sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sébastien Faure e a Educação Libertária da Colmeia, por Paulo Marques




[...]o corpo, o espírito e o coração da criança para o educador devem ser como um espaço sagrado, jamais desencorajado, por mais rude que seja a tarefa, pois ele tem o dever de limpar, capinar, cavar , semear, arar, transplantar, aparar , podar apoiar, proteger, regar, colher, a fim de que, como responsável por esse jardim, desabrochem as flores perfumadas e amadureçam as frutas saborosas[...]” Sebastién Faure, 1910


Sébastien Faure foi pedagogo, escritor, poeta, jornalista e ativista libertário, um dos grandes pensadores do anarquismo europeu. Foi um continuador das idéias de Paul Robin no campo da educação libertária através da experiência educacional realizada em sua comuna de “La Ruche” (Colmeia). 

Faure nasceu no dia 06 de janeiro de 1858 na ciade de Saint- Etienne, província francesa de Loire. De família burguesa, conservadora , seu pai Auguste Faure, era católico fervoroso, um negociante de seda e partidário do império. Inicia sua educação em um colégio jesuíta, destacando-se por sua inteligência e capacidade de expressão, aos dezessete anos Sebástien foi indicado pela direção do colégio para seguir estudando para ser padre, entrando assim para o seminário na qualidade de noviço. Por um ano e cinco meses foi um noviço exemplar se aprofundando nos estudos de teologia e agarrando-se a fé cristã de forma cega e rigorosamente.

Até que num dia Sébastien recebeu um telegrama dizendo que seu pai estava gravemente doente. Apressou-se para visitá-lo encontrando-o em seu leito de morte. Seu pai disse-lhe que devia deixar a vida religiosa, voltando para sua família que agora precisava dele para auxiliar em seu sustento.

Após a morte de seu Pai, Sébastien Faure voltou para a casa de sua família, abandonando a vida religiosa. Em pouco tempo teve contato com os círculos progressistas do movimento “Livre Pensar” , identificando-se inicialmente com esta filosofia. Mais tarde voltou-se para a política tornando-se membro do partido socialista operário vindo mesmo a se candidatar para deputado nas eleições de 1885. Entretanto, em 1888, abraça o anarquismo como sua filosofia, e segundo Antony(2011) torna-se uma referencia moral enorme para a corrente anarquista: 

Sua posição de “síntese”, entre as diferentes correntes reivindicando o anarquismo é sempre um dos eixos principais dos movimentos “ortodoxos” do anarquismo. Sua sólida cultura adquirida parcialmente entre os jesuítas, permite-lhe escrever profundas críticas da religião, e, sobretudo, adquirir uma visão crítica da educação(Antony, 2011, p. 119). 

Em 1894, Faure torna-se tutor de Sidonie Vaillant após a execução de seu pai, Auguste Vaillant, pelo atentado a bomba que executara contra a câmara de deputados em 9 de dezembro de 1893. Seis meses depois Faure acaba sendo julgado junto com muitos outros anarquistas no julgamento que ficou conhecido como “Processo dos Trinta” ("Procès des trente").

Enquanto parte dos acusados preferiu abandonar o país, Faure junto com Jean Grave, Charles Chatel, Louis Armand Matha e Félix Fénéon foram aos tribunais responder às acusações as quais lhes eram imputadas. Este seria um julgamento histórico em que o anarquismo, mais do que os réus foram colocados em uma posição de culpa.

A imprensa foi proibida de reproduzir os interrogatórios de Jean Grave e Sébastien Faure, levandoochefort a escrever no jornal L' Intransigeant, que a associação criminosa não se referia aos acusados, mas aos magistrados e ministros que os acusavam. Os acusados presentes provaram facilmente sua inocência frente a acusação de "associação criminosa" já que a um bom tempo o movimento anarquista francês havia rejeitado a idéia solo de associação e ação exclusivamente individual.

Em 16 de novembro de 1895, Sébastien Faure passa a re-editar sozinho o famoso periódico semanário Le Libertaire. A partir de agosto de 1899 , é lançado um suplemento “ilustrado” neste mesmo diário.Durante toda sua duração Faure faz questão de lançar o periódico a um preço acessível as classes operárias, nunca ultrapassando o valor de dez centavos.

