anos não conseguem interpretar situações que exigem dedução simples, não entendem percentual, frações , gráficos..."






Ao mesmo tempo o Censo de 2010 nos informa que 49, 2% da população com 25 anos não tem o ensino fundamental  completo, isso significa 54 milhões de brasileiros.  O dado mais significativo é o que mostra que 36% dos jovens de 18 a 24 anos abandonam o estudo antes de completar o ensino médio. 59% deixou a escola antes de terminar o ensino fundamental, enquanto 21% abandona logo após ingressar no ensino médio. 

Ao mesmo tempo que temos estes dados, temos aqueles números que apontam que temos hoje quase 100% das crianças matriculadas nas escolas. Que a idade obrigatória para matricula das crianças na escola passa a ser 4 anos. O que significa o fato de que todos estão na escola, mas não permanecem nela, porque? Eis uma das questões fundamentais da reflexão de Illich, o que não é distante do pensamento de Paulo Freire acerca da Educação Popular. 


Todos para as "celas" de aula

O que estes dados mostram? apenas que o Estado não investe o que deveria na educação? Que o salários dos professores é uma vergonha? Sim, esta é uma parte do problema, mas será somente esta a questão fundamental da Educação? E a questão do que significa o conhecimento? para quê e para quem serve o conhecimento? Qual o papel/função  da Escola para o conhecimento? O que é a Escola? o que é o ensino? Estas são perguntas muito mais profundas do que cálculos financeiros ou debates sobre  "Políticas públicas" de Estado, pois remetem a discussão sobre o próprio Estado, as instituições, os aparelhos burocráticos, os meios e os fins do processo de reprodução da ordem  e do sistema.

O Estado "democrático" que quer educar suas crianças 


No entanto, este debate que vai na raiz da questão não está, lamentavelmente, na pauta de quem discute a educação, em especial educadores, trabalhadores, sindicatos, universidade. 

É nesse sentido, que obras como de Paulo Freire, Ivan Illich, Alexandre Neill, Francesc Ferrer Guardia, Maurício Tragtemberg, Sébastién Faure, Paul Robin, José Pacheco, Tólstoi, entre outros educadores libertários e revolucionários,  que permanecem à margem ou são ignorados pelas bibliografias oficiais, constituem uma gigantesca contribuição para pensar e repensar estes problemas sobre a educação, o conhecimento, em suma sobre as possibilidades do ser humano ser livre e autônomo.

TodXs estão convidados para este aprendizado colaborativo.



segunda-feira, 24 de março de 2014

Educadoras Libertárias(3): Louise Michel, a educadora libertária da Comuna de Paris, por Paulo Marques




Nossa terceira educadora da Série Educadoras Libertária é a francesa Louise Michel, a educadora da Comuna de Paris de 1871. Louise nasceu na cidade francesa de Vroncourt, no dia 29 de Maio de 1830, foi professora, enfermeira, escritora e uma das mais importantes comunard( participante da comuna) responsável pela organização da educação na Comuna, de onde se reconheceu como anarquista.  Para realizar este post utilizamos o material disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Louise_Michel

A  jovem Educadora 




É na adolescência que Louise Michel tem contato com as obras de filósofos como Rousseau e Voltaire. Após a morte de seu avô em 1850, muda-se para Chaumont onde realiza o curso de magistério, mas é impedida de lecionar nas escolas estatais por se recusar a jurar lealdade para Napoleão III. Torna-se uma anti-bonapartista.

Em 1852, aos 22 anos ela funda uma escola livre na cidade de Audeloncourt onde permanece lecionando por um ano. Nesta escola Louise ensina seus alunos princípios republicanos, a cantar a Marselhesa( hino dos revolucionários), mas a escola é fechada por pressão das autoridades. Louise não desiste, em 1854 ela abre outra escola, desta vez em Clefmont, mas também esta escola é fechada pelo governo em função do seu caráter republicano e revolucionário.

Em 1856 ela vai para Paris onde leciona em um Colégio interno para moças em Montmartre, ao mesmo tempo mantém sua militancia junto à grupos revolucionários. Durante 15 anos trabalha no ensino, onde funda escolas e gradualmente vai se tornando favorável a novas ideias em matéria de educação com a criação de orfanatos laicos. Também tem interesse por literatura e publica textos e poemas com o pseudônimo de Enjolras. Conhece o famos escritor francês Victor Hugo, de quem se torna muito próxima. Participa dos ambientes revolucionários da época, torna-se integrante da Liga dos Poetas e em 1869 é escolhida secretária da Liga Democrática de Moralização que tinha o objetivo de ajudar os trabalhadores desempregados. Nessa época Louise se identifica com o blanquismo, corrente política de caráter republicano e socialista, fundada por Auguste Blanqui. Em pouco tempo ela abandona o blanquismo para se unir a ala mais radical da revolução, composta pelos anarquistas.

Louise Michel , a Communard libertária





Durante a Comuna de Paris de 1871, Louise Michel realizou diversas atividades, desde enfermeira nas frentes de batalha, passando por organizadora da instrução publica(educação) até combatente, inclusive vestindo a farda da guarda nacional, fato incomum para época, onde este traje era de uso exclusivo dos homens. Tomou parte dos combates de rua onde a tiros conseguiu libertar da detenção sua mãe que iria ser presa. Assistiu a morte por execução de muitos dos seus amigos, incluindo seu amante e companheiro Théophile Ferré, executado em 28 de novembro de 1871.

Com a derrota da Comuna Louise Michel é presa e levada a julgamento no VI Conselho de Guerra, sendo alvo de uma série de acusações, incluindo a tentativa de derrubada do governo e encorajar cidadãos a pegar em armas. De forma desafiadora no tribunal, ela reafirma seu compromisso com a Comuna e seus ideais, e desafia os juízes sentenciá-la a morte. Ela não é sentenciada a morte, mas passa vinte meses detida e posteriormente é condenada a deportação. Em agosto de 1873 ela parte em navio para uma viagem de 4 meses em direção de Nova Caledônia, ilha transformada em desterro pelo governo Francês, onde eram mantidos os presos polítcos. Nesse periodo a imprensa francesa a chama de forma satírica de La Louve Rouje (a Loba Vermelha).

