sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bem vindXs ao Blog do Grupo de Estudos Educação Libertária




"Não compete a nós determinar como esta tarefa pode ser empreendida. Tudo está por fazer, a obra é vasta e há lugar para todas as colaborações. Os meios podem ser diversos, bastando que um laço comum aproxime, de alguma forma, as idéias e as energias, impedindo sua dissipação entre a massa passiva a qual a inércia absorve, quase sempre e sem proveito, os esforços individuais.

Paul Robin


AmigXs LibertáriXs:

Estamos inaugurando hoje o Blog do Grupo de Estudos Educação Libertária. O Grupo de Estudos foi criado no  ano de 2013 na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas-UFPel por um grupo de estudantes de diferentes cursos de licenciatura,  interessados em aprofundar os estudos sobre a  contribuição teórica e prática do pensamento libertário para a educação.

Mas por quê estudar o pensamento libertário hoje?

Em primeiro lugar porque compreendemos que a Educação no Brasil passa por uma profunda crise, expressa inequivocamente nos dados oficiais sejam do governo ou de organismos internacionais que demonstram a profunda deficiência/fracasso do sistema de ensino no que tange a  aprendizagem, analfabetização, o conhecimento, a cultura o saber nos diferentes graus, o que nos permite dizer que a educação da forma que é vive um processo de falência absoluta.

Em segundo lugar podemos observar a profunda fragilidade no campo do debate teórico sobre a educação contemporânea, pois restringe-se a tradição liberal de um lado e a marxista de outro, ambas incapazes de responder aos desafios da educação a partir das raízes dos problemas existentes.

Em terceiro lugar partimos da compreensão de que no campo das teorias da  educação a Pedagogia libertária, cujas origens remontam ao  séculos XIX e que teve forte influência na história da Educação  brasileira  na década de 20 do século passado é,  ainda, ignorada, marginalizada e  desconhecida por muitos educadores e estudantes. Contribuiu para isso tanto a hegemonia do Marxismo no campo das teorias pedagógicas progressistas, como o preconceito com o pensamento de raiz anarquista/libertária.

Todavia, cabe destacar conforme Silvio Gallo(2007) que  não é possível falarmos de um "paradigma anarquista" da educação pois  "dada a diversidade de perspectivas  assumidas pelos diversos teóricos do movimento anarquista histórico seria impossível agrupá-las todas em uma única doutrina". Dessa forma a Educação Libertária, mesmo que tenha, inegavelmente, nos pensadores anarquistas seu principal referencial ,  não se esgota aí, incluindo diversos educadores  que mesmo não se identificando com as doutrinas  anarquistas  compartem os princípios libertários  de  afirmação da liberdade e a negação radical da dominação e da exploração nas relações humanas.

Da mesma maneira, Codello( 2007) destaca que "não é somente o pensamento anarquista que é fruto de contínuas aproximações  da exigência humana de liberdade, mas também o movimento educativo que, explicitamente e de forma consciente, afirma-se  a partir do fim do século XIX na França, crava suas raízes em todas aquelas tentativas de formas experimentais educativas significativamente libertárias"( Codello, 2007, p. 16)

O desafio, portanto, que os pensadores da educação libertária se colocaram foi o enfrentamento desta sociedade de dominação e exploração que tem na Educação um mecanismo de reprodução. Segundo Gallo(2007) a história nos mostra  que os chamados sistemas  públicos de ensino são bastante recentes, consolidam-se junto com as revoluções burguesas e parecem querer contribuir para transformar o "súdito" em "cidadão", operando a transição política para a sociedades contemporâneas. Outro fator importante é a criação, através de uma educação "única", do sentimento de nacionalidade e identidade nacional, fundamental para a constituição do Estado- nação".

 Nesse contexto,  os educadores libertários, coerentes com sua crítica aos poderes do Estado, não aceitam  essa educação gerida pelas instituições estatais. Assim divergem de outras tendências progressistas da educação, que procuram ver no sistema público de ensino "brechas" que permitam uma ação transformadora, subversiva mesmo, que vá aos poucos minando por dentro esse sistema estatal e seus interesses. O que nos mostra a aplicação dos princípios anarquistas, destaca Gallo, "é que existem limites muito estreitos para uma suposta " gestão democrática" da escola pública. Ou para usar  palavras mais fortes mas também mais precisas, o Estado "permite" uma certa democratização e mesmo uma ação progressista até o ponto em que essas ações não coloquem em xeque a manutenção de suas instituições e de seu poder; se este risco chega a ser pressentido o Estado não deixa de utilizar de todas as suas armas para neutralizar as ações "subversivas" (Gallo, 2007, p. 26-27).

Dessa forma,  acreditamos que o resgate da contribuição teórica dos pensadores da Educação Libertária é um importante contribuição para a necessária renovação do pensamento pedagógico brasileiro ou como bem salientou Silvio Gallo "se tal filosofia da educação pode servir de suporte teórico para a construção deste projeto de educação que tenha por meta a autogestão e a verdadeira democracia que a tecnologia da informática pode finalmente tornar possível através de uma rede planetária que imploda as fronteiras dos Estado-nação, ela pode ainda servir-nos como ferramenta de análise e crítica da sociedade capitalista e da educação por ela pensada, assim como o sistema de ensino por ela constituído".

No caso específico do Brasil contemporâneo, aponta Gallo, a Educação Libertária pode "constituir-se num interessante referencial para a discussão e análise dos graves problemas educacionais que enfrentamos, de uma perspectiva bastante singular, como no caso da qualidade do ensino e da publicização/democratização da escola, trazendo contribuições criativas diferentes das usuais" (Gallo, 2007, p. 29)

É com  esse objetivo, que o  Grupo de Estudos Educação Libertária da UFPel foi constituído e convida a todXs interessados para construirmos de forma coletiva, esse espaço de estudos, pesquisas, análises  troca de experiências e saberes  sobre a teoria da educação libertária a partir de uma dinâmica livre e autogestionária, como um exercício de ensino/aprendizagem pautado pela prática cuja liberdade e autonomia de cada participante esteja no centro do processo.

Esperamos você nessa construção


Referências:

ANTONY, Michel. Os Microcosmos. Experiências Libertárias sobretudo pedagógicas: "Utupedagogias". São Paulo, Editora Imaginário, 2011.

CODELLO, Francesco. " A Boa Educação". Experiências Libertárias e teorias anarquistas na Europa, de Godwin a Neill, São Paulo, Editora Imaginário/Icone, 2007,

GALLO, Silvio. Pedagogia Libertária. Anarquistas, Anarquismos e Educação. São Paulo, Editora Imaginário, 2007.

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