La Ruche”:   A Educação Libertaria da Colméia



Sebastién Faure e seus colaboradores de La Ruche( A Colméia) 


Assim como Paul Robin, Faure era igualmente adepto de provar pelo exemplo, e dessa forma em 1904, na cidade francesa de Pâtis, ele ocupa 25 hectares com cerca de 20 pessoas, em um local que denomina de “La Ruche” (A Colméia) onde busca aplicar as ideias de Paul Robin sobre Educação Integral e libertária, com algumas modificações mas conservando o essencial delas. 

Conforme Antony(2011) Faure queria criar um meio comunitário, uma microsociedade autenticamente livre, desde o começo da experiência. Dessa forma La Rouche lembrava a grande família desejada por Robin, mas com menos centralidade em torno do líder: 

Faure, tão carismático quanto Robin, tem, contudo, menos peso sobre sua comunidade do que seu modelo. Em todo caso, a vontade utópica de sociedade alternativa, fora de toda a instituição, está mais na linhagem de Ferrer do que naquela de Cempuis, porquanto o Orfanato gerido por Robin era integrado e reconhecido no sistema escolar francês"

Em relação à dinâmica da Escola “Cólmeia”, seu objetivo principal foi desenvolver integralmente a capacidade de cada estudante, a partir dos princípios e concepções da educação integral/Libertária de Bakunin e principalmente de Paul Robin, cuja experiência realizada no Orfanato de Cempuis foi o principal referênca para Faure .





A Colméia, segundo Antony(2011) foi uma especie de falanstério pedagógico, no meio da natureza, com seus locais coletivos, seus jardins e pomares, e suas oficinas( tipografia, encadernação, marcenaria) e casas especializadas, que vivem uma espécie de comunismo autogestionário e de autoprodução. As decisões são tomadas coletivamente, e a assembléia geral, igualitária, reúne-se uma vez por semana, com a presença das crianças maiores( em geral a partir dos 12 anos). 

La Ruche, sobrevive com permanente déficit. Graças aos aportes externos e a renda proporcionada pela atividade de Conferencista de Faure é possível manter a experiência em funcionamento. Como destaca bem Antony(2011) , devemos ter clareza que a dimensão utópica de La Ruche, é bem mais importante que aquela de uma simples experiência pedagógica. Ou como afirma Codello(2007) “ uma comunidade igualitária educativa” , uma “pequena república sem hierarquia nem autoridade constituída que pratica também, mas não só, a educação”.

Em seu apogeu, La Ruche conta com aproximadamente 60 pessoas, das quais duas dezenas de adultos. As crianças tem entre 6 e 16 anos. É rapidamente um sucesso e vai receber em dez anos quase 4 mil pedidos de adesão. Essa “família”, segundo Antony(2011) “vivia praticamente em autogestão em todos os planos”. A Educação é livre, mista e integral. O Ensino profissional é amplamente realizado, aproximando mais das ideias de Proudhon do que de Robin neste aspecto. 

Passetti e Augusto(2008) no seu livro Anarquismo e Educação, em referência a educação praticada em La Ruche afirmam : 


Era preciso coragem para inventar “La Ruche”, uma escola autogestionária, uma “cooperativa integral”, como Faure gostava de chamá-la. Nela, a autonomia da criança era valorizada e oposição à concepção capitalista de criança como adulto em miniatura; estava voltada para fortalecer a coragem dos pequenos(Passetti e Augusto, 2008, p.78)

Crianças educadas em uma perspectiva livre e autogestionária, essa era a proposta de Faure para efetivar uma sociedade povoada de cooperativas integrais, o que ele chamaria de uma ecologia social anarquista(PAssetti, Augusto, 2008). 

Em sua obra L enfants( As crianças) Faure destaca que é de novas ideias, conhecimentos e métodos, processos usados em educação da criança que dependerá , mais tarde a vida intelectual do adulto. Para isso a educação praticada na Cólmeia propunha uma educação integral, onde a cultura física envolvia alimentação sadia e higiênica, acompanhada de exercícios físicos ao ar livre. Em relação à cultura, voltava-se para liberar a criança da escola como prisão, da severidade, do sistema de punição e recompensas, e dissolver a competitividade própria ao agrupamento de crianças em classe; buscava trazer o gosto pelos estudos que deveriam começar com um programa bastante leve, de conhecimentos básicos fundamentais como escrita, leitura, cálculo, primeiras noções de desenho, noções elementares de ciência. Faure pretendia com isso fortalecer a inteligência entendida como capacidade de compreender, memória, imaginação e julgamento. 