Ainda no navio Louise se aproxima do prisioneiro Henri Rochefort e Nathalie Lemel, outra anarquista ativa durante a Comuna. Louise passa sete anos na ilha. Nesse período ela não abandonou seu trabalho militante e pedagógico. Se aproxima da população local, da etnia Kanak, cria a revista “Petites Affiches de la Nouvelle- Calédonie( Pequenas Cartas da Nova Caledônia) e publica o livro “Legendes et Chansons de gestes canaques” , onde compila os cantos e lendas dos nativos. Leciona para adultos e crianças, torna-se defensora dos Kanaks e toma parte na revolta de 1878. No ano seguinte ela recebe autorização das autoridades coloniais para lecionar para os filhos dos deportados.


O retorno à luta em Paris


Seu retorno a Paris se dá em 1880, após a anistia garantida aos Communards. Em 21 de novembro de 1880 é calorosamente recebida por uma multidão para a qual discursa. Ela retomará suas atividades militantes participando de eventos e reuniões como o Congresso anarquista de Londres em 1881. Após dois meses de sua chegada inicia a publicação do seu romance “La Misère” ( A Miséria) em fascículos, atingindo grande sucesso.

Em Março de 1882 durante reunião de libertários em Paris Louise propõe a separação entre os socialista- libertários e autoritários- como forma de se afastar dos parlamentares socialista e suas regras inequívocas. É nessa reunião que defende a adoção da bandeira negra como símbolo do anarquismo em contraste com a “bandeira vermelha encharcada com o sangue dos nossos combatentes”, defende ela.

Em 1883 após discursar em uma manifestação de desempregados que ao final saqueiam três panificadoras e entram em conflito com a polícia, Louise é presa e acusada de liderar os saques, levada a julgamento é condenada a seis anos de prisão,  dez de vigilância policial e proibida de discursar em publico. Mas não chega a cumprir a pena, três anos depois em 1886 é liberada ao mesmo tempo que Kropoktin e outros anarquistas notáveis, até então presos.

Depois deste breve período em liberdade é novamente encarcerada e condenada a mais 6 anos de prisão por fazer discursos inflamados. É liberada em janeiro de 1886 graças a intervenção de Clemenceau junto ao presidente da Reṕublica, Jules Grévy, para que pudesse ver sua mãe que estava morrendo. Em agosto do mesmo ano volta a ser presa por quatro meses após discursar em favor do mineiros de Decazeville junto com Paul Lafargue. Durante o julgamento é aconselhada a apelas, mas recusasse, sendo finalmente liberada em Novembro por conta de um indulto.

Em janeiro de 1887 discursa contra a pena de morte, em resposta a condenação de seu amigo Clément Duval. Em janeiro de 1888 após uma tarde falando para uma platéia lotada no teatro de Gaite, Louise Michel sofre um atentado levando dois tiros de pistola. Um dos tiros atinge superficialmente sua cabeça, mesmo sendo uma tentativa de assassinato Louise se recusa a apresentar queixa. Em abril de 1890, Louise é presa na Áustria após participar de um grande encontro libertário que acabou em manifestações violentas na cidade de Viena. Um mês depois de sua prisão, ela se recusa a ser libertada enquanto outros anarquistas com os quais discursava permanecem na prisão. Aos 60 anos Michel é libertada e deixa Viena indo para Paris e posteriormente para Londres, onde dirige uma escola libertária para crianças pequenas. Retornará a Paris somente cinco anos depois, em 1895, onde é novamente recebida e saudada por uma grande manifestação na estação de trem.


" O poder é maldito, é por isso que sou anarquista" 


Durante a última década de sua vida, Louise Michel torna-se conhecida como uma grande figura revolucionária libertária por anarquistas de toda a Europa. Realiza diversas conferências em Paris e outras nações. Em 1895, funda o Jornal “O Libertário” junto com Sébastién Faure.

Louise Michel viajava pela França realizando atividades em prol da causa libertária quando morreu aos 74 anos, acometida por uma forte pneumonia. Faleceu em Marsellha no dia 10 de janeiro de 1905 no quarto 11 do Hotel Oasis. Seu funeral em Paris atraiu uma multidão imensa de milhares de pessoas.


Louise Michel no final da vida, morreu lutando.


Louise Michel por sua trajetória de combatente da causa libertária entrou para a galeria das grandes anarquistas-libertárias. Seu legado encontra-se até hoje nos Estudos Femininos americanos que tratam das relações de gênero. Reconhecida por sua obra literária, repleta de poemas, contos e histórias, e também romances como “A Miséria”, no qual através de brilhante capacidade literária, deu visibilidade ao drama social vivenciado nos subúrbios de Paris.

Cabe destacar, fundamentalmente, o seu compromisso com a educação libertária. Educadora desde jovem, mesmo em condições difíceis como a guerra levado a cabo na Comuna de Paris e o exílio, foi capaz de reinventar a prática educativa acreditando no papel revolucionário da educação que serve de exemplo e legado para as novas gerações.

Homenagens





São diversas as homenagem que Louise Michel recebeu e ainda recebe em reconhecimento de sua luta. Até 1916 , todo aniversário de sua morte era lembrado junto ao seu túmulo em Levallois-Perret. Durante a Guerra Civil Espanhola, em 1936, um batalhão de Brigadas Internacionais composto por voluntárias francesas e belgas recebeu o nome de “Louise Michel”. Em setembro de 1937 a estação do Metro de Paris localizada em Lavallois -Perre recebeu seu nome em homenagem. Frequentemente seu nome é dado a escolas e jardins de infância em Paris. 

Em 28 de fevereiro de 1975 em sua homenagem a praça Wiilette recebeu seu nome. Também em sua homenagem recebe o nome de “Louise Michel” um importante prêmio conferido pelo centro de Estudos Políticos e Sociais em Paris, destinado aqueles que mais se destacam na promoção e diálogo e democracia na França.


Placa inaugurada em 2000 em lembrança dos 120 anos do retorno de Louise à Paris em 1880. A Louise MICHEL militante da Comuna deportada para Nova Caledônia. Anistiada, ela retornou pro Dieepe, em 9 de Novembro de 1880. "Ela é foice, trigo maduro para pão branco" Paul Verlaine


Em 2005 foi comemorado o centésimo aniversário da morte de Louise Michel, na ocasião duas conferência prestaram homenagem. O evento reuniu 22 especialistas na vida e obra de Louise que trataram de sua personalidade. Na ocasião ainda foi encenada uma peça teatral escrita por Pierre Humbert.

Em 2009 estreou o longa-metragem francês “Louise Michel, a Rebelde” dirigido pro Sólveig Anspach. O Filme é focado no período em que Michel esteve na prisão na Nova Caledônia, após a queda da Comuna de Paris.






quarta-feira, 5 de março de 2014

Educadoras Libertárias(2): Júlia Malvina Tavares, por Paulo Marques



Malvina Tavares- 1866-1939


Julia Malvina Hailliot Tavares conhecida como Professora Malvina Tavares foi uma educadora gaúcha, anarquista, poetisa e pioneira da Educação Libertária na região Sul do Brasil. Ela foi responsável pela criação de uma escola no interior do Rio Grande do Sul que seguiu o modelo pedagógico da Escola Moderna do educador catalão libertário Francisco Ferrer y Guardia, no município de São Gabriel do Lajeado.

O mais significativo desta escola e do trabalho educativo de Malvina foi seu legado de formação de uma importante geração de militantes e professores anarquistas atuantes nass décadas posteriores, conforme destaca o pesquisador  João Batista Marçal no seu livro "Os anarquistas no Rio Grande do Sul", lançado em 1995.

É importante destacar a grande dificuldade que temos para resgatar a vida e obra desta educadora que da mesma forma que outros educadores libertários, permanecem injustamente esquecidXs pela literatura ou pesquisas no campo da história da educação. Existem poucos estudos sobre a vida desta educadora libertária gaúcha, pioneira na Educação Libertária. Encontramos no site da Wikipédia uma página com sua breve biografia, material que utilizamos para este post, assim como as obras de João Batista Marçal sobre os Anarquistas gaúchos, lançado em 1995 e a obra "Costurando vidas: Os itinerários de Ana Aurora do Amaral Lisboa(1860-1951) e Julia Malvina Tavares(1866-1939) de Carlos Gilberto Pereira Dias de 2008, que permitem conhecermos um pouco dessa pioneira da educação libertária no Brasil.

Existem vários motivos para esse desconhecimento, desde a inexistência de arquivos das próprias s educadoras como o fato de que naquelas primeiras décadas do Século, durante a Primeira República, a educação realizada pelos anarquistas era duramente perseguida pelo Estado e pela igreja, pois ao alfabetizar operários, possibilitando a leitura de jornais anarquistas e sua sindicalização, tornavam-se uma ameaça ao sistema oligárquico. Muitos educadores anarquistas eram obrigados a eliminar seus materiais didátticos, seus livros, cadernos, porque poderiam ser "provas" de seus "crimes de subversão". Outro motivo que não podemos deixar de apontar é o predomínio das correntes marxistas no campo da educação que deliberadamente menosprezaram ao longo do tempo toda contribuição dos anarquistas para a educação, principalmente o seu pioneirismo na Educação Popular e nos méttodos de ensino livres, politécnico, integral, sem prêmio e castigo. Elementos que serão aceitos somente muito tempo depois pelas chamadas "escolas novas" e "críticas". 

Malvina Tavares nasceu no município gaúcho de Encruzilhada do Sul, em 24 de novembro de 1866, filha dos imigrantes franceses François de Lalemode Hailliot e de Henriette Souleaux Hailliot. Conforme pesquisa de Dias(2008) pouco se sabe das condições da vinda de sua família para o Brasil em meados do século XIX, pois existem apenas registros do diário de Malvina Tavares  que não esclarecem  muitos detalhes sobre esse período da vida de sua família.

Sabe-se, por estes estudos disponíveis,  que Malvina foi estudar em Porto Alegre no final da década de 1880 na Escola Normal de Porto Alegre onde foi contemporânea de Ana Aurora do Amaral Lisboa, outra futura educadora libertária. Todavia,  apesar da coincidência de trajetória de ambas, elas jamais se conheceram. Na década seguinte Malvina já formada como professora casa-se com o comerciante português José Joaquim Tavares, e ambos iniciam sua participação politica. Em 1898 Malvina é transferida de Porto Alegre para a vila Encruzilhada para lecionar. Dois anos depois, em 1900, muda-se para São Gabriel da Estrela, antigo nome do município de Cruzeiro do Sul,  onde lecionaria até o fim da vida. 

Nesse novo contexto de vida no interior , Malvina tinha a tarefa de educar crianças da área rural. Sem um  prédio que servisse de escola, as aulas eram ministradas em sua própria casa. Dessa forma não foi somente uma pioneira na educação do campo como inaugurou,  de forma inédita,  no sul do Brasil, pela primeira vez,  inovações nos métodos de ensino a partir das concepções pedagógicas e métodos de educação baseados na escola racionalista dos pensadores libertários, em particular da Escola Moderna de Barcelona, que foram criadas por educadores anarquistas no Brasil nas décadas de 10 e 20  em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre.

Nessa experiência, Malvina colocou em prática os princípios da escola libertária: Aboliu os castigos corporais aos estudantes, prática muito comum no ensino tradicional da época, aboliu o ensino religioso e adotou uma didática revolucionária proposta pelo educador anarquista catalão Ferrer i Guardia.



Unica foto conhecida de uma truma de alunos da Escola Moderna de Porto Alegre, criada em 1915. A foto é de 1917. Além dos alunos aparecem os coordenadores Zenon de Almeida e DjalmaFeterman e as professoras. ( A foto é do arquivo pessoal de João Batista Marçal)


Sabe-se que o legado da educação praticada por Malvina Tavares pode ser comprovada pela trajetória de militantes e professores anarquistas que fizeram história na luta política nas duas primeiras décadas do século XX no Rio Grande do Sul. Mas isso é insuficiente ainda para conhecer a real dimensão de sua prática pedagógica, ainda mais no meio rural no qual,  mesmo sem quase nenhuma infra-estrutura estatal, pôde levar adiante um projeto inovador como a pedagogia libertária da Escola Moderna.

Resgatar a história destes processos enriquecedores e revolucionários do passado é fundamental para uma reflexão sobre como estes processos foram destruídos pelo Estado e pelos donos do poder e quais os reflexos dessa história nos problemas e desafios que a  educação brasileira enfrenta até nossos dias. Uma educação marcada, sobretudo,  por uma lógica  excludente e elitista na qual se tem como único objetivo, de  um lado formar uma minoria  para mandar e de outro formar uma grande maioria para obedecer, mantendo assim a lógica do sistema de dominação e hierarquia, funcional para o capitalismo.

A educação Libertária e seus educadores, lutaram  contra isso tendo como protagonistas diversos homens e diversas mulheres, como Malvina Tavares e muitas outras,  que deram sua vida por esse ideal. Nesse sentido, que resgatar essas histórias constituem importante contribuição para a Educação Libertária de hoje e de amanhã.