Sala de aula na Colméia

Conforme destacaram Passetti e Augusto(2008) , decorria assim, de maneira lógica a aproximação da cultura física e intelectual da cultura moral do estudante formado em meio a muitas conversas voltadas para se aprender a lidar com dificuldades; uma educação própria aos que se associam libertariamente, avessos aos constrangimentos relativo ao sistema de recompensa e punição. 

Para Faure, comentam Passetti e Augusto(2008), a criança é o efeito do meio em que ela vive; então, para mudar o mundo é preciso transformar o lugar onde se vive. Não basta uma escola, é preciso uma associação que acolha a escola. Não basta um lugar para instalar a escola, é preciso inventar espaços de educação, e a imaginação, que é própria das crianças, deve ser potencializada. 



Em 1914 Faure lança do Boletim de La Ruche, que chega a dez edições com informações sobre o processo ali vivido, demostrando especialmente as características da escola aberta, acolhedora, seja para os pedagogos e visitantes em geral que procuram conhecer de perto a experiência. 

Antony(2011) destaca ainda que outro aspecto de abertura da escola para o mundo se dá na formação linguistica, sobretudo no ensino do inglês e esperanto. Esta língua internacional sempre representou para os libertários uma forma de internacionalismo ativo, e por isso são muito os praticantes. 

La Ruche, mesmo sendo uma experiência diferenciada não está isolada do mundo concreto e sofre as consequências de processos conjunturais como a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. O engajamento pacifista de Faure, a crise financeira de La Ruche, as perseguições policiais e a dispersão forçada de companheiros são fatores que contribuem para o desaparecimento de La Ruche em 1917 . 

Em 1921, Faure publica “Mon communnisme. Le bonheur universel, apresentando seu projeto utópico no qual aponta a primazia do ato pedagógico antiautoritário. A educação, defende Faure, "deve de início preceder a revolução a fim de proporcionar-lhe princípios libertários e ajudá-la a lutar contra toda degeneração autoritária"( op.cit.Antony, 2011, p.122) 

Antony(2011) lembra ainda que Faure escreve em 1925 na importante Revista Internacional Anarquista, o artigo “Antes da Revolução: gestação”, afirmando que a Educação deve preceder mas igualmente dominar” as outras obras do anarquismo. Isso significa que a revolução deveria imediatamente desenvolver a educação libertária para acompanhá-la e reforçar suas caracterísiticas anarquistas, mas no reconhecimento do livre debate e das outras posições anunciadas. 

Em 1914 com o início da Primeira Guerra Mundial Faure passa a difundir panfletos pacifistas e antimilitaristas, defendendo o não-alistamento a deserção entre os soldados. Passa a ser duramente perseguido pelo aparato repressor estatal até mesmo sofrendo ameaças a sua família. Em 1916 lança um novo periódico O que falta ser dito (Ce qu'il faut dire), denunciando o esforço do estado francês para difundir o nacionalismo para garantir quadros para a guerra. Em 1918 é preso por organizar uma reunião sem o aval das autoridades.








A Enciclopédia Anarquista







Em 1934 Faure foi um dos co-autores da Enciclopédia Anarquista, composta por mais de três mil páginas, junto com diversos militantes libertários de sua época. É considerada uma "obra de educação libertária(Antony,2011). Foram publicados apenas três dos quatro volumes previstos. Essa obra é segundo Codello(2007) uma obra única em seu gênero porque reúne em si o melhor da produção libertária da época.

Segundo o próprio Codello(2007) o conceito de Educação, entendido em sentido amplo e articulado, ocupa na Enciclopédia um lugar notável e significativo. Não apenas porque toda a obra constitui, de fato, uma grandiosa experiência de instrução e formação, de divulgação e de aprofundamento, mas também porque a possibilidade de uma mudança radical da sociedade no sentido libertário e igualitário passa exatamente por uma emancipação cultural, uma auto-educação significativa de todo ser humano. Dessa forma afirma Codello, "de modo coerente com essa premissa, todo o grupo de intelectuais que está por trás dessa experiência única de trabalho divulgador e sistemático, confere e atribui ao termo "educação", um significado fundamental".