Referências: 

Página web http://pt.wikipedia.org/wiki/Malvina_Tavares

DIAS, Carlos Pereira. Costurando vidas: Os itinerários de Ana Aurora do Amaral Lisboa(1860-1951) e Júlia Malvina Hailliot Tavares(1866-1939). Florianópolis: Fazendo Gênero, 2008

MARÇAL, João Batista. Os Anarquistas no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, UE, 1995. 


terça-feira, 4 de março de 2014

Maria Lacerda de Moura, Educadora libertária e precursora do feminismo, por Paulo L. Marques




"Sou 'indesejável', estou com os individualistas livres, os que sonham mais alto, uma sociedade onde haja pão para todas as bocas, onde se aproveitem todas as energias humanas, onde se possa cantar um hino à alegria de viver na expanção de todas as forças interiores, num sentido mais alto-para uma limitação cada vez mais ampla da sociedade sobre o indivíduo" Maria Lacerda de Moura.


Maria Lacerda de Mourafoi uma educadora anarquista brasileira que se notabilizou por seus escritos feministas, foi militante, jornalista, conferencista e pensadora. Mineira, nascida em 1887, se casou aos 17 anos, mas aos 27 anos começa a recusar a identidade doméstica e estudar diversos assuntos, até se encontrar em uma posição de feminista radical. Formou-se na Escola Normal de Barbacena e trabalhou como educadora, adotando a Pedagogia libertária de Francisco Ferrer i Guardia e lecionando nas Escolas Modernas.

Em 1919, junto com Bertha Lutz fundou a Liga pela Emancipação Feminina. A sua participação na Liga esteve direcionada para defesa da educação das mulheres como forma de emancipação, uma das formas visualizadas por ela de emancipar a mulher era a proposta da inserção da matéria " A História da Mulher", nos currículos escolares. Ao perceber que a luta pela emancipação feminina defendida pela Liga era considerada burguesa demais para ela, se afasta, passando inclusive a negar o feminismo por não conseguir se identificar com os movimentos feministas da época.

Após mudar-se para São Paulo em 1921, começa a participar de projetos educacionais anarquistas ao abandonar o magistério público. Continua sendo educadora dentro da imprensa operária, publicando artigos nos jornais como A Plebe e O Combate.

Maria Lacerda defendia em seus artigos não só mudanças no currículo das escolas, a educação em si e os direitos das mulheres, mas também o amor livre, era a favor de uma educação sexual, o combate ao fascismo e ao militarismo e anticlerical. Enquanto o feminismo no Brasil tratava apenas do sufrágio feminino e coisas a fim, ela ousava criticar a repressão sexual feminina, a ser a favor do divórcio e do amor livre, lutava contra a exploração do capitalismo sobre as operárias, entre outras lutas. Por isso Maria Lacerda é considerada uma das pioneiras do anarco-feminismo no Brasil.




Em 1923 ela se torna editora da revista "Renascença", uma publicação cultural divulgada pelo movimento anarquista. Ela colaborou também com a imprensa internacional, tendo publicações divulgadas tanto na América Latina, quanto na França e em Portugal. Entre 1928 e 1937, viveu numa comunidade agrícola autogestionária em Guararema, interior de São Paulo, formada principalmente por imigrantes anarquistas espanhóis, franceses e italianos, desertores da Primeira Guerra Mundial, que buscavam construir uma sociedade "livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais".

A repressão política durante o governo de Getúlio Vargas forçou a comunidade a se desfazer, levando-a fugir para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Rádio Mayrink Veiga lendo horóscopos. Fez parte da maçonaria e da Rosa Cruz, mas se distanciou desta publicamente, após saber que sua sede em Berlim havia sido cedida aos nazistas, e desautorizou seu filho adotivo a reconhecê-la, após este ter se associado aos integralistas.

Maria Lacerda Moura, considerada uma das pioneiras do feminismo e da educação libertária no Brasil é pouco conhecida, seja nos movimentos feministas atuais, seja na academia. Foi uma das ativistas mais envolvidas com o movimento anarquista brasileiro. Antes mesmo de assumir seus ideais feministas, quando ainda morava em Barbacena, foi uma liderança popular e comunitária, incentivou a construção de casas populares para a população carente e ajudou a fundar a Liga contra o analfabetismo.

Sua última conferência (O Silêncio) foi realizada no Centro Rosa Cruz, ao qual voltou a se ligar ao final de sua vida. Maria Lacerda faleceu no Rio de Janeiro em 20 de março de 1945. 

Como grande parte da contribuição teórica e prática dos libertários e libertárias brasileiros, a história da educadora Maria Lacerda é pouco conhecida nos meios acadêmicos. Uma importante obra que veio suprir essa lacuna foi o livro lançado em 2005, "Maria de Lacerda Moura: uma feminista utópica, de Miriam Lifchitz Moreira Leite.








Trecho do Livro:
A pré-história da evolução humana prova que homens e mulheres, entre os trogloditas, eram livres e fortes e cada qual lutava pela vida com as próprias armas.


No dia em que descobriram o fogo - daí data a escravidão feminina: a mulher ficou a guardá-lo, e ali está ela até hoje, há milênios, a pôr a lenha no fogo sagrado do lar...

Eu, de há muito, me alistei no exército da Paz, e defendi, pela razão e pelo coração, a Liberdade - contra a Autoridade. Sou contra a Violência. Mas não admito nenhuma Ditadura. Não uso armas. E sou livre, porque a minha consciência é livre. Nunca matarei. Prefiro morrer a matar.

Estou ao lado dos oprimidos. Os outros estão se aprestando para defender a Igreja, o Capital e o Estado despótico, a violência e o terror. Armas desiguais..Lutas desiguais.



Postamos abaixo um artigo de Maria Lacerda Moura que é uma crítica ao feminismo burguês, que ela também identificava como "feminismo de caridade". O texto mostra a atualidade de questões fundamentais que permanecem na pauta da luta feminista a partir de uma perspectiva libertária. O artigo foi, publicado na Revista  Utopia, de Portugal,  número 9 .





Feminismo? Caridade?

A palavra "feminismo", de significação elástica, deturpada, corrompida, mal interpretada, já não diz nada das reivindicações feministas. Resvalou para o ridículo, numa concepção vaga, adaptada incondicionalmente a tudo quanto se refere à mulher.Em qualquer gazela, a cada passo, vemos a expressão "vitórias do feminismo" – referente, às vezes, a uma simples questão de modas! Ocupar uma posição de destaque em qualquer repartição pública, cortar os cabelos "à la garçonne", viajar só, estudar em academias, publicar um livro de versos, ser "diseuse", divorciar-se três ou quatro vezes, pelas colunas do "Para Todos", atravessar a nado o Canal da Mancha, ser campeã de qualquer esporte. – tudo isso consiste "nas vitórias do feminismo", vitórias que nada significam perante o problema da emancipação integral da mulher.


A verdadeira emancipação é posta de lado

É uma tática bem manejada. Enquanto as mulheres se contentam com essas "vitórias", a sua emancipação é posta de lado ou nem chega a ser descoberta pelos tais reivindicadores de direitos adquiridos... E essas reivindicações não se podem limitar a ação caridosa ou a um simples direito de voto que não vem, de modo algum, solucionar a questão da felicidade humana e se restringirá a um número limitadíssimo de mulheres. Aliás, quando os homens sérios retiram-se, num ostracismo voluntário, dessa política de latrocínios oficializados, desse bacanal parasitário, desse despudor em se tratando dos negócios públicos; quando se decreta, positivamente a falência, o descrédito do parlamentarismo em toda uma sociedade em plena decomposição, – é agora que a mulher acorda e sai correndo atrás do voto, coisa que deveria ser reivindicado a cem ou duzentos anos atrás... o supõe, ingenuamente, estar cuidando dos interesses femininos ou dos interesses sociais.

A solução para os problemas humanos não é a caridade

E quando chegamos à conclusão de que a caridade humilha, deprecia, desviriliza; desfibra a quem dá e a quem recebe; quando sentimos que a solução para os problemas humanos não é a caridade que sufoca todas as fibras interiores de que tira, às faces escancaradas da miséria, as sobras, o supérfluo; a caridade que estrangula todas as energias latentes daquele que estende as mãos para receber, servilmente, o que sobra das orgias e da exploração dos que vivem à custa do trabalho alheio; quando por si mesma, a moral de que se alimenta a sociedade vigente decreta a falência, essa moral odiosa, de classes de ricos piedosos e de pobres a receberem esmolas, de exploradores caridosos e explorados calculadamente vigiados pela força armada, mantenedora da passividade exterior e da revolta latente dos ilótas modernos; essa moral farisaica que, para os ricos aconselha a caridade, a distribuição ostentosa do supérfluo adquirido à custa do suor proletário, e para os pobres recomenda a resignação passiva, o receber humildemente as sobras que espirram, por acaso, das mesas dos ricos e olhar ainda agradecidos, para essas mãos orgulhosas que se divertem nas caridades exibicionistas dos salões elegantes, tirando partido das misérias sociais para o seu prazer; quando novas fórmulas de uma moral mais pura se nos apresentam para outra organização social de mais eqüidade, – ainda a mulher está convencida de que a sua mais alta missão na vida é a caridade e só conhece a questão social através da caridade, mas, dessa caridade de chás, tangos e requebros nos salões...

Gastam somas fabulosas com a construção de igrejas e exploram torpemente os criados

Essa mesma mulher que reparte altas somas para a construção de igrejas ou "creches" religiosas, explora, torpemente, os criados, a cozinheira, a lavadeira, a costureirinha contratada para trabalhar em sua casa, horas e horas, sob o olhar impertinente da mundana ociosa, da criatura virtuosíssima que, pelas colunas da imprensa, espalma as mãos dadivosas consolando os infelizes, os mal instalados na vida... Dá por um chapéu, por uma pluma, um brinco, um vestido de baile, um leque, uma sombrinha, uma jóia, por qualquer fantasia, somas fabulosas, inacreditáveis, entretanto, exerce pressão vergonhosa sobre a sua bordadeira que lhe cobra uma miséria por qualquer trabalho feito com sacrifício inaudito, em horas triturantes de agonia, à noite depois de exausta do trabalho diário do atelier – no qual também já lhe tiraram gotas de sangue, na amargura da exploração pelo salário quotidiano.
Chora ante o ecran do cinema e fica impassível ante as injustiças sociais

Sentimentalismo de epiderme que faz chorar ante o écran do cinema e, todavia, soluça em torno da elegância caridosa, toda a miséria ciclópica da luta pela vida e ela não vê, não quer ver o sofrimento milenar da mulher proletária , calculadamente cultivada a sua ignorância através do pão duro de cada dia, no trabalho exaustivo da fábrica, das oficinas e no lidar doméstico – servindo à ociosidade farta da alta sociedade ou dos bordéis do vício elegante.A piedade das senhoras caridosas não vê, não sabe da luta dantesca de uma pobre moça do povo que resvala na miséria mais negra se não cai nos braços escancarados da prostituição "necessária" nesta sociedade bestial e moraliteísta. A atividade da mulher elegante só sabe votar-se a essa caridade exibicionista dos salões iluminados, onde ostenta a sua beleza e sentimentos problemáticos de uma bondade estudada no espelho... A mulher é vaidosa e comodista e os psicólogos femininos preocupados em agradar, em fazer psicologia de "boudoir" – não perscrutam, não querem ver a falsidade dos altos sentimentos caridosos do mundanismo elegante. Prefere continuar a sofrer as conseqüências do seu servilismo, da sua submissão a desenvolver o caráter, as faculdades de iniciativa para lutar contando com as suas próprias energias. Procura conservar o seu parasitismo dourado, indiferente aos males sociais: é odalisca e cortesã, mas, vai à Igreja, em horas chics, rezar pelo próximo e, dançando um passo moderno, exerce a caridade. Como é odiosa e perversa essa caridade!

Civilização de protetores e protegidos

E a mulher duplamente escravizada não compreendeu que é necessário sim, alevantar o ânimo abatido do que luta, do que pensa sucumbir aos embates da injustiça social, dar-lhe meios de subsistência pelo próprio esforço e fazer dele um indivíduo capaz de ver a casta civilização de fartos e famintos, de ociosos parasitas vivendo à custa do sacrifício alheio, civilização de protetores e protegidos, de lobos e cordeiros, em que os mais altos sentimentos se confundem com as mais torpes baixezas, de chibata azorrague, de avariose e cafetismo, de excesso de ociosidade e excesso de miséria. E tudo, inclusive, principalmente a literatura, essa literatura nefasta, de elogios, de louvores incondicionais, literatura odiosa endeusando a fêmea, literatura à Júlio Dantas tudo contribui para o cultivo sistemático da pieguice, de chiliques e requebros, do falso sentimento, do sentimentalismo para o público. E o raciocínio, por si obscurecido através da escravidão feminina secular, da tutela dos dogmas e da moda, dos prejuízos e da rotina, fecha-se sob a chuva de galanteios, de frases feitas. E a mulher esquece-se de que tem mais alguma coisa além da sua carne, do seus contornos perturbadores. Deixa de ser mulher para ser apenas o animal do homem. A grande miséria, a enorme dor das injustiças sociais vive ao seu lado e a mulher desvia o olhar para poder divertir-se, gozar das regalias e do seu comodismo de "bibelot", de lulu número 1, prisioneira nas gaiolas douradas das avenidas elegantes, sempre a mesma escrava, odalisca e cortesã.