Além da Enciclopédia, Faure escreveu outras obras sobre diferentes temas de caráter filosófico e político, tais como "A dor Universal" de 1895, "Doze provas da inexistência de Deus" de 1908 e "Meu comunismo" de 1921.
Sebastién Faure como homem de ação parte em 1936 para a Espanha para lutar junto aos republicanos libertários na guerra contra o fascismo, tomando parte da Coluna Durruti. Faure morre em 1942 na França aos 84 anos.















Coluna Durruti, formada por militantes anarquistas de diversos países que foram para a Espanha defender a República contra o fascismo e lutar pela Revolução Social. Faure se integrará a essa coluna que homenageia o revolucionário anarquista espanhol Buenaventura Durruti. 

O resgate do legado de Sebastién Faure no Brasil 


No Brasil temos ainda poucas obras traduzidas seja sobre a vida como a obra teórica de Sébastien Faure. Uma lacuna que é também relativa a outros educadores libertários. Essa marginalização do pensamentto educacional anarquista na academia não é gratuíto, o predomínio da corrente marxista no campo da educação no Brasil tem contribuído para manter a vasta obra dos libertários esquecida.

Todavia, os próprios anarquista vem fazendo um enorme esforço para romper com essa lógica. Um exemplo disso é o da Editora Imaginário, que completou 30 anos em 2014 e se destaca pelo resgate dos pensadores libertários e suas obras com edições inéditas em português.

Também desde 2006 a Editora Biblioteca Terra Livre vem no mesmo caminho ou seja,  resgatando e divulgando o pensamento libertário no Brasil.

No ano de 2015 em um esforço  da Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo foi encontrada a primeira edição brasileira da principal obra de Faure, "A Colmeia: Uma experiência pedagógica" , com tradução realizada por Alberto Canellas no ano de 1919. Com esse material raro realizou-se uma revisão coletiva com nossa contribuição. Junto com o companheiro e professor da USP Rodrigo Rosa elaboramos a apresentação e foi lançado em dezembro de 20015 esta bela obra, que esttá disponível para todXs interessados na história da Colmeia de Sèbasttién Faure. 




Escrita quase trinta anos após o fim da experiência da Colmeia, Faure expressa nessa obra, de maneira emocionante, sua esperança de que as novas gerações poderão construir outras experiências do tipo "A Colemia", como forma de concretizar a utopia de uma sociedade libertária:

"Em fevereiro de 1917, La Ruche morreu, vítima, como tantas obras amorosamente edificadas, da Guerra para sempre execrada. Se eu estivesse na idade em que é razoavelmente permitido encarar o futuro com confiança, eu não hesitaria em lançar as bases de uma nova Ruche.
Eu tinha 46 anos quando fundei essa obra de solidariedade e educação. Quase trinta anos separam-me dessa época, e não é na minha idade que se pode aventurar-se em tal empresa. Mas nutro a esperança de que outros, mais jovens, um dia desses, revolvendo as cinzas dessas lembranças sobre as quais meu velho coração descansa, ali encontrarão ainda algum calor, farão delas surgir algumas brasas, reavivarão a chama e tentarão construir e bem conduzir uma nova Ruche.
A experiência que eles tentarão ser-lhes-á facilitada pelas indicações que encontrarão aqui; torço para que sejam ajudados por circunstâncias mais favoráveis, e que La Ruche de amanhã será o cadinho precioso onde se elaborarão, em pequena dimensão, as formas da sociedade de bem-estar, liberdade e harmonia ao advento da qual os militantes libertários consagram o melhor de si mesmos".

Referências :
Referências Bibliográficas:

ANTONY, Michel. Os Microcosmos. Experiências Utópicas Libertárias, sobretudo Pedagógicas: Utupedagogias. São Paulo, Editora Imaginário, 2011.

CODELLO, Francesco. A Boa Educação”.Experiências libertárias e teorias anarquistas na Europa,
de Godwin a Neill. Volume 1, São Paulo, Editoa Imaginário, 2007.

PASSETTI, Edson, AUGUSTO, Acácio. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte, Autêntica. 2008.

Página sobre Sébastien Faure na Wikupediahttp://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9bastien_Faure

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