Adormecida dentro dos trapos

A alma feminina jaz adormecida dentro dos trapos, das jóias, do império da moda, – a eterna sultana desse harém de civilizados que ainda compram, vendem, exploram, seduzem, abandonam por imprestável a mesma mulher, cuja posse exclusiva consiste a sua preocupação única. É deprimente a situação da mulher superior, neste meio de cafetismo social, em que os homens não sabem olhar uma mulher senão desrespeitando-a.

E para quê enumerar essas associações atrasadas do feminismo de caridades?
Sem dúvida é doloroso perscrutar as misérias dos famintos, da nudez, dos cortiços.

Mas, não se trata de esverrumar a causa da chaga sangrenta da miséria, mesmo do coração da opulência, ao lado da ociosidade que se diverte cinicamente, depois de atirar uns níqueis para os esfaimados, níqueis roubados ao trabalho árduo dos explorados do salário.


Divertimentos à custa da dor


Há apenas a preocupação de se jogar migalha na boca escancarada da fome, talvez para que nos deixem em paz... E, divertir-se a custa da dor, da amargura, da fome, é insultar o sofrimento.

E a miséria está de tal modo humilhada, deprimida, que nem forças tem para devolver, orgulhosamente, os restos que se lhe atiram através dos esplendores dos salões elegantes, por entre as pontas dos dedos enluvados para que não volte um salpico das calçadas a enlamear-lhes as mãos dadivosas. Não houvesse ociosos fartos, degenerados pelo tédio e pelos vícios elegantes, não houvesse a exploração do homem pelo homem, não houvesse a exploração da mulher pelo homem, e certo não seria "necessária" a prostituição, essa perversidade inominável em nome da virtude.

A caridade é "a janela da consciência", aberta para a exploração diurna e noturna do proletariado nas oficinas, nas fábricas e do camponês, do colono na agricultura. Para que a elegância brilhe, para que triunfe o mundanismo, para que os "cabarets" e os "cassinos chics" regorgitem de ociosos – é preciso que o colono, campônio e o operário de ambos os sexos seja triturado, dobrado, esmagado nas oficinas, na lavoura, nas fábricas, dia após dia, sem tréguas, sem nenhum direito a não ser o direito ao trabalho obrigatório.

As várias superstições


É a escravidão moderna do salário para matar a fome e cobrir a nudez dos filhos, também cedo destinados à exploração torpe e miserável do parasitismo social, incansável na sua faina, de acumular bens para gozar à custa do suor exaustivo das máquinas de trabalho, dos animais de tiro, do proletariado mundial. Devemos à superstição governamental, à superstição religiosa sectarista, à superstição patriótica, à superstição nacionalista, à superstição do progresso material, à ganância de uns e ao servilismo da maioria – o predomínio desta civilização de duas classes sociais: a dos ricos e a dos pobres.

A humanidade custará a compreender que a vida social poderia desdobrar-se num ambiente de solidariedade, de auxílio mútuo, sem amos nem escravos, sem protetores e protegidos, sem representações parlamentares em mediocracias diplomadas...

Religiões - instrumentos de explorações dos incautos


Levará ainda tantos séculos a perceber que as religiões organizadas, política e economicamente, não são senão instrumentos de exploração dos ignorantes, dos desfibrados, dos ambiciosos, dos moluscos, dos que carecem de espinha dorsal... Ninguém cresce na sua individualidade através da consciência ou, talvez, da inconsciência de outrém. Não é demais repetir que a atual organização social baseia-se na ignorância de uns, no servilismo da maioria, na astúcia de outros, no comodismo de muitos, na exploração dos espertos, na felicidade dos "proxenetas" e "souteneur ", desse cafetismo, desse regime de concorrência, em que se compra e vende tudo, inclusive o Amor e a Consciência – as mais altas manifestações do que é nobre e belo e grande, do que tumultua na vibração interior da nossa vida profunda.
Representação parlamentar: circo de cavalhinhos

Sentimos que as mentalidades de "elite" ultrapassaram de há muito a moral atual que tenta acorrentar ainda as aspirações humanas libertárias. Tudo faliu: a igreja, o parlamentarismo, a academia, a instituição legal do casamento, o ensino universitário, o patriotismo. Pois bem: é agora que a mulher vem reivindicar o direito do voto – quando a representação parlamentar é circo de cavalinhos, o sufrágio universal uma mentira. A mulher, essa energia latente formidável que vem despertando para a atividade social, já foi enlaçada pelo passado reacionário – para dispersar todas as suas forças na corrente das "verdades mortas".

Feminismo de votos e feminismo de caridades

É a razão por que não posso aceitar nem o feminismo de votos e muito menos o feminismo de caridades. E enquanto isso a mulher se esquece de reivindicar o direito de ser dona de seu próprio corpo, o direito da posse de si mesma. Sou "indesejável", estou com os individualistas livres, os que sonham mais alto, uma sociedade onde haja pão para todas as bocas, onde se aproveitem todas as energias humanas, onde se possa cantar um hino à alegria de viver na expansão de todas as forças interiores, num sentido mais alto – para uma limitação cada vez mais ampla da sociedade sobre o indivíduo. Que representa uma "creche", um hospital ou o direito de voto ante a vastidão dos nossos sonhos de redenção humana pela própria humanidade? É subir mais alto o coração e o cérebro, ver horizontes mais dilatados -além do sectarismo religioso ou da superstição social governamental. Isso é feminismo? Dêem o nome que quiserem, pouco importa: o que esse feminismo (não me agrada a expressão tão estreita para ideal tão amplo) reivindica é o "Direito Humano", o Direito Individual, acima de qualquer outro direito, além dos direitos limitados ao parlamentarismo, além dos direitos de classe.
Maria Lacerda de Moura

Revista Utopia # 9



Video documentário 




sábado, 1 de março de 2014

És um anarquista? A resposta poderia te surpreender. Por David Graeber

Nosso post de hoje é um pequeno e instigante texto do Antropólogo americano David Graeber sobre o anarquismo. Uma importante contribuição  para a reflexão sobre as sempre presentes "acusações" sobre o que é ser anarquista. Graeber nos auxilia a refletir melhor para além dos preconceitos e desinformações nem um pouco ingênuas de que as faz.




David Graeber é antropólogo americano, anarquista e professor de Antropologia Social no Colégio Golssmith da Universidade de Londres. É autor do livro "Fragmentos de uma Antropologia anarquista", editado no Brasil pela Editora Deriva


O mais provável é que já tenhas escutado algo sobre quem são os anarquistas e sobre aquilo no que supostamente acreditam. O mais provável é que tudo que escutou dizerem sobre eles seja falso. Muita gente parece que pensa que os anarquistas são adeptos da violência, do caos e da destruição, que se opõem a todas as formas de ordem e de organização, que são niilistas fanáticos que querem acabar com tudo. Nada mais longe da realidade. Os anarquistas são as pessoas que pensam simplesmente que os seres humanos podem comportar-se de uma forma razoável sem ter que ser obrigados a isso. Na realidade, é uma noção muito simples. Mas é a noção que os ricos e poderosos sempre consideraram mais perigosa.

Em sua expressão mais simples, as crenças anarquistas giram em torno de duas premissas. A primeira é que os seres humanos são, em circunstâncias normais, tão razoáveis e decentes como lhes permitam ser e, portanto, podem auto-organizar suas comunidades sem a necessidade de que lhes indiquem como. A segunda é que o poder corrompe. Antes de nada, o anarquismo é uma questão de ter coragem para tomar os princípios simples da decência comum pelos quais nos guiamos e segui-las até suas conclusões lógicas. Por muito insólito que pareça, em muitos aspectos importantes, já és anarquista( só que não te dá conta). 

Talvez te ajude se analisarmos alguns exemplos do dia a dia:


Se há uma fila para pegar o ônibus quase cheio, vais esperar tua vez e conter a vontade de furar a fila, inclusive se não há nenhum policial?

Se respondeste “sim”, então estás habituado a atuar como um anarquista! O princípio anarquista fundamental é “auto-organização”: o assumir que os seres humanos não necessitam que lhes ameacem com sansões para que alcancem um grau de compreensão entre eles, ou para que tratem os demais com dignidade e respeito. 


Todas as pessoas acreditam que são capazes de comportar-se de maneira razoável. Se pensas que a lei ou a polícia são necessárias, é só porque crês que outras pessoas não sejam. Mas se paras a pensar, não terão elas direito a pensar exatamente o mesmo em relação a ti? Os anarquistas argumentam que quase todo o comportamento anti-social que nos faz pesar que é necessária a existência de forças armadas, de polícia, de prisões e de governos para controlar nossas vidas é, de fato, causado pelas desigualdades sistemáticas e a injustiça que estas forças armadas, polícia, prisões e governos criam. É todo um círculo vicioso. Se as pessoas estão acostumadas a serem tratadas como se suas opiniões não importassem, é provável que se tornem agressivas e cínicas, inclusive violentas( o qual, todavia, faz com que seja fácil para os que estão no poder dizer que suas opiniões não contam). Enquanto se dão conta de que sua opinião é tão importante como a de qualquer outra pessoa, tendem a tornar-se muitíssimo mais abertas. Para abreviar uma longa história: os anarquistas acreditam  que, em grande medida, é o próprio poder e suas consequências o que torna as pessoas estúpidas e irresponsáveis.


És membro de um clube esportivo ou equipe de esporte, ou de qualquer outra organização voluntária onde as decisões não sejam impostas por um chefe, mas sim tomadas em base no consenso geral?

Se respondes “sim”, então pertence a uma organização que trabalha de acordo com os princípios anarquistas! Outro princípio básico é a associação voluntária. É só uma questão de aplicar os princípios democráticos a vida diária. A única diferença é que os anarquistas acreditam  que deveria ser possível a existência de uma sociedade em que cada coisa fosse organizada segundo esses princípios, todos os grupos baseados no consentimento livre de seus membros e, portanto, todo este estilo de organização de cima para baixo( militar como os exércitos, ou as burocracias ou as grandes corporações, baseadas em cadeias de comandos) já não seriam necessárias. Talvez não creia que isso chegue a ser possível jamais. Talvez sim. Mas cada vez que chegas a um acordo por consenso, em vez de por uma ameaça, cada vez que fazes um pacto voluntário com outra pessoa, chegas a um reconhecimento recíproco ou alcanças um compromisso tendo a devida consideração a situação ou as necessidades particulares do outro, estás sendo um anarquista, inclusive ainda que não tenhas consciência disso. 
O anarquismo é só o modo em que as pessoas atuam quando tem liberdade para fazê-lo de acordo com sua escolha e quando negociam com outros que são também livres- e portanto, conscientes da responsabilidade frente aos demais que isso implica. Isto conduz a outro ponto crucial: enquanto as pessoas podem ser razoáveis e ter consideração se estão se relacionando com iguais, a natureza humana é tal que parece impossível que o façam quando se lhes dá poder sobre outros. Dá poder a alguém e abusará dele de uma forma ou outra. 

Pensas que a maioria dos políticos são unas porcos egocêntricos, egoístas, a os que não lhes importa realmente o interesse público? Pensas que vivemos em um sistema econômico que é estúpido e injusto?

Se respondeste “sim”, então apoias a crítica anarquista da sociedade contemporânea( pelo menos em seus aspectos mais gerais). Os anarquistas pensam que o poder corrompe e que os que passam a vida inteira em busca do poder são as últimas pessoas a que se deveria dar-lhes. Os anarquistas pensam que nosso sistema econômico atual tem mais probabilidades de premiar as pessoas por comportamentos egoístas ou sem escrúpulos que as que são seres humanos decentes, preocupados pelos demais. A maioria das pessoas tem esses sentimentos. A única diferença é que a maioria das pessoas crê que não há nada que fazer em relação a isso o que(e é isto o que os fiéis servidores do poder fazem crer) pode chegar a se fazer algo que acabe mudando as coisas para pior . Mas...e se não fosse certo? Haverá realmente alguma razão válida para acreditar nisso? Quando se podem provar, a maioria das previsões sobre o que sucederia sem Estados ou capitalismo acabam por demostrar que não estão fundamentadas

Durante milhares de anos as pessoas viveram sem governo. Em muitos lugares do mundo há povos que vivem fora do controle dos governos, inclusive hoje em dia. Não se dedicam a matar-se uns aos outros. Só vivem suas vidas, como qualquer outra pessoa faria. Claro que em uma sociedade complexa, urbana, tecnológica... há uma necessidade muito maior de organização. Todavia, a tecnologia pode fazer também que esses problemas sejam mais fáceis de resolver. De fato, nem sequer começamos a pensar como seriam nossas vidas se a tecnologia fosse posta realmente à serviço das necessidades humanas. Quantas horas necessitaríamos trabalhar para manter uma sociedade funcional( quer dizer, se nos víssemos livres das ocupações inúteis ou destrutivas como o telemarketing, os burocratas e os políticos), se focássemos o trabalho de nossas melhores cabeças científicas dos sistemas de armamentos espaciais ou do mercado de ações para a mecanização das tarefas mais desagradáveis ou mais perigosas como a mineração de carvão ou a limpeza de banheiros e se distribuíssemos o trabalho que sobrasse entre todas as pessoas? Quatro horas por dia? Três? Duas? Ninguém sabe porque ninguém se faz nem sequer esse tipo de pergunta. Os anarquistas pensam que estas são exatamente o tipo de perguntas que deveríamos começar a nos fazer.

Acreditas realmente nas coisas que dizes a teus filhos( ou o que teus pais te contaram)?
Não importa quem começou”. “Dos males não se faz um bem”. “Limpa o que sujaste”. “Faça as coisas pensando nos outros”. “Não sejas mesquinho com as pessoas que te parecem diferentes”. Talvez deveríamos decidir se estamos mentindo a nossos filhos quando lhes falamos do bem e do mal, ou se estamos levando realmente a sério nossas próprias sentenças. Porque se levas estes princípios morais a suas conclusões lógicas, chegará ao anarquismo.


Toma o princípio de que os males somados não produzem um bem. Se tomamos isso realmente a sério, bastaria para colocar por terra quase totalmente a base de todo o sistema bélico e de justiça criminal. O mesmo passa com o repartir: dizemos sempre às crianças que tem que aprender a compartilhar, a ter em conta as necessidades de uns e de outros, a ajudar-se mutualmente; depois, quando estamos no mundo real assumimos que cada um é naturalmente egoísta e competitivo. Um anarquista assegurará sempre que, de fato, o que dizemos a nossos filhos é certo. Muito do que se conseguiu na história da humanidade, cada descobrimento ou fato que melhorou a vida das pessoas, foi graças a cooperação e a ajuda mútua. Inclusive agora, a maior parte de nós gasta mais com a nossa família e com nossos amigos que com nós mesmos. Ainda que, sem nenhuma dúvida, sempre vai haver pessoas competitivas neste mundo, não é uma razão para que a sociedade se baseie no fomento deste comportamento e muito menos para fazer que as pessoas compitam para alcançar as necessidades básicas da vida. Uma sociedade que só fomenta a competição, só defende os interesses dos que estão no poder, que querem que vivemos com medo dos demais. Por isso os anarquistas propõe uma sociedade baseada não só na associação livre mas também na ajuda mútua.

A verdade é que a maior parte das crianças cresce acreditando em uma moral anarquista e gradualmente tem que dar-se conta de que o mundo adulto não funciona assim. Está aí porque tantas pessoas são rebeldes, alienadas e inclusive suicidas enquanto são adolescentes, e acabam por resignar-se e amargar-se quando se convertem em adultos. A única recompensa é, frequentemente, ter capacidade para educar a seus próprios filhos e desejar que o mundo seja justo para eles. Mas porque não começamos por construir um mundo que seja realmente baseado nos princípios da justiça? Não seria o melhor presente que daríamos dar a nossos filhos?

Acreditas que o ser humano é fundamentalmente corrupto e mau ou que alguns tipos de pessoas(mulheres, pessoas negras, gente comum que não é nem rica e nem tem estudos) são especialmente inferiores, destinados a ser governados por alguém melhor que eles?

Se tua resposta é “sim”, bom, então parece que não és anarquista ao fim e ao cabo. Mas se respondeste “não”, então é possível que estejas de acordo com 90% dos princípios anarquistas e, esperamos, estejas vivendo tua vida de acordo com eles. Sempre que tratas a outro ser humano com consideração e respeito estás sendo anarquista. Cada vez que resolves tuas divergências com outros através de um compromisso razoável e escutas o que cada um tem que dizer em vez de deixar que alguém decida em nome dos restantes, estás sendo anarquista. Cada vez que tens oportunidades de forçar alguém a fazer algo mas, ao invés disso, decides apelar a teu sentido da razão e da justiça, está sendo anarquista. O mesmo passa quando compartilhas algo com um amigo, ou decides quem vai lavar os pratos, ou outra coisa com um sentido de equidade.

Claro, poderás objetar que tudo vai bem enquanto se trata de pequenos grupos de pessoas que se relacionam mutualmente, mas para administrar uma cidade ou um país, é um assunto totalmente diferente. E, evidentemente, isto tem sua razão de ser. Inclusive se se descentraliza a sociedade e se põe o maior poder possível nas mãos das pequenas comunidades haverá( apesar de tudo), um grande numero de coisas que necessitem ser coordenadas, desde administrar as vias ferroviárias até decidir sobre que aspectos devem se centrar a pesquisa científica em medicina. Mas só porque algo seja complicado não quer dizer que não haja maneira de fazê-lo. Simplesmente quer dizer que será complicado. De fato, os anarquistas tem muitas ideias sobre como uma sociedade saudável e democrática deveria auto-governar-se. Para explicá-las é necessário ir muito mais além deste pequeno texto introdutório. De todas as formas, não há nenhum anarquista que pretenda ter em suas mãos o modelo perfeito. A verdade é que não conseguimos imaginar a metade dos problemas que surgirão quando tentarmos criar uma sociedade democrática. Inclusive assim, acreditamos que a capacidade dos humanos está a altura de resolvê-los enquanto a humanidade se conserve dentro do espirito de nossos princípios básicos( que são, ao fim e ao cabo, somente os princípios de decência humana fundamental). 




Tradução em português de Paulo Marques da versão em  Espanhol publicado originalmente no site www.elrefractario.blogspot.com. Título original: Are you an anarchist? The answer may surprise you!